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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Estamos melhores ou piores do que antes?

Se presente e futuro parecem sombrios, e o passado gera nostalgia, especialistas apontam que a sociedade pode ter melhorado bem mais do que imaginamos

Leonardo Neiva 14 de Dezembro de 2025

Estamos melhores ou piores do que antes?

Leonardo Neiva 14 de Dezembro de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Se presente e futuro parecem sombrios, e o passado gera nostalgia, especialistas apontam que a sociedade pode ter melhorado bem mais do que imaginamos

O mundo está cada vez pior. Se a frase parece um tanto óbvia demais para abrir uma reportagem, é porque essa noção talvez já tenha se infiltrado de forma irremediável no inconsciente coletivo. Afinal, o meio ambiente e o clima estão à beira do colapso, a economia vive uma era de incertezas, os governos autoritários avançam pelo mundo, grandes empresas têm anunciado demissões em massa e ainda paira sobre os trabalhadores a ameaça da Inteligência Artificial.

São muitas as problemáticas que nos levam a dizer em alto e bom som que nunca foi tão difícil viver neste planeta. Não surpreende, portanto, o sentimento de nostalgia que faz com que 44% das pessoas prefiram ter nascido em 1975 do que nos dias de hoje, segundo uma pesquisa do Ipsos — ignorando as enormes turbulências sociais enfrentadas nesse período.

A sensação de que tudo antes era melhor até pode soar verdadeira na teoria, mas não é o que apontam os dados. Como exemplo, basta pegar um dos principais pontos levantados por quem preferia ter nascido na década de 1970: a segurança. Uma pesquisa do Instituto Datafolha feita em abril aponta que 58% dos brasileiros perceberam aumento na criminalidade nos últimos tempos. Mas os dados recentes do Atlas da Violência contam uma história diferente: 2023 registrou a menor taxa de homicídios do país nos últimos 11 anos. O estado de São Paulo, por exemplo, teve os números mais baixos desse tipo de crime desde o início do século.

“É fácil esquecer como a vida era perigosa, como a brutalidade já esteve profundamente urdida na malha do cotidiano”, aponta o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker em seu já clássico livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza” (Companhia das Letras, 2017). Segundo ele, são justamente nossas faculdades cognitivas que nos fazem crer que vivemos numa sociedade mais violenta do que nunca. Afinal, acompanhamos pela mídia e as redes sociais relatos de crimes bárbaros e números gerais que enchem os olhos, mas que muitas vezes ignoram as estatísticas.

É fácil esquecer como a vida era perigosa, como a brutalidade já esteve profundamente urdida na malha do cotidiano

Nossas impressões mais negativas sobre o mundo refletem a rapidez com que as notícias e opiniões circulam nas redes, e no quanto nosso comportamento vem mudando dentro delas. Em seu livro mais recente, “A Alegria em Ficar de Fora” (Agir, 2025), o escritor e pesquisador André Carvalhal evoca um estudo da startup Mention segundo o qual os sentimentos nas redes vêm mudando de extremamente positivos para bastante negativos desde 2013, com uma piora considerável nos últimos cinco anos. E, como posts extremos geram mais engajamento, as pessoas também compartilham mais esses conteúdos.

“Muitas pessoas estão nas redes sociais dispostas a disseminar ódio, a criticar e discordar. Isso acaba amplificando cada vez mais nossas angústias”, aponta em entrevista a Gama. Isso, segundo ele, acaba fazendo com que a gente diminua ou até ignore a importância de coisas positivas que acontecem à nossa volta, como o avanço da representatividade, da informação e dos meios existentes para fazer melhores escolhas. “Mas, quando a gente olha para o mundo, o que recebe? Canais de notícia com a logo urgente 24 horas por dia.”

