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Reportagem

Carnaval: hora de abrir alas na relação?

Período pode trazer mudanças para o casal, monogâmico ou não; especialistas apontam melhores formas de lidar com elas e os acidentes de percurso

Leonardo Neiva 02 de Março de 2025

Carnaval: hora de abrir alas na relação?

Leonardo Neiva 02 de Março de 2025

Período pode trazer mudanças para o casal, monogâmico ou não; especialistas apontam melhores formas de lidar com elas e os acidentes de percurso

“Vamos sentindo aos poucos.” Esse foi o único acordo que o assistente de enfermagem paulistano fez com o namorado, com quem estava saindo havia alguns meses. Foi em 2023, no primeiro Carnaval oficial pós-pandemia, que o acordo entrou em vigor — mas deu problema quase tão rápido quanto começou. “Enquanto estava beijando outro cara, percebia que ele ficava parado, me olhando de longe.”

O jovem, hoje com 25 anos, prefere não se identificar. Ele lembra que o parceiro não admitiu logo de cara, mas continuou bastante quieto ao longo daquele dia. “Teve uma hora que ele sumiu e não atendia nem o telefone.” A DR foi acontecer só no dia seguinte, ocupando uma tarde inteira que poderia ter sido melhor gasta em algum bloco de rua, ele admite. Quando finalmente saíram de novo, a cláusula única do acordo tinha sido reescrita. “Era eu com ele, ele comigo e só”, conta rindo.

“A única certeza do brasileiro é o Carnaval no próximo ano”, diz uma frase atribuída ao escritor Graciliano Ramos (1892-1953). Já para Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “as duas fontes de sonho” do povo brasileiro são o futebol e o Carnaval. Esses e outros ditos famosos evidenciam a importância da celebração no país, vista por muita gente como uma festa fora do tempo e espaço que conhecemos — quase como uma realidade alternativa.

As pessoas imaginam que é a última oportunidade para viver absolutamente tudo, porque depois o ano começa, a vida volta ao normal, e elas têm que se concentrar novamente no trabalho

E, como em toda nova realidade, as regras não são bem as mesmas que conhecemos. Uma pesquisa recente realizada pelo site de relacionamentos extraconjugais Gleeden apontou que 87% dos brasileiros acreditam que uma traição é mais aceitável se acontecer no Carnaval. E 86% afirmam que a festa estimula novas experiências sexuais. Assim como no caso citado acima, são vários os relatos de casais que decidiram abrir a relação temporariamente ou mudar de vez o status do relacionamento a partir da celebração.

“[O Carnaval] é sempre um espaço para o estranhamento permitido de si mesmo e do outro. Onde, vamos dizer assim, o profano ocupa o lugar do sagrado por um tempo”, afirma o psicanalista Lucas Bulamah, doutor em psicologia clínica pela USP. Por isso, é natural que o período traga uma permissividade em relação àquilo que tentamos esconder o restante do ano. “E com relacionamentos não é diferente”, reforça o psicanalista.

O sociólogo e pesquisador Rhuann Fernandes evoca o trabalho do antropólogo Victor Turner, especialista em ritos e processos sociais, para explicar o que acontece com muita gente às portas do Carnaval.

“Existe uma linearidade da vida, que representa uma ordem estrutural e hierárquica da sociedade. Ou seja, a normalidade, caracterizada pela previsibilidade e manutenção das normas sociais”, aponta Fernandes, que é doutorando em ciências sociais. Celebrações e eventos tradicionais como o Carnaval, porém, seriam capazes de jogar as pessoas num momento que o antropólogo define como a liminaridade, onde as normas da nossa existência regular deixam de valer.

De acordo com o pesquisador, a festa permite inverter situações cotidianas e experimentar novas formas de sociabilidade. “Durante o Carnaval brasileiro, os papéis sociais se tornam fluidos, as expressões populares ganham protagonismo e a vida cotidiana é reduzida a um período de intensa comunhão coletiva”, explica.

No caso brasileiro, a festa funciona praticamente como um limiar no tempo. Ou nunca ouviu aquela frase básica: o ano só começa depois do Carnaval? Essa visão pode explicar em parte porque tanta gente decide mudar o status do relacionamento no período, diz Mayumi Sato, sócia e diretora da eSapiens, empresa que gere o Sexlog, rede social de encontros sexuais e swing com mais de 23 milhões de usuários.

“As pessoas imaginam que é a última oportunidade para viver absolutamente tudo, porque depois o ano começa, a vida volta ao normal, e elas têm que se concentrar novamente no trabalho. Tem uma euforia comunitária acontecendo.”

