Planos para o verão?
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Ilustração de Isabela Durão

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Conversas

Taneha Bacchin: "Devemos perseguir o modelo de cidade com uma presença maior de vegetação"

Gaúcha radicada na Holanda, professora analisa por que o verde e a água devem ser tratados como infraestrutura para atravessar verões cada vez mais extremos nas cidades

Ana Elisa Faria 04 de Janeiro de 2026

Taneha Bacchin: “Devemos perseguir o modelo de cidade com uma presença maior de vegetação”

Ana Elisa Faria 04 de Janeiro de 2026

Gaúcha radicada na Holanda, professora analisa por que o verde e a água devem ser tratados como infraestrutura para atravessar verões cada vez mais extremos nas cidades

A arquiteta e urbanista gaúcha Taneha Bacchin aprendeu cedo que extremos não são mera abstração — o Rio Grande do Sul lida com enchentes que nascem históricas e são superadas desde 1941. Em 2024, lembra, o seu estado natal enfrentou mais de 11 eventos climáticos severos, um sinal de que calor, chuvas intensas e secas passaram a compor a condição cotidiana do clima, ali e no mundo. Para ela, tratar o verão apenas como assunto meteorológico é insistir no erro. O tema, hoje, é relacionado à infraestrutura.

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Professora de projeto urbano na Universidade Técnica de Delft, na Holanda, e na Royal Danish Academy, na Dinamarca, Bacchin, especialista em gestão sustentável de águas urbanas, risco ambiental e adaptação climática, defende uma virada de paradigma: encarar parques, praças, jardins, rios e canais como parte de uma solução infraestrutural verde e azul capaz de regular o clima de pequenas regiões, reduzir ilhas de calor e amortecer inundações. “Se pensarmos na paisagem urbana como um mosaico, quanto mais manchas verdes e azuis nós tivermos, maior é a capacidade de regulação do microclima”, diz.

A consequência prática desse raciocínio é desconfortável para municípios moldados pelo concreto, onde o solo fica impermeabilizado e o ciclo hidrológico local é quebrado. Daí a aposta nas chamadas cidades-esponja, que foca a despavimentação para transformar partes de calçadas e afins em jardins para absorver, reter e filtrar a água da chuva.

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Bacchin é enfática ao criticar a lógica das chamadas soluções “cinzas”, como piscinões e galerias. Segundo a docente, essas medidas devem ter um papel complementar e transicional, apoiando as soluções baseadas na natureza, como a desimpermeabilização e a reativação de áreas alagáveis.

A Holanda, onde vive há mais de uma década, aparece como vitrine desse planejamento sustentável que vai do micro, ou seja, de um bairro ou uma cidade, ao macro, o país todo. Além de estratégias de longo prazo, adaptando a infraestrutura urbana atual para o cenário climático de 2150 — com um planeta pegando fogo.

Em entrevista a Gama, Taneha Bacchin fala sobre a urgência da adaptação, indica modelos de cidades que devemos perseguir e explica por que é fundamental mudarmos a nossa relação com a natureza.

 Divulgação

  • G |Qual é a principal mudança de mentalidade que falta para as cidades (ou seja, para as prefeituras, sobretudo) tratarem o verão extremo como um tema de infraestrutura, e não apenas de clima?

    Taneha Bacchin |

    A grande mudança é o desenvolvimento de uma infraestrutura verde, simples e fundamental. São parques, praças, jardins, não só em áreas públicas, mas em qualquer espaço urbano aberto. Existe um conceito chamado ecologia da paisagem. As paisagens, dentro dessa ideia, são como mosaicos com diferentes composições, reunindo manchas verdes, a vegetação, e manchas azuis, as áreas com corpos d’água, que podem ser construídas ou não. Se pensarmos na paisagem urbana como um mosaico, quanto mais manchas verdes e azuis nós tivermos, maior é a capacidade de regulação do microclima, do clima local. É óbvio que o clima é uma questão sistêmica, mas no contexto urbano é também uma questão infraestrutural — o verde e a água são infraestruturas nesse sentido.

  • G |Muitos governantes ainda enxergam os eventos extremos como exceção. Quais sinais indicam que, agora, eles precisam ser encarados como uma espécie de “novo normal”?

    TB |

    Eu sou do Rio Grande do Sul e somente em 2024 nós tivemos mais de 11 eventos extremos no estado. O que isso indica? Que há um aumento na frequência desses eventos. Trata-se de uma manifestação latente da crise climática, não é algo de passagem, é, infelizmente, a condição atual do clima, um novo normal, como apontam todos os cenários do Intergovernmental Panel on Climate Change, o IPCC, [em português, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, programa da ONU para o meio ambiente]. Estava lendo uma reportagem sobre o La Niña, que deve gerar um recorde ainda maior de temperaturas. Ou seja, é uma condição planetária, global. São mudanças no aquecimento das correntes marítimas, há um processo de degelo de áreas no Ártico, na Antártica; existe uma movimentação de aerossóis, de CO₂, que está mudando o clima, não só atmosférico, mas também na superfície dos oceanos. Descendo para um nível local, há cidades extremamente pavimentadas, com concreto por todos os lados, modificando não só o clima, mas também o microclima urbano, que muda pela forma como ocupamos o espaço. É só olhar para os lados para perceber que a frequência dos extremos tem aumentado.

