Como relaxar?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Para que serve o tédio?

Visto com desconfiança e até temor, especialistas apontam o que perdemos quando lutamos contra o sentimento a todo custo

Leonardo Neiva 07 de Dezembro de 2025

Para que serve o tédio?

Leonardo Neiva 07 de Dezembro de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Visto com desconfiança e até temor, especialistas apontam o que perdemos quando lutamos contra o sentimento a todo custo

Você consegue se lembrar da última vez em que ficou longos momentos sem fazer nada? Ou se deixou dominar de propósito pelo tédio? Ainda que seja capaz de apontar um ou outro exemplo, o mais provável é que eles sejam cada vez mais raros. E isso não está acontecendo só com você, mas com todo mundo.

O escritor e filósofo francês Voltaire (1694-1778) já classificou o tédio como “o pior dos males”. Sem saber, ele previu a lógica que iria reger nossa sociedade centenas de anos mais tarde. Um momento em que, a qualquer sinal de um tempinho livre, sacamos o celular do bolso para dar aquela checada nas redes sociais — e lá perdemos longos minutos rolando o feed.

Apesar de esse comportamento refletir a disputa atual das big techs por cada segundo de atenção, ele pode ser também uma resposta à nossa incapacidade de lidar com o ócio e a inatividade. Até porque muita gente prefere levar um choque elétrico do que experimentar alguns minutos de tédio. Literalmente.

Num dos experimentos mais conhecidos sobre o assunto, realizado em 2014, cientistas das Universidades de Harvard e Virgínia colocaram pessoas sozinhas numa sala com a única missão de pensar durante 15 minutos. Nesse período, havia uma única possibilidade de distração: um mecanismo que lhes permitia tomar choques. Dois terços dos homens e um quarto das mulheres que participaram da experiência acabaram se auto infligindo a corrente elétrica ao menos uma vez. A conclusão foi que algumas pessoas preferem uma experiência ruim do que passar muito tempo envolto nos próprios pensamentos.

“A pesquisa mostra que o tédio pode ser tão angustiante quanto a antecipação”, afirma o psicólogo Lucas Freire, autor do livro “Exaustos” (Buzz, 2025). Ele aponta que é difícil se entregar à autorreflexão ou ao descanso quando há um botão à nossa frente pronto para ser apertado, por mais que as consequências sejam dolorosas. Hoje, o celular serve como nosso botão particular de choque elétrico.

A psicanalista Natthalia Paccola, criadora do perfil Fãs da Psicanálise (@fasdapsicanalise) e autora do livro “Você Está Deixando a Sua Vida Para Depois?” (Paidós, 2025), afirma que as telas ou o excesso de trabalho também podem ser “mecanismos de defesa para sustentar nossa voz interna”, com a qual ainda teríamos dificuldade de conviver.

A raiz do problema, segundo Freire, está em uma série de fatores, que têm nos levado a desenvolver quadros de exaustão e burnout: o fato de buscarmos ser eternamente produtivos; o sequestro da atenção pelas redes sociais; a perda da nossa autonomia sobre o tempo; e um descompasso com as nossas possibilidades de descompressão no dia a dia. “É um paradoxo, porque a gente nunca teve tantas oportunidades de entretenimento, mas esse entretenimento nunca foi tão vazio”, declara.

Até o tempo livre passou a ser chamado de tempo de lazer, como forma de ligá-lo diretamente ao mundo da produtividade — em vez de nosso, ele passa a ser um mero descanso necessário ao trabalho. É o que defende o filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han no livro “Vita Contemplativa ou Sobre a Inatividade” (Vozes, 2023): “Ao ‘tempo de lazer’ falta tanto a intensidade de vida quanto de contemplação. É um tempo que matamos apenas para não nos sentirmos entediados. Não é um tempo livre, vivo; é um tempo morto.”

Mas, se é real que a sociedade vem matando o tempo livre, torna-se ainda mais importante entender o real impacto disso. Sempre associamos o tédio e a inatividade a algo ruim, sem grandes consequências positivas. Então, por que precisamos tanto deles?

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O melhor dos males

Num contraponto às descrições negativas do ócio, os italianos apresentam o ditado dolce far niente, livremente traduzido como a doçura de não fazer nada. Um prazer ecoado pelo psicanalista Alexandre Patricio, criador do podcast Psicanálise de Boteco. “É ao não fazer nada que a gente se encontra com os nossos pensamentos, com a nossa história, com o nosso percurso de vida”, afirma. O que se torna impossível quando tentamos extinguir esse tempo livre em nossas vidas. “Aí a gente não tem tempo de olhar para dentro, para a nossa infância, as nossas formas de ser e de habitar o mundo.”

