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Reportagem

Trauma climático: qual o impacto psicológico de eventos extremos?

Tragédias recentes, como tornados, enchentes e períodos de seca, revelam os custos das mudanças climáticas também para nossa saúde mental

Leonardo Neiva 30 de Novembro de 2025

Trauma climático: qual o impacto psicológico de eventos extremos?

Leonardo Neiva 30 de Novembro de 2025

Tragédias recentes, como tornados, enchentes e períodos de seca, revelam os custos das mudanças climáticas também para nossa saúde mental

“Quando eu saio de casa, preciso procurar um lugar para respirar melhor. A gente fica meio sem saída, sufocado com tanta fumaça. Até ir para o trabalho fica difícil.” O relato de Luís Silvério de Sousa, 62, presidente de uma cooperativa de agricultores familiares no município de Breves, na Ilha do Marajó, dá conta das secas cada vez mais frequentes nos verões da região, localizada no estado do Pará.

Além de impactar a qualidade de vida, a estiagem também traz desafios para a produção e o deslocamento, que geralmente é feito de barco e acaba afetado pela baixa dos rios. “Não tem como ficar tranquilo. Você fica doente, não consegue dormir, sente uma ansiedade sobre o futuro”, revela o agricultor.

Cerca de um a cada quatro adolescentes da região disseram ter algum sofrimento mental ligado a eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, incêndioss e chuvas intensas, aponta um estudo realizado este ano pelo Instituto Mondó. Como fator de risco, os eventos aumentam em 35% a chance de esses jovens sofrerem de depressão. Já entre os adultos, principalmente pais e professores, 50% disseram ter sua saúde mental impactada.

Não tem como ficar tranquilo. Você fica doente, não consegue dormir, sente uma ansiedade sobre o futuro

“[Na Ilha do Marajó], existe uma população ribeirinha extensa que sofre com a seca e enchentes, pois em algumas épocas do ano, chove sem parar”, revela Rodrigo Arruda, do núcleo de impacto do Instituto e coordenador do estudo. “E também, por causa da degradação do meio ambiente. Por conta das queimadas, a cidade de Breves ano passado ficou tomada pela neblina.” Para ele, o índice dos adultos, alto em comparação com o dos jovens, tem a ver com uma maior percepção do impacto daquilo que está acontecendo no ambiente ao redor.

Quem acompanha o noticiário sabe que eventos climáticos extremos são manchetes cada vez mais frequentes — e mais e mais próximas dos brasileiros. No início de novembro, o estado do Paraná foi impactado por um dos casos mais destrutivos de sua história. O tornado que atingiu o município de Rio Bonito do Iguaçu deixou um saldo de sete mortos, 773 feridos e destruiu mais de 1.500 casas, causando prejuízos para ao menos 80% da população da cidade. Poucos dias antes, em outubro, o furacão Melissa já havia deixado mais de 100 mortos no Caribe.

Já o Rio Grande do Sul ainda passa por um processo de retomada após as enchentes que atingiram o estado entre abril e maio de 2024, com mais de R$ 100 bilhões investidos até agora pelo governo federal em ações como a construção de moradias, infraestrutura e obras de prevenção contra novos desastres.

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Embora mortos, feridos e cidades destroçadas sejam a face mais visível dos desastres climáticos, a pesquisa e depoimentos como o do agricultor Luís Silvério de Sousa mostram que seus impactos podem ser muito mais internos e profundos. Um estudo recente da Universidade da Califórnia em San Diego traça um panorama dessa realidade, com foco nos incêndios florestais ocorridos no norte da Califórnia em 2018, que deixaram 85 mortos e mais de 50 mil pessoas desalojadas.

A equipe de pesquisadores descobriu que esse eventos geraram em um terço da população condições crônicas de saúde mental, como depressão, ansiedade, déficit de atenção e, em casos mais graves, quadros de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Mais do que isso, a pesquisa aponta, após um ano do ocorrido, mudanças duradouras na cognição e no comportamento dos moradores, com um impacto considerável para a capacidade de tomar decisões.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores conduziram um experimento em que os participantes precisavam decidir entre opções que trariam benefícios a curto e longo prazo. “Especificamente as decisões a longo prazo foram afetadas de forma considerável”, conta a professora de psiquiatria da universidade, Jyoti Mishra, uma das autoras do estudo.

