Quando vamos olhar para a Amazônia?

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Bloco de notas

Livros recentes com a temática amazônica

Obras para compreender as complexas camadas de um território belo, diverso e ainda negligenciado

Livros recentes com a temática amazônica

31 de Agosto de 2025

Obras para compreender as complexas camadas de um território belo, diverso e ainda negligenciado

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    Viajar para a Amazônia na companhia do poeta Mário de Andrade (1893-1945)? Pode parecer um sonho impossível, mas ele é plenamente realizável nas páginas do livro “O Turista Aprendiz” (Tinta-da-China, 2024). Na obra, o escritor relata sua jornada junto com a comitiva da mecenas Olívia Guedes Penteado, que o levou até o Peru e a Bolívia, em 1927 — um ano após a conclusão de “Macunaíma”. O livro, que estava pronto quando Andrade morreu, em 1945, só foi sair quase três décadas mais tarde e ganhou agora uma nova edição. Com uma apresentação da pesquisadora e tradutora Flora Thomson-DeVeaux,  que verteu o volume para o inglês, a leitura se torna ainda mais instigante quando descobrimos que a viagem é resultado direto do interesse do autor pelos  trabalhos de antropólogos e exploradores sobre as cosmologias de povos indígenas. Por isso, ele vinha ansiando pelo contato direto com a Amazônia e suas variadas culturas.

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    A pergunta que intitula Como Salvar a Amazônia: Uma busca mortal por respostas” (Companhia das Letras, 2025) orientava a última viagem do jornalista britânico Dom Phillips (1964-2022) pela floresta amazônica, quando ele ainda escrevia o livro-reportagem. Phillips acreditava que ouvir os povos originários e agir coletivamente era o caminho para enfrentar desafios políticos, a pressão do agronegócio e as ameaças do colapso climático. No dia 5 de junho de 2022, ele e o indigenista Bruno Pereira, seu companheiro de viagem, foram assassinados no Vale do Javari. O livro foi concluído graças ao esforço conjunto de amigos do jornalista — prova de que balas não bastam para calar uma causa.

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    Quem é o responsável pelo surgimento dos restos mortais de sete jovens indígenas largados no lixão? E por que o filho desaparecido de Maya não está entre eles? “Os Urubus Não Esquecem” (Todavia, 2025), de Pedro Cesarino, é um romance que começa repleto de pontos de interrogação. Assim como em outras de suas obras de ficção, o escritor, antropólogo e professor da USP dá um mergulho nos dilemas atuais da Amazônia, preenchendo a atmosfera pesada deste thriller com a bruma das queimadas ilegais. Enquanto isso, uma mãe precisa lidar com a ação de madeireiros, narcotraficantes e políticos corruptos na busca incessante pelo filho.

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    Uma das figuras indígenas mais importantes do mundo, o cacique Raoni vem há décadas encabeçando uma luta ininterrupta pela preservação da floresta amazônica e pelos direitos dos povos originários. Conhecemos bem a sua trajetória como líder, pajé e cuidador dos mẽtyktire-mẽbêngôkre, também chamados de kayapó e txukarramãe, mas pouco sabemos sobre os caminhos que o levaram a assumir uma posição de tanto destaque no cenário contemporâneo. Em “Memórias do Cacique” (Companhia das Letras, 2025), Raoni relembra os passos dados em direção a ser quem ele é hoje. O livro, escrito a partir de entrevistas realizadas pelos seus netos — seus tabdjwy — entre 2020 e 2023, condensa dezenas de horas, divididas em várias sessões, em que Raoni se aprofunda sobre sua jornada desde a meninice, os primeiros contatos com os brancos, as muitas mudanças que acompanhou ao longo do tempo e as histórias e os mitos que o formaram. Falando em mẽbêngôkre, língua tradicional do povo kayapó, a obra é resultado de uma tradução meticulosa para o português feita por uma equipe liderada pelo antropólogo Fernando Niemeyer, que assina o prólogo.