É ao não fazer nada que a gente se encontra com os nossos pensamentos, com a nossa história, com o nosso percurso de vida

Uma coisa em que os especialistas concordam é que o tempo livre é especialmente importante para o desenvolvimento, da juventude à idade adulta. O neurocirurgião e especialista em desenvolvimento infantil André Ceballos aponta justamente os momentos de pausa como cruciais para que o cérebro descanse, organize informações e exercite a imaginação.

Já falamos na Gama sobre o quanto o ócio é um dos motivadores para a criatividade. Mas Ceballos reforça que até um sentimento aparentemente inútil como o tédio tem funções vitais. “Quando a criança sente tédio, ela não está parada internamente. Está criando, experimentando, aprendendo a lidar com emoções e desenvolvendo autonomia”, afirma. Portanto, segundo ele, quando nos deixamos ficar a sós com nossos pensamentos, também estamos fortalecendo habilidades centrais para a vida adulta, como o foco, a autorregulação e a tolerância às frustrações.

“A longo prazo, elas ajudam a formar adultos mais equilibrados, menos ansiosos, com maior capacidade de resolver problemas e encontrar sentido nas próprias escolhas”, acrescenta o neurocirurgião. “O ócio, portanto, não é perda de tempo, é parte fundamental do crescimento saudável.”

Por outro lado, Patricio vem observando um paradoxo entre seus pacientes: “A queixa que a gente mais vê no consultório é que, quanto mais as pessoas se enchem de estímulos, mais se queixam de um vazio existencial.” Um vazio que, segundo ele, surge da desconexão consigo mesmo. Portanto, quando cedemos à pressão da produtividade, estamos “obedecendo a uma lógica imposta de fora para dentro”.

O mito do multitarefa

Embora o excesso de estímulos, a ansiedade e a falta de foco sejam fenômenos que atingem todas as faixas etárias, o impacto é muito maior para quem já nasceu com os dois pés dentro dessa realidade. “Telas, vídeos curtos, mensagens e games aumentam o limiar de recompensa do cérebro, fazendo com que situações mais calmas pareçam sem graça”, adverte Ceballos.

Como vivemos numa cultura que dá mais valor à velocidade e produtividade, ele considera natural que as famílias acabem reproduzindo esse ritmo com as crianças. Assim, a cada nova geração, o tempo livre e o descanso deixam de ser vistos como parte saudável da rotina e passam a ser interpretados como perda de tempo.

A cada nova geração, o tempo livre e o descanso deixam de ser vistos como parte saudável da rotina e passam a ser interpretados como perda de tempo

Tanto que muitas famílias hoje definem cronogramas diários rígidos tanto para adultos quanto para os pequenos, dividindo os dias numa série infindável de atividades. “Claro que organização é importante até para possibilitar nossos intervalos de ócio. Mas desde que ela não seja excessiva com esse objetivo de controle, de impossibilitar o nosso tempo livre”, afirma Patricio.

A lógica de que devemos ocupar todos os momentos da vida com alguma ação produtiva também incentiva a ideia de sermos capazes de fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo, como forma de otimizar a rotina.

O problema é que nosso cérebro não é multitarefa, diz Ceballos. Pelo contrário, esse tipo de pensamento tem um custo alto para nossos níveis de estresse, ansiedade e concentração. “A mente fica em estado de alerta permanente, sempre pronta para responder a algo, e perde a capacidade de entrar em modos mais calmos e restauradores. Isso afeta tanto adultos quanto crianças, criando uma geração que tem mais dificuldade de desacelerar, manter presença e sustentar o foco em atividades mais longas.”

Remédio pra livrar-me desse tédio

O ócio só é de fato aceito hoje quando serve a algum propósito maior, na visão do filósofo Byung-Chul Han. “A compulsão por produzir transforma a inatividade numa forma de atividade, de maneira a explorá-la”, escreve. Assim, até o sono, diz o sul-coreano, já é visto como uma atividade cuja performance deve ser aprimorada.

