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Depoimento

Como foi acompanhar meus avós para votar?

Nas eleições de 2026, o comparecimento maciço da população 70+ contribuiu para que o segundo turno de 2026 registrasse a menor taxa de abstenção em 20 anos no Brasil. Gama ouviu netos sobre a experiência de acompanhar os mais velhos      

01 de Novembro de 2026

Como foi acompanhar meus avós para votar?

01 de Novembro de 2026

Nas eleições de 2026, o comparecimento maciço da população 70+ contribuiu para que o segundo turno de 2026 registrasse a menor taxa de abstenção em 20 anos no Brasil. Gama ouviu netos sobre a experiência de acompanhar os mais velhos      

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    “Foi a última eleição do Lula e, possivelmente, a última da minha avó também”

    Conrado Fabri, 33, neto de Eulalia de Lima Cuco, 89

    “Minha avó enfrenta problemas de mobilidade decorrentes de um AVC que sofreu anos atrás, então ela não gosta de sair de casa. Desde que me entendo por gente, ela sempre foi muito lulista, mas mora numa cidade muito bolsonarista, no interior do Paraná. Depois do primeiro turno das eleições, eu, minha irmã e mais duas primas começamos a nos organizar para conversar com minha avó sobre a importância do seu voto e decidir quem ficaria responsável por acompanhá-la no segundo turno. No domingo da eleição, ela disse que estava sem ânimo para votar, mas que confiava na vitória do Lula. Ela é uma bichinha teimosa, e é difícil convencê-la do contrário quando bota uma ideia na cabeça. Tivemos de insistir com ela no telefone, explicando que a disputa estava acirrada e que os idosos teriam um papel decisivo. No fim, ela topou. Minha prima a levou de carro e teve dificuldade em guardar sua cadeira de rodas no porta-malas; a traseira teve de ficar entreaberta durante o trajeto. No colégio onde minha avó vota, os mesários foram supersolícitos: deixaram minha prima entrar de carro e ajudaram minha avó a chegar na sua seção. Depois de votar, ela ficou toda faceira e orgulhosa. Disse que não dormiria antes de assistir ao pronunciamento da vitória do Lula. Foi a última eleição do Lula e, possivelmente, a última da minha avó também. Ela esteve com ele desde o começo. Foi lindo ver essa mobilização dos primos, ficamos todos chorando juntos.” (Depoimento a Fredy Alexandrakis)

  • “A cada eleição presidencial, ela faz questão de estar presente, mostrando que nunca é tarde para exercer a cidadania”

    Laura de Sousa Messias, 25, neta de Maria Carmelinda de Sousa, 84

    “Viajei seis horas para conseguir votar e também cumprir a missão de levar minha avó. Por conta da idade, ela passou alguns anos sem votar, mas, em 2018, diante da importância daquele momento e da necessidade de cada um fazer a sua parte na defesa da democracia, ela decidiu voltar. Desde então, não deixou mais de participar. A cada eleição presidencial, ela faz questão de estar presente, mostrando que nunca é tarde para exercer a cidadania e que a idade não diminui a vontade de lutar por aquilo em que acreditamos. Ela caiu recentemente e ainda está se adaptando ao uso do andador, mas fez questão de ir neste segundo turno. No começo, foi um momento de apreensão. Acho que, tirando consultas médicas e sessões de fisioterapia, essa tenha sido a primeira vez que ela saiu de casa desde a queda. Tivemos alguns desafios também: fui antes até a escola para ver se tinha acessibilidade e choveu muito no dia. Mas, assim que cheguei para buscá-la, já ficamos muito animadas. Estávamos muito felizes e empolgadas para viver aquele momento. E, no final, ela conseguiu. Além de conseguir andar, ela votou sem ajuda! Foi muito bom ver a alegria dela e, principalmente, chegar à escola e encontrar pessoas que fizeram questão de parabenizá-la por estar ali. Foi muito especial ver esse carinho e perceber como aquele momento também tocou outras pessoas. No fim, quando ela disse que valeu a pena, tive ainda mais certeza de que todo o esforço para levá-la até ali tinha significado muito. Foi uma experiência que vou guardar com muito carinho.” (Depoimento a Mariana Pontes)

