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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Como memórias de relações antigas moldam o amor do presente

Recordações de relacionamentos passados, sejam elas nostálgicas ou traumáticas, deixam marcas que influenciam a maneira como vivemos novas experiências amorosas

Ana Elisa Faria 16 de Fevereiro de 2025

Como memórias de relações antigas moldam o amor do presente

Ana Elisa Faria 16 de Fevereiro de 2025

Recordações de relacionamentos passados, sejam elas nostálgicas ou traumáticas, deixam marcas que influenciam a maneira como vivemos novas experiências amorosas

O primeiro amor, um casamento de décadas, o namoro de anos e até o casinho passageiro têm algo em comum: todos esses relacionamentos deixam marcas, que não desaparecem facilmente — às vezes, nos acompanham pela vida toda.

As experiências amorosas moldam a forma como nos relacionamos no presente, seja por meio de memórias nostálgicas de momentos felizes ou situações dolorosas e traumáticas. Para alguns, essas lembranças são fonte de aprendizado, benquerer e amadurecimento que auxiliam na construção de conexões mais maduras e saudáveis. Já para outros são obstáculos que dificultam a criação de novos vínculos.

Mas, até que ponto essas recordações fazem bem? Quando a nostalgia se torna, de fato, um empecilho, e não apenas um quentinho no coração? Quais as maneiras de evitar que relações de outrora impeçam o amor pleno no presente? Psicólogas e psicanalistas consultadas pela Gama respondem.

Os primeiros amores: lembranças e influências

De acordo com a neuropsicóloga Andrea Lorena Stravogiannis, coordenadora da equipe de amor e ciúme patológicos do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Pro-Amiti) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Ipq-HC-FMUSP), as expectativas sobre segurança emocional, reciprocidade e intimidade são determinadas pelo passado, do mais recente à tenra idade. “Nosso cérebro vai construindo bases a partir das vivências da infância, influenciando os padrões comportamentais que seguimos na fase adulta”, conta.

Um desses comportamentos é o apego. Desenvolvida pelo psicólogo e psiquiatra inglês John Bowlby (1907-1990), a teoria do apego caracteriza esse sentimento em três estilos: ansioso-ambivalente, evitativo e seguro.

Nosso cérebro vai construindo bases a partir das vivências da infância, influenciando os padrões comportamentais que seguimos na fase adulta

Conforme Stravogiannis exemplifica, um bebezinho bem-cuidado, com pais e responsáveis que atendem qualquer necessidade, se sente confortável e em segurança, mesmo na ausência momentânea desses adultos. Ou seja, quem desenvolve o apego seguro quando pequeno e o mantém com o passar dos anos tem mais chances de entrar em histórias amorosas maduras.

Ana Suy, psicanalista e escritora, autora de “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” (Paidós, 2022), aponta ainda que os amores da juventude, sobretudo os da adolescência, marcam profundamente o nosso jeito de amar. A intensidade dessas relações, somada à típica falta de recursos emocionais da fase, cria memórias fortes que vão influenciar tudo o que vier depois. “A paixão adolescente é intensa, há uma certeza de que aquela é a pessoa da vida. E, quando isso se desfaz, deixa cicatrizes e referências que vamos carregando”, fala.

A paixão adolescente é intensa, há uma certeza de que aquela é a pessoa da vida. E, quando isso se desfaz, deixa cicatrizes e referências que vamos carregando

Pesquisadora de relações e psicanalista, Carol Tilkian, fundadora do canal Amores Possíveis, reforça a importância que as dinâmicas familiares têm nas conexões amorosas: “Se você cresceu numa família que brigava o tempo todo, é natural normalizar relações turbulentas. Muitas pessoas chegam à clínica relatando sentir falta de altos e baixos em namoros ou casamentos saudáveis, pois estão acostumadas ao conflito constante.”

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Ela comenta que essas vivências podem tornar indivíduos mais suscetíveis a relações tóxicas ou abusivas, já que eles aprendem desde cedo em lares violentos a antecipar e a evitar o desconforto do outro e até a justificar explosões emocionais. “É essencial olhar para a nossa história familiar”, frisa.

