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Repertório

Como compartilhar a comida do mundo

Conheça iniciativas que comprovam a ligação entre alimentação e partilha, seja dividindo alimento e conhecimento ou mobilizando a luta coletiva

Ana Mosquera 28 de Agosto de 2022

Como compartilhar a comida do mundo

Ana Mosquera 28 de Agosto de 2022

Conheça iniciativas que comprovam a ligação entre alimentação e partilha, seja dividindo alimento e conhecimento ou mobilizando a luta coletiva

Nunca se falou tanto em comida e também na falta dela. Ao mesmo tempo, quem tem acesso ao alimento nem sempre vai encontrá-lo em sua forma mais saudável, dadas às investidas agressivas da grande indústria, que vende misturas de pouco tempo de preparo e por preço reduzido. Isso sem falar na quantidade de agrotóxicos encontrados não só nos produtos in natura, mas na água que se bebe.

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A opinião de quem luta para combater a fome, e pelo acesso a uma alimentação de qualidade e saudável para todos é unânime: é preciso mudar o sistema alimentar vigente.

“Idealmente não deveriam existir iniciativas como essas, porém há a necessidade urgente de ações contra a fome e a desigualdade, e também a oportunidade de inspirar a cocriação de um futuro onde as pessoas tenham acesso à comida”, diz Michael Oliveira, líder comunitário da Social Gastronomy.

De modo a driblar a insegurança alimentar e fortalecer cadeias produtivas mais justas, bem como seus atores sociais – incluindo povos originários e comunidades tradicionais –, organizações do terceiro setor, projetos sociais, coletivos, cooperativas e outros grupos vêm se empenhando para encontrar alternativas para a questão.

Gama selecionou uma série de iniciativas inspiradoras que trabalham o tema da alimentação e partilha, seja dividindo o pão, ao pé de letra, seja compartilhando conhecimentos, tecnologias e, claro, amor, para resolver a crise alimentar.

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    Rizoma Cooperativa Integral

    Lisboa, Portugal

    Sem fins lucrativos e autogerida, a Rizoma Cooperativa Integral existe há dois anos em Lisboa, e se baseia no modelo de mercado da Park Slope Food Coop, fundada em Nova York, nos anos 1970, e espalhada por países como a França. 

    O modelo prega comida de qualidade a um preço justo — para produtores e consumidores. Incentivando o senso de comunidade, todos que colaboram com a Rizoma são também proprietários e levantam as mangas pelo projeto.

    Hoje são cerca de 400 proprietários, divididos em nove grupos de trabalho, sendo que cada pessoa dedica três horas mensais à cooperativa. “Tudo começou com a partilha de uma insatisfação sobre o sistema alimentar até chegar na partilha de como levar soluções adiante”, diz a Gama Claraluz Keiser, integrante da Rizoma Coop.

    A transparência é mesmo a alma do negócio e, na loja, cada produto traz o preço de custo e o valor com a margem de 30%, destinada à manutenção do projeto.

    Além da mercearia com foco em produtos sustentáveis, orgânicos e de produção local, a Rizoma conta com um espaço de coworking e um bar, o Rizobar, em cuja cozinha os alimentos da loja são reaproveitados em refeições.

    Nossa ideia foi criar, para além de uma mercearia, uma comunidade. O Rizobar ajuda no fator agregador de pessoas, porque todos podem se conhecer e socializar”, diz Keiser.

    Seguindo a onda que os inspirou, ela conta que também estão abertos para partilhar informações com quem queira começar um projeto similar: “Ficamos felizes em multiplicar”.

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    OLIO App

    Mundial

    O aplicativo, que conecta vizinhos e consumidores com empresas locais, visa garantir que alimentos que seriam descartados possam ser compartilhados.

    Vale para produtos próximos à validade nos estabelecimentos, pães amanhecidos de uma padaria local, o excedente de uma horta caseira ou até aqueles alimentos que sobraram na geladeira ou frigobar do hotel ou da casa alugada.

    Na ferramenta, o usuário pode cadastrar os seus itens alimentares e outros produtos domésticos, bem como encontrar algo que esteja precisando no momento – por um preço acessível, colaborando para uma cadeia sustentável.

    O OLIO App já funciona em diversos países do mundo, inclusive no Brasil.

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    Favela Orgânica

    Rio de Janeiro, Rio de Janeiro

    Criado nas comunidades Babilônia e Chapéu Mangueira, o projeto soma onze anos de história e tem por trás as mãos habilidosas e cheias de vontade de Regina Tchelly: “Ensinamos as pessoas a multiplicar a comida, a evitar o desperdício e a partilhar o alimento, resgatando saberes populares e a comida de verdade”.

    Uma das propostas é ensinar receitas que possam melhorar a alimentação caseira, sem gastar muito ou quase nada. “Se a pessoa tem uma xícara de arroz, incentivo a botar a casca de banana verde, por exemplo, e fazer um risoto com sabor de peixe.”

    Assim, o que iria para o lixo vira comida, ou ao menos pode servir para a composteira que vai alimentar a horta de casa – conhecimentos também partilhados nos cursos que a cozinheira e empreendedora social já ministrou em outros estados, e na França, Itália e Uruguai.

    “Ensinamos as pessoas a consumir o necessário, a plantar e a fazer compostagem. É um trabalho educacional do ciclo do alimento”, ela diz, lembrando que também faz parte da partilha devolver à terra o que ela dá.