Muitas pessoas estão nas redes sociais dispostas a disseminar ódio, a criticar e discordar. Isso acaba amplificando cada vez mais nossas angústias

O que nos transporta de volta à questão da violência. “A mente humana tende a estimar a probabilidade de um evento com base na facilidade com que consegue recordar exemplos, e é mais provável que cenas de carnificina, e não imagens de pessoas morrendo de velhice, sejam transmitidas para as nossas casas e fiquem gravadas na nossa memória”, escreve Pinker. O psicólogo reforça também o impacto da psicologia moral. Quer dizer, é muito mais fácil mobilizar as massas apelando ao absurdo da violência que ao comodismo das boas notícias.

Na obra, Pinker desmonta ideias pré-concebidas sobre o aumento da violência com uma conjunção de dados e argumentos. Um dos principais é o fato de a taxa de homicídios nas décadas de 1970 e 1980 nos EUA ter alcançado um teto de dez casos por ano a cada 100 mil pessoas, só indo despencar para cerca de seis nos anos 2000. Ele descreve o período a partir dos anos 1960, aliás, como “uma orgia criminosa de três décadas” que tomou o mundo ocidental. Então, “os anos 1960 e 1970 foram uma época imensamente mais brutal e ameaçadora do que esta em que vivemos”, afirma. Apesar de muitos de nós ainda olharmos para eles com nostalgia.

Claro que as consequências da violência seguem sendo maiores para as populações periféricas, vulneráveis e discriminadas — em especial a violência praticada pelo Estado. Dados do relatório “Pele Alvo”, divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança, apontam que 86% das vítimas de violência policial em 2024, em nove estados brasileiros, eram de cor negra ou parda. Outro dado que Pinker aponta apresenta uma mudança bem pouco animadora. Na segunda metade do século 20, grandes cidades norte-americanas, como Nova York e Filadélfia, viram aumentar consideravelmente a distância entre a violência sofrida por suas populações negra e branca, com uma taxa de homicídios entre os negros 13 vezes maior que os brancos no início deste século.

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Desafios (anti)climáticos

Quando o assunto é meio ambiente, a questão fica espinhosa. O relógio do clima segue avançando. Criado por artistas e ativistas para medir quanto falta para que a humanidade ultrapasse o ponto de não retorno, ele nos dá pouco mais de três anos para limitar o aquecimento global a 1,5ºC. Questões como adaptação e até migração climática já se mostram mais urgentes. Ano após ano, as discussões globais sobre o clima, concentradas na COP, parecem estacionar em becos sem saída — e a impressão geral sobre a COP30 no Brasil não é muito diferente.

Uma pesquisa publicada no Lancet questionou 10 mil jovens, com idades entre 16 e 25 anos, de diversos países, incluindo o Brasil. Três quartos deles consideram o futuro assustador devido às mudanças climáticas. Mais de 56% concordam com a frase “a humanidade está condenada” e 39% se dizem hesitantes sobre ter filhos no mundo atual.

A cientista de dados e comunicadora científica britânica Hannah Ritchie, que pesquisa questões ambientais globais na Universidade de Oxford, traz essas e outras informações em seu livro “Não É o Fim do Mundo” (Faro Editorial, 2025). A obra traz dados e soluções sobre o tema do meio ambiente.

Embora não minimize o impacto das mudanças climáticas, muito menos negue que sofreremos com as trágicas consequências do aquecimento global ao longo das próximas décadas e séculos, a pesquisadora considera que a visão de um apocalipse ambiental iminente pode ser prejudicial. Em parte porque acreditar que não temos um futuro gera mais paralisia do que vontade de agir. “Se já estamos acabados, então de que vale tentar fazer algo?”, questiona no livro. “Longe de nos tornarmos mais eficientes na condução da mudança, isso nos rouba toda a motivação.”

O olhar dos jovens

“Hoje em dia se tornou algo comum dizer às crianças que as mudanças climáticas serão a causa da morte delas”, é a frase com que a cientista abre o livro. Mas quais os impactos dessa visão negativa generalizada sobre presente e futuro das novas gerações?

Um dos resultados mais claros é o surgimento de transtonos como a ecoansiedade, reação psicológica de angústia vivida principalmente por crianças e adolescentes em relação ao futuro do planeta. O aumento de transtornos como depressão e ansiedade entre os jovens também pode refletir em parte esse cenário de desesperança.

