Artigo

No Sul Global, a filantropia precisa ser do espaço banal

Como nos ensina Milton Santos, o espaço banal é o de todos, onde há uma horizontalidade das relações entre pessoas, instituições e empresas, é o espaço das vivências

Diosmar Filho 16 de Março de 2026

As mudanças no espaço mundo ontem e hoje dão forma aos territórios e às sociedades, que em movimento desigual movem as escalas nas dimensões do Local e do Global.

Essa reflexão introdutória nos move pela geograficidade da história, nas escalas das humanidades vivenciada nas primeiras décadas do século, em três grandes eventos: primeiro, a manutenção dos crimes de racismo em sua mundialização perversa; o segundo, o reconhecimento de que a Terra está aquecendo, ou seja, estamos vivendo mudanças climáticas; e o terceiro, a pandemia Covid-19 e seu efeito devastador nas condições de saúde humana.

Embora os três eventos precisem de nossa atenção, destacarei neste diálogo o terceiro, a pandemia de covid-19 +, a primeira deste século, que nos marcou e mostrou que sem nosso poder de resiliência humana, talvez, não estaríamos dialogando neste momento. Este evento não deve ser esquecido; lembro porque tivemos condições de combater sua expansão, por meio do alerta científico do Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas (CSSE) da Johns Hopkins University, em 10 de janeiro de 2020, para fechamento dos principais aeroportos no mundo. Estávamos diante do vírus sem vacina e só as medidas drásticas de emergência sanitária controlariam a expansão nos diferentes territórios.

O alerta da Ciência foi ignorado e somente em 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou o Estado de Emergência em Saúde Global, o que resultou em 7.101.788 milhões de óbitos atribuídos à covid-19, durante e após, o estado de emergência finalizado 05 de maio de 2023.

O fim da emergência se deu pelo controle sanitário e a vacinação humana global em detrimento da negação da ciência. O relatório da OMS (2026), evidencia os óbitos em 41 países com destaque para 1.3 milhões nos Estados Unidos; 704 mil no Brasil; 534 mil na Índia; 404 mil na Rússia; 335 mil no México; 232 mil no Reino Unido e Irlanda do Norte; 221 mil no Peru; 199 mil na Itália; 175 mil na Alemanha; 168 mil na França; 162 mil na Indonésia; 147 mil no Irã; e 143 mil na Colômbia. Sendo essas as nações que mais registraram mortes no mundo. +

Os dados da pandemia lidos pelo que denominamos como ciência dos visíveis, naturalizam os crimes de racismo, assim como as 144.369.010 milhões de pessoas atingidas, impactadas ou mortas pelos eventos extremos climáticos e geológicos nos últimos cem anos, apresentados na obra “A Terra Gira entorno do Eixo Imaginário: Escala Racial Global na Natureza Terra”. Uma naturalização que nos limita a pensar que poderíamos ter evitado 400 mil mortes no Brasil na pandemia covid-19.

A decisão pelo espaço banal é um compromisso com o desenvolvimento técnico e científico, com a cultura e com a educação

Essa memória é importante para desnaturalizar os dados e confluirmos na leitura pela Ciência das Invisibilidades (veja o artigo “The Science of Invisibility in the Cities of the Global South, 2050”), como convite a não negação da ciência e a pensar no espaço banal, o espaço de todos onde a horizontalidade das relações entre pessoas, instituições e empresas é o espaço das vivências. Como nos ensinou o professor Milton Santos+, esse é o oposto ao espaço econômico.

A ciência das invisibilidades intersecciona os três eventos citados no espaço banal, para uma avaliação crítica sobre os dados filantrópicos para a região da América Latina e Caribe apresentados pelo Índice Global do Ambiente Filantrópico – GPEI+ no 1º Fórum Generosidade Sem Fronteiras (2025)+. A pesquisadora Afshan Paarlberg+ explicou que globalmente mais de 60% dos 95 países nas 15 regiões analisadas, entre 2021-2023, têm ambiente favorável à filantropia.

O GPEI fez a comparação dos seis fatores do índice (facilidade de operar uma organização filantrópica, taxas de incentivos, fluxos filantrópicos transfronteiriços, ambiente político, ambiente econômico, ambiente sociocultural) nas regiões. Na América Latina, onde o ambiente filantrópico evidEncia desigualdades profundas, a média é de 3,05 no conjunto dos seis fatores. Já a Europa Ocidental, que apresenta ambiente filantrópico altamente favorável (num mundo em desigualdade, isso não pode ser visto como sucesso), tem média de 4,58 no conjunto dos seis fatores, sendo 5.0 a maior média.

No que se refere às tendências emergentes relacionadas e à filantropia na década, são destaques no GPEI (2025) o combate às mudanças climáticas, a profissionalização das organizações e governos, o avanço na justiça social e equidade, o financiamento coletivo e a equidade de gênero. Destacando que o Índice Global de Filantropia evidenciou que as doações transfronteiriças ultrapassaram os US$ 800 bilhões anualmente e os governos não podem resolver sozinhos os problemas globais, sendo importante as ações diretas filantrópicas de assistência oficial ao desenvolvimento, remessas e investimento de capital privado.

Aqui importa atenção crítica aos resultados GPEI, voltando aos escritos de Bernardo Kliksberg (2002)+ sobre as desigualdades na América Latina como debate adiado, em estudo publicado há 24 anos, que alertava sobre os padrões de desigualdade na região como as principais chaves dos seus problemas nos diversos planos: capacidade de funcionamento, acesso a ativos, acesso ao crédito, acesso a uma educação de boa qualidade. Os estudos nesse campo ainda são limitados em toda região.

Reconhecendo os efeitos da covid-19 na saúde global e os dados GPEI (2025) em criticidade, sinalizamos que a filantropia nas múltiplas escalas nacional, regional e global, precisa decidir se manterá o investimento nos espaços econômicos ampliando a naturalização global das desigualdades ou se comprometerá com a cooperação para tornar o espaço banal o padrão das condições de vida no século.

A decisão pelo espaço banal é um compromisso com o desenvolvimento técnico e científico, com a cultura e com a educação, pela cooperação transfronteiriça (regional) e interna (nacional), com a eliminação das desigualdades, com combate ao racismo e às mudanças climáticas. É o que garantirá também justiça de gênero e equidade na saúde pelo aumento das capacidades dos territórios resilientes que salvam vidas e que desenvolvem o Sul Global pelo Bem Viver.

Diosmar Filho é geógrafo, doutor em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador Sênior e Coordenação Científica da Associação de Pesquisa Iyaleta. e-mail: diosmarfilho@iyaleta.org

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