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Ilustração de Isabela Durão

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5 dicas

Como usar o ar-condicionado de forma mais eficiente e ecológica

Herói e potencial vilão do aquecimento global, veja indicações de especialistas para usar o aparelho com menor desperdício e impacto ambiental

Leonardo Neiva 04 de Janeiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Como usar o ar-condicionado de forma mais eficiente e ecológica

Herói e potencial vilão do aquecimento global, veja indicações de especialistas para usar o aparelho com menor desperdício e impacto ambiental

Leonardo Neiva 04 de Janeiro de 2026

Com o aquecimento global e verões mais quentes ano após ano, não chega a surpreender o fato de cada vez mais brasileiros pensarem em comprar um ar-condicionado. Afinal, como canta Jorge Ben Jor, moramos num país tropical… Em 2024, as vendas do aparelho dispararam 38% por aqui, segundo dados da Eletros (Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), com 5,88 milhões de unidades vendidas. Um estudo com participação de pesquisadores da UFRJ projeta que, até 2040, 85% dos brasileiros devem ter um ar-condicionado instalado em casa.

A situação, porém, é uma faca de dois gumes: se o eletrodoméstico é visto por muita gente como solução para aliviar os efeitos das mudanças climáticas, o uso do aparelho também acaba por agravá-las.

Esse dano acontece de duas formas. A primeira tem a ver com o fluido responsável por refrigerar o ar que entra no aparelho. “Esses fluidos são classificados de acordo com o seu potencial de ter maior ou menor índice de gases de efeito estufa”, explica o professor de engenharia mecânica da Poli-USP José Roberto Moreira, especialista em sistemas de refrigeração e ar condicionado. Principalmente no caso de aparelhos mais antigos, que usam HFCs (hidrofluorcarbonetos), o impacto para o aquecimento global é ainda mais grave.

“Eles podem ser liberados para a atmosfera no caso de vazamento ou durante a manutenção dos equipamentos.” Por isso, esse fluido deve ser necessariamente recolhido num tanque quando a manutenção é realizada, e não solto na natureza.

O outro impacto do ar-condicionado vem do seu alto consumo de energia elétrica, que, no caso de termelétricas, libera CO2 na atmosfera. Como lembra Moreira, a realidade brasileira naturalmente reduz esse dano, já que nossa matriz energética é predominantemente renovável. Mas, em meio à crise de abastecimento de água e energia que vivemos, esse consumo pode ser bastante prejudicial de outras formas.

Então, se você já chegou à conclusão de que o ar-condicionado é indispensável na sua vida, veja a seguir algumas dicas simples para utilizá-lo de maneira mais eficaz e ecológica.

  • 1

    Para começar, escolha o modelo mais adequado –
    Como não poderia deixar de ser, tudo se inicia com uma escolha aparentemente simples: qual aparelho você quer levar para casa? Mas existem aí muitas variáveis nas quais você precisa ficar de olho. Por exemplo, o modelo com tecnologia menos poluente. Ou aquele que consome menos energia. Especialistas consultados por Gama consideram indispensável, por exemplo, buscar aparelhos Inverter, em vez dos modelos que funcionam com a tradicional — e mais antiga — tecnologia On/Off. A vantagem é que o compressor, responsável por fazer circular o fluido que refrigera o ar, funciona de forma constante e com velocidade ajustada, ao contrário dos modelos convencionais, em que ele fica ligando e desligando a todo momento. “Significa gerar a mesma capacidade de resfriamento pelo menor consumo de eletricidade”, resume o professor da Poli-USP José Roberto Moreira. Embora esse tipo de aparelho custe mais caro, ele significa também um menor gasto energético a longo prazo e uma conta de luz mais barata, economizando até 70% no consumo de energia. Hoje também já existem no mercado aparelhos que substituem os HFCs (hidrofluorcarbonetos), gases cujo vazamento gera alto impacto para o aquecimento global, por fluidos de refrigeração alternativos e mais ecológicos, como o R-32. E outro ponto importante é selecionar um ar-condicionado que faça sentido para o seu ambiente. Se o aparelho for grande ou pequeno demais para o cômodo, também deve haver um consumo excessivo de energia. Então, preste bastante atenção no selo Procel, que define a eficiência energética do aparelho. “A recomendação é investir um pouco mais e adquirir um equipamento de selo A”, declara Moreira.