Para a coordenadora jurídica do Instituto Alana, Ana Claudia Cifali, os jovens “acabam absorvendo as perspectivas, tensões, a polarização política, a falta de diálogo, os padrões estéticos que impactam as meninas e o extremismo que atinge principalmente os meninos nas redes”. Da internet às conversas em família, segundo ela, tudo isso acaba afetando a mente dos jovens.

Cifali defende que devemos educar os jovens a resolver conflitos e participar da vida política e democrática. Uma das chaves seria mostrar como transformar esse medo em ações positivas. “A COP30 ficou marcada pela participação e inclusão de crianças e adolescentes nos textos. Nunca antes eles haviam aparecido tanto como público prioritário”, afirma.

Não é preciso ir longe para encontrar mais visões positivas, e que trazem incentivo para continuar, sobre as discussões a respeito das mudanças climáticas. Enquanto muitos veem na COP30 um fracasso, sem acordo sobre pontos centrais como a transição energética, outros enxergam avanços com a maior participação indígena da história do evento, a definição de metas para adaptação climática e a primeira menção aos povos de descendência africana na redação do documento final do evento.

Cifali também considera essencial reconhecer avanços importantes, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, que passou a vê-los como sujeitos de direito no Brasil — ao que se seguiu a proibição dos castigos físicos, o Marco Legal da Primeira Infância e a lei contra o cyberbullying. “Esse é o nosso papel. Temos uma responsabilidade com as futuras gerações.”

Saudades do que não vivemos

Em termos sociais, os fatos são incontestáveis e mostram que estamos muito melhores do que no passado. Ao menos é o que afirma o médico e acadêmico sueco Hans Rosling (1948-2017) na introdução do livro “Factfulness: O hábito de só ter opiniões baseadas em fatos” (Record, 2019), que questiona nossa forma de ver o mundo ainda muito baseada em emoções e impressões nem sempre verdadeiras. “Passo a passo, ano a ano, o mundo está melhorando. Não em cada uma das estatísticas, não em todos os anos, mas melhora como regra. Apesar de enfrentarmos enormes desafios, fizemos tremendo progresso.”

Prova disso é que a maioria da população mundial hoje se encontra numa faixa intermediária de renda, aponta a obra: “Essas pessoas talvez não se enquadrem no que pensamos como classe média, mas não estão vivendo em pobreza extrema.” O autor faz um compilado de questões em que o mundo está melhorando, como os direitos das mulheres e o combate à escravidão e ao trabalho infantil. Ainda assim, Rosling argumenta, tendemos a focar no que vai mal. “Isso se deve ao nosso instinto de negatividade: o instinto de notar mais os aspectos ruins do que os bons.”

O médico conecta essa negatividade a uma romantização do passado que raramente encontra respaldo na vida real. Em geral, diz, as coisas que vivemos na juventude não eram tão boas quanto nossas memórias insistem terem sido. “A nostalgia muitas vezes nos engana”, complementa Carvalhal. “A gente idealiza muito o passado porque, quando olha para trás, é muito fácil, por uma necessidade de compensação, apagar da memória as coisas ruins que aconteceram e só lembrar das boas.”

Hoje, há sinais tímidos de que essa visão está mudando. O índice HOPE da consultoria Gallup aponta um crescimento no número de pessoas no mundo que vivem vidas prósperas e também no das que imaginam um futuro melhor nos próximos cinco anos. Um viés mais otimista sobre a a capacidade humana de enfrentar momentos de crise é o que o historiador e escritor holandês Rutger Bregman defende em seu best-seller “Humanidade” (Crítica, 2021), que traz uma visão esperançosa da trajetória humana.

“Centenas de estudos mostram que crises trazem à tona o que há de melhor nas pessoas. O que realmente acontece no calor do momento é uma explosão de cooperação”, afirmou Bregman na entrevista a Gama. No entanto, “se presumir que a maioria é egoísta e que o mundo é um lugar horrível, você organiza sua sociedade em torno dessa ideia.”

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