Qual é a sua próxima viagem?

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Bloco de notas

Livros para levar na próxima viagem

De Elena Ferrante a Mário de Andrade, as indicações de leitura da equipe da Gama, que cabem na mala e são boas companheiras de aventuras

Livros para levar na próxima viagem

28 de Junho de 2026

De Elena Ferrante a Mário de Andrade, as indicações de leitura da equipe da Gama, que cabem na mala e são boas companheiras de aventuras

  • “O Sol Também se Levanta”

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    (Bertrand Brasil, 2014, trad. Berenice Xavier), de Ernest Hemingway
    “Escolhi esse célebre romance para me preparar para a minha primeira viagem à Espanha, estava animadíssima para passar dez dias em Madri em 2010. Mas, me enrolei tanto nos preparativos, que ele acabou indo comigo na mala de mão. É a história de um amor frustrado, de um homem tragicamente ferido na guerra e da impossibilidade de consumação do seu desejo por uma jovem e adorável viúva. À medida que ia avançando na leitura e que passeava pelas ruas de Madri, entendi que detalhes contados por Hemingway naquelas páginas escritas há um século ainda estavam por ali: as sandálias de corda dos espanhóis, o vinho tinto, a presença das touradas em toda parte, a dança, o drama. Por fim, ao ler as últimas páginas, quando o protagonista Jake Barnes e sua amada Lady Brett Ashley se reencontram em Madri para um almoço no restaurante El Botín, me senti impelida a fazer o mesmo. Fui à casa centenária e pedi, como os protagonistas, um ‘cochinillo’, o célebre leitão assado que é especialidade de lá, acompanhado de um rioja, tinto clássico espanhol que é sinônimo de prazer. Até hoje não sei se minha sensação foi a de viajar no tempo ou de me sentir, eu mesma, parte da ficção.” (Isabelle Moreira Lima, editora executiva)

  • “A Pediatra”

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    (Companhia das Letras, 2021), de Andréa Del Fuego
    “Recentemente precisei fazer uma viagem às pressas para acompanhar minha mãe no hospital durante uma cirurgia. Por sorte, eu havia acabado de começar a leitura do romance da premiada Andréa del Fuego. Foi divertidíssimo acompanhar a reviravolta emocional de Cecília, uma pediatra paulistana que escolheu a carreira por conveniência e não por vocação, que tem pouca simpatia pelos pequenos pacientes e seus respectivos responsáveis e nenhuma pela ideia de ser mãe. Guiado por seu olhar nada romantizado sobre a prática médica e a rotina hospitalar, passei a viagem até o hospital e os dias seguintes tão preocupado com a minha amada mãe (a cirurgia e a recuperação correram muito bem, ufa!) quanto curioso para descobrir quais daqueles médicos e enfermeiras – que circulavam pelos corredores dia e noite – exerciam seu trabalho com competência, mas sem apego emocional à profissão. Foi uma ótima distração em dias tão tensos.”
    (Amauri Terto, coordenador de mídias sociais)

  • “Como a Nossa Vida É Linda: Uma Celebração do Amor”

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    (Sextante, 2022), de Vovô Chan e Vovó Marina
    “Este livro me acompanhou na última viagem que fiz para visitar meus pais no interior de São Paulo, onde eu cresci. Não tenho o hábito de ler em viagens, mas era o último que eu tinha comprado e resolvi levá-lo. A escolha foi perfeita para uma viagem lotada de momentos de ócio, dentro de casa e perto de tantas lembranças que colocam a vida em perspectiva. Os relatos sinceros, a conexão de avós e netos, pais e filhos, e a presença ora doce, ora amarga, da saudade nos escritos e desenhos deste casal foram cruciais para que eu prestasse mais atenção na vida acontecendo, mesmo nos momentos mais calmos e desocupados. Não é um livro daqueles que te prendem com uma história envolvente e que você acaba lendo rápido para saber como termina. É uma coleção de olhares e lembranças que te faz desacelerar, notar as coisas com mais carinho e se aproximar da conclusão que o título propõe. Também é daqueles que, como um livro de poemas, pode ser lido em pequenas doses, tal como foi escrito.”
    (Pedro Malta, estagiário de arte)

  • “O Mar”

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    (Biblioteca Azul, 2014, trad. Sérgio Flaksman), de John Banville
    “Na interminável fila para o Vaticano, quase uma década atrás, foi o livro que me fez esquecer do que eu ia fazer, de onde estava e possivelmente até de quem eu era. Talvez o melhor elogio possível a esta obra, que levei quase por acaso na mala para uma viagem que também acabaria sendo marcante. Admito: tenho um fraco por histórias que giram em torno da memória e da nostalgia. Da minha primeira — e, de longe, a melhor — experiência com o autor irlandês, o que ficou foi esse lugar da infância que a gente reinventa conforme a vida vai avançando. Idealizado tanto em seus prazeres quanto no desenrolar trágico, o período teima em permanecer nas lembranças do protagonista, um crítico de arte no fim da vida que revisita a casa de veraneio onde havia passado férias muitos anos antes. Nem de longe uma leitura feliz, a obra-prima de Banville mostra como nossas lembranças são capazes de reconstruir e ressignificar toda uma vida, da infância à velhice, num movimento tão fugaz quanto uma onda no mar.” (Leonardo Neiva, repórter)