Resumindo: Sigmund Freud (1856-1939) explica isso, segundo Suy. “Pelo viés freudiano, todo amor é uma repetição. Para ele, o encontro amoroso inaugural que o bebê tem com o seu primeiro cuidador, que, em geral, é a mãe, vai ser o molde para todas as outras formas de relação amorosa.” As lembranças que estão ali desde o dia em que colocamos a cara no mundo podem, portanto, pular de um namoro para outro e de experiência a experiência.

Nostalgia ou idealização?

Ter momentos nostálgicos, de relembrar o ex ou a ex — quem nunca? —, é natural e pode até ser benéfico. Caso a lembrança traga aprendizados e sentimentos positivos, ela é capaz de enriquecer novos relacionamentos.

No entanto, a idealização excessiva do passado é paralisante. “Quem fica preso ao passado não consegue avançar e abrir espaço para o novo. Aí essa nostalgia acaba sendo muito prejudicial, muito patológica”, ensina a neuropsicóloga Andrea Lorena Stravogiannis, do Pro-Amiti.

Muitas vezes, não sentimos só saudade, mas falta de quem a gente era quando estávamos com aquela pessoa

Carol Tilkian ressalta que idealizar relações que vieram antes tem um fundo egocêntrico. “Muitas vezes, não sentimos só saudade da pessoa, mas falta de quem a gente era quando estávamos com aquela pessoa. Para a psicanálise, você nunca se apaixona pelo outro, você se apaixona por como você se sente quando está com o outro”, pontua.

Memórias nostálgicas, traumas e ciúme patológico

As memórias positivas e as memórias traumáticas são processadas de maneiras distintas. Andrea Lorena Stravogiannis explana que as recordações nostálgicas, aquelas boas, de carinho, ativam circuitos que promovem bem-estar, enquanto as lembranças derivadas de traumas são carregadas de emoções mais inquietantes, como tristeza e raiva, e podem gerar hipervigilância e estresse.

“Uma pessoa que foi traída, por exemplo, tem maior probabilidade de ficar constantemente atenta a possíveis sinais de infidelidade [mesmo inexistentes], achando que sofrerá uma traição novamente”, diz.

A psicanalista e autora Ana Suy, no entanto, coloca um adendo nessa problemática. “Tudo vai depender do que aconteceu, de como a pessoa elaborou isso, vai depender de quem é o outro. Depende de uma série de variáveis que são imprevisíveis”, sinaliza.

A relação entre ciúme excessivo e traumas passados é um dos temas investigados por Stravogiannis. Para ela, experiências traumáticas, como ser abandonada ou abandonado, alimentam padrões de vigilância e um medo irracional do abandono. “O indivíduo pode desenvolver comportamentos controladores, como monitorar mensagens, redes sociais e localização do parceiro.”

Ressignificando o passado

Superar um relacionamento que acabou exige um trabalho ativo de elaboração emocional. “O luto amoroso precisa ser vivido. Ele é crucial para podermos viver uma nova história”, afirma Ana Suy. Nos permitir sentir, chorar e entender o que aquela relação significou, sem pressa de partir para outra, é essencial. Para ajudar, terapia e análise são indicadas.

A psicanalista Carol Tilkian sugere também exercícios práticos, como afastar estímulos sensoriais ligados à ex-parceria (guardar as fotos em um HD, mudar o perfume usado durante a relação, arquivar mensagens) e investir tempo em novos interesses e em outros tipos de relações: quem sabe um curso, um clube do livro, uma viagem com as amigas, mais momentos de qualidade com os sobrinhos — ideias não faltam.

“É poder diversificar os afetos, não pensando num outro romance, mas é interessante pensar onde investir a libido a partir de agora. Quando, automaticamente, tentamos buscar um novo parceiro ou uma nova parceira, as chances de um efeito rebote, que vem de comparações com a antiga referência, são enormes”, analisa. Suy complementa: “Cada vez que elaboramos um luto, ganhamos casca e recursos.”

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