(Des)Afinados

“Não dá para ter ciúmes. Carnaval é só uma vez no ano”, prega um casal monogâmico que diz que “todo ano abre a relação no Carnaval” — e que todo ano “dá merda”. Enquanto a dupla se mostra bastante liberal no discurso, cenas dos “bastidores” revelam uma série de brigas e desconfortos. O vídeo não passa de uma esquete do perfil de humor @malhassaum, mas ajuda a ilustrar os ciúmes e as dificuldades que alguns casais encontram de abrir exceções no relacionamento por um tempo tão curto.

Para começar, tem o próprio problema do tempo. Afinal, nas grandes cidades, o pré-Carnaval, com seus blocos de rua, costuma começar semanas antes da data oficial. Então tudo fica liberado desde então? Ou só no final de semana e feriado correspondentes? Segundo os especialistas, até isso precisaria ser definido com antecedência.

Para Sato, a escolha pela mudança geralmente nasce de um descontentamento que já existe em relação à vida sexual no relacionamento. Ela reforça a importância do diálogo sobre as fantasias de cada um dentro da relação e aponta que, atualmente, grande parte dos casais que decidem alterar seu status em meio à folia já chegam ao período carnavalesco bem afinados e organizados.

A psicóloga e terapeuta de casal Solange Rosset concorda que hoje as pessoas estão mais hábeis para lidar com esse tipo de mudança do que no passado. Ela aponta que a conversa é necessária, mesmo que não haja nem mesmo uma abertura propriamente dita na relação. “Pode ser mais no sentido de ‘eu vou para o Carnaval sozinho e o outro não’. Ou vamos nós dois e cada um vive a sua vida. Ou vamos nós dois curtir juntos”, exemplifica Rosset, autora de livros como “O Terapeuta da Família e de Casal” (Editora Artesã, 2021) e “Temas de Casal” (idem, 2017).

Em casos menos permissivos, diz a especialista, é importante estabelecer algum tipo de acordo. Quanto mais claro, melhor. “Se acontecer alguma coisa que desagrade, como vamos lidar com isso? Para além do contrato, como lidar com a dificuldade se ela surgir?”, considera a terapeuta, para quem a lucidez de ambas as partes é crucial antes, durante e após esse período.

Se acontecer alguma coisa que desagrade, como vamos lidar com isso? Para além do contrato, como lidar com a dificuldade se ela surgir?

Outro ponto levantado pela especialista é que todas as partes envolvidas precisam estar no mesmo barco, o que raramente acontece. Segundo Rosset, com frequência uma das pessoas não tem a mesma disponibilidade que o parceiro para viver aquela brecha na relação. Mas, por não querer perder o outro ou para evitar algum tipo de problema no casal, acaba concordando.

“Como terapeuta, já vi isso milhares de vezes”, lembra a especialista. Ela afirma que, em relações heterossexuais, os homens costumam ter mais dificuldade de lidar com a ideia de suas parceiras saindo com outras pessoas. “Muitos acabam aceitando situações que de fato não aceitam. E às vezes nem a pessoa tem clareza disso. Então, na hora em que vai rolar uma relação a três ou quando ela precisa aceitar que seu parceiro ou parceira se envolva com outra pessoa, surgem sentimentos e incômodos.”

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Vamos abrir a roda

Como também já mostramos aqui na Gama, não é só porque uma relação é aberta ou liberal que tudo é permitido. Pelo contrário, cada casal desenvolve ao longo do tempo os próprios acordos. Se aquilo que foi definido não for seguido por uma ou por ambas as partes, isso também pode acarretar problemas no relacionamento.

O gaúcho Ricardo de Freitas, 41, que é supervisor de um mercado, mantém uma relação aberta com a esposa há cerca de cinco anos. Mesmo durante o Carnaval, o casal tem como critério sair junto todas as vezes. “Sempre procuramos um homem, uma mulher ou um casal que tenha os mesmos ideais nossos, os mesmos fetiches”, ele explica.

Para Freitas, é importante que essas relações que os dois vão construindo pelo caminho se estendam para além do sexo, evoluindo em direção a uma verdadeira parceria: “Uma boa amizade conta muito também. Criar uma relação é um complemento.”

A representante do Sexlog, Mayumi Sato, destaca que, apesar da euforia e ansiedade que costuma dominar boa parte dos casais não monogâmicos conforme a celebração se aproxima, eles geralmente já estão mais precavidos. “Poucos vão deixar sem combinar alguma coisa. Porque faz parte desse universo alimentar o desejo, conversar sobre o que fazer, planejar e falar muito sobre as fantasias”, afirma.

