Qual o papel do corpo no mundo? — Gama Revista
Seu corpo, suas regras?
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Semana

Todo corpo é político?

Todo corpo é político? De Ney Matogrosso aos ativistas negros que ocupam espaços que os excluem, Gama lista exemplos que provam que, sim, seu corpo é político

Daniel Vila Nova 07 de Fevereiro de 2021
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Todo corpo é político?

Todo corpo é político? De Ney Matogrosso aos ativistas negros que ocupam espaços que os excluem, Gama lista exemplos que provam que, sim, seu corpo é político

Daniel Vila Nova 07 de Fevereiro de 2021

2020 foi um ano em que a relação com o corpo, seja o próprio ou do outro, foi colocado em xeque. O isolamento social e a quarentena impuseram limites físicos à rotina de bilhões de pessoas, fazendo com que toda a realidade do planeta se alterasse do dia para a noite.

O ano passado, entretanto, também foi marcado por protestos de rua que exigiam o fim da violência contra grupos minoritários. As marchas do Black Lives Matter tomaram as cidades dos EUA e a Argentina foi a rua lutar pelo direito ao aborto.

Com a pandemia afetando desproporcionalmente grupos raciais como negros, asiáticos e latinos, a movimentação pela segurança de corpos marginalizados é cada vez mais comum. Nas últimas décadas, movimentos sociais têm pautado a desigualdade com que seus corpos são tratados pelo Estado e pela sociedade. A natureza política do corpo nunca foi tão evidente.

Mas afinal, o que é um corpo político? E qual o seu papel no mundo em que vivemos? Gama conversou com a antropóloga Heloisa Buarque de Almeida e com a filósofa Fernanda Borges para entender o que faz um corpo político.

O corpo que habito

A história de crianças selvagens, criadas na natureza sem qualquer tipo de educação, assustam e fascinam na mesma proporção. Isoladas do mundo, essas crianças crescem sem contato com a humanidade e, ao serem descobertas, apresentam um desafio enorme para a ciência.

Para Heloisa Buarque de Almeida, professora de Antropologia da USP e integrante do Numas (Núcleo de Estudos Sobre Marcadores Sociais da Diferença), o exemplo dos meninos lobos é perfeito para demonstrar como a cultura molda um corpo.

“Ao serem descobertos por pesquisadores, observou-se que o desenvolvimento da bacia e da coluna dessas crianças não permitia que elas ficassem eretas e andassem de pé. Isso acontece porque ser bípede é um aprendizado cultural e elas não tiveram uma sociedade que as ensinasse isso.”

O corpo vai sendo moldado na vida em sociedade. Se ele é socialmente e culturalmente moldado, é também politicamente

A antropóloga aponta a importância do lado biológico de um corpo, mas ressalta a relevância que o fator social tem. “O corpo vai sendo moldado na vida em sociedade, o nosso modo de andar, de dormir, de falar. Se ele é socialmente e culturalmente moldado, é também politicamente”

Para Fernanda Borges, filósofa, psicoterapeuta corporal e autora do livro “A Filosofia do Jeito – Um modo brasileiro de pensar com o corpo” (Summus, 2006), o ser humano cria instituições culturais que regulam como corpos devem sobreviver, agir e se comportar em sociedade.

“Essas instituições regulam o nascimento, a morte, o casamento e os papéis que cada corpo tem naquela sociedade. Mas nem todos percebem essa regulamentação, muitos acreditam que ela é natural, que homem é assim e mulher é assado, que branco é assim e negro é assado”, afirma a filósofa.

Em seu canal no YouTube “Filosofia em Movimento“, Fernanda questiona: “O que é ser mulher de verdade? Para muita gente, é a naturalização de uma condição machista que a sociedade impôs.”

Os espaços que ocupo

Se em 1789 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão afirmava que “Os Homens nascem e são livres e iguais em direitos”, o passar dos séculos fez a origem dos direitos humanos ser questionada. “Tudo começou com uma premissa básica, mas que foi se alargando ao longo do tempo. É um processo de questionar quem seria o ‘humano universal’ da revolução francesa”, afirma Heloisa.