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    Com a proposta de fugir do frequente olhar exótico para a Região Norte, surge a coletânea de contos “Sol Abrasador Prepara Solo Fértil” (2025), como estreia do catálogo da editora orlando. Na obra, a vencedora do Prêmio Literário de Manaus 2020 Myriam Scotti constrói um mosaico de vozes amazônicas, que abrange desde seringueiros até moradores de periferias urbanas. Embora diferentes, todos os personagens carregam como pano de fundo a vivência em um território marcado por beleza, hostilidade, resistência e esquecimento. A apresentação do livro é assinada pela escritora Bianca Santana, que já foi colunista da Gama e hoje é mediadora do clube do livro da revista.

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    Desde que pisou na Amazônia pela primeira vez, lá no ano de 1992, e se apaixonou pela imensidão da floresta, o médico cancerologista e escritor Drauzio Varella voltou à região mais de cem vezes. No livro “O Sentido das Águas: Histórias do Rio Negro” (Companhia das Letras, 2025), o autor de obras como “Estação Carandiru” (Companhia das Letras, 1999) apresenta as paisagens, a diversidade de povos do gigante afluente do Amazonas, a riqueza de línguas e as trajetórias de moradores que foi conhecendo pelos caminhos em mais de três décadas de viagens, além de narrar o trabalho científico que realiza ali, de pesquisas botânicas ligadas à farmacologia.

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    Em “Sob os Tempos do Equinócio: Oito mil anos de história na Amazônia Central” (Ubu Editora, 2022), o arqueólogo Eduardo Neves, que pesquisa a Amazônia há 30 anos e é uma das principais vozes sobre a proteção da floresta hoje, faz uma reconstituição de oito mil anos de história da ocupação humana da Amazônia central – de 10 mil anos atrás até o século 16, com a chegada dos europeus. Ele aborda populações indígenas que ali viveram há milhares de anos e manejaram espécies e plantações e mostra achados arqueológicos que apontam para trocas com outras populações do continente, como a andina. Góes Neves já foi entrevistado pela Gama, em 2020, quando declarou que o Brasil não tem ideia do que é a Amazônia.

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    Em “O Silêncio da Motosserra: Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia” (Companhia das Letras, 2024), o jornalista Claudio Angelo, que tem o engenheiro ambiental Tasso Azevedo como coautor, faz um panorama histórico do desmatamento desde os anos 1970, quando avançar pela floresta era política de Estado e incentivos eram concedidos a fazendeiros interessados em plantar suas monoculturas na região da Amazônia. É ao mesmo tempo familiar e revelador ler a extensa apuração que envolveu quatro anos e mais de 130 entrevistas, além da minuciosa investigação em documentos científicos e do Itamaraty. O livro conta, por exemplo, que os primeiros dados sobre desmatamento foram levantados por uma equipe formada por dois mestrandos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ainda na década de 1970. Que a cientista Clara Pandolfo, que dirigia a frente de recursos naturais da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) foi uma pioneira da sustentabilidade, ainda que fosse obcecada por uma ideia arcaica de progresso. Foi dela a ideia de pedir o monitoramento do Inpe para ter registros do desmatamento feito pelos projetos agropecuários. Angelo contou mais sobre o trabalho a Gama, em 2024.

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    A Amazônia hoje é composta de utopias e distopias. Em “Utopias Amazônicas” (Ateliê Editorial, 2025), organizada pelo professor e documentarista Marcos Colón, pesquisadores escrevem sobre as possibilidades de transformação e do bem viver nessa região onde a ideia de distopia está diretamente relacionada à destruição. Ao longo das páginas, ensaios sobre utopias indígenas e a possibilidade do amanhã.

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    Ganhador dos prêmios Jabuti, APCA e Portugal Telecom, Bernardo Carvalho traz em “Os Substitutos” (Companhia das Letras, 2023) a complexa relação do Brasil com a Amazônia, e nos convida a pensar a destruição dessa região. Durante os anos de ditadura militar no país, um pai e filho viajam à floresta num bimotor. Ele um empresário envolvido com militares ligados ao governo; e o menino, de onze anos, um leitor de ficção científica. Ao longo do livro, o menino vai fundo em uma novela de ficção científica na qual, após o fim do nosso planeta, um grupo de eleitos parte numa jornada exploratória do espaço. Enquanto assistimos um país disposto a leiloar suas riquezas.

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