“Eles tomavam decisões que seriam menos benéficas a longo prazo”, explica Mishra, que é co-diretora da Iniciativa de Resiliência Climática da instituição. Ou seja, passaram a agir de forma mais imediatista, possível sequela dos momentos de pura busca por sobrevivência. Ainda segundo a pesquisadora, o trauma gerado por eventos climáticos extremos pode ser comparável ao de uma situação de guerra.

O que nos afeta

Os efeitos psicológicos dos primeiros dias e semanas após eventos climáticos dependem muito do grau de exposição que o indivíduo sofreu, de acordo com o psicólogo especialista em trauma e TEPT Christian Haag Kristensen.

“A pessoa pode experimentar uma desorientação e também reviver memórias indesejáveis. Algumas reações emocionais que observamos são estados de choque, de medo intenso e respostas como vergonha ou raiva do ambiente em que ela se encontra”, afirma o coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse da PUCRS. O grupo ajudou a capacitar e orientar voluntários no primeiro atendimento às vítimas das enchentes no estado.

Outras reações naturais nesses momentos, segundo Kristensen, são a sensação de fadiga, dificuldade de dormir, isolamento e uma necessidade exagerada de controle. Embora para a maioria das pessoas esses sintomas sumam com o passar do tempo, em alguns casos eles podem se solidificar em quadros de transtorno.

Num exemplo grave como o do Rio Grande do Sul, a perda das moradias e de estruturas centrais para as comunidades, como instituições de saúde, acaba agravando esses quadros, segundo o psicólogo. “Em regiões do estado que já tinham sido afetadas por outras duas enchentes anteriores, impactou ainda mais gravemente a atividade econômica. Isso vai fragilizando as populações e comunidades.”

A escritora Júlia Dantas, que relatou na internet a experiência de conviver com os efeitos das enchentes, falou sobre esse impacto prolongado em entrevista ao podcast da Gama, em setembro de 2024: “Para nós não acabou, a enchente ainda perdura até hoje, tanto no que a gente está esperando reconstruir, quanto no que a cidade ainda tem por fazer.”

Se esses acontecimentos têm efeitos devastadores nos adultos, imagine o quanto podem ser assustadores para crianças e adolescentes, que são confrontados da noite para o dia com situações de risco de vida e retirados de suas casas para viver em abrigos, cercados de pessoas que não conhecem. Para mitigar esse impacto, “o papel dos pais e responsáveis é filtrar e contextualizar o que está acontecendo, auxiliando a criança a desenvolver um senso realista de expectativa”, aponta o psicólogo. Assim, é possível reduzir concepções catastróficas que estejam se formando na cabeça dos pequenos, dando uma perspectiva mais otimista de que aquela situação será temporária.

Uma mancha no comportamento

A figura do profissional de saúde psíquica que atende vítimas de desastres ambientais já vem surgindo em lugares como o popular romance “O Colibri” (Autêntica Contemporânea, 2024), do italiano Sandro Veronesi. Nele, um psiquiatra amigo do protagonista decide largar a prática clínica para prestar socorro a pessoas pelo mundo, do Haiti aos atingidos pelo rompimento da barragem de Mariana (MG). “Psicologia em emergências. Entrei em um programa na OMS que se ocupa de prestar assistência psicológica às populações afetadas por eventos catastróficos”, é como o personagem descreve sua nova atividade profissional.

A médica psiquiatra Graziela Stein foi uma das voluntárias que atenderam vítimas das enchentes do ano passado no estado gaúcho. “Perto do nosso condomínio, tivemos a ação rápida de montar um abrigo na escola do meu filho. Foi muito imediato e bonito. Todo mundo que tinha algo para doar, foi doando”, conta.

O trauma, diz Stein, fez com que pessoas que nunca sofreram transtornos passassem a desenvolver ansiedade e depressão; e quem já os tinha, visse seu quadro se agravar ainda mais. “Só em situações extremas assim é que um ser humanos consegue entender a própria fragilidade”, afirma a psiquiatra. Além dos sintomas individuais, a profissional aponta mudanças coletivas, como o surgimento de um medo antecipatório que ainda atinge boa parte da população.