  • G |O que distingue uma cidade de fato resiliente ao calor, aos ventos e à água de uma que vive “apagando incêndios” e se reconstruindo depois?

    TB |

    No conceito de resiliência, há o que chamamos de resiliência evolutiva, ou seja, você realmente é resiliente quando aprende com um evento que o impactou e, assim, se adapta. Você elabora um processo de adaptação das próprias estruturas após esse estresse para se preparar para novos eventos. Não é só mitigação, é um aprendizado a partir do que aconteceu que vai melhorando a infraestrutura, os processos de decisão em relação ao uso do solo, as formas de ocupação, a nossa relação com a natureza. Como a gente está se relacionando com essa questão? Estamos conservando e protegendo a natureza? Há uma parte de governança e de políticas públicas que demonstram um esforço e um olhar para a questão da adaptação — climática e de regeneração ambiental —, mas existem também exemplos que vêm da sociedade, que são culturais, de mudanças de estilo de vida, de escolhas. Há cidades que estão reduzindo drasticamente a circulação de automóveis e fazendo uma transição do modelo rodoviário para o que é conhecido como mobilidade leve, ou soft mobility, com bicicletas, construção de áreas para maior circulação de pedestres, corredores com melhorias na mobilidade urbana pública, intermodal.

  • G |Onde ficam essas cidades?

    TB |

    A Dinamarca é um dos principais exemplos. Há municípios dinamarqueses com muita qualidade de vida, habitabilidade, menos uso de carros, mais mobilidade leve, bom uso dos espaços públicos. Alguns anos atrás, eles fizeram um investimento enorme nas infraestruturas verdes e azuis; houve a regeneração de partes do tecido urbano de Copenhague para parques inundáveis, jardins de chuva, uma gestão da drenagem urbana própria para condições extremas. A Holanda toda é um exemplo de adaptação climática feita a longo prazo. Temos ainda alguns exemplos na Austrália, com o conceito chamado Water Sensitive Urban Design, um desenho urbano sensível às águas, uma nova forma de drenagem urbana sustentável a partir do desenho de espaços públicos abertos, com mais áreas verdes e azuis. São casos de desenho urbano, do equipamento público e da infraestrutura pública formados a partir de processos naturais, ou seja, desenhados com a natureza. É a natureza como infraestrutura no contexto urbano.

É só olhar para os lados para perceber que a frequência dos extremos tem aumentado

  • G |Há um ponto de não retorno para certas regiões metropolitanas, em que sobreviver ao verão vira uma questão de habitabilidade? Como reconhecer isso com antecedência?

    TB |

    Quando pensamos em São Paulo, até mesmo no Rio de Janeiro, em alguns aspectos, ou em cidades como Calcutá, Deli e Mumbai, na Índia, que têm grandes aglomerações urbanas, não digo não retorno, porque acredito que sempre é possível, mas uma ação sistêmica é urgente e necessária. Não existe só o problema das altas temperaturas, que levam a um risco de morte, há também uma correlação imediata com a crise hídrica, de falta de água. Isso porque, no momento em que você pavimenta, todo o solo fica impermeabilizado e o ciclo hidrológico local é quebrado — ou seja, não existe mais aquele ciclo em que a chuva se infiltra no solo, as raízes puxam a água, ocorre a evapotranspiração e chove de novo. Com essa quebra, o regime hídrico praticamente não existe mais, ele fica completamente desregulado. E o que acontece? Como é tudo pavimentado, quando cai muita chuva e há inundação, essa água escorre e vai embora; ela não se infiltra no solo, não recarrega o lençol freático, não deixa umidade no local e não ajuda na diminuição das temperaturas.

  • G |A Holanda, onde você leciona e vive atualmente, é um exemplo de país que, após inúmeras enchentes que mataram milhares de pessoas, soube se reconstruir e se proteger de novas inundações com a construção de cidades mais sustentáveis e resilientes às mudanças do clima. O que foi feito no país para mudar esse cenário?

    TB |

    Em 2015, a Holanda desenvolveu o projeto Espaço para o Rio. É um desenho pensado para o nível nacional, com grandes corredores verdes e azuis funcionando como uma espécie de coluna vertebral do país. Nessa estrutura, o uso do solo é pensado a partir da proteção dos rios e desses corredores verdes. Quando descemos para uma escala local, de cidade, temos as florestas urbanas, a regeneração de parques, avenidas e vias de passagem, que também podem ser mais arborizadas. Há