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Reportagem

Educar pela floresta: a importância dos saberes ancestrais na Amazônia

Experiências educacionais na região amazônica revelam como tradição e ciência podem caminhar juntas na formação das novas gerações e na preservação da memória indígena

Ana Elisa Faria 31 de Agosto de 2025

Educar pela floresta: a importância dos saberes ancestrais na Amazônia

Ana Elisa Faria 31 de Agosto de 2025

Experiências educacionais na região amazônica revelam como tradição e ciência podem caminhar juntas na formação das novas gerações e na preservação da memória indígena

Na Amazônia, a educação não se limita às paredes das salas de aula. Rios, florestas e roçados sempre foram espaços de transmissão de conhecimento entre gerações, onde a memória oral dos mais velhos molda a vida comunitária e as formas de existir no mundo. Hoje, em meio à pressão do avanço econômico e à emergência climática, cresce a consciência de que esses saberes não são apenas uma herança cultural: trata-se de ferramentas essenciais para pensar o futuro de toda a humanidade.

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Iniciativas lideradas por povos originários têm mostrado que é possível conciliar tradição e ensino formal. Do Médio Solimões, no Amazonas, ao Baixo Madeira, em Rondônia, projetos educacionais indígenas afirmam identidades, resgatam línguas, inspiram jovens e articulam novos modelos pedagógicos — gastando pouco, já que a natureza e os objetos locais substituem os materiais didáticos convencionais.

“A educação escolar indígena tem que ser diferenciada, conforme a nossa realidade, a nossa cultura, os nossos costumes e por meio do nosso olhar. É uma forma de resistência e de transformação”, comenta Edson Kambeba, comunicador, ativista climático e discente do curso de formação de professores indígenas em ciências humanas e sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Coari.

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Experiências de protagonismo das comunidades se somam a um movimento nacional que luta pela valorização da educação indígena e contra o epistemicídio. No Maranhão, o Centro de Saberes Tenetehar, elaborado pelos tenetehar-guajajara no território Arariboia, une conhecimentos técnicos e acadêmicos com tradições ancestrais, uma parceria entre o Instituto Tukan e o governo estadual. A iniciativa é referência no debate sobre ensino diferenciado, ao mostrar que é possível formar jovens para o mercado de trabalho sem romper com sua ancestralidade.

No âmbito federal, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, defende a criação da primeira universidade indígena do Brasil, um passo histórico para garantir que a educação respeite cosmologias, linguagens e modos de vida. No entanto, como lembram lideranças e especialistas ouvidos pela Gama, o caminho exige a superação de obstáculos de infraestrutura, o racismo institucional e a falta de políticas públicas consistentes.

A floresta e os anciões como escola e biblioteca

Para o historiador Edson Kayapó, doutor em educação, pesquisador das questões amazônicas e indígena, professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA) e diretor da Associação Nacional de História (ANPUH), a escola brasileira ainda falha em reconhecer a contribuição dos indígenas para o país. “Quando lembram de nós, é quase sempre em abril, como se fôssemos povos do passado. Mas estamos no presente e os nossos saberes são fundamentais para enfrentar crises atuais, como a climática”, alerta.

O docente recorre a um pensamento do arqueólogo Eduardo Góes Neves sobre contribuições dos povos originários. “Ele diz que a própria Amazônia é fruto da construção e do conhecimento indígena. É uma paisagem historicamente produzida e cultivada por esses povos.”

Pajés, curandeiras, parteiras e benzedeiras são as nossas universidades e bibliotecas

Na prática, segundo Kayapó, a educação ancestral questiona o antropocentrismo, trabalhando a ideia de que todas as dimensões de vida são essenciais. “Sejam elas árvores, rios, pássaros, peixes, o ar, as montanhas. Todas são importantes, assim como nós também somos igualmente importantes.”

A educação indígena também reafirma a posição dos mais velhos e dos pequenos como pilares de transmissão de sabedoria. “Pajés, curandeiras, parteiras e benzedeiras são as nossas universidades e bibliotecas”, conta Kayapó. Na outra ponta, as crianças são vistas como seres sagrados, capazes de conversar, por exemplo, com as plantas, com as formigas e com os beija-flores. “Elas têm uma sensibilidade que nós vamos perdendo ao longo do tempo”, conclui.

Pedagogia da afirmação indígena

No distrito de Nazaré, na região do Baixo Madeira, do lado rondoniano do rio, a educadora, escritora e pesquisadora Márcia Mura, a Tamanak, membro do Coletivo Mura e do Movimento Wayrakunaa, trabalha com a chamada pedagogia de afirmação indígena.

O método traz para o centro da aprendizagem as memórias dos anciãos, as danças, os cantos, a língua e a literatura indígena, conectando esses elementos a disciplinas formais como matemática ou química. “Mostramos que é possível dialogar entre os saberes tradicionais e os componentes curriculares. Essa pedagogia combate a invisibilidade e o apagamento, reafirmando a nossa identidade e o nosso pertencimento”, explica.

É uma maneira, de acordo com Mura, de trazer as crianças e os jovens para perto da história dos antepassados, apresentando referências culturais que, por conta de influências externas, acabam sendo afastadas dos mais novos.

Mura fala que a pedagogia da afirmação indígena não está presa a uma instituição escolar. Ela acontece na vivência, nos territórios, nas comunidades, no dia a dia. “Sempre relacionando o aprendizado ao ambiente.”

