Como ter esperança?
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Ilustração de Isabela Durão

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5 dicas

Como passar bem pela "dezembrite"

Especialistas ensinam estratégias para lidar com a melancolia típica do final de ano. Focar no que foi bom e no que pode ser melhor ajuda a proteger a saúde mental entre o Natal e o Réveillon

Ana Elisa Faria 14 de Dezembro de 2025

Como passar bem pela “dezembrite”

Ana Elisa Faria 14 de Dezembro de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Especialistas ensinam estratégias para lidar com a melancolia típica do final de ano. Focar no que foi bom e no que pode ser melhor ajuda a proteger a saúde mental entre o Natal e o Réveillon

Chega dezembro e, com o calor, as luzinhas piscando nas janelas, o Papai Noel em todos os lugares e as músicas natalinas que fazem a trilha sonora das compras, aparece uma sensação difícil de nomear. Para muita gente, o período entre o Natal e o Réveillon não é só festa. É cansaço acumulado, é a grama do vizinho mais verde, são as cobranças pelas metas que não foram cumpridas e a impressão de que todo mundo está celebrando, menos você. Não à toa, essa depressão sazonal ganhou até apelido: “dezembrite”.

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Antônia Burke, psicanalista e educadora socioemocional, comenta que o calendário tem um efeito psicológico poderoso. “O fim do ano funciona como um espelho cheio de luz, iluminando aquilo que não deu certo, o que está faltando, o que a gente não conseguiu controlar”, diz. Nesse cenário, as redes sociais lotadas de fotos de viagens aparentemente incríveis e conquistas editadas podem fazer com que a pessoa conclua que é uma fracassada. “Ficamos com a impressão de que nossa vida é horrível, de que a gente é incompetente”, afirma.

A médica psiquiatra Vanessa Fávaro, assistente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, lembra que esse momento mistura fechamento de ciclo, reuniões familiares, festas da firma e expectativas em relação ao futuro. “É uma época em que as pessoas ficam muito emotivas e emocionadas, às vezes até apresentam um quadro de mais tristeza mesmo, de desânimo”, observa.

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Isso não significa que toda tristeza que chega em dezembro seja um episódio depressivo. A diferença, resume Fávaro, está na intensidade, na duração e no quanto esse estado passa a prejudicar a rotina. Quando o sofrimento domina o dia a dia, paralisa atividades simples, rouba o prazer de tudo, drena a energia e parece impossível de manejar sozinho, um sinal amarelo acende, e é hora de procurar ajuda profissional.

Por isso, Gama reuniu cinco caminhos possíveis para atravessar esse período com menos opressão e mais autocuidado com a saúde mental. Eles não anulam a melancolia, o luto ou a frustração, mas ajudam a reorganizar, com carinho, a maneira como olhamos para os 12 meses que passaram e para os que vêm pela frente — afinal, é como canta Simone: “O ano termina e nasce outra vez”. “A esperança não é um botão que a gente aperta, é consequência de pequenas reorganizações internas e externas”, sintetiza Burke.

A esperança não é um botão que a gente aperta, é consequência de pequenas reorganizações internas e externas

  • 1

    Lembre-se do que foi bom no ano em questão — e nos outros também –
    No tribunal interno de dezembro, é comum que só as derrotas tenham espaço nas recordações. Antônia Burke sugere mexer na cena e trocar o julgamento por um inventário mais honesto da própria história, revisitando lembranças concretas. “Escrever ajuda muito, porque a gente vê exatamente tudo o que se passou e, assim, nos perguntamos: ‘Será que só aconteceram coisas ruins mesmo?’”, aconselha. Ela conta que muitas pessoas também conseguem fazer esse exercício de outra maneira, olhando para o álbum de fotos do celular, mês a mês, e se dando conta de momentos legais que acabaram sendo esquecidos. A ideia, frisa a psicanalista, não é adotar um discurso de gratidão tóxica, que manda ignorar o que doeu. “A mensagem que chega para algumas pessoas nessa fase é que não há espaço para o que elas estão sentindo. E todos temos o direito de nos sentir tristes às vezes. A tristeza faz parte do movimento da vida.” O convite, portanto, é equilibrar o quadro: reconhecer perdas e dificuldades e, da mesma forma, recordar as conquistas, sejam pequenas ou grandes, inclusive de anos anteriores que reverberam até agora. “A vida não se resume a apenas um ano. Todo mundo vai ter anos melhores e piores, a dica é perceber isso e deixar um pouco de lado essa ideia do calendário, das metas. Temos de pensar na vida como um todo”, salienta.

  • 2

    Evite o festival de comparações nas redes sociais –
    Se o fim de ano funciona como espelho, as redes sociais podem virar um espelho deformado. Burke descreve esse período como “um festival de conquistas editadas” que amplifica a sensação de fracasso em quem já está vulnerável. Entre retrospectivas de viagens, corpos “perfeitos” e metas atingidas, é fácil acreditar que todo mundo está melhor do que você, o que intensifica sentimentos de inadequação, solidão e incompetência. Diminuir a toxicidade desse ambiente passa por reduzir estímulos. A psicanalista indica uma espécie de faxina digital: silenciar ou deixar de seguir perfis que disparam gatilhos de comparaçõesa. Em alguns casos, vale até se afastar de aplicativos como Instagram e TikTok nos últimos dias do ano. Essa pequena barreira abre espaço para outros tipos de interação e proporciona um descanso mental importante.

