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Reportagem

Quando a busca por longevidade começa a fazer mal

Nas plataformas digitais, o cuidado com a saúde e o bem-estar pode se confundir com uma obsessão por juventude e por beleza

Fredy Alexandrakis 01 de Novembro de 2026

Quando a busca por longevidade começa a fazer mal

Fredy Alexandrakis 01 de Novembro de 2026

Nas plataformas digitais, o cuidado com a saúde e o bem-estar pode se confundir com uma obsessão por juventude e por beleza

Como você espera chegar aos 60 anos de idade? E aos 70? Você está se cuidando para ter uma velhice saudável e ativa? São perguntas que talvez não fariam tanto sentido algumas décadas atrás. No Brasil, a expectativa de vida era de apenas 48 anos de idade em 1960. Esse número avançou vertiginosamente aos 76,6 anos registrados em 2024, apesar do impacto da pandemia de covid-19, que fez a expectativa recuar entre 2020 e 2021. Temos uma população que está envelhecendo e, cada vez mais, se preocupa não apenas em estender o tempo de vida como também em garantir a qualidade de vida na terceira idade — em fazer com que a diferença entre velhice e juventude seja mesmo “só um número”.

As ferramentas a nossa disposição para batalhar contra os efeitos do envelhecimento também se multiplicaram e sofisticaram. Já não basta fazer exercício físico e ter uma alimentação equilibrada, aquela velha receita para uma vida longa e saudável. Se você não está acordando às 5h da manhã com o nascer do sol para regular seu ciclo circadiano; se você não tem um relógio ou um anel inteligente (um fitness tracker) para monitorar sua atividade física e a qualidade do seu sono; se você não adotou uma rotina de skincare que envolve inúmeros cremes e séruns; se você não suplementa a dieta com vitaminas e probióticos e peptídeos — sinto muito, parece que você vai ficar para trás.

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Pelo menos é essa a sensação que temos ao abrir as redes sociais. Em plataformas como Instagram e TikTok, tendências de saúde e bem-estar estão sempre associadas a consumo e são levadas ao extremo. É a cultura da maximização (ou “maxxing”, eleita palavra do ano de 2026 pelo site Dictionary.com). Em inglês, essa gíria é usada como um sufixo muito versátil, que pode ser inserido ao final de quase qualquer palavra para indicar a busca por um ápice ou ponto máximo: proteinmaxxing (maximizar a ingestão de proteínas), sleepmaxxing (maximizar a qualidade do sono), hormonemaxxing (maximizar os níveis hormonais). Pela lógica da maximização, o que começa como um cuidado com a saúde pode virar uma obsessão com efeitos nocivos, ou seja, o oposto do que se deseja.

Sempre vai ter algo melhor, um novo procedimento, um novo nutriente, uma nova tecnologia

Cofundadora da SHE_Talks, marca de suplementos e plataforma voltada à saúde da mulher, Camila Faus lembra de quando percebeu que a preocupação com esse universo estava começando a prejudicar seu próprio bem-estar. Para não desviar de uma dieta baseada em alimentos vegetais crus (a “alimentação viva”), ela havia preparado refeições para quatro dias que passaria hospedada com amigos em Paraty (RJ). Tudo corria bem, até que sua amiga sugeriu que ela estendesse a visita por mais dois dias. “Aquilo apertou um botão de pânico para mim”, diz Faus. O medo de perder o controle da dieta foi tão grande, que ela pensou em recusar a oferta. “Foi o dia em que eu falei: ‘Isso não está saudável. Estou aqui vivendo dias maravilhosos, mas não posso ficar, porque não posso comer nada’”.

A busca por controle, a autocobrança, o monitoramento constante do próprio desempenho, a preocupação excessiva com resultados: essas são algumas características que a psicologia do “maxxing” compartilha com o bom e velho perfeccionismo, traço de personalidade associado a quadros de depressão e baixa autoestima. Quando aplicada à saúde, essa lógica pode dar lugar a distúrbios como a ansiedade, a hipocondria e a ortorexia (obsessão patológica com uma dieta “saudável”).

“O ‘maxxing’ pressupõe a existência de um ponto máximo, quando atingimos o auge ou até ‘vencemos’”, escreve a pesquisadora Jennifer Donnely no site The Conversation. “Mas saúde, bem-estar, relações sociais e hábitos de vida não são atividades que completamos. São processos contínuos e variáveis. Coisas acontecem fora do nosso controle, nossas vidas e circunstâncias mudam — e nós mudamos com elas.” Uma vida saudável não é a recompensa que nos aguarda quando alcançamos o cume da montanha, ela é criada lentamente, a partir de padrões de comportamento, ações repetidas dia após dia.

Competindo pela juventude eterna

As redes sociais hoje parecem sugerir que não há nada que não possa ser maximizado, mas vale lembrar que o “maxxing” faz parte de um vocabulário originado nas comunidades tóxicas e misóginas dos incels. Incel significa “celibatário involuntário”; em maioria, são homens que foram radicalizados a acreditar que sua dificuldade em encontrar parceiras sexuais é determinada quase exclusivamente por fatores genéticos relacionados à aparência. Foi nesse contexto que primeiro surgiu o looksmaxxing de jovens que tomam medidas extremas para se adequar a um padrão estético: para eles, vale até martelar o próprio rosto em nome de um maxilar mais definido (a técnica não é recomendada por profissionais).