  • 2

    Faça a instalação com bons profissionais, utilizando materiais de qualidade… ah, e não se esqueça da manutenção –
    Até na hora da instalação, é preciso ter alguns cuidados especiais, afirma o engenheiro civil João Nakata, especialista de aplicação na Fujitsu General do Brasil. Senão, vazamentos e perdas podem se tornar inerentes ao uso do aparelho, algo que ninguém quer. O especialista indica a importância de buscar um serviço de qualidade para instalar o ar-condicionado, usando materiais de ponta. “Se a instalação for boa mas você não usou o material isolante correto, pode dar problema e gerar perdas.” Quando isso acontece, o aparelho não consegue mais climatizar da maneira ideal, o que leva o usuário a reduzir a temperatura para compensar. Sem contar que instalações mal feitas estão entre as principais razões para o vazamento de fluidos de refrigeração, que agravam o efeito estufa e o aquecimento global. E os cuidados com o ar-condicionado vão além. No dia a dia, é fácil se esquecer da manutenção, que precisa ser feita de forma constante. Além de questões de saúde, pois eles podem acumular uma série de microorganismos, Moreira aponta que filtros sujos também implicam um maior consumo do ventilador interno, que precisa vencer barreiras adicionais para lançar o ar refrigerado no recinto. A lavagem do filtro, portanto, pode ser feita pelo próprio usuário a cada 15 ou 30 dias, segundo Nakata. Já uma manutenção mais extensa e preventiva precisa ser realizada por empresas especializadas, num intervalo de tempo que pode variar bastante. Nos casos em que o ar-condicionado é utilizado diariamente ou em locais com mais sujeira, o especialista considera ideal uma visita pelo menos a cada dois meses.

  • 3

    Em vez de fazer do cômodo um frigorífico, tente usar o aparelho em temperaturas mais amenas –
    Seja em casa ou no trabalho, quase todo mundo já passou por um daqueles cabos de guerra envolvendo uma pessoa calorenta e outra friorenta, com o ar-condicionado no centro da discussão. Mas a melhor resposta não só nessa, e sim em todas as situações, é resistir ao impulso de jogar a temperatura lá embaixo, já que, quanto menor a temperatura, maior será o consumo. Por outro lado, também não precisa passar calor. “A faixa ideal [de temperatura] se estende de 23ºC a 26ºC, dependendo da umidade”, indica Moreira. O maior desafio, segundo Nakata, acontece quando você enfrenta um calor acima de 30ºC, que geram aquela vontade de ligar o ar-condicionado no mínimo. Mas não faz muito sentido aquela ideia de ligar na temperatura mais baixa para depois ir aumentando. Até porque, se você ajusta o aparelho para 18ºC ou menos, “a máquina precisa trabalhar mais para atingir essa temperatura”, aponta Nakata. E aí, além do prejuízo para o meio ambiente e dos gastos, você também pode estar prejudicando sua saúde: “Se você está numa temperatura de 35ºC e bruscamente cai para 18°C, sofre um choque térmico, a imunidade do seu organismo diminui, e a chance de ficar resfriado é grande.”

  • 4

    Não deixe o ar-condicionado funcionando mais tempo do que o necessário; mas desligar totalmente também não é sempre a melhor solução –
    No último quarto de hotel ou Airbnb em que se hospedou, você deve ter recebido um aviso: ao sair, desligue o ar-condicionado. E de fato, deixar o aparelho ligado quando ninguém está usando é um gasto de energia desnecessário. Para evitar que isso aconteça por puro esquecimento, o gerente de marketing de produto da Midea Carrier, Cesar Messano, sugere automatizar o ciclo de funcionamento do aparelho, programando os horários de uso cotidiano ou recorrendo a funções como timer; sleep, que regula a temperatura e o fluxo do ar automaticamente ao longo da noite; e eco, que otimiza o funcionamento para reduzir o consumo de energia. Hoje, já existem no mercado modelos que funcionam com IA e se adaptam naturalmente aos hábitos do consumidor. Um erro que muita gente comete é desligar o ar-condicionado para religá-lo pouco depois, acreditando que assim está poupando eletricidade. Na verdade, ele acaba consumindo ainda mais energia, pois demanda um esforço maior para resfriar novamente o ambiente. Por isso, se for ficar fora por um período curto, de até duas horas, Messano recomenda manter o aparelho ligado em temperaturas moderadas. Agora, se for se ausentar por muito tempo, aí a melhor alternativa é mesmo desligá-lo totalmente.

  • 5

    E continua sendo verdade aquela recomendação para manter o cômodo bem fechado — mas sem exageros –
    Quando for ligar seu ar-condicionado, lembre-se sempre de fechar portas e janelas. “É importante melhorar a vedação do ambiente para evitar desperdício de energia”, sugere Messano. Isso acontece porque a entrada de ar mais quente aumenta a carga térmica do aparelho, obrigando-o a consumir mais para refrescar o ambiente, explica Moreira. Usar cortinas e persianas também pode ser recomendável como forma de barrar a entrada de calor externo. Já em ambientes como lojas ou academias, onde é impossível manter o cômodo fechado, Nakata recomenda como estratégia instalar portas automáticas e cortinas de vento, que ajudam a reduzir as perdas. Mas deixar algumas frestas e pequenas entradas de ar não é um problema. Aliás, pode ser até recomendável. O docente da USP José Roberto Moreira lembra que a entrada e circulação de um mínimo de ar novo é essencial para a saúde. Então faça tudo isso de forma razoável, evitando exageros na sua busca por vedar o cômodo

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