COLUNA

Círculo de Poemas

Sobre fotos e afetos

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, analisa um poema de Ana Costa dos Santos, sobre fotografia

08 de Julho de 2025

“Seja o que for o que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que vemos.” É interessante (e um pouco angustiante) pensar sobre essa afirmação de Roland Barthes, no seu clássico ensaio sobre fotografia, “A câmara clara” (1980), diante de uma estimativa que li dias atrás: apenas em 2024, tiramos quase dois trilhões (sim, dois trilhões!) de fotos. Não dá nem para imaginar o que é tudo isso. O que se registra nessas imagens todas? Onde vão parar tantas fotos? Uma parte delas, decerto, vai para as redes sociais, outra circula em mensagens privadas, grande parte está arquivada nas memórias, nas nuvens…

Não é que as fotos tenham perdido a capacidade de preservar (guardar o passado), mas essa sua função se embaralhou com outra, que parece mais urgente: levar-me até o outro, trazer o outro até mim

Se, no século 19, fotografar surge disputando com a pintura a tarefa de guardar o presente (que logo será passado) para olhos futuros, é curioso pensar que agora, para os autores daqueles trilhões de imagens, fotografar — e logo enviar/postar — talvez seja cada vez mais uma forma de comunicação no presente, imediata, aqui e agora. Do presente para o presente. Não é que as fotos tenham perdido a capacidade de preservar (guardar o passado), mas essa sua função se embaralhou com outra, que parece mais urgente: levar-me até o outro, trazer o outro até mim. Se, de certo modo, fotografar era uma luta contra o tempo (contra o apagamento que o tempo opera), agora cada foto nasce, especialmente, como uma luta contra o espaço, contra a distância. Faz sentido? Enfim, nada como um poema para nos ajudar a pensar.

*

Punctum
Recebo fotos pouco nítidas,
às vezes tortas,
de roseiras florindo,
pedaços de nuvens,
luzes de Natal,
um inseto alado,
velhos cães,
bolinhos de chuva,
meu pai, alegre,
sob as laranjas do pé,
no quintal
onde também se sofre.
É amor o que recebo,
do tipo que mais punge:
imperfeito.

*

O poema de Ana Costa dos Santos, em seu (brilhante!) terceiro livro de poemas, “Voo breve sob o sol”, evoca o ensaio de Barthes em seu título, porque o “punctum” de uma foto, segundo ele, é o elemento capaz de picar, cortar, ferir, pungir (verbo retomado pela poeta na estrofe final). Você olha para uma foto e, dentre os muitos detalhes de que a imagem se compõe, há algo que se destaca, algo que punge. A poeta parte daí e nos lança numa conversa do WhatsApp, diante de “fotos pouco nítidas,/ às vezes tortas”. Não há nada de extraordinário nas fotos — o “punctum” delas está no próprio gesto de enviar a foto: “É amor o que recebo”. Cada foto é uma forma de dizer “gostaria que seus olhos também estivessem aqui”, isto é, “gostaria que você estivesse aqui”.

Importante lembrar que grande parte dos poemas de “Voo breve sob o sol” foi escrita durante a pandemia, em que vencer distâncias, mesmo muito curtas, era impossível para muita gente. Enviar uma foto, um “olá”, demonstrar que o outro estava na sua lembrança, nesse contexto, foi uma forma fundamental de varar um pouco a solidão de quem estava distante, ou melhor, distanciado. A voz que fala no poema recebe as fotos de alguém (o pai mencionado no poema?), vindas de longe (desde a casa com quintal grande, com árvores, que se opõe ao apartamento em que se ambientam outros poemas do livro?), e, mais do que por qualquer ponto da imagem, é tocada pela forma como cada foto declara o desejo de estar junto, conversar, compartilhar tempo quando o espaço impede. Fazer-se presença e evocar a presença de quem amamos. Conviver.

No poema de Ana Costa dos Santos, o olhar acrescenta amor à foto, mas ela já está envolta em amor. Um amor perfeito, talvez, em sua imperfeição

Não é, portanto, pelos olhos que as fotografias, no poema, pungem. É pela carga de amor que elas carregam. Por isso, ao exemplificar as fotos recebidas (roseiras, nuvens, cães, bolinhos etc.), mais do que falar daquilo que o fotógrafo quis mostrar, a poeta quer chamar atenção para o que ele quis demonstrar — e demonstrou. Esse jogo entre mostrar (coisas) e demonstrar (afetos) é a força da foto. Barthes nos ensina que o “punctum” é algo que acrescentamos à foto (com nossa forma única de olhar), mas que já está nela. No poema de Ana, o olhar acrescenta amor à foto, mas ela já está envolta em amor. Um amor perfeito, talvez, em sua imperfeição. Como uma foto “feia” que amamos; como um amor, imperfeito, em que nos reconhecemos plenamente.

Produto

  • Voo breve sob o sol
  • Ana Costa dos Santos
  • Círculo de Poemas
  • 112 páginas

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Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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