A não monogamia é uma moda jovem? — Gama Revista
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Isabela Durão

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Reportagem

Não monogamia é coisa de jovem?

Relacionamentos amorosos e sexuais com parceiros não exclusivos estão aí desde os anos 1960, mas os apps de paquera e as redes sociais tornaram o debate mais aparente, atraindo jovens e casais maduros

Ana Elisa Faria 18 de Fevereiro de 2024

Não monogamia é coisa de jovem?

Ana Elisa Faria 18 de Fevereiro de 2024
Isabela Durão

Relacionamentos amorosos e sexuais com parceiros não exclusivos estão aí desde os anos 1960, mas os apps de paquera e as redes sociais tornaram o debate mais aparente, atraindo jovens e casais maduros

A monogamia é fácil de definir. Diz o dicionário: é um sistema de relacionamento em que os indivíduos têm apenas um parceiro sexual e romântico. Mas, e o oposto disso? Falar de não monogamia é mais complexo, porque esse arranjo pode ter vários significados, regras diversas, combinados próprios e variadas possibilidades, como relacionamento aberto, poliamor, amor livre, anarquia relacional e swing.

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O fato é que apesar de ainda ser um tabu para muitos, a não monogamia vem despertando cada vez mais curiosidade. O Brasil, por exemplo, é o terceiro país que mais busca pelo termo no Google e segundo o buscador, a procura pelo assunto aumentou 280% nos últimos anos. Em certas bolhas das redes sociais e em turmas de amigos, o debate é acalorado e envolve perfis variados.

Tem famosos, como a atriz Fernanda Nobre e o diretor José Roberto Jardim, anônimos, pessoas na faixa etária dos 40 anos em relações duradouras — em sua coluna na Folha de S.Paulo, o escritor e roteirista Antonio Prata observou que muitos casais do seu entorno estão abrindo a relações — e bastante jovens que já iniciam a vida amorosa em um formato não monogâmico ou que passam a testar novas formas de se relacionar.

Conexões diferentes com pessoas diferentes

É o caso da editora de vídeos Alice Souza, 26, que há um ano se relaciona com a companheira de maneira não monogâmica. Quando a conheceu, a agora namorada já tinha a não monogamia como sistema relacional. A princípio, Alice não se preocupou com o modelo porque, na época, ela não tinha a intenção de estar em um relacionamento, até que o tempo passou, as duas começaram a se gostar mais, e Alice percebeu que queria algo sério.

A jovem então entendeu que, para estar com a amada, teria que ser numa dinâmica não monogâmica, “pois era assim que ela já se entendia”. “Então, eu falei que queria ir com muita calma porque ainda estava lidando com questões passadas, fazendo terapia e tudo mais. A gente conversava bastante, eu falava disso na terapia, inclusive, e foi mais uma questão de tempo”, diz.

Até eu compreender que [a não monogamia] seria algo bom para mim também, levou um tempo, foi uma descoberta

Alice conta que no início vivia questionando os próprios sentimentos. “Quando eu sabia que ela estava com outra pessoa, parava para tentar entender o que eu sentia em relação àquilo. Tinha ciúmes? Sentia alguma insegurança? Por que eu estava insegura? Desde o começo, eu sabia que ela se relacionava com outras pessoas, mas até eu compreender que seria algo bom para mim também, levou um tempo, foi uma descoberta, afirma.

Uma das inseguranças de Alice era saber que existia a possibilidade de uma terceira pessoa entregar para a namorada algo que ela não conseguiria dar. Mas, pouco a pouco, a designer viu que o mesmo poderia acontecer com ela.

“Esse era o lado bom de poder sair com outras pessoas. Da mesma forma que temos aquele amigo para ir a shows e aqueles para ficar em casa ‘fazendo nada’, comecei a sair com outra pessoa e me dei conta de que era interessante conhecer mais gente e ter pontos de conexões diferentes com pessoas diferentes. Por mais que eu sentisse essa insegurança, sabia que não era um pensamento justo porque eu não ficava comparando ela com a outra pessoa com quem saía.”

Alice Souza confessa que, na verdade, toda a confusão sentimental se dava pelo fato dela própria se comparar com a namorada da sua namorada. “Era um problema meu, portanto”, fala. Há dois meses, ela mantém um segundo relacionamento e vive bem com as duas relações.

Ela comenta que o autoconhecimento e a maturidade, que não necessariamente está ligada à idade, são cruciais para que o formato não monogâmico dê certo. “A maturidade serve não só para o relacionamento não monogâmico, porém, como na não monogamia há outras pessoas envolvidas, é preciso muita honestidade, consigo e com o outro. Acho legal que o pessoal mais novo esteja se lançando a isso, mas pensando logicamente, a tendência é dar mais certo com casais mais velhos que já estão mais bem resolvidos com a vida.”

Só se fala naquilo: a não monogamia

Mayumi Sato, sócia-diretora da Sexlog, rede social brasileira voltada ao sexo e ao swing, avalia que o relacionamento aberto, talvez o acordo não monogâmico mais popular hoje, não é uma exclusividade das novas gerações, pelo contrário. Ela destaca que o jovem tem mania de achar que criou a roda, que “está inventando novas formas de se relacionar”, mas ressalta que sempre houve uma variedade nesse aspecto.