  • “Na Praia”

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    (Companhia das Letras, 2007, trad. Bernardo Carvalho), de Ian McEwan

    “Escolhi ler este livro no inverno glacial de Berlim, durante o mês de dezembro. Quando a luz do dia não dura mais de oito horas e é preciso escolher um único passeio por dia — mais do que isso pode resultar em pés congelados. Resta, então, mais tempo para ler. A Alemanha no inverno pode parecer um ambiente inadequado para um livro que se passa, entre outros cenários, “Na Praia”, mas essa pequena joia de Ian McEwan é tão gélida quanto quente. Ali, dois jovens recém-casados, tomados pelo desejo, não conseguem se entregar — muito menos se comunicar —  pressionados pela moral ainda presente na década que, pouco depois, iria revolucionar os costumes, os anos 1960. Os personagens Edward e Florence, cuja mente o autor inglês mapeia com destreza, se instalam num hotel na praia de Chesil, perto do canal da Mancha, para celebrar sua noite de núpcias. O resultado são desencontros e ruídos tão intensos quanto o mar batendo lá fora, como já anunciam as primeiras frases do livro: ‘Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível. Mas nunca é fácil’. Um pequeno livro excelente para levar a destinos de diferentes temperaturas.” (Luara Calvi Anic, editora-chefe)

  • “Kyoto”

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    (Estação Liberdade, 2023, trad. Meiko Shimon), de Yasunari Kawabata
    “Em uma viagem para o estado vizinho, a leitura foi uma indicação da mãe de uma amiga, dona de livraria, com quem eu viajava. Passei as manhãs na rede junto com Chieko, a protagonista, filha adotiva de um casal que mentem tê-la sequestrado quando bebê, como tentativa de encobrir seu abandono. Seu pai é dono de uma loja tradicional de quimonos, que caminha rumo à falência por contrastar com a cidade modernizada. Conheci os pretendentes da jovem e acompanhei seu encontro inesperado com Naeko, sua irmã gêmea, assim como a aproximação de duas pessoas tão diferentes. Pude complementar minha leitura com as pequenas notas de rodapé deixadas pela leitora original (o livro era emprestado, afinal) e mergulhar na história e na cultura da antiga capital japonesa, Quioto, também colocada em primeiro plano. Confesso que o ritmo lento e as descrições foram um incômodo inicial, mas logo aceitei esses silêncios como um convite a também parar e observar as cerejeiras floridas.” (Mariana Pontes, estagiária de texto)

  • “História da Menina Perdida”

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    (Biblioteca Azul, 2017, trad. Maurício Santana Dias), de Elena Ferrante

    O ano era 2017 e eu vivia a Febre Ferrante. Então, obviamente, o meu companheiro daquelas férias não poderia ser outro que não o volume da “Tetralogia Napolitana” que eu estava lendo naquele mês de novembro — o último da série, “História da Menina Perdida”. Tadinha de mim, não imaginava a tristeza e a solidão que me aguardavam naqueles dias de folga. A viagem era pela Colômbia, mais especificamente pelas praias colombianas. Pois bem, no voo entre Cartagena e San Andrés, cheguei no momento mais cortante da obra (cuidado, mini spoiler!), quando algo terrível acontece com a pequena Tina, filha de uma das protagonistas da saga, Lila. Fiquei embasbacada, suspirei alto e fechei o livro com lágrimas nos olhos. Quando olhei pela janelinha, já perto do pouso, ao mesmo tempo em que estava chocada-triste, fiquei chocada-feliz por estar presenciando a chegada de avião mais linda que já presenciei. Já na ilha, enquanto olhava para o famoso mar de sete cores, terminei aquela história que me acompanhou por tanto tempo, me despedi daquelas amigas e fiquei desolada pelo resto daqueles dias — mas, com uma vista linda à frente. (Ana Elisa Faria, repórter)

  • “O Turista Aprendiz”

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    (Tinta da China, 2024), de Mário de Andrade
    “Sempre que viajo, gosto de procurar um livro-companheiro de jornada que conheça um pouco mais do destino do que eu. Ao me preparar para um período de três semanas pela Amazônia, me deparei com esse diário de viagem de Mário de Andrade em um roteiro coincidentemente muito parecido com o meu, apenas 100 anos antes. Mesmo ansiosa, tentei ao máximo conciliar o tempo de minhas paradas com as de Mário, para que estivéssemos sempre que possível no ‘mesmo lugar’ ao ‘mesmo’ tempo. Lê-lo comentar sobre os botos ‘brincabrincando’ na água do rio Amazonas enquanto estava eu, também, observando os botos, naquela mesma água, navegando pelo mesmo rio, aumentava ainda mais a imensidão do que eu estava vendo (e sentindo). Juntos, nos encantamos com as vitórias-régias, adoramos e não aguentamos o calor, procuramos jacarés-açus, ‘codaquizamos’ as paisagens, tomamos sorvete de murici, ‘pensamenteamos’, visitamos mercados, gostamos-sem-gostar do açaí paraense. Sentimos, juntos, o vazio de voltar pra casa, apaixonados e encantados ‘por esse mundo de águas’.” (Isabela Durão, editora de arte)

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