  • “Eles se sentiram não só participantes, mas necessários. Houve a conscientização de que a opinião deles importa”

    Bárbara Andrade, 29, que acompanhou a avó Maria das Graças ao local de votação. Seu avô, Francisco de Assis, de 88 anos, foi acompanhado pelo filho

    “Meus avós são nordestinos que vieram para a construção de Brasília. Eles contaram as histórias da escassez e viram a transformação da região. Minha avó materna há muito tempo não votava, mas neste ano ficou bastante mexida depois que eu, minhas tias e minha mãe conversamos com ela. Meus avós não são alfabetizados. Ela tinha medo de lidar com a urna, mas, na hora que votou, vi como ficou feliz — eu e meu irmão a acompanhamos. Esse processo de independência, de ter entrado na cabine, de ter reconhecido os números. Ela saiu extremamente feliz, com uma sensação de autonomia bonita de ver. Já o meu avô materno fazia muita questão de votar, mesmo antes de conversarmos com ele. Ele já tinha o candidato firme na cabeça e o anunciou. ‘Eu conheço o 13’. Foi muito bom ver como participar desse processo deu uma sensação de autonomia para eles. Meus avós sempre foram pessoas muito trabalhadoras, muito ativas e de opiniões muito fortes. Então, é como se, nesse momento, eles se sentissem não só participantes, mas necessários. Houve a conscientização de que a opinião deles importa. Minha avó se sentiu feliz com isso. Quero levar isso para a vida.”  (Depoimento a Isabelle Moreira Lima)

  • “‘Enquanto saúde eu tiver e puder, eu quero votar.’ Essa foi a frase que escutei de vovó quando a acompanhei para votar.”

    Raísa Nóbrega, 37, neta de Maria Izabel, 77

    “‘Enquanto saúde eu tiver e puder, eu quero votar.’ Essa foi a frase que escutei de vovó quando a acompanhei para votar. Me impressionei com o desejo e a alegria dela de exercer sua cidadania, convicta com sua escolha. Uma pessoa que, mesmo diante das dificuldades da idade, não abre mão da sua responsabilidade como cidadã. Durante a semana, conversei com vários amigos meus, que falaram que não iam votar, pois não carregariam essa responsabilidade. E me lembrei de minha avó, que tinha esse direito e não se isentou dele. Que a gente nunca perca essa consciência. Que a gente sempre possa votar como uma senhora.” (Depoimento a Mariana Pontes)

  • “Ganhei uma memória que levarei comigo como símbolo de amor e comunidade”

    Guilherme Prado, 31, neto de Alice Prado Lopes, 90

    “Política nunca foi um assunto recorrente na casa da minha avó Alice. Ela e minha tia sempre foram devotas do PSDB, enquanto minha mãe era petista roxa desde o surgimento do partido, época em que cursava pedagogia. Após o impeachment da Dilma muitas discussões aconteciam, mas foi depois da pandemia que tudo mudou. O descaso que vivemos no primeiro governo do Bolsonaro foi suficiente para transformar as opiniões dessa parte conservadora da família. Logo na eleição seguinte, em 2022, para o terceiro mandato do Lula, a casa da minha avó ficou vermelha e estabeleceu-se a harmonia no debate político, coisa que me sinto privilegiado (por não precisar brigar dentro de casa). Neste ano, frente ao perigo que estávamos enfrentando de passar por mais um governo fascista, minha avó (que não votava há três eleições para presidência) topou sair de casa para ser mais um soldado contribuindo na conta apertada de votos. Ela, que sempre foi de direita (raiz), abriu mão do orgulho totalmente consciente (aos 90 anos) e votou 13 pela primeira vez. Na última oportunidade que teria, pôde ver o rosto do Lula na urna, assim como foi feito pela maioria dos brasileiros. Eu, que já estava emocionado pelo contexto em si, ganhei uma memória ainda mais especial, que levarei sempre comigo como símbolo de amor e comunidade” (Depoimento a Amauri Terto)

