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Ilustração de Isabela Durão

Reportagem

Coach de samba: veja como funciona

Nos bastidores do Carnaval, passistas e coaches ensinam de anônimos a rainhas de bateria a sustentar o samba no pé na avenida, com técnica, ritmo, graça e segurança

Ana Elisa Faria 15 de Fevereiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Coach de samba: veja como funciona

Nos bastidores do Carnaval, passistas e coaches ensinam de anônimos a rainhas de bateria a sustentar o samba no pé na avenida, com técnica, ritmo, graça e segurança

Ana Elisa Faria 15 de Fevereiro de 2026

Nem toda rainha de bateria que atravessa a Sapucaí ou o Anhembi dançando, cantando e sorrindo, com uma fantasia que pode pesar até 30 quilos, nasce com o samba no pé. Para sustentar o deslocamento de uma ponta à outra da avenida à frente dos ritmistas com carisma, animação, fôlego e uma coreografia intensa, muitas dessas figuras de destaque do Carnaval recorrem a profissionais que ensinam o que fazer com pés, braços e quadril ao longo do cortejo.

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São trabalhadores e trabalhadoras de um mercado que funciona o ano inteiro, no Brasil e em diversos países, mas que bomba por aqui nos bastidores das agremiações entre outubro e fevereiro. Essas pessoas fazem um trabalho de base fundamental, sem o qual não veríamos tantas musas brilhando — literalmente também — nos desfiles.

No repertório do que é ensinado há equilíbrio, resistência e coordenação motora, além de refinamentos que mudam o todo, como limpeza de movimentos, leitura do ritmo e segurança para não travar diante de qualquer imprevisto.

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Entre alunos iniciantes que querem pegar o jeito da coisa e influenciadoras, atrizes, modelos, cantoras e apresentadoras que precisam entregar o melhor desempenho sob os holofotes, as aulas variam tanto quanto as demandas. Às vezes, começam no passo miúdo, quase tímido, e duram anos; noutras, já nascem com o cronômetro quase zerado, com pouco tempo para um aprendizado profundo que mescla técnica, cultura e performance.

É o que contam a Gama a coach de samba Mayara Santos, diretora artística da ala de passistas da Vai-Vai, e os irmãos Marcus Prado e Victor Allonzo, dançarinos, coreógrafos, professores e passistas da Águia de Ouro, que ajudam famosos e anônimos a encontrar o samba no próprio corpo.

Primeiros passos

Uma das frentes de trabalho de Mayara Santos é o programa que criou há 11 anos e batizou de Samba Fitness, com aulas, palestras e workshops, presenciais e on-line, para pessoas comuns e diversas e também para desfilantes e passistas profissionais. Nesse campo de atuação, o foco para quem está começando é, além de aprender a sambar, usar o ritmo como um treino voltado à saúde e ao bem-estar.

“Atendo gente de todas as idades, de crianças a idosos, na mesma turma. A pessoa aprende sobre o samba, que é um exercício cardiovascular intenso, e também ganha autoestima e autoconhecimento. Serve como uma atividade de vida, um treinamento mesmo”, fala. Ou seja, se o cardio na academia está monótono, sambar pode ser uma opção.

A porta de entrada para essa dança afrobrasileira, segundo Santos, não é um passo mirabolante, e sim base e autoconfiança. O essencial, explica a coach, são os pés. “Eu sempre começo por eles em um BPM [a velocidade rítmica] mais lento para construir coordenação e resistência e transformar o movimento em ritmo, além de ir trabalhando a confiança.”

Na primeira aula, você já sai sambando, não perfeitamente, mas sai totalmente diferente de como chegou

Marcus Prado e Victor Allonzo partem do mesmo princípio: ensinamentos simples e objetivos, de fácil absorção e para todos os corpos. Em 2016, eles criaram um método próprio, o MP, e o resumem em uma promessa realista. “Na primeira aula, você já sai sambando, não perfeitamente, mas sai totalmente diferente de como chegou”, diz Allonzo. Prado lembra que, antes do brilho e dos adereços, vem o básico. “É muito diferente ensinar a pessoa a dançar do que ensiná-la a ter ritmo.”

Para vencer a vergonha e ganhar segurança, a dica de Allonzo é treinar sem um espelho por perto. “As nossas aulas acontecem no Centro Cultural São Paulo, em espaço público, com um olhando o outro e sem espelhos”. De acordo com ele, dessa forma a pessoa consegue colocar em prática o que aprendeu e pode dançar em qualquer lugar, tendo certeza dos movimentos. “A escola de samba não tem espelho, a roda de samba também não”, comenta.

Alguns passos à frente

Quando o aluno já tem certa experiência, um pouco mais de ziriguidum e vai para a avenida, o trabalho dos mestres do samba muda de escala e de enfoque. Mayara Santos tem alguns módulos especiais para quem sabe sambar, mas precisa de lapidação técnica e artística, como musas, rainhas de bateria e passistas.