Para ela, esse período anterior de fantasia em conjunto pode até ajudar as pessoas a separarem o joio do trigo, entendendo quais fetiches fazem sentido na vida real. Sato destaca, porém, que é preciso ter acordo sempre — mesmo que a única regra seja não ter regra, e ainda que seja específico para o período da festa. A diferença é que quem vive uma relação aberta ou liberal já está acostumado a ter esse diálogo de forma mais recorrente e natural.

Nesse sentido, Sato lembra de duas histórias quase opostas que aconteceram com conhecidos seus. Em uma delas, o casal combinou de cada um passar o feriado com uma turma, sem dar mais detalhes. No final, descobriram ali na hora que a turma era a mesma. “Eles começaram a fingir que não se conheciam, muito naturalmente, sem se programar. Passaram o tempo todo cada um com seu respectivo peguete”, ela conta. “Quando voltaram à vida normal, aquilo apimentou ainda mais a relação.”

Esse foi o case de sucesso. O outro exemplo é de um casal que vivia uma relação aberta, em que um deles relatou que passaria o período num retiro bastante tranquilo. “Mas ela ficou sabendo que esse retiro era de pegação total, todo mundo pelado o tempo todo”, lembra Sato. “Considerou uma traição, porque ele não precisava ter inventado essa história para que os dois tivessem curtido cada um na sua.”

Todo Carnaval tem seu fim

Como bem nos lembra o título da canção dos Los Hermanos, é impossível o Carnaval durar para sempre. Como exceção à vida cotidiana, em algum momento a normalidade precisa se restabelecer — senão, de acordo com a sabedoria popular, o ano não começa. “Se o Carnaval funciona como um momento ritualístico de transgressão e liberdade, paradoxalmente, no final dele, você tem uma ordem e rotina retomadas”, explica o sociólogo Rhuann Fernandes.

O especialista lembra também que, por mais que tudo seja conversado e acordado previamente, as pessoas vivenciam esse momento com intensidades variadas. “Tem pessoas que extrapolam esse momento e se apaixonam, mesmo sabendo que são casadas”, aponta. Ele considera que essa concessão abre uma nova experimentação no relacionamento, que pode ter efeitos a longo prazo. “A intensidade da discussão pode fazer com esse acordo fixo, mesmo monogâmico, seja repensado e reavaliado.”

Os problemas podem surgir quando um dos lados do casal percebe que o parceiro tem muito mais disposição do que ele imaginava para viver desejos que ainda não tinham sido admitidos dentro da relação. Essa é a visão do psicanalista Lucas Bulamah, para quem o principal desafio a partir dali é voltar à convivência normal com a pessoa, sabendo da forma como ela se apresentou no Carnaval.

O Carnaval tem um quê de tirar a fantasia do baú para depois, na Quarta-Feira de Cinzas, voltar à vida normal. Só que às vezes não é assim

“O Carnaval tem um quê de tirar a fantasia do baú para depois, na Quarta-Feira de Cinzas, voltar à vida normal. Só que às vezes não é assim”, declara. Para o psicanalista, essa complexidade, desejo ou até violência descoberta no outro pode deixar marcas inapagáveis na relação. “Como todo arranjo institucional, o casal opera com uma ilusão: a de que o outro é passível de ser conhecido em sua totalidade, de ser previsível.”

Por isso, Bulamah não recomenda viver essa experiência a quem não está disposto a lidar com o desconhecido e o imprevisível. Nesse sentido, considera que a traição em si pode ser uma alternativa até mais “segura” para a ideia de previsibilidade, já que a pessoa se permite viver esses mesmos desejos de forma oculta.

“Eu conheço bastante casal que consegue abrir [a relação] no Carnaval, brincar junto ou separado, e depois voltar para a vida normal. Mas conheço ainda mais gente que abriu e nunca mais conseguiu fechar a relação, ou teve que terminar depois, porque percebeu que talvez não fosse aquilo que queria viver”, conta o psicanalista.

O que aconteceu com o auxiliar de enfermagem do início deste texto não foi nem uma coisa nem outra, já que a experiência nunca mais se repetiu. Ele e o namorado pularam juntos o último Carnaval. Este ano, já estão saindo em bloquinhos desde as primeiras semanas de fevereiro. Agora tudo está melhor definido: a regra única é a exclusividade. “[Abrir a relação] deve dar certo para muita gente. No nosso caso, acho que ficou melhor do jeito que está mesmo.”

Um assunto a cada sete dias