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A Estrela da Tarde

Reconhecida em primeiro lugar como Patrimônio Vivo de Pernambuco, a mestra Maria Viúva criou dez filhos enquanto comandava – e ainda comanda – um maracatu: “Oxe, é a coisa mais fácil que tem”

Fabiana Moraes 15 de Fevereiro de 2026
Arquivo pessoal/Fabiana Moraes

A Estrela da Tarde

Reconhecida em primeiro lugar como Patrimônio Vivo de Pernambuco, a mestra Maria Viúva criou dez filhos enquanto comandava – e ainda comanda – um maracatu: “Oxe, é a coisa mais fácil que tem”

Fabiana Moraes 15 de Fevereiro de 2026

Durante muitas décadas, o maracatu rural não era, de jeito nenhum, lugar de mulher.

Nesse tempo, Maria Viúva, sempre um lenço na cabeça, estava lá.

Organiza filas, vontades e contendas de caboclos de lança, de arreiamás, de baianas, reis, rainhas, músicos, Mateus e Catitas desde a segunda metade dos anos 1970.

Faz tudo isso não exatamente porque ela, de vontade, escolheu – e isso eu conto depois.

Maria nunca se fantasiou para sair no maracatu. Não botou maquiagem, nem coroa ou flor na cabeça. Uma linha de dourado sequer.

Doze filhos, quatro se foram.

Ela entende de umas coisas que muito pouca gente sabe. Por exemplo: um maracatu não é só um maracatu. Ele não é feito apenas de golas pesadas de lantejoulas, surrões pesados de chocalhos, mulheres pesadas de vestidos. Um maracatu não é feito somente de milhões de vídeos e fotografias e teses de doutorado.

Um maracatu é o que, Maria Viúva?

“Do maracatu, vem muitos mistérios. Os filhos dizem para eu não falar, mas e quando querem saber dos princípios? Eu tenho que dizer, né? O maracatu começou com um bocado de menino, umas crianças quem fez. Os índios pequenos. Tinha os índios e os caboclos de pena [os arreiamá, de “arreia o mal”]. Quando eles se perdiam no meio das canas, da mata, tocavam. Aí um ouvia e sabia onde a turma tava, pelo assopro. O maracatu nasceu assim, em torno dos índios e dos caboclos” [ela não lembra o nome do instrumento tocado, mas diz que era comprido, eu fiquei cá comigo pensando nos pífanos].

Tem mistério, tem trabalho árduo, tem fantasia, tem jurema, tem fumaça, tem cotidiano. Maria não fala muito, mas sabe: é a guardiã do grupo Estrela da Tarde.

Maria Viúva com os netos, Gabriel Nazário e Enzo Douglas
Maria Viúva com os netos, Gabriel Nazário e Enzo Douglas
Arquivo pessoal/Fabiana Moraes

Até os 28 anos, era Maria José de Farias. De 1969 para cá, é Maria Viúva. Estava casada há 12 anos quando seu companheiro, Antônio Gerônimo, passou mal. “Ele entrou na ambulância e disse ‘eu sei que não volto’”. Ela só desconfiava, depois confirmou: estava grávida pela sexta vez quando ele morreu. Era uma menina.

Maria já residia no Engenho Tomé, em Glória do Goitá, Mata Norte de Pernambuco. São sessenta e oito dos seus 85 anos de vida morando ali, entre canaviais, cabras, golas lantejouladas, motocicletas e um enorme pé de cajá que sombreia o seu quintal e a sede do Estrela da Tarde. Em 1974, cinco anos depois da viuvez que se tornaria quase nome próprio, Maria casou novamente. Severino Antônio da Silva era seu novo companheiro. Perdeu três filhos: dois filhos morreram bem pequenos, outro aos 45 anos.

Mas ela ainda cuidaria de outro rebento: o maracatu Estrela da Tarde. Vou contar sobre esse nascimento resumindo o que Maria me falou:

A maioria das filhas e dos filhos já estava no mundo quando, em um domingo de Páscoa, 1977, os meninos se juntaram com outros colegas no terreiro: arrumaram umas latas e um gonguê, que, segundo a mestra, era de uma senhora que tocava para ver a pirralhada dançar depois que ela tomava uma cachacinha. As crianças ainda conseguiram uma buzina, um instrumento de lata central na história do Estrela da Tarde (já falo mais sobre ele também). Aquele, era um bem simples, de bambu.

