Artigo

E se o Sul Global redesenhasse a COP?

Sem redistribuição real de poder, a conferência corre o risco de se tornar um ritual diplomático cada vez mais distante das sociedades que afirma proteger

Daniel Calarco 23 de Março de 2026

Não existe negociação internacional simples. Quando falamos da COP30, em Belém, não foi diferente. Agora é preciso fazer um exercício quase isotópico: analisar o que aconteceu, entender os sinais e escolher as próximas batalhas em um mundo que caminha em meio a guerras e tensões crescentes.

Lembro bem do quanto corri pelos corredores da zona azul tentando entender a suspensão das negociações em determinados momentos. Ouvi com espanto que, ao final, o mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis poderia aparecer no acordo final. Havia expectativa de que o Brasil faria história com essa entrega.

Mas uma das agendas mais marcantes da conferência não aconteceu dentro do centro de convenções. Aconteceu em um barco, navegando pela Amazônia. E o tema não era o que havia acontecido nas negociações, mas o que poderia acontecer. Esse é um exercício que costuma perder espaço nos grandes eventos internacionais, já que o ego personaliza a experiência, a urgência limita a criatividade, e a falta de criatividade trava as soluções climáticas mais ousadas, disruptivas e inovadoras.

Quem vive em vulnerabilidade aprende cedo que o clima não é tema de conferência. É condição de existência

Tecnicamente pode não parecer relevante, mas eu cresci em favela. Para mim, chuva nunca foi apenas água caindo do céu. Era medo, era risco, era a sensação de que a vida podia desabar junto com uma encosta.

Escrevi sobre isso em “Quem tem medo de chuva?”. A cada trovão no céu, o coração aperta. Porque quem vive em vulnerabilidade aprende cedo que o clima não é tema de conferência. É condição de existência.

Talvez por isso exista uma pergunta que sempre retorna quando observo o sistema climático internacional:

Quem decide o futuro do planeta e em que língua essa decisão é tomada?

Em novembro de 2025, a COP30 aconteceu em Belém, no Hangar Convenções e Feiras da Amazônia, aproximando a conferência do clima daquilo que nos é mais palpável, os saberes e os frutos do coração da Amazônia.

Mesmo com toda a diplomacia presente em nosso território, o processo continuou operando como se estivesse em outro lugar. No tabuleiro da agenda internacional, a primeira barreira de entrada para quem vive o clima na pele não é o crachá, mas a língua. Nesse cenário, Belém evidenciou o paradoxo de uma rua que respira o português enquanto as decisões respiram o inglês.

A COP fala inglês. Belém fala português.

Na rua, no mercado, no cais, no ônibus, nas periferias amazônicas, o idioma é português — muitas vezes atravessado por sotaques, oralidades e outras línguas que carregam memórias de povos e territórios.
Mas a COP, na prática, fala majoritariamente inglês.

A ONU reconhece seis idiomas oficiais — árabe, chinês, inglês, francês, russo e espanhol. O português não está entre eles, e a Convenção do Clima segue a mesma lógica, criando um filtro silencioso, porém poderoso, em que o idioma deixa de ser um detalhe técnico. O idioma é poder.

É quem consegue entrar no texto e no subtexto das negociações, entender a dinâmica, reagir à velocidade da diplomacia, construir coalizões, escrever propostas, disputar cada parágrafo.

Quando a conferência chega ao Sul Global, mas exige que o Sul Global se traduza para participar, ela perpetua exatamente o tipo de assimetria estrutural que afirma querer combater.

A COP fala inglês. Se o Sul Global a redesenhasse, talvez o primeiro gesto fosse simples e revolucionário: colocar a linguagem no centro da democracia climática

Se o Sul Global redesenhasse a COP, talvez o primeiro gesto fosse simples e revolucionário: colocar a linguagem no centro da democracia climática. Não se trata apenas de traduzir para incluir. Trata-se de usar o multilinguismo para redistribuir poder.

