Como sair do bloqueio criativo?
Icone para abrir

2

Reportagem

Não há criatividade sem ócio

Nos 30 anos do clássico “Ócio Criativo”, a defesa do ócio pelo sociólogo Domenico De Masi segue atual num contexto de burnout e precarização do trabalho

Leonardo Neiva 10 de Agosto de 2025

Não há criatividade sem ócio

Leonardo Neiva 10 de Agosto de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Nos 30 anos do clássico “Ócio Criativo”, a defesa do ócio pelo sociólogo Domenico De Masi segue atual num contexto de burnout e precarização do trabalho

Acostumado a ir dormir por volta das 4h e acordar às 7h15, em certo momento, de forma inevitável, o sociólogo italiano Domenico De Masi (1938-2023) adoeceu devido ao excesso de atividades. “Não conseguia dizer não a nenhum compromisso”, relembra em sua longuíssima entrevista à jornalista Maria Selena Palieri. Esse quadro de exaustão, como ele mesmo admite, unido à sua consciência sobre os excessos do mundo do trabalho, foi o que o levou a desenvolver seu conceito mais famoso: o do ócio criativo.

E essa entrevista também virou um livro, que leva o ócio criativo no título. 30 anos depois do seu lançamento original, em 1995, a obra de De Masi hoje parece ainda mais atual, num momento em que os índices de ansiedade e burnout continuam nas alturas, no qual tudo vira meta de produtividade e fica cada vez mais difícil se desconectar 100% para simplesmente relaxar.

Nas palavras do sociólogo, o conceito não significa apenas ficar sem fazer nada. Trata-se de um equilíbrio entre o trabalho, o estudo e o lazer, no qual os momentos de descanso e desconexão não acontecem de forma vazia. Pelo contrário, são essenciais para a criatividade e a própria produtividade em todos os campos da vida.

Hoje, o mundo vive um momento aparentemente contraditório. Se já existem movimentos em defesa do descanso e até de uma semana de trabalho com quatro dias, ainda presenciamos a perpetuação da escala 6×1 no Brasil, jornadas cada vez mais exaustivas e um recorde de mais de 470 mil afastamentos profissionais por transtornos mentais só em 2024.

“A principal característica da atividade criativa é que ela praticamente não se destaque do jogo e do aprendizado”, afirma na obra. “Quando trabalho, estudo e jogo coincidem, estamos diante daquela síntese exaltante que eu chamo de ‘ócio criativo’.”

A gente só consegue um repertório rico se tiver tempo para perceber e coletar essas referências

“O Domenico era muito crítico a esse produtivismo radical que a sociedade capitalista industrial valoriza e universaliza”, aponta o sociólogo do trabalho e professor da USP Ruy Braga, autor de uma trilogia de livros sobre a precarização do trabalho no mundo. “Para ele, a criatividade deveria advir do tempo livre, um tempo que surge na vida em família, na igreja, na comunidade.”

Esse ócio não se define pela falta de qualquer tipo de atividade — você não precisa ficar imóvel olhando para o teto para estar ocioso. O sociólogo aponta que ele existe também quando realizamos alguma atividade por inclinação pessoal, sem nenhum tipo de objetivo econômico envolvido. E são esses momentos que têm se tornado cada vez mais raros para muita gente, já que a produtividade estaria engolindo nosso tempo social, diz Braga.

Na concepção de De Masi, o trabalho não deve ser uma obrigação nem uma tortura, segundo o médico, educador e empresário Eugenio Mussak, especialista em educação corporativa e gestão de pessoas. Mussak, que foi amigo pessoal do sociólogo, explica também que a questão do aprendizado é essencial na teoria de De Masi porque o conhecimento teria se tornado crucial para o trabalho na sociedade pós-industrial.

“E a terceira esfera ele chama simplesmente de prazer, que é uma necessidade. Se você tirar totalmente os prazeres de uma pessoa, ela provavelmente enlouquecerá”, diz Mussak, fundador de empresas como a MSK2 Soluções Educacionais e a editora Vida Simples. De acordo com o educador, o encontro ideal entre esse trabalho que é recompensador, o aprendizado e o prazer é que definem a possibilidade do ócio criativo. “É quando o teu cérebro funciona melhor, quando você está mais atento.”

As ideias de De Masi, que tinha uma conexão especial com o Brasil, não são exatamente aceitas de forma universal. Alguns especialistas criticam suas visões sobre o trabalho e a existência de uma sociedade pós-industrial, apontando uma suposta romantização do ócio, por um lado, e uma instrumentalização excessiva desse tempo livre, por outro. Mas o fato é que noções como a do ócio criativo seguem vivas e sendo debatidas ainda hoje.

Receba nossos melhores conteúdos por email

Inscreva-se nas nossas newsletters


Obrigada pelo interesse!

Encaminhamos um e-mail de confirmação

O cérebro de folga

Na década de 1970, os Novos Baianos mantinham um sítio em Jacarepaguá, onde viviam um estilo de vida tranquilo e comunitário que lhes permitia compor músicas com liberdade. As cinebiografias recentes de artistas como Ney Matogrosso e Gal Costa também estão recheadas de cenas em que os protagonistas criam música e sua própria identidade visual em momentos de puro ócio criativo.