Os padrões estéticos não estão apartados de uma perspectiva ética predominante na sociedade

Não é por acaso que essa visão de mundo ganhou popularidade por meio das plataformas digitais, onde o feed algorítmico gera distorções da realidade. “É um acesso muito rápido e fácil”, afirma Camila Faus. “Basta você consumir um conteúdo que o algoritmo vai te entregar um monte de coisas relacionadas a isso.” Uma simples busca no Google por dicas para um envelhecimento saudável, por exemplo, pode logo inundar seu Instagram com produtos e criadores de conteúdo que prometem soluções mágicas.

Nas redes sociais, é difícil não se comparar com outras pessoas, esquecendo que o conteúdo que vemos não é uma janela ao mundo real — ele foi filtrado pelos próprios usuários, que costumam compartilhar só os momentos mais bonitos e alegres, e pelas bolhas do algoritmo. “A gente não consegue mais distinguir entre a vida real e a rede social”, diz Camila Faus. “Ali, é uma imagem manipulada, controlada, que gera gatilhos.” É por isso que o Instagram pode passar a impressão de que todo mundo frequenta a academia assiduamente, enquanto os dados populacionais mostram o oposto: um aumento do sedentarismo, como apontou a bióloga Mari Krüger em entrevista à BBC News Brasil.

Nesse universo de imagens filtradas e editadas, não necessariamente se destaca quem é saudável, e sim quem aparenta ter “maximizado” a própria saúde. “A manipulação da imagem vai criando um ecossistema desses mecanismos psicológicos, em que já passamos da cobrança do desempenho para uma lógica de excepcionalidade”, diz Fernanda Rougemont, antropóloga que estuda a medicina anti-aging há mais de 15 anos. “Essas tecnologias desumanizam … Por exemplo, as pessoas hoje querem uma pele que não tem poro, não tem mancha, não tem marca nenhuma, e isso não existe.”

Para Faus, as mulheres, que já são submetidas a um escrutínio maior da sua aparência, encontram nesse meio motivos muito convincentes para se dedicarem ainda mais a uma “luta insana contra o tempo”: “Você tem uma chancela de que você está fazendo isso pela sua longevidade, para ‘viver sua melhor fase no seu maior potencial’. Ao mesmo tempo que tem uma verdade nisso, pode ser muito perigoso”, considera.

‘Espera aí, por que estou fazendo isso? Para quem? Preciso disso?’ Respira, dorme, acorda amanhã

Saúde, bem-estar ou beleza? É tudo a mesma coisa?

Você pode ter percebido que “saúde”, “bem-estar” e “beleza” são áreas que se confundem em discussões sobre longevidade e anti-aging. Para Rougemont, são categorias que sempre estiveram profundamente integradas, e as mídias sociais só tornaram isso mais evidente. “A gente está falando de uma convergência de autoridades de diversas áreas”, explica a pesquisadora. “Tem a mídia, tem a saúde, tem também a área econômica, e os discursos vão se integrando na construção de um ideal ético que coloca o indivíduo nessa cobrança.” É uma ideia alinhada ao pensamento do teórico francês Michel Foucault (1926-1984), que analisou como instituições como a medicina e a ciência são atravessadas por relações de poder, apesar de se apresentarem como “neutras” ou “objetivas”.

Da mesma forma, as plataformas digitais não inventaram as dinâmicas de competição e obsessão por saúde, beleza e juventude que observamos hoje, mas apenas amplificaram (ou talvez “maximizaram”) características da nossa cultura. Por trás do ideal de uma velhice “saudável”, “ativa” e “autônoma”, existe o medo de se tornar doente, improdutivo ou dependente em uma sociedade que não oferece apoio a essas pessoas — pelo contrário, as despreza.

É o “paradigma do desempenho e da responsabilização individual”, diz Rougemont: “Você precisa cumprir com todos esses requisitos, você precisa conduzir o seu próprio envelhecimento de maneira que ao menos minimize o risco de adoecer, de perder a sua funcionalidade.” Como único responsável pelo próprio sucesso, o indivíduo se dedica tanto a maximizar a própria saúde e vigor quanto a exibir os resultados disso nas redes sociais, fazendo um marketing digital de si mesmo. “Os padrões estéticos não estão apartados de uma perspectiva ética predominante na sociedade”, afirma a pesquisadora.

Em meio a essa cobrança que aprendemos a impor a nós mesmos e uns aos outros, a indústria da beleza e do bem-estar encontra oportunidades de sobra para nos vender produtos voltados ao automelhoramento. “Sempre vai ter algo melhor, um novo procedimento, um novo nutriente, uma nova tecnologia”, comenta Faus. Por isso, antes de embarcar na nova tendência anti-aging, ela recomenda a calma e a autorreflexão: “Espera aí, por que estou fazendo isso? Para quem? Preciso disso? Se a gente conseguisse fazer essas perguntas, talvez ajudasse. Respira, dorme, acorda amanhã.”

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