Artigo

Filantropia e a maquiagem verde

Os riscos de dedicar recursos fundamentais para a transformação sistêmica a práticas cosméticas esverdeadas

Maureen Santos 30 de Março de 2026

A filantropia no Brasil e no mundo vem, cada vez mais, conectando-se em rede e convergindo sua atuação em questões que articulam preocupações ambientais e climáticas com seus desdobramentos sociais e econômicos. Essa visão, fundamental para pensar transformações sistêmicas de médio e longo prazo, vem sendo impactada por promessas de soluções fáceis e resultados rápidos, que acabam beneficiando projetos que não alteram o status quo, mas o aprofundam, gerando novas categorias de maquiagem verde.

Vivemos tempos nebulosos, em que a crise sistêmica global se expressa por meio de múltiplas crises interligadas (ecológica, financeira, social, civilizatória, sanitária, hídrica, climática, humanitária, entre outras). Trata-se de uma crise estrutural que vem colapsando sistemas políticos e sociais em diversos países, povos e comunidades, contribuindo para o aumento do conservadorismo e da violência, bem como para a perda de esperança no futuro.

Soluções fáceis nunca serviram para responder a problemas complexos, como já alertava, há mais de meio século, o jornalista americano Henry Louis Mencken. Ainda assim, muitos seguem buscando simplificação e imediatismo quando se trata de promover mudanças reais.

Há algum tempo, ao estudar a gourmetização dos alimentos e, posteriormente, mudanças legislativas para a redução do uso de plástico individual e promoção de produtos biodegradáveis, deparei-me com simplificações que não desafiavam os problemas de fundo para os quais buscavam solucionar. Revelaram tendências que não desafiam o status quo, nem enfrenta, nos casos, a insegurança alimentar e nutricional ou a poluição plástica — dois problemas gravíssimos que ainda estão longe de serem solucionados.

A salvação prometida pelo mercado de carbono vem resultando em novas simplificações para o enfrentamento da crise climática

As soluções propostas em ambos os casos reforçavam abordagens individuais (com foco no consumidor), implicavam aumento ou transferência de custos (e danos) e privilegiavam o mercado e/ou o sistema financeiro como agentes da mudança, com o conveniente esquecimento de sua própria responsabilidade na origem dos problemas. Além de não tocar em questões fundamentais relativas à saída de uma economia baseada em combustíveis fósseis e de uma devastadora cadeia agroindustrial global. No fundo, tratavam-se de maquiagem verde.

No debate climático e da transição justa, a salvação prometida, há mais de três décadas, pelo mercado de carbono — voluntário e oficial — como instrumento de descarbonização do planeta, vem resultando historicamente em novas simplificações para o enfrentamento da crise climática e na consolidação de um ecossistema robusto de soluções cosméticas, dissociadas de políticas públicas estruturantes e de participação social de quem mais protege o clima e o meio ambiente. Resultado: um processo de transição eterna a espera de milagres tecnológicos enquanto o termômetro da Terra só aumenta.

O uso das emissões líquidas zero como método e prática, por exemplo, transformou-se em promessas de ESG de longo prazo por parte dos setores de petróleo dos países mais poluidores, evitando medidas drásticas de corte e redução efetiva das emissões no curto, médio e longo prazo. Isso tem resultado na ampliação de mecanismos de compensação de emissões e na criação de zonas de sacrifício, com aumento de conflitos e a expropriação do ar, da terra e dos recursos de muitas comunidades indígenas e tradicionais no Brasil e no mundo.

Dimensões profundas, como identidade e gestão comunitária dos bens comuns, vêm sendo apagadas ou esvaziadas por métricas e indicadores que não levam em conta o conhecimento tradicional e popular em suas formulações. Quando não se produz o necessário desconforto ao formular perguntas, pode ser que as respostas que queremos ouvir já são dadas por nós mesmos. Isso empobrece projetos, programas e metas de futuro. A criatividade transformadora e o reconhecimento de que na terra, na floresta, nas águas, na periferia e comunidades, muitas práticas, soluções e tecnologias sociais já estão sendo implementadas em nome da sobrevivência de modos de vida e existências.

Será que funciona propor a redução drástica do consumo de carne sem tocar na crítica ao modelo de produção agroindustrial nacional e global?

Descortinar esses debates nos espaços de reflexão da filantropia pode avançar em caminhos mais viáveis para o surgimento de proposições e a valorização de processos altamente transformadores vindos de distintos territórios. Isso eleva a seriedade dos planos e impactos esperados e pode dar um basta em ciclos insustentáveis de soluções falsas à crise sistêmica.

Por exemplo, será que funciona propor a redução drástica do consumo de carne sem tocar na crítica ao modelo de produção agroindustrial nacional e global? ou formular propostas frente à crise climática, sem incluir a demarcação de terras indígenas e a titulação de territórios quilombolas e tradicionais? Ou defender a presença de lideranças sociais nos fóruns oficiais com participação qualificada, mas sem apoiar projetos de formação e capacitação para suas bases? Ou discutir financiamento climático, mas sem governança e baseado em mais endividamento dos países?

A filantropia que deseja promover transformação sistêmica e ser catalizadora de soluções nessa transição, precisa refletir criticamente sobre tais abordagens e ampliar o diálogo com quem está e atua nas margens dos problemas — não apenas por seu papel privilegiado no acesso a recursos financeiros escassos mas, sobretudo, por ser agente fundamental na construção de pontes entre distintos setores, na visibilidade dos atores centrais e na formulação de estratégias capazes de produzir mudanças reais.

Maureen Santos é cientista política e ecologista. É coordenadora do Núcleo de Políticas e Alternativas, da FASE, professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e coordenadora da Plataforma Socioambiental do BRICS Policy Center. Possui mestrado em Ciência Política pela UFRJ e graduação em Relações Internacionais pela UNESA. Há duas décadas dedica seu trabalho à educação popular, advocacy, engajamento e construção de redes e articulações sobre comércio internacional, integração regional, meio ambiente e mudanças climáticas. É observadora das negociações da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) desde 2008.

logo beja

Este conteúdo integra uma série especial sobre a COP, realizada com apoio do Instituto Beja, do Instituto Toriba e do Instituto Clima e Sociedade.