“A legislação brasileira já permitiu a violência contra mulheres com o pátrio poder, assim como era favorável a escravidão. Esses corpos não eram vistos como gente.”

Para Heloisa, a compreensão de que o corpo é também um agente político é fundamental para qualquer tipo de mudança. “Corpos são politicamente moldados, mas eles também podem moldar a política”, diz a antropóloga.

“Corpos são politicamente moldados, mas eles também podem moldar a política”

A percepção do poder que o corpo tem quando ele ocupa espaços é recente, vinda de movimentos políticos urbanos como Maio de 68. “É o argumento que a Judith Butler — filósofa americana e uma dos principais teóricas da teoria de gênero e queer — faz, uma força que vem da vulnerabilidade. É o fato de você estar vulnerável na rua, correndo o risco de sofrer diversos tipos de violência, que traz a potência necessária para ocupar esses espaços. É uma afirmação de existência.”

Fernanda acredita que essa ocupação é fundamental nas lutas sociais. “Diversos movimentos só foram levados a sério quando ocuparam espaços importantes na sociedade vigente da época. Quando um artista ou um protesto se colocam em evidência, eles questionam essas construções de corpos ditas ‘naturais’.”

Corpos marginais são treinados a entender que não são bem-vindos em determinados espaços, afirma a filósofa. “Nós somos formatados em algumas disposições que criam um limite de expressão, de atuação, de trânsito ou de poder nas relações sociais. É preciso desenvolver potências em tais corpos para que eles possam ir além dos limites impostos.”

Corpos políticos

Gama separou diferentes instâncias — nas artes, nos movimentos sociais, no dia a dia — em que corpos políticos mudaram o mundo.

Letícia Parente (1930-1991)

A artista e pesquisadora baiana é pioneira na videoarte no Brasil. “Marca Registrada” (1975), que ilustra a abertura desta matéria (acima), é um vídeo de dez minutos em que ela costura na sola de seu pé a frase “Made in Brazil”. O trabalho segue a prática comum em sua obra, de colocar o corpo como protagonista. Surge aí a questão política ao colocar o corpo como produto justamente em um período em que o país atravesssa a ditatura militar.

Nick Oxford / Reuters

Black Lives Matter

Classificado como o maior movimento político da história dos EUA pelo New York Times, o Black Lives Matter tomou as ruas dos EUA no ano de 2020. Após o brutal assassinato de George Floyd, negros e brancos ocuparam as cidades americanas e protestaram contra a violência policial que atinge a população preta de maneira desproporcional.

Os protestos encontraram ecos ao redor do mundo e foram apoiados por esportistas, atores, políticos e até mesmo companhias como Disney, Apple e Facebook. Se a carne mais barata do mercado é a carne negra, os protestos mostraram que esses dias estão contados.

North Carolina Collection / University of North Carolina

Sit In

Ocupar espaços é uma das formas mais contundentes de se protestar. Quando esses espaços são ocupados por corpos que não são bem-vindos naquele lugar, a reivindicação se torna ainda mais poderosa. Foi o que aconteceu na década de 60, no movimento dos direitos civis.

Buscando uma forma não-violenta de protesto, estudantes negros passaram a realizar o “Sit In”, onde se sentavam em espaços segregados buscando atrair a atenção para a injustiça racial que estava sendo cometida. No Brasil, esse tipo de protesto foi recentemente usado pelo grupo “Presença Negra”, que visita vernissages em grupo em galerias paulistanas. Os “rolêzinhos” chocavam o público e os organizadores dos eventos, que não estavam acostumados a receber tantas pessoas negras nos recintos.

Agustin Marcarian / Reuters

Marchas pró-aborto na América Latina

O estuprador é você!” gritavam milhares de mulheres em praças públicas ao redor da América Latina. Os protestos, que se iniciaram no Chile, tomaram conta do continente latino americano em um grito pelo fim da violência sexual que atinge mulheres ao redor do mundo.

Em paralelo, as argentinas saíam às ruas do país exigindo o aborto gratuito e legal. O movimento, que ficou conhecido pelo uso de lenços verdes, foi bem-sucedido e fez com que a Argentina se tornasse o primeiro país da região a aprovar o direito das mulheres decidirem sobre o aborto.