O problema é que esse pensamento vai contra a ideia da inatividade como fonte de descanso, prazer e felicidade. “A felicidade verdadeira se deve àquilo que é inútil e sem propósito, ao que é intencionalmente distorcido, ao que é improdutivo, indireto, exuberante, supérfluo, aos gestos e formas belos que não têm utilidade nem servem a nenhum propósito”, defende o filósofo.

Um bom exemplo dessa mudança é o que tem acontecido com nossos hobbies. No dicionário de Cambridge, a definição do termo é “uma atividade que alguém faz por prazer quando não está trabalhando”. Mas há cada vez mais notícias sobre pessoas que transformaram o hobby em trabalho ou oportunidade de negócio. Enquanto isso, os níveis de leitura por puro prazer despencaram 40% nos EUA só nas duas últimas décadas, segundo pesquisa do University College London e da Universidade da Flórida.

Para o psicólogo Lucas Freire, hoje muita gente busca um hobby para entrar em alguma tendência do momento. E o que antes era visto como um fim em si mesmo passou a ser forma de aumentar a performance, buscar resultados e melhorar a própria imagem. “A exigência agora é que, quando faz alguma atividade, você tem que postar, mostrar para o mundo o que está fazendo”, afirma o psicólogo. Há até uma expressão, mad skills, para definir habilidades adquiridas através de hobbies e que podem servir como diferencial no ambiente de trabalho — ou seja, a pressão profissional entrando até na escolha do seu divertimento. “Quem foi que disse que você tem que ser o melhor no seu hobby? Tudo isso é uma construção social.”

A arte de não fazer nada

Dos retratos do século 18 de jovens lânguidas repousando sobre lençóis à ficção de cura, gênero que se popularizou recentemente, a arte reconhece desde sempre a importância do relaxamento e do tédio em nossas vidas. Mas, por mais acolhedor que seja ler o último best-seller envolvendo alguma biblioteca repleta de gatos, esta só será uma atividade realmente prazerosa se você conseguir se desconectar do mundo ao redor.

Como aponta Freire, hoje é raro não colonizarmos nossos momentos de descanso com alguma preocupação de trabalho ou com aquela ansiedade para checar o feed das redes. O resultado é que acabamos ficando no meio-termo, algo que vem sendo conhecido como stresslaxing: relaxar apenas em parte, sempre com aquela pontinha de estresse.

Isso está na raiz do sentimento de culpa que algumas pessoas sentem até ao viajar no período de férias. “A primeira preocupação é se tem wi-fi. É como se eu tentasse criar uma rede de proteção invertida. Eu checo se aquele lugar de relaxamento vai me dar infraestrutura para eu continuar a velocidade tóxica em que tenho vivido”, descreve o psicólogo.

Por outro lado, observadores apontam que o uso de telas e a presença crônica nas redes vem gerando seu próprio tipo de tédio, este sem nenhum impacto positivo. “Se eu tenho tudo, logo tudo perde a graça”, define Freire. “Uma consequência eventual desse hiperestímulo é um acinzentamento das coisas que antes me davam prazer, um sintoma semelhante à depressão. É como se, de certa maneira, nós precisássemos da escassez.”

Uma consequência eventual desse hiperestímulo é um acinzentamento das coisas que antes me davam prazer, um sintoma semelhante à depressão

E escapar dessa lógica não simples. O psicanalista Alexandre Patricio indica começar com uma lenta mudança de hábitos: controlar o período que passamos nas redes e com questões de trabalho; observar o uso do tempo para evitar preenchê-lo de maneira exagerada; e buscar mais locais de encontros com o outros e com nós mesmos.

“Que a gente possa sair, tomar um café, falar bobagens, dar risada juntos, observar as pessoas, os sons, as pequenas coisas do mundo”, declara Patricio. A psicanálise seria uma dessas formas de se aprender a conviver mais consigo mesmo e até com momentos de tédio, como defende a psicanalista Natthalia Paccola.

Já para o psicólogo Lucas Freire, um segredo é se permitir ser amador. “Faça coisas por fazer, não se preocupe com a razão”, sugere. Outro é recuperar a capacidade de brincar. O filme “A Vida de Chuck” (2024) traz uma imagem que exemplifica perfeitamente a dica: um executivo faz uma pausa súbita na rotina de trabalho para dançar numa praça ao som de uma baterista itinerante. “Na vida adulta, recupere uma atividade de infância que tenha a ver com quem você é. Dançar, fazer arte, contemplar. Se permita novamente.”

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