“Hoje, as pessoas que passaram por isso monitoram constantemente o tempo em seus celulares. Quando tem um alerta meteorológico, elas se avisam, deixam de sair e se recolhem mais cedo. Esses desastres naturais estão deixando impactos permanentes no comportamento da sociedade.”

Quando tem um alerta meteorológico, as pessoas se avisam, deixam de sair e se recolhem mais cedo

Na esteira das tragédias ambientais cada vez mais frequentes, Kristensen lançou ano passado na PUCRS um curso voltado aos primeiros socorros psicológicos às vítimas. Algumas das principais instruções: fazer com que as pessoas se sintam seguras e próximas de suas comunidades; fornecer necessidades básicas; se comunicar numa linguagem simplificada, com escuta ativa e empatia; e incentivar ações positivas, como o descanso, a alimentação regular e o relaxamento.

Essas orientações claras, segundo o especialista, são cruciais em momentos de urgência, nas quais o atendimento psicológico pode acabar ficando em segundo plano. Ele também destaca a importância de um acompanhamento psicológico mais intenso e duradouro nos casos de adoecimento prolongado — algo que precisa ser sempre providenciado pelo poder público.

Abraço coletivo

Um dos aspectos que diferenciam os efeitos psicológicos do clima de outros tipos de trauma é a sua coletividade — afinal, eles impactam de maneira similar comunidades inteiras. Essa característica, aliás, pode ser uma das chaves para o processo de tratamento e recuperação. “Descobrimos que o apoio social, o quanto as pessoas se sentem conectadas às suas famílias e comunidades, é um dos fatores centrais para a resiliência. Inclusive, foram poucas as pessoas que tinham boas conexões sociais que desenvolveram sintomas”, afirma a pesquisadora Jyoti Mishra.

Por isso, ações de acolhimento são importante desde os primeiros momentos após uma tragédia, como forma inclusive de prevenir um quadro de estresse pós-traumático, que pode levar até seis meses para se consolidar, destaca Stein. “Poder desabafar com o outro, contar o que aconteceu e como você está se sentindo ajuda a processar na mente da pessoa aquilo que até então era inimaginável para ela”, declara. Um esforço que vai contra nosso impulso natural de calar sobre o que sofremos, estratégia geralmente pouco eficiente para fazer aquele sofrimento sumir. “As pessoas precisam falar sobre o que viveram e sentiram para não consolidarem o trauma.”

O quanto as pessoas se sentem conectadas às suas famílias e comunidades é um dos fatores centrais para a resiliência

Além do senso de comunidade, o acesso prévio a algum tipo de terapia é outro fator que reduz as chances de desenvolver sintomas após eventos climáticos, de acordo com Mishra. Além disso, alguns itens já naturalmente ligados à saúde mental, como os hábitos saudáveis de sono e a saúde física, seguem importantes também para nosso psicológico pós-desastres.

Hoje, as vítimas do tornado no Paraná vêm recebendo suporte psicológico do SUS e de profissionais voluntários. Mais de um ano após as enchentes, crianças e adultos gaúchos ainda sofrem com transtornos gerados pelo trauma das enchentes. Um estudo contínuo conduzido pela UFRGS aponta que hoje os mais impactados psicologicamente são aqueles de renda mais baixa e que tiveram as maiores perdas no desastre — ou seja, a estabilidade financeira é também fator central para a recuperação.

Com as mudanças climáticas e desastres cada vez mais frequentes, os especialistas consultados por Gama são unânimes na defesa de mais estudos sobre o assunto e do investimento em ações para mitigar esses impactos psicológicos, que só devem aumentar nos próximos anos. “A tragédia climática vai acontecer com todo mundo, não tem quem nos salve disso. Eu tenho uma maior preocupação no sentido de que tudo que se previa que ia acontecer está acontecendo muito antes do que se pensava. Essa sensação de urgência aumentou para mim”, revela a escritora Júlia Dantas em entrevista para a revista.

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