Mas o idioma é apenas a camada superficial de um filtro de poder muito mais profundo. Mesmo que todos falassem a mesma língua, a mesa de negociação continuaria incompleta. Isso porque o design atual da COP ignora quem de fato opera as engrenagens de uma transição realmente justa e real: o setor produtivo e a força de trabalho.

A COP é intergovernamental. E se fosse tripartite?

A COP negocia o futuro da economia global, com decisões que alteram as diretrizes de energia, indústria, agricultura, trabalho, cidades, infraestrutura e financiamento. Mas o formato decisório é essencialmente intergovernamental, ou seja, Estados negociam entre si. Compare isso com a Organização Internacional do Trabalho. A OIT é a única agência da ONU estruturada de forma tripartite, na qual governos não decidem sozinhos as regras do trabalho. Trabalhadores e empregadores também têm assento institucional e poder na construção das normas internacionais.

Por que a governança climática, que decide o futuro do trabalho, da produção e da sobrevivência territorial, continua sendo desenhada como se a sociedade fosse apenas plateia? Quando a COP discute transição energética, ela discute trabalho. Quando discute florestas, discute meios de vida. Quando discute financiamento climático, discute quem paga a conta e quem recebe os recursos. E ainda assim, trabalhadores, territórios e comunidades aparecem apenas como “observadores”. Podem falar, mas não decidem. Se o Sul Global redesenhasse a COP, talvez surgisse uma nova pergunta: por que não criar uma arquitetura climática que reflita o mundo real, como a OIT faz com o mundo do trabalho?

Uma COP estruturada com um pilar tripartite, reunindo governos, trabalhadores (incluindo economias populares, catadores, povos da floresta) e empregadores (da indústria global às pequenas empresas). Isso não eliminaria a soberania dos Estados, mas mudaria a pergunta central das negociações de “o que os países aceitam assinar?” para “o que as sociedades conseguem sustentar?”.

Essa nova arquitetura de decisão, baseada na economia real, esbarra hoje em um elefante na sala que a diplomacia tradicional prefere ignorar, onde um novo modelo de transição justa é freado por um sistema que separa a meta climática da realidade bélica. Enquanto discutimos o futuro do trabalho, o presente é moldado por uma economia de guerra que não entra na conta.

Emissões em um mundo em guerra

Há ainda um tema que o sistema climático trata com excessiva cautela. Vivemos uma escalada de conflitos. Guerras e tensões geopolíticas moldam diretamente as emissões globais. Operações militares geram emissões diretas, infraestruturas destruídas produzem novas emissões na reconstrução, cadeias logísticas se reorganizam e populações inteiras são deslocadas.

Estudos recentes mostram que o aumento dos gastos militares está associado a maior intensidade de emissões. Ainda assim, o tema permanece praticamente ausente das negociações climáticas.

A agenda climática tornou-se, em grande medida, refém da geopolítica. Se o Sul Global redesenhasse a COP, talvez fosse necessário enfrentar o tabu da criação de uma contabilidade climática explícita para conflitos e gastos militares, pois não existe transição justa enquanto parte do planeta continua operando em economia de guerra.

Para romper esse ciclo, em que a geopolítica do conflito sequestra a agenda ambiental, é preciso inverter a bússola. A resposta para o impasse global não virá de gabinetes blindados, mas da aplicação de um novo rigor, em que o território se torna método de governança e de produção de conhecimento.

Quando o território vira método

Na Amazônia, participei de um diálogo sobre soberania epistemológica, a ideia de que os territórios mais afetados pela crise climática também precisam ter poder para produzir conhecimento e orientar soluções.
Voltei desse encontro com uma convicção clara. Não basta levar a COP para o Sul Global, é preciso levar o Sul Global para o centro do poder por meio de um novo desenho institucional da conferência.

Isso significa redesenhar o sistema com novos critérios.
Linguagem como infraestrutura democrática.
Arquiteturas de decisão que incluam sociedade e economia real.
Territórios — cidades, periferias, biomas — como unidades políticas do clima.
Geopolítica e conflitos tratados como variáveis climáticas, e não como desculpas.