O foco, nesses casos, deixa de ser “apenas” manter o samba nos pés e passa a incluir o deslocamento, a leitura da pista, o que fazer, principalmente o que não fazer e soluções para imprevistos que, vez ou outra, ocorrem na passarela — como cair porque a pista está molhada. “Às vezes chove, a sandália pode abrir, o costeiro pode quebrar”, exemplifica a profissional da Vai-Vai.

Assim, para que esses incidentes individuais não atrapalhem a evolução e a harmonia da escola, esses profissionais dão orientações sobre como agir em casos de eventualidades.

Além do cuidado com o sapato, que deve ter antiderrapante nas solas, Marcus Prado detalha um preparo relacionado ao peso da fantasia — há exemplos de vestes carnavalescas com 14, 18 e até 35 quilos. Para aguentar mais de uma hora dançando e carregando um mundo de ferros brilhosos pelo corpo, o treinamento é pesado.

Tudo isso para a pessoa já sentir como vai ser no dia e estar preparada para não acabar murchando na avenida

O plano de treinos inclui ensaios de samba com mochilas nas costas cheias de sacos de alimentos, como arroz e feijão, ou vestindo coletes com pesos até o corpo se acostumar. “Tudo isso para a pessoa já sentir como vai ser no dia e estar preparada para não acabar murchando na avenida”, recomenda o passista da Águia de Ouro. A lógica é treinar para o pior para que o real seja mais fácil e pareça mais leve.

Há também explicações sobre postura e autopreservação, sobretudo para quem desfila sob muitos flashes, caso de musas e rainhas famosas. “Explicamos como proteger as partes íntimas de fotos em ângulos não muito legais que mostrem algo que elas não queiram. Há todo um cuidado para evitar parar com as pernas abertas, por exemplo”, diz Prado.

Nos bastidores, isso se traduz em aulas e acompanhamento para nomes conhecidos do público. Mayara Santos trabalhou por anos com a apresentadora Luciana Gimenez que, conforme revela, foi uma aluna dedicada. A dançarina prefere se definir como coach, e não como professora, por uma razão que vai além do mercado. “O samba é uma dança livre, uma dança ancestral.” E, sendo assim, o que se pode oferecer, na visão de Santos, é apenas uma direção e lapidação. “Costumo dizer que pego a pessoa e melhoro o que já está dentro dela.”

O samba é uma dança livre, uma dança ancestral

Prado e Allonzo treinam as rainhas de bateria Mileide Mihaile, da Unidos da Tijuca, e Sabrina Sato, que desfila pela Vila Isabel, no Rio de Janeiro, e pela Gaviões da Fiel, em São Paulo. Para elas, quem já têm estrada e comprometimento carnavalesco, o trabalho dos professores vira mais um refinamento e leitura musical. “Exigimos mais das pessoas que já são há tempos do Carnaval. Queremos que elas tenham um desempenho melhor e, por isso, focamos no ouvido. É preciso ouvir bem a bateria, entender onde são os breaks, entender cada movimento e fazer cada um com mais clareza e limpeza. Pela posição que ocupam, a aula se torna mais performática também”, resume Prado.

“Elas têm que entender a bossa, entender de fato o enredo e aí a gente acaba criando algumas coreografias que podem ser executadas durante as famosas paradinhas que mostram a conexão das rainhas com a bateria.” Tudo, obviamente, sem perder a base do samba.

Samba de hoje, samba de ontem

Para os profissionais ouvidos pela Gama, a forma de sambar mudou há algumas décadas, impactando o ensino da dança. Prado observa que “hoje o samba está gourmetizado”, com mais técnica e uma ideia de padrão, de adequação. “Não é mais aquela coisa que nós tínhamos nos anos 1980 e 1990, em que cada um dançava do seu jeito”, analisa.

Mayara Santos aponta outra virada de cenário, ligada ao protagonismo de quem não vem das comunidades das agremiações. “A ideia desse samba com os braços, por exemplo, foi criada e elaborada agora, da década de 1990 para cá.” Para ela, o risco dessas invencionices é trocar o essencial por gracejos e ornamentos. “O samba no pé continua sendo o mesmo, mas muita gente acaba substituindo e criando essas coreografias super elaboradas para substituir o samba.”

Santos defende que o preparo ideal de uma rainha deve ser contínuo, mas descreve o choque entre essa lógica e a agenda das celebridades. “Algumas aparecem quando querem”, afirma. “No entanto, condicionamento físico e resistência não dá para adquirir do dia para a noite.” E chuta um diagnóstico ruim sobre o resultado dessa pressa de aparecer faltando o fundamental: ele, o samba no pé. “Calculando para você, 90% faz coisa errada.”

O problema, ela sinaliza, não é a fama em si, é ocupar a avenida sem entender regras e responsabilidades. Mesmo que rainhas e musas não sejam um quesito específico, seus erros podem afetar a nota final da escola. A especialista cita o que já viu acontecer: gente que chegou atrasada e obrigou a bateria a interromper manobra ou quem “parou no meio da pista, no recuo, para fazer selfie”.

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