Billie / Unsplash

Axilas peludas

Cada vez mais, mulheres ao redor do mundo têm combatido o padrão estético de depilar as axilas. O movimento vem crescendo e até cores mais chamativas, como azul e rosa, vem ganhando popularidade. A prática busca devolver a mulheres a autonomia do próprio corpo.

@freethenipples / Reprodução

#FreeTheNipple

Se mamilos masculinos não são censurados e podem ser postados livremente em redes sociais, por que mamilos femininos não podem? O movimento, que ganhou força nas redes sociais, procura combater a sexualização de corpos femininos e provar de uma vez por todas que não deve haver diferença no tratamento de peitorais femininos e masculinos.

Reuters/ João Castelani

Viviany Beleboni

Na parada LGBTQI+ de 2015, a atriz Viviany Beleboni foi crucificada em um protesto contra violência contra pessoas trans. A performance artística buscava “representar a agressão e a dor que a comunidade LGBT tem passado”. Evangélica, Viviany atraiu a ira da Associação das Igrejas Evangélicas, que moveu uma ação contra ela.

Divulgação / Ed. Três Estrelas

Secos & Molhados

Ney Matrogrosso foi muitas coisas. Rockstar, símbolo de todo uma geração, ícone LGTB e um ferrenho desafiante das normas de gênero impostas pela sociedade. Em um país atormentado pela ditadura, Matogrosso não só desafiou as regras impostas pelo Estado e pela sociedade, como foi amado por isso. Sua imagem andrógina trouxe à tona discussões sobre o papel de gênero, quando essas palavras sequer haviam entrado no vocabulário popular.

Teatro Rival / Reprodução

Dzi Croquettes

Radicais, irreverentes e rebeldes, o grupo teatral Dzi Croquettes foi um marco na contracultura brasileira. Em plena ditadura militar, os treze bailarinos dançavam e chocavam o Brasil, trazendo à tona temas como a homossexualidade e a travestilidade. Vestidos com maquiagens pesadas e trajes femininos, o grupo chegou a ser expulso do país tamanha sua rebeldia.

Reprodução

Pintura corporal indígena

A identidade cultural de um povo indígena pode ser encontrada na pele de seu povo. Dos Maoris aos Pataxós, cada povo tem a sua própria tradição e identidade.

Em 1987, em meio a Assembleia Constituinte, o líder indígena, ambientalista e escritor Ailton Krenak subiu na tribuna e protestou contra as políticas anti-indígenas que estavam sendo aprovadas pelo Congresso Nacional.

Em um poderoso discurso, Krenak pintou o seu rosto de preto enquanto defendia a proteção de direitos indígenas na nova Constituição Federal. O ato foi decisivo para que artigos referentes ao povo indígena fossem aprovados na Constituição de 88.

Acervo Nara Roesler / Divulgação

Berna Reale

A violência contra corpos humanos é um assunto complexo e delicado, mas extremamente necessário nos dias de hoje. Para Berna Reale, o tema não só é o seu trabalho como também a sua arte. Perita criminal e artista visual, Berna trafega entre os dois mundos produzindo um resultado único sobre corpos marginais e a violência que eles sofrem.

© 2021 VALIE EXPORT / Artists Rights Society (ARS), New York / VBK, Austria.

VALIE EXPORT

VALIE EXPORT é uma artista austríaca conhecida por suas performances corporais, por seu cinema expandido e por suas instalações de vídeos. Sua performance mais famosa se chama “Action Pants: Genital Panic”, onde VALIE percorreu uma exposição artística vestindo calças sem virilhas, uma jaqueta de couro justa e o cabelo bagunçado. A artista buscava desafiar o público a se engajar com uma “mulher de verdade” ao invés de imagem em uma tela.

©Solomon R. Guggenheim Museum, New York / Willem Peppler, 1998

Rhythm 5

Marina Abramovi? é conhecida por suas performances envolvendo seu corpo. Em uma das suas obras mais famosas, Rhythm 5, a artista se deitou no interior de uma grande estrela de madeira e ateou fogo na estrutura. A performance, que buscava testar os limites físico e mentais de Marina, teve de ser interrompida após a artista perder a consciência.