“A verdade é que o mundo é cíclico. Várias coisas que vimos acontecer e que agora deixaram de estar em alta não pararam, de fato, de acontecer. Elas simplesmente pararam de ganhar destaque”, explana.

A especialista, que já apresentou um TED sobre a temática, observa, no entanto, um aumento na exposição da vida pessoal por meio das redes sociais e na nomeação de novos vocabulários para descrever essas relações, o que torna esses modelos mais evidentes.

É um comportamento que sempre existiu, mas vai ganhando novos contornos com o tempo

Mayumi menciona que, mesmo em uma comunidade mais madura, como a dos praticantes de swing, há um movimento de questionamento sobre os limites e as categorias das relações não monogâmicas, indicando uma mudança de perspectiva entre os mais velhos. “É um comportamento que sempre existiu, mas vai ganhando novos contornos com o tempo.”

Um breve histórico das relações não monogâmicas 

Maria Silvério, jornalista, doutora em antropologia especializada em gênero, sexualidade e relações não monogâmicas e autora do livro “Swing – Eu , Tu…Eles” (Chiado Brasil, 2014), explica que a não monogamia como conhecemos emergiu a partir das transformações das décadas de 1960 e 1970, como o movimento hippie e o feminismo. 

“Ali, houve uma mudança de padrões comportamentais e sexuais. O conceito de casamento aberto, que nasceu como casamento, e não como relacionamento aberto, surgiu no meio de pessoas intelectualizadas e mais velhas, da academia, que participaram das chamadas comunidades alternativas dos anos 60 e 70 com o objetivo de repensar a estrutura familiar e as estruturas relacionais. Eram casais estáveis que estavam juntos há muito tempo”, elucida.

Essas reflexões, conforme aponta Silvério, são demarcadas ainda pelas questões de gênero. “A monogamia sempre foi exigida e cobrada das mulheres, e não dos homens. Então, essa revisão de padrões buscou repensar a estrutura do casamento, em que as pessoas se anulam e, geralmente, quem se anula mais é a mulher, em prol de um casamento entre aspas, estável, feliz, aquele da família margarina.”

Maturidade: o segredo do sucesso da não monogamia

Embora a não monogamia tenha sido historicamente associada a casais mais velhos, nas últimas décadas tem havido uma crescente adesão por parte da juventude. Entretanto, as motivações e dinâmicas de cada grupo etário podem ser diferentes.

Por falar nisso, um aspecto fundamental das relações não monogâmicas é a necessidade de comunicação e negociação constante entre os parceiros — desde com quem se pode transar, os lugares que a nova dupla pode frequentar até se haverá um compartilhamento de histórias vividas ou não. No fim, cada casal estabelece seus próprios acordos e regras, que podem evoluir ao longo do tempo à medida que a relação se desenvolve. Essa flexibilidade é essencial para lidar com os desafios e conflitos que podem surgir em um relacionamento não monogâmico.

Requer um nível de amadurecimento para lidar com as complexidades das relações não monogâmicas

Com essa lista de desafios em vista, Silvério indica a não monogamia para pessoas com maior estabilidade emocional e mais experiências de vida adquiridas ao longo dos anos. “Requer um nível de amadurecimento, não só pessoal, mas também relacional, para lidar com as complexidades das relações não monogâmicas, senão pode ser uma coisa realmente muito avassaladora e destruidora para o casal”, alerta ela.

“Conversando com pessoas não monogâmicas, elas sempre falam que o ideal é que o modelo seja testado por pessoas a partir dos 30, pelo menos, que já estão mais maduras, com uma vida mais estável profissionalmente, financeiramente e afetivamente”, conclui Silvério.

Mayumi Sato concorda dizendo que a “experiência, em termos de relações afetivas, é uma grande mestra” porque permite uma compreensão mais realista da dinâmica das relações. Para ela, o jovem, que normalmente é alguém sem tantas experiências, tem ansiedade de nomear, dar sentido, criar regras, estabelecer limites e categorias específicas quando eles nunca passaram perto de experiências que corroboram com as teorias bradadas. 

Às vezes, a gente mistura um pouco uma frente mais militante com os nossos afetos. Mas o amor é uma coisa muito incontrolável. Os afetos e os amores, na maioria das vezes, fogem do nosso racional. Acho que primeiro temos que sentir e amar. Depois construímos um sentido. Então, é ter paciência e consciência do que é estabelecer uma relação com alguém”, demonstra. 

Sato analisa que o envelhecimento traz como benefício tornar as relações melhores. “Talvez elas não sejam mais felizes, mas são melhores e mais completas. Nesse sentido, então, os casais maduros saem na frente. Por outro lado, que bom seria se as pessoas pudessem começar a ter esses questionamentos quando são jovens. Ter um tempo de reflexão, um tempo de afirmar e depois mudar de ideia, o tempo de acertar e o tempo de errar. O jovem tem um mundo todo pela frente”, finaliza.