    Compartilhar esses saberes com uma linguagem democrática e acessível é outro ponto fundamental para que esses aprendizados conceitos cheguem a ainda mais pessoas, como ela fala, além de incluir bondade e amor no modo de preparo.

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    Eesti Toidupanka

    Estônia

    O banco de alimentos da Estônia atende 14 mil pessoas por semana, com os objetivos de combater a pobreza e reduzir a insegurança alimentar. Boa parte dos alimentos são doados por supermercados, bem como são provenientes de ajuda alimentar da União Europeia e de doações particulares.

    É possível doar os alimentos por meio de máquinas em mercearias pelo país, porém campanhas de coleta também são realizadas de tempos em tempos, por voluntários.

    O projeto ainda incentiva que moradores avisem caso conheçam pessoas em situação de vulnerabilidade social, para que elas possam fazer o cadastro e colher os benefícios do programa, mesmo que não estejam ligadas a entidades sociais.

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    ASFB (Associação Slow Food do Brasil)

    São Paulo

    Responsável por marcas e programas do movimento Slow Food Brasil, a Associação é o braço jurídico de apoio à rede presente em mais de 160 países, que tem como lema o alimento bom, limpo e justo para todos.

    Desde junho, quem cadastrar no site da Nota Fiscal Paulista o CNPJ da ASFB, para doação automática de cupons fiscais, e colocar o CPF na nota, colabora indiretamente com a execução de projetos ligados à valorização da biodiversidade e da cultura alimentar, a incidência política e a promoção da educação alimentar e do gosto.

    O objetivo inicial, segundo Elaine Diniz, coordenadora administrativa e financeira da ASFB, é ganhar autonomia financeira: “É dar sustentabilidade à instituição e, assim, dar continuidade ao trabalho, ampliar a equipe e conseguir atuar em mais ações junto à rede”.

    Conseguir a certificação de entidade cultural pelo estado de São Paulo foi fundamental para captar recursos, o que é um eterno desafio para o terceiro setor, sobretudo quando os ideais falam mais alto.

    “As diretrizes têm que estar alinhadas com os valores do movimento. Várias empresas têm interesse no financiamento, mas não temos como aceitar esse dinheiro”, fala Glenn Makuta, coordenador de articulação de rede pela ASFB.

    Ele conta que eles vêm estudando parcerias com institutos de comércio justo e restaurantes conectados com os conceitos do movimento, e que possam doar os cupons para a Associação.

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    Rede Mulheres Produtoras do Pajeú

    Pernambuco

    Espalhado por onze municípios de Pernambuco, o coletivo reúne quase 300 mulheres agricultoras e artesãs, divididas em 26 grupos.

    O projeto surgiu em 2005 como forma de empoderar as mulheres do sertão, por meio da agroecologia e da economia solidária, permitindo que outros temas importantes fossem colocados em pauta: questões de gênero e violência doméstica.

    Com o apoio da Rede, hoje, os alimentos produzidos pelas mulheres em seus quintais são destinados não só para o consumo da família, mas para as panelas dos vizinhos – já que a partilha sempre foi uma prática comum a esse grupo – e para a comercialização, incluindo a venda para programas governamentais.

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    Social Gastronomy

    Mundial

    A Social Gastronomy, que tem como co-fundador David Hertz, da Gastromotiva, reúne mais de 300 membros, em mais de 60 países, com a intenção de promover transformações sociais por meio da gastronomia.

    A partilha se manifesta de diversas formas, segundo Oliveira, seja ela de refeições, da missão comum de facilitar o acesso ao alimento, da visão de um futuro mais justo, e do conhecimento e dos modelos organizacionais, como dos desafios daqueles que tentam criar um sistema alimentar saudável e sustentável.

    A campanha #UniversalPlate, que acontecerá de setembro a outubro, convoca cada pessoa a compartilhar uma refeição com quem precisa e a expectativa é de três milhões de pratos distribuídos. Mas ele lembra que o objetivo vai além: “compartilhar para demonstrar solidariedade, unir comunidades e inspirar colaboração.”

    “A gastronomia, quando tem um foco social, é capaz de transmitir os melhores valores do ser humano: generosidade, colaboração, empatia, otimismo, criatividade, amor e, é claro, compartilhamento”, diz o presidente da Fundación Gastronomía Social, no Chile, Rafael Rincón Magro.

    Oliveira reforça a mensagem, citando o papel da comida em romper obstáculos aparentemente intransponíveis.

    “Quando nos reunimos à mesa, as barreiras sociais, políticas e econômicas desaparecem, a dinâmica do poder é deixada na porta e nos concentramos em nutrir a nós mesmos e ao coletivo.”

    A organização vem atuando de forma expressiva no Chile, como conta Magro. Além do programa “Alimentos para Todos”, que distribui refeições para pessoas vulneráveis, e da capacitação de novos cozinheiros, uma iniciativa com foco na educação infantil está em andamento.

    “Los Niños se Comen el Futuro” (em tradução livre, “As Crianças Comem o Futuro”) visa criar uma política pública para incluir a disciplina de cultura gastronômica nas escolas, e um projeto piloto já vem trabalhando com 180 crianças, de seis anos, em uma instituição do distrito de La Pintana.