  • 3

    Escreva sobre o que sente e formule resoluções de ano novo usando termos mais positivos –
    Caneta e papel, ou o bloco de notas do celular, são aliados fundamentais contra a tal da “dezembrite”. “Eu recomendo a escrita porque ela ajuda muito a organizar os pensamentos, mesmo para quem acha que escreve mal. Escrever é uma ferramenta importante, principalmente para quem não tem condições de fazer terapia”, diz Antônia Burke. Para a psicanalista e educadora socioemocional, nomear emoções, contextos e pensamentos diminui o caos interno e permite enxergar nuances: de onde vem essa tristeza, o que é luto, o que é cansaço, o que é cobrança irreal. Por falar em cobrança, dezembro — sobretudo entre os dias 30 e 31 — é o mês oficial das tradicionais resoluções de ano novo. A recomendação da psiquiatra Vanessa Fávaro para a elaboração das promessas é formular metas usando termos mais positivos e que, de fato, sejam realistas, possíveis de cumprir. Em vez de listas que comecem com frases como “não vou” e “nunca mais”, foque no que você deseja construir. “É mais interessante colocar o que a pessoa imagina que pode aprender e o que pode conseguir naquele ano”, explica. Fávaro lembra que, em geral, as pessoas realizam cerca da metade do que planejam e, por isso, a construção dessa listinha não deve ser tão perfeccionista — assim como a revisão do que foi feito e do que não foi feito. “Tudo é lucro. Tudo o que você conseguir realizar já é positivo, já contribui para uma situação maior de bem-estar”, pontua. A mensagem aqui é: uma relação de desejos breve, possível e revisitada ao longo do ano tende a ser mais gentil que promessas grandiosas e impossíveis.

  • 4

    Defina os seus limites afetivos para as festas –
    Nem toda confraternização é sinônimo de acolhimento. Para quem está em luto, vivendo uma crise familiar, com conflitos no relacionamento amoroso ou em exaustão, as reuniões celebrativas de dezembro podem virar um campo minado. Dessa forma, Antônia Burke defende que cada um tenha em mente os próprios limites antes das comemorações. “Planejar os limites afetivos para as festas e confraternizações é essencial para não haver somatização”. Essa espécie de linha delimitadora pode ser prática: chegar mais tarde no evento, não ficar até o fim, avisar previamente alguém de confiança de que talvez você saia mais cedo, à francesa. As linhas também podem ser emocionais, como recusar conversas invasivas sobre trabalho, corpo, filhos, dinheiro ou vida amorosa. Na maioria das vezes, essas ações não são simples, especialmente em famílias com pouca intimidade com o tema da saúde mental, mas antecipar estratégias reduz a sensação de impotência. Segundo a psicanalista, não existe saúde mental sem contexto: desigualdade, precariedade e excesso de demandas não somem porque é dezembro. A doutora Vanessa Fávaro analisa que a família, normalmente, é vista como um laço apenas positivo, mas ela pode ser negativa para alguns. “Nesses encontros, que ocorrem em um período de balanço, fechamento de ciclo e expectativas sobre o futuro, a gente fica muito em contato com questões difíceis. E nem sempre temos respostas tão prontas ou tão favoráveis sobre os sonhos e as perspectivas. Tudo isso faz com que seja uma época em que as pessoas ficam muito emotivas, emocionadas, às vezes até apresentam um quadro de mais tristeza mesmo, de desânimo”, avalia.

  • 5

    Cuidado com o álcool e com a rotina que desanda nessa época –
    Brindes, comilança, happy hours, amigo oculto e celebrações fazem parte dos costumes do fim de ano, mas podem ser armadilhas para quem já está fragilizado emocionalmente. Vanessa Fávaro explica que o álcool, apesar de dar uma sensação inicial de relaxamento, “é um depressor do sistema nervoso central” e, em excesso, tende a acentuar estados de humor negativos. “Há pessoas que bebem de uma forma muito intensa, o que pode agravar sentimentos que já estavam ali presentes e que não eram tão positivos”, alerta. Outra peça importante é a rotina. Sono irregular, alimentação caótica e falta de movimento corporal tendem a piorar o humor e a disposição. A psiquiatra destaca o papel da atividade física no bem-estar mental. Para muita gente, nem sempre o exercício será prazeroso na hora, mas depois costuma vir “uma sensação de dever cumprido que é positiva”. Pequenos ajustes entre uma festinha e outra, como manter horários mínimos de sono, intercalar água entre as bebidas alcoólicas e garantir caminhadas, malhação, relaxamento ou alongamentos ao longo da semana, já ajudam a atravessar o período com menos ressaca física e emocional.

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