“Saíram por aí, era umas 11h. Quando foi umas 2h, passa um vizinho e diz: ‘ô comadre, o maracatu tá é grande, tá é bonito’. Eu disse: ‘aonde?’ ‘Lá embaixo. A senhora não tá sabendo não? E não são os meninos daqui?’ Aí eu: ‘mas não me diga uma coisa dessas. Onde é que tá esse povo?’ Sei que eles saíram brincando pelo engenho, deu 5h da tarde e não tinham voltado. Aí eu fui atrás. Cheguei no riacho, tavam lá tomando banho. Botei tudo pra casa.”

Naquele período, outros maracatus circulavam, há décadas, por Glória do Goitá, como o Carneiro Manso (1950) e o Leão do Norte (1945), o mais antigo da cidade. Era comum ver caboclos de lança pelos engenhos de cana de açúcar – muitas vezes, em brigas reais, violentas, com agremiações entrando em disputas manchadas de sangue.

Por isso mesmo que Maria não queria os filhos nesse mundo. Mas aí chegou um senhor, Odilon Chagas – e aqui explico porque inicialmente o Estrela da Tarde não foi propriamente uma escolha da mestra.

“Ô Maria, os meninos querem brincar, você não deixa não?”

“Quero não, esses meninos tudo pequeno, não compreendem o que é maracatu. Como é que eu vou soltar esses meninos no meio do mundo? Passa aí um maracatu grande, e não acaba tudo no pau?”

“É melhor eles terem o maracatu deles do que entrar no dos outros”.

Do maracatu, vem muitos mistérios. O maracatu começou com um bocado de menino, umas crianças quem fez. Os índios pequenos

Chagas – artista cuja história está ligada ao cavalo marinho, ao mamulengo e ao maracatu de baque solto – insistiu. Tinha seus interesses: havia brigado com um grupo de caboclos e mestres do qual fazia parte. Sem a autorização de Maria, começaram a montar o cortejo. Arrumaram couro de bode para o bombo e a caixa. Um artesão fez a buzina de latão (não esqueci dela, vou falar sobre ela já já).

O homem continuava a pedir: se Maria deixasse, ele daria a bandeira [o estandarte]. Ela continuava não gostando da ideia, mas a pressão foi maior: os meninos finalmente saíram. Batizaram o grupo de Indo e Voltando, uma brincadeira com o percurso curto do cortejo, condição que Maria colocou. Nada de ir longe, para evitar brigas com outros grupos.

Chagas, pavio curto, ficou meio contrariado: “E isso é nome de maracatu?”

Maria se insurgiu: “Odilon, tu tá fazendo muita coisa aqui. Deixe eu fazer.” Era o começo do reconhecimento da nova maternidade.

A bandeira prometida foi finalmente encaminhada para o Engenho Tomé. “Um dia, ele chegou com ela. Era amarela, eles botaram uma franja e aqueles brilhos. Sacudiram por todo canto e os meninos ficaram cobertos com eles. Aí eu disse: ‘agora sim vocês ficaram bonitos’”. O nome já estava lá no fundo amarelo: Estrela da Tarde.

Até ali, a trabalhadora que vivia no corte e limpeza da cana só havia interagido com os maracatus como espectadora, vendo os cortejos passarem. Via também mulheres e homens costurando golas (bem menores que as de hoje), fazendo guiadas (as lanças repletas de fitas), as roupas das baianas. Mas Odilon (encontrei referência a ele aqui, página 124) também se prestou a ensinar o riscado e o bordado. Maria foi se envolvendo. O Estrela era tarefa que ela dividia com mais gente, incluindo o novo companheiro. Ele também não gostava muito da ideia, mas aceitou. Logo, um integrante foi casando, outro entrou em um maracatu vizinho, Odilon se afastou… e foi ficando Maria sozinha para cuidar de tudo. “Inventaram e foram embora. Ficou só os meninos pequenos. O jeito que teve foi eu tomar conta.”

Estávamos sentadas no terraço da sede do Estrela, sábado pela manhã. Fiquei olhando para ela. Imagina o que é trabalhar no corte da cana, cuidar de pelo menos seis crianças e administrar baianas, orquestras e caboclos?