Na cultura popular, a imagem do aparente ócio do artista já está colada a esses instantes de criação, que coincidem com o desenvolvimento de algumas de suas principais obras. Mas isso é verdade na prática? O que diz a ciência sobre a importância do descanso e do lazer para o trabalho criativo?

“No momento em que você pausa e não precisa pensar em nada nem tem mais nenhum estímulo sensorial, o seu cérebro continua fazendo o que fazia anteriormente, só que numa velocidade dez vezes maior”, explica o neurologista clínico Ricardo Teixeira, doutor em neurologia pela Unicamp e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília. “Então, a pausa, de certa forma, turbina a função cerebral.”

A pausa, de certa forma, turbina a função cerebral

Teixeira cultiva desde a juventude, por influência de uma namorada, o hábito de fazer pausas ao longo dos estudos e do trabalho para tomar chimarrão ao longo do dia. “Quando eu volto para o trabalho, parece que dou um salto, que nem uma onça. Aquele parágrafo que estava travado destrava, e as ideias vêm de forma muito mais clara”, conta.

O neurologista também evoca pesquisas que mostram que atividades artísticas, a exemplo de criar uma pintura, ativam áreas do nosso cérebro relacionadas ao inconsciente, como os núcleos de base e o cerebelo. Portanto, impulsionar nossa criatividade vai muito além do pensamento lógico e consciente. Teixeira compara o funcionamento do cérebro humano a uma orquestra que, para dar certo, precisa de equilíbrio entre todos os seus componentes — o que requer um descanso adequado e também momentos de ócio que impedem até uma sobrecarga.

Quando isso não acontece, claro, o resultado são muitas das tendências que vemos por aí, como a síndrome de burnout, que, além dos impactos físicos e psicológicos, leva também a prejuízos consideráveis no desempenho. “Quando você libera o hormônio do estresse, o cortisol, ele vai agir principalmente nas regiões temporais e da memória, como os hipocampos, que acabam ficando adormecidos. Então, as pausas te dão um ritmo para se proteger”, explica o neurologista.

Desculpe por descansar

Como apontado por De Masi, o ócio não se refere à inatividade pura e simples. Os períodos considerados ociosos também nos permitem entrar em contato com uma série de referências essenciais para o processo criativo, como sabores, sons, músicas, cores e imagens, aponta o professor e coordenador da pós-graduação em criatividade na ESPM Thiago Gringon.

“A gente só consegue um repertório rico se tiver tempo para perceber e coletar essas referências, descobrindo coisas que geralmente não são conhecidas ou estão orbitando os assuntos que eu já acompanho”, afirma. Gringon defende a importância central do tédio para a nossa criatividade, pois é nos momentos em que nos sentimos entediados que nossa mente começa a devanear. Seja enquanto tomamos um cafezinho ou olhamos pela janela, podem surgir insights, ideias e soluções para problemas até então insolúveis.

Esse, aliás, é outro momento tipicamente referenciado na cultura pop. Basta lembrar das cenas da série “House” (2004-2012), em que o mau humorado protagonista resolve os mais intrincados enigmas médicos bem no meio de uma atividade ou conversa absolutamente banal. E isso também é bastante real na vida. Quantas vezes já não te aconteceu de uma resposta na qual você vinha trabalhando há muito tempo aparecer do nada, bem quando você já não está mais pensando nela?

“A ideia do ócio é não fazer nada mesmo, tirar essa pressão da performance e só tomar seu café ou buscar formas nas nuvens — coisas que para nós parecem irrelevantes ou até infantis, mas que contêm essas oportunidades para os insights surgirem”, defende Gringon, que também é especialista em neurociência aplicada à educação e mestre em economia criativa.

Quantas vezes já não te aconteceu de uma resposta na qual você vinha trabalhando há muito tempo aparecer do nada, bem quando você já não está mais pensando nela?

A ênfase na performance, aliás, tem a ver com uma tendência contemporânea de buscar produtividade em ações geralmente voltadas ao lazer, incluindo hobbies. Por exemplo, o caso de uma pessoa que passa a ler livros ou assistir a filmes mais para cumprir metas do que aproveitar de fato essas atividades. Embora excelentes instrumentos para catalogação pessoal, redes sociais como o Letterboxd e o Skoob acabam também incentivando essa visão, que pode ter mais a ver com números do que com aquilo que essas produções nos fazem sentir de maneira pessoal.

Para Gringon, tem a ver com o fato de que hoje somos bombardeados com uma quantidade incalculável de conteúdos, que brigam o tempo todo pela nossa atenção. “A gente tem não sei quantas novas séries, novos filmes, podcasts… Aí o FoMO [o medo de ficar de fora] fica cada vez maior, e a gente passa o nosso tempo consumindo, consumindo, consumindo.” Se, por um lado, isso ajuda a enriquecer nosso repertório, também pode ter um efeito quase tão prejudicial para a mente quanto o do trabalho exaustivo.