Ela exemplifica: ao acompanhar a retirada do veneno da mandioca para produzir farinha, os estudantes aprendem química. No roçado, ao medir o tempo de colheita do milho, discutem matemática. E ao observar a floresta e recolher matérias-primas para a produção de artefatos culturais, dialogam com a geografia e as artes.

A participação da juventude é essencial nesse processo. “Os jovens estão reflorestando o solo, plantando, e também reflorestando as mentes. Eles são educomunicadores, artistas e guardiões da memória”, acrescenta.

Escola Viva Madzerokai: formando futuros mestres

A antropóloga e pesquisadora Francy Baniwa, autora de “Umbigo do Mundo” (Dantes Editora, 2023), coordena a Escola Viva Madzerokai — palavra que significa lugar da transmissão do conhecimento —, na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. Ali, 13 conhecedores indígenas ensinam cantos, danças, cestaria, benzimentos, narrativas, literatura e artes às novas gerações. “Não estamos apenas promovendo oficinas, mas formando futuros mestres”, grifa.

Para Francy, a diferença da educação centrada nos conhecimentos ancestrais está na autoria. “Por muito tempo achamos que a Escola Municipal Indígena Nossa Senhora da Assunção [instalada no território] fosse nossa, mas vimos que não, porque ela tem um sistema que não reconhece os nossos conhecimentos”. A Madzerokai, então, nasceu para preencher esse vazio. “Para que nossos doutores, que são os nossos pais, nossos conhecedores, sejam reconhecidos como mestres dos saberes.”

Cerca de 300 estudantes, entre crianças e jovens, participam das atividades, sempre em diálogo com a escola formal local — quem estuda de manhã, frequenta a Madzerokai à tarde, e vice-versa. Ela destaca ainda que o aprendizado começa onde se vive. “Antes de aprender a tocar um instrumento, os jovens precisam conhecer de onde ele vem, se a matéria-prima está no igarapé ou na terra firme, quanto tempo demora para construí-lo, como ele é pintado.”

Não é a universidade que guarda a chave da sabedoria, ela está aqui, no território vivo, na floresta, na mata, nos rios

O tesouro maior está em olhar para o próprio chão, para o entorno, como descreve Francy. “Não é a universidade que guarda a chave da sabedoria, ela está aqui, no território vivo, na floresta, na mata, nos rios. É bom ter experiências fora, mas aqui está a nossa riqueza, é onde estão concentrados os nossos conhecimentos.”

Entre tradição e ciência

A relação entre ancestralidade e futuro também é fundamental para os paiter suruí, em Rondônia. O líder maior Almir Narayamoga Suruí, pai da ativista Txai Suruí, defende que a educação indígena precisa ser no mínimo bilíngue e reconhecer a sabedoria dos anciãos como parte dos currículos. “Conhecimento científico e tecnológico deve se aliar aos conhecimentos tradicionais e ancestrais dos povos indígenas da Amazônia. Muito do que sabemos não é reconhecido, mas pode contribuir com o bem-estar do mundo”, diz.

A liderança dos paiter suruí recorda também de uma parceria com a Unicamp, ainda em desenvolvimento, para construir uma universidade, pensada para preservar e compartilhar a filosofia e a política de seu povo. “Seria um espaço para armazenar e valorizar nosso conhecimento e compartilhá-lo oficialmente com o mundo”, detalha.

Currículos que excluem

Gersem Baniwa, professor do departamento de antropologia da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI), fala que entre 15% e 20% do currículo das escolas indígenas estaduais, municipais e federais contemplam de fato as histórias e os saberes dos povos originários. É muito pouco”, garante.

Segundo ele, as universidades tradicionais não conseguiram incorporar os conhecimentos indígenas de forma consistente, mesmo após anos de políticas de cotas. “Os alunos indígenas aprendem muito sobre o mundo branco, mas acabam desaprendendo muito de suas próprias culturas. Isso é grave.”. Para Baniwa, a universidade indígena multiétnica pode corrigir esse desequilíbrio.

Por escolas e professores indígenas valorizados

No município de Coari, interior do Amazonas, Edson Kambeba é um dos 48 alunos da Universidade Federal do Amazonas participantes de uma formação de professores indígenas. “Esse curso é fruto de uma luta do movimento indígena. Nós seremos os primeiros da região a nos formar em pedagogia intercultural, voltada para a educação escolar indígena”, conta.

Para Kambeba, o impacto vai além da sala de aula. “Temos muito conhecimento, mas ele estava na oralidade. Agora, estamos transformando isso em materiais pedagógicos para que os jovens aprendam sua cultura, seu modo de viver. É uma forma de resistência cultural.”

O desafio, porém, é imenso, tanto para indígenas estudantes quanto aos já formados que querem colocar os aprendizados em prática. Falta infraestrutura, merenda que atenda às especificidades regionais — quando há merenda — e pagamentos igualitários para educadores indígenas e não indígenas. “A valorização do professor indígena é fundamental. As políticas públicas precisam garantir formação, salários justos e respeito às nossas escolas, que devem ter nomes tradicionais e autonomia, e não funcionarem como anexos de escolas não indígenas”, sugere.

Ele lembra que a educação é também um instrumento de resgate identitário. “Coari vivia um apagamento cultural. Atualmente, já são quase dez mil indígenas se autodeclarando, e 80% deles estão nas aldeias. A educação nos ajuda a reconhecer quem somos.”

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