  • “Foi mágico, porque ela percebeu que realmente faria a diferença”

    Michelle Soares Bosco, 40, neta de Cleusa Concetta Benedocci, 85

    “Minha avó sempre amou o Lula. Nas eleições, [meu irmão] Marcelo fez um vídeo com ela, e o perfil oficial do presidente mandou um beijo. Minha avó ficou toda cheia de si. Quando percebi que a votação dos idosos ia fazer toda a diferença no segundo turno, coloquei na cabeça que ia levar minha avó para votar. Só que ela tinha quebrado o braço uns quatro meses atrás. E, quando você é idoso, uma coisa vai puxando a outra. Hoje, na situação dela, até sentar para comer é difícil. Minha avó tem um geniozinho danado, mas eu enchi meu coração de vontade e liguei de manhã, fui lá uma, duas vezes conversar com ela. Até que decidiu que queria ir. Falei para ela levar aquilo como um passeio, que a gente ia tomar um vento na cara. Foi mágico, porque ela percebeu que realmente faria a diferença. Minha irmã Carla foi quem topou cumprir essa missão comigo. Colocar ela na cadeira de rodas já foi um sacrifício.  A escola onde minha avó vota fica bem perto, então a gente levou ela de cadeira de rodas pela via pública. Foi meio precário, mas conseguimos. Chegando lá, descobrimos que ela tinha que votar no andar de cima. Na porta da escola, estava saindo uma galera que tinha votado no Lula. Quando viram minha avó chegando de cadeira de rodas, começaram a aplaudir. Eu, minha irmã e a filha da cuidadora ficamos muito emocionadas. Eles nos ajudaram a subir com ela esse lance de escada. Quando ela chegou na sessão, todo mundo se comoveu, minha avó estava toda cheia de si. Ela votou rapidinho e, quando voltamos, a galera estava ali esperando para descê-la pela escada. Na saída, um pé d’água. Eu fui segurando numa mão o guarda-chuva, na outra a cadeira de rodas, mas conseguimos chegar em casa. No fim, minha avó adorou a chuvinha nas pernas. Agradecemos muito pelo que ela fez. Ela foi se trocar, deitou quietinha e ficou feliz da vida pela vitória do Lula.”

  • “Minha avó ficou orgulhosa de fazer parte dessa história, a gente celebrou muito ela”

    Adriana Yañez, 43, neta de Isabel Marinheiro, 93

    “A gente fala bastante de política em casa, minha avó tem 93 anos e já fazia umas três eleições que ela não ia votar. Esse discurso dos velhinhos de ‘minha contribuição eu já fiz (e agora daqui pra frente é com vocês. Meu voto não vale muito’. E a gente sempre contestou isso, tentou convencê-la, e nada. Desta vez as coisas foram diferentes, ela foi acompanhando e também todo domingo a gente se reúne, almoça junto e esse assunto foi crescendo. E aí ela mesma falou ‘eu topo ir votar’. E aí, no dia eu fui buscar ela de manhã cedinho e quando a gente chegou pra votar ela não lembrava qual era a sessão que ela votaria e chegamos para perguntar qual que era a sessão dela. E aí, a mulher foi consultar, teoricamente, no site e falou ‘ah, eu não tô achando pelo CPF, o título dela foi cancelado’. E aí eu falei  que elas estavam com a informação errada, começou a criar um mal-estar porque entrei no site do TSE  e mostrei a regra de que pra quem é voto facultativo, mesmo que não vote nas últimas eleições, você tem direito ao voto. E aí, mostrando as regras do TSE elas entraram no site de novo e falaram ‘ah, agora a gente achou’. Mostraram a sessão e minha avó votou. Ela foi falando mal do Flávio Bolsonaro da casa dela até a escola e ficou orgulhosa de fazer parte dessa história, a gente celebrou muito ela. Foi muito bonito porque foi uma união.” (depoimento a Luara Calvi Anic)

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