Além disso, também há uma participação considerável da lógica de intensa produtividade vendida hoje no mundo corporativo, na visão do sociólogo Ruy Braga. “A mercantilização do trabalho coloniza todas as esferas da vida social. Ela submete o tempo de lazer, de formação, da família ou da cultura, enfim, o tempo livre ao seu princípio, que é o da produtividade”, declara.

Essa mesma lógica tem parte crucial no fenômeno recente da culpa ligada aos períodos de descanso. Um estudo realizado pelo LinkedIn em 2023 aponta que 35% dos trabalhadores da geração Z nos EUA se sentem culpados por não estarem trabalhando durante as férias — gerando, em vez do tão almejado descanso, ainda mais estresse e ansiedade. “Esse tipo de sociedade do esgotamento no trabalho é a antítese daquilo que o Domenico pregava”, afirma Braga.

Como ser um ocioso do bem

Mesmo sabendo da importância deles, Gringon confessa que ainda é um desafio cultivar seus momentos de ócio no dia a dia. O professor tem conseguido mantê-los por meio de pequenas atitudes, como desligar as redes quando chega em casa, assistir a desenhos pela manhã e tornar regra ao longo do dia as pausas para o cafezinho ao lado dos colegas de trabalho.

Ele também contesta em parte a visão de De Masi sobre o ócio ser um momento que precisa levar à criação, já que ela flerta com essa mesma visão de que o descanso e o relaxamento precisam gerar algum tipo de produtividade. “O Emicida defende que o ócio não tem que ser criativo. Faz sentido que o momento de lazer seja produtivo, mas você não tem que produzir coisas que vão te trazer dinheiro ou que você vai vender”, declara.

O ócio, para ele, precisa resgatar o sentido de brincar da infância, quando não tínhamos a meta de transformar a diversão em performance ou carreira. E dá como exemplo a tendência dos livros de pintar “Bobbie Goods”, que surgiram como uma simples atividade de lazer e escapismo, mas ganham outra figura a partir do momento em que as pessoas começam a postar seus resultados artísticos nas redes e fazer comparações.

Ao dar aulas voltadas à criatividade, o professor busca inserir ações que têm a ver com essa ideia, como exercícios de meditação ou a proposta de dar uma volta no quarteirão sem nenhum objetivo específico. Mas até uma atividade lúdica que costuma realizar junto aos alunos pode virar uma questão de produtividade ao longo do tempo. “Eu instituo um desafio de descobrir pelo menos uma coisa nova por semana. E aí, para alguns, vira uma competição de quem descobre mais músicos”, conta.

Embora cite o célebre método Pomodoro — técnica que divide o trabalho em blocos de 25 minutos com intervalos de cinco —, o neurologista Ricardo Teixeira enfatiza que o ideal é que cada um aceite seu próprio ritmo. “Quando trabalho 50 minutos, eu preciso de uma pausa. Levanto e vou tomar água ou o meu chimarrão.” Ele também reforça a importância de um sono adequado para que a mente não se desgaste.

No caso de momentos de ócio mais prolongados, a receita também é a gosto do freguês. Ou seja, cada um deve fazer no tempo livre aquilo que o ajuda a relaxar e sentir prazer: praticar exercícios físicos, ler um livro, assistir a um filme. O neurologista, no entanto, aconselha que esse descanso seja menos digital, já que ficar rodando o feed das redes, em vez de relaxar, pode deixar o cérebro ainda mais exausto. Sem contar que acaba tomando tempo e espaço de atividades realmente prazerosas.

Mussak destaca que o fato de a felicidade e a saúde mental no trabalho hoje serem discutidos — algo que não acontecia num passado não tão distante — é por si uma amostra positiva de como o bem-estar e o direito do trabalhador ao lazer se tornaram pautas mais fortes. Por outro lado, vê como um dos maiores desafios aprendermos a lidar melhor com o tempo.

Ele admite, por exemplo, que às vezes se perde com o uso das redes sociais e conta que permite apenas meia hora por dia de uso de telas para o filho pequeno. “O resto do tempo, ele vai ter que fazer outro trabalho. Se ficar entediado, o tédio é um ótimo estimulante à criatividade. Então vai montar Lego, ler um livro, desenhar. É uma questão de disciplina, senão nós somos consolados r assombrados por essa fonte de prazer imediato”, afirma.

No entanto, o lazer e o ócio criativo não devem ser apenas iniciativas individuais, aponta Braga; elas precisam envolver toda a sociedade. “O Domenico defendeu políticas públicas capazes de garantir a contenção dessa onda de mercantilização do trabalho, desse impulso de colonizar todas as formas de convivência e solidariedade com esse princípio da produtividade econômica”, diz.

Segundo o sociólogo, De Masi sempre foi favorável aos direitos trabalhistas e à criação de uma renda básica universal, políticas públicas que permitiriam às pessoas agir de acordo com os próprios objetivos e vontades, e não com aquilo que é imposto pela economia.

“Ele entendia que só mesmo uma sociedade que se repensasse e redistribuísse o tempo social e a riqueza de forma muito radical teria condição de assegurar esse tempo livre, a liberdade para que os indivíduos pudessem interagir de forma cooperativa e empática.”

Um assunto a cada sete dias