Redesenhar o sistema com novos critérios de linguagem, de atores e de variáveis não é um exercício teórico. É um imperativo de eficácia. Sem essa redistribuição de poder, as conferências se tornam rituais vazios, incapazes de responder à urgência de quem não tem tempo para a abstração.

A pergunta que fica

Quando a chuva cai forte, quem mora em favela não debate o clima em abstrato. Debate se vai ter teto amanhã.

Talvez o futuro da COP dependa de uma mudança aparentemente simples, mas profundamente política: substituir a lógica da representação formal pela lógica da realidade material. Durante décadas, o sistema multilateral se organizou a partir de Estados soberanos negociando entre si, mas a crise climática expôs os limites dessa arquitetura. A COP precisa parar de pedir que o Sul Global se adapte ao seu formato e começar a adaptar seu formato ao mundo que afirma representar.

Se o Sul Global redesenhasse a COP — ou talvez até a própria ONU — o objetivo talvez fosse menos técnico e mais democrático: não apenas manter 1,5°C dentro do alcance, mas manter a própria democracia dentro do processo. Afinal, a Carta das Nações Unidas começa com uma afirmação radical para o seu tempo: “Nós, os povos das Nações Unidas”. Não diz “nós, os governos”, nem “nós, os mais poderosos”. Diz os povos.

A pergunta mais profunda que emerge da COP é sobre quem tem audácia e capacidade de imaginar o futuro coletivo da humanidade

Essa distinção nunca foi meramente retórica. Como lembra Amartya Sen, a legitimidade das instituições globais depende da capacidade de expandir os espaços reais de participação e deliberação pública. Quando os mecanismos institucionais deixam de refletir as experiências vividas pelas sociedades que pretendem governar, a governança perde densidade democrática e se transforma em ritual burocrático.
Estamos entrando agora em um novo ciclo da própria ONU. Em breve, o mundo escolherá uma nova pessoa para ocupar o cargo de Secretário-Geral. Em quase 80 anos de história, nenhuma mulher ocupou esse posto. Essa ausência não é apenas simbólica. Ela revela uma estrutura histórica de poder que continua concentrando autoridade política, diplomática e epistemológica em poucos centros do sistema internacional.

Talvez seja hora de abrir uma nova janela de futuro. E se a próxima liderança da ONU viesse do Sul Global? E se fosse uma mulher? Não como gesto de representação identitária, mas como reconhecimento de que a legitimidade do sistema internacional depende cada vez mais de sua capacidade de refletir a pluralidade real do mundo contemporâneo.

Teóricos da governança global como Dani Rodrik e Anne-Marie Slaughter lembram que instituições internacionais sobrevivem quando conseguem equilibrar eficácia, legitimidade e representatividade. Quando esse equilíbrio se rompe, surgem crises de confiança que nenhum tratado consegue resolver sozinho.

A crise climática talvez esteja nos colocando exatamente diante desse limite. Porque, no fundo, a pergunta mais profunda que emerge da COP não é apenas sobre carbono, energia ou metas de mitigação: é sobre quem tem audácia e capacidade de imaginar o futuro coletivo da humanidade.
Sem redistribuição real de poder, a COP corre o risco de se tornar um ritual diplomático cada vez mais distante das sociedades que afirmam proteger. E o clima vira apenas mais uma variável estatística em relatórios técnicos.

Eu aprendi cedo demais, na favela, que discurso não segura telhado quando a tempestade chega.

Daniel Calarco é advogado, presidente do Observatório Internacional da Juventude e diretor de Relações Internacionais do Carnaval do Rio. Atua na interseção entre governança global, justiça climática e diplomacia cultural, com experiência em iniciativas ligadas às Nações Unidas. Foi Obama Scholar na Universidade de Columbia e tem se dedicado a fortalecer a participação do Sul Global nos debates internacionais sobre novas gerações, cultura e desenvolvimento sustentável.

logo beja

Este conteúdo integra uma série especial sobre a COP, realizada com apoio do Instituto Beja, do Instituto Toriba e do Instituto Clima e Sociedade.