A gordofobia na atividade física — Gama Revista
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Semana

Gordofobia e esporte

Preconceito estrutural inibe pessoas gordas e transforma falta de exercícios em círculo vicioso. Praticantes de exercícios ouvidos por Gama contam como lidaram com isso e seguiram se movimentando

Leonardo Neiva 24 de Janeiro de 2021

Gordofobia e esporte

Leonardo Neiva 24 de Janeiro de 2021
Isabela Durão

Preconceito estrutural inibe pessoas gordas e transforma falta de exercícios em círculo vicioso. Praticantes de exercícios ouvidos por Gama contam como lidaram com isso e seguiram se movimentando

“Sim, o pole me aguenta” é a primeira frase que estampa o perfil da influenciadora e gerente de contratos Andréa Costa, 34, no Instagram. Praticante de pole dance há mais de cinco anos, a carioca decidiu esclarecer logo de cara um questionamento inconveniente que recebia com frequência na rede social.

“Hoje em dia é raro, mas costumava receber comentários do tipo ‘essa barra vai quebrar’ ou ‘o pole te aguenta?’.” Para Andréa, a dança foi a última de uma série de tentativas de retomar a prática de exercícios físicos após um longo período de sedentarismo. Musculação, ginástica, boxe… em nenhuma dessas atividades sentia pertencer àquele ambiente ou estar confortável com o próprio corpo.

Ela conta que a aula de boxe acabou sendo a gota d’água. “Foi uma experiência horrível. No aquecimento, o instrutor me pedia para pular corda e fazer flexão. Eu não conseguia fazer nenhuma das duas coisas e sentia que estava sendo julgada, as pessoas me olhando como se eu não pertencesse àquele lugar. Com 29 anos na cara, saí com meia hora de aula e fui me trancar num banheiro para chorar.”

Nos tratam como se a gente tivesse uma alimentação ruim, não fizesse exercício e merecesse todo esse preconceito

Quando criança, Andréa praticava com frequência balé e sapateado e já se achava gorda, embora hoje tenha consciência de que não era. “Tinha a visão de que aquele ambiente não era feito para mim.” Com o fim da adolescência, a entrada na faculdade e os deveres da idade adulta, acabou deixando as atividades físicas de lado.

Anos mais tarde, ao decidir voltar à prática de exercícios, o objetivo era um só: emagrecer. Hoje, considera que essa pressão estética foi a principal causa de suas frustrações. Depois de entender isso, encontrou no pole dance um porto seguro para continuar se exercitando sem sentir ao seu redor os olhares de julgamento. “Logo da primeira vez tive uma sensação super legal. Era um ambiente mais tranquilo, só com mulheres, e tinha até uma outra menina gorda na turma. Então me joguei de cabeça, nem aula experimental eu fiz.”

Para Andréa, persiste na sociedade a visão de que pessoas gordas são doentes e estão nessa condição por desleixo ou preguiça.

“Nos tratam como se a gente tivesse uma alimentação ruim, não fizesse exercício e merecesse todo esse preconceito. Não tem como se sentir bem em uma academia se sentido julgado o tempo inteiro, com equipamentos que não comportam seu peso e sem direito a um atendimento minimamente humano.”

Foto: Divulgação / Ilustração: Isabela Durão

Gordofobia e o círculo vicioso

Formada em educação física, Natália Mota, 36, nunca parou de se movimentar. Desde os sete anos de idade, quando conta que começou a engordar, enfrenta preconceito relacionado ao seu peso e à prática de atividades físicas, mas diz que aprendeu a passar por cima dessas questões com o tempo porque se exercitar a fazia se sentir bem.

A gordofobia é hoje um dos principais fatores que levam pessoas gordas a ter medo de praticar esportes e outras atividades, afirma Natália, que hoje é professora. Assim, cria-se um círculo vicioso, em que a pessoa gorda é vista como preguiçosa por não fazer exercícios e, por isso, é cada vez mais afastada de ambientes onde há prática de atividades físicas.

A gordofobia é hoje um dos principais fatores que levam pessoas gordas a ter medo de praticar esportes e outras atividades

“E muitas vezes isso vem de longe… a pessoa não pratica porque não foi incentivada na infância. Na escolinha, era a última a ser escolhida para o time de futebol ou então era colocada pelo professor para apitar o jogo ou ficar de goleira.”

Natália busca seguir uma alimentação saudável, se exercita de sete a oito vezes por semana e está com a saúde em dia. Apesar de pessoas gordas serem o foco nas aulas que ela dá online ou presencialmente, há também alguns alunos magros que procuram seus treinos.

Em 2018, ela criou o Instagram @saudegg, onde incentiva pessoas gordas a praticar atividades físicas, além de dar dicas de saúde, alimentação e bem-estar. Em seu canal no Youtube, ela também posta vídeos com sugestões práticas de treinos para fazer em casa.

“Faz toda a diferença quando uma pessoa gorda pode ver outra praticando exercícios. Isso mostra que ela também é capaz”, diz Natália, que no Instagram tem feito colaborações com uma nutricionista e uma psicóloga, com o intuito de ajudar a tratar os diferentes aspectos da saúde de seus seguidores.

Foto: Divulgação / Ilustração: Isabela Durão

Começando a se exercitar

Atualizadas em novembro, as novas diretrizes de atividade física e comportamento sedentário da OMS (Organização Mundial da Saúde) estabelecem que adultos devem fazer ao menos de 150 a 300 minutos de atividade aeróbica por semana — para crianças, a média deve ser de 60 minutos por dia. Segundo a instituição, a atividade física regular ajuda a prevenir doenças cardíacas, diabetes, câncer e até reduzir sintomas de depressão e ansiedade.