“E como a senhora fazia para cuidar desses filhos todinhos e ainda ter um maracatu?”

“Oxe, é a coisa mais fácil que tem.”

Eu dei uma risada à altura da resposta maravilhosa.

Disse Maria: “O maracatu sai só 3 dias. Eu ia trabalhar de manhã, cortava cana, limpava, ia até umas 11h. Aí chegava em casa ao meio dia e tinha o resto da tarde e a noite para trabalhar. Botava a panela no fogo, e tome fogo… e ia trabalhar.”

Maria Viúva, outra Nossa Senhora da Tripla Jornada.

O curioso é que ela contava tudo ali enquanto seus netos Gabriel Nazário (28 anos) e Enzo Douglas (22) [foto acima] trabalhavam nas roupas do Estrela da Tarde semanas antes do Carnaval e cortavam canos para estruturar as saias super rodadas das baianas. Precisam comprar tecido, brocado, ajeitar bandeira, surrão (aquela peça que sustenta os chocalhos nas costas dos caboclos de lança e do Mateus), chamar os brincantes, contratar ônibus, arrumar dinheiro para pagar tudo isso, etc etc etc). É um trabalho pesadíssimo, um trabalho da gota, como dizemos por aqui. Mas Maria, que vendia cabras e bodes para comprar pano colorido e lantejoula do maracatu, riu da minha pergunta. “É a coisa mais fácil que tem”.

As décadas de zelo com o filho barulhento e brilhante que ela inicialmente estranhou e, depois, mesmo nas épocas mais difíceis, insistiu em colocar na rua, foram reconhecidas. Maria ficou em primeiro lugar no prêmio Patrimônio Vivo de Pernambuco, concedido ano passado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Pernambuco é o primeiro estado brasileiro a instituir, no âmbito da administração pública, esse registro (Lei nº 12.196, de 2 de maio de 2002), que reconhece e gratifica com uma pensão vitalícia mensal representantes da cultura popular e tradicional do Estado. São pouco mais de R$ 2.300 brutos, o que alivia um pouco – só um pouco – o pesado do dia a dia.

O reconhecimento institucional lança luz para uma questão: hoje, o Estrela da Tarde está fora de premiações respaldadas pela Associação Pernambucana de Maracatus Rurais (que divide grupos em Especial, 1, 2 e de Acesso).

Segundo Maria e os netos, a razão é a presença da danada da buzina – agora sim, vou explicar – no terno (grupo de músicos do maracatu). O Estrela é o único maracatu rural do Estado a manter o instrumento de sopro artesanal, que já foi comum nos outros grupos. Para passar a ser considerado na disputa, precisaria abrir mão dele e assim se ajustar aos ternos dos outros maracatus. É uma loucura pensar que aquilo que torna o maracatu distinto dos outros seja motivo de exclusão. Maria Viúva sabe disso e resiste à homogeneização.

“Só tiram a buzina quando eu morrer”.

O Estrela é o único maracatu rural do Estado a manter a buzina, o instrumento de sopro artesanal que já foi comum nos outros grupos
O Estrela é o único maracatu rural do Estado a manter a buzina, o instrumento de sopro artesanal que já foi comum nos outros grupos
Arquivo pessoal/Fabiana Moraes

Mas há uma presença importante nos outros grupos – sejam maracatus rurais ou nação – que não vemos no Estrela da Tarde: ali, não há a calunga, a entidade-boneca carregada pela Dama do Paço. É a calunga quem guarda o segredo. Carregá-la é uma responsabilidade: é preciso estar com o corpo limpo, de acordo com os preceitos seguidos pelo maracatu (muitos fortemente orientados pela jurema, o candomblé, a umbanda).

“É por isso que não quero. Tentei uma vez e não deu certo. Não é brincadeira, não é para qualquer um.” De novo, a gente entende que maracatu não é só maracatu. Ele não é feito apenas de golas pesadas de lantejoulas, surrões pesados de chocalhos, mulheres pesadas de vestidos. Um maracatu não é feito somente de milhões de vídeos e fotografias e teses de doutorado.

“Mas e como fica o grupo todo, sem a proteção dela?”

“A calunga desse maracatu sou eu” .

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