Para uma pessoa gorda que decidiu começar a praticar exercícios após um período sedentário, no entanto, o ideal é começar devagar, afirma o médico Fernando Torres, diretor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte.

“Exercício físico pra quem é gordo tem que ser feito com graduação. Não pode ter pressa ou urgência, precisa começar devagar para o organismo ir se readaptando à atividade física”, explica o profissional.

Para iniciar da forma certa, ir ao médico pode ser uma boa opção, mas Fernando faz uma ressalva. “Quando alguém vai começar a se exercitar, as pessoas dizem para procurar um médico. Isso acaba passando uma mensagem ruim. Por que quando a pessoa era sedentária não foi ao médico? Fica parecendo que o sedentarismo é seguro e a atividade física, não. O ideal é recomendar a ida ao médico, mas para verificar os estragos que o sedentarismo causou, porque o exercício é o remédio, não o veneno.”

Faz toda a diferença quando uma pessoa gorda pode ver outra praticando exercícios. Isso mostra que ela também é capaz

No início, recomenda-se a caminhada, o exercício mais democrático por não requerer nenhum instrumento extra. A natação e a bicicleta também são boas pedidas, de acordo com o médico, porque não exigem que o atleta sustente todo o peso sobre os membros anteriores, uma dificuldade a mais para quem é gordo.

Se não for possível passar em um médico, ainda assim é melhor fazer por si mesmo do que continuar no sedentarismo, diz Fernando. Ao caminhar, por exemplo, a pessoa pode ir controlando suas sensações de forma subjetiva, evitando o esforço exagerado até encontrar o nível ideal. Em caso de dor ou dificuldade de respirar, o melhor é parar momentaneamente. Com o tempo, conforme a atividade for se mostrando mais fácil, deve-se ir aumentando o ritmo aos poucos.

A prática de exercício tambem deve ser acompanhada de uma alimentação regrada. O grande problema é que no início o gasto calórico é ínfimo, o que pode desanimar aqueles muito focados em emagrecer rapidamente. O imediatismo de quem quer emagrecer a qualquer custo, lembra o profissional, é o que leva pessoas a tentarem dietas malucas que, em vez de ajudar, acabam causando mais danos ao corpo.

“Fazer moderadamente torna mais fácil que se transforme em hábito de vida porque a pessoa não sofre demais nem com os exercícios nem com a alimentação. Assim como alguns levam anos para chegar à obesidade, devem levar um tempo parecido para sair dela.”

Em 2018, uma pesquisa feita pela Revista Europeia do Coração apontou que obesos com hábitos saudáveis têm 38% menos chances de morrer por problemas de saúde. Embora lembre que a obesidade é um fator que potencializa a possibilidade de desenvolver problemas de saúde como hipertensão e diabetes, Fernando afirma que uma dieta controlada, com redução do consumo de sódio, e uma rotina de exercícios físicos sempre traz grandes benefícios. “Os resultados positivos vêm até bem antes do emagrecimento.”

Como a gente se enxerga

“Todo mundo é gordofóbico até conhecer o ativismo gordo”, diz o publicitário e fotógrafo Dave Avigdal, 27. Desde a adolescência, ele se culpava por ser gordo e fazia de tudo para emagrecer. Além de ter passado por “todas as dietas existentes”, foi e parou de ir diversas vezes à academia.

Só começou a aceitar o próprio corpo há cerca de dois anos, ao ver uma mulher gorda ranqueada entre as mais bem vestidas em uma reportagem sobre o evento Lollapalooza. “Aquilo teve um impacto muito forte para mim. Comecei a segui-la no Instagram e encontrei ali várias outras pessoas que estavam no movimento. Aos poucos, toda a culpa que carreguei comigo por 25 anos se transformou em força.”

Hoje, ele mesmo usa a rede social para falar sobre o tema. De acordo com o publicitário, a maior dificuldade para se livrar da gordofobia é o fato de ela ser estrutural. “Às vezes não consigo sentar na cadeira do ônibus porque ela não é adaptada para mim e tenho dificuldade até de fazer um exame porque o equipamento não comporta meu tamanho. Quando vou ao médico, antes mesmo de saber meus sintomas, ele me diz para emagrecer ou fazer uma bariátrica.”

Com a pandemia, Dave brecou a rotina de exercícios que vinha fazendo com acompanhamento profissional. Ao perceber que estava ficando sedentário, decidiu comprar uma esteira de corrida. No entanto, descobriu que as mais baratas não sustentavam seu peso e as mais adequadas para ele saíam por mais de R$ 4 mil. Resultado: acabou desistindo.

Andréa Costa, por outro lado, segue praticando o pole dance, já se tornou instrutora para alunos básicos da modalidade e oferece um curso específico sobre métodos para ensinar pole dance para mulheres gordas. Para ela, o fato de ser constantemente julgada como típica de strippers ou prostitutas foi o que ajudou a tornar o ambiente da dança menos preconceituoso que os demais.

Ela conta que vem usando o Instagram como vitrine para a sua prática e também como forma de inspirar outras mulheres a descobrir que seus corpos podem fazer o que quiserem.

“Acho importante não focar muito na estética. Quando estamos falando de atividade física, o mais importante é ver o corpo como capaz de qualquer coisa, isso é que traz uma melhor autoestima. Eu tinha um braço gordo e achava feio, mas graças a ele conseguia ficar pendurada numa barra de ferro. Assim comecei a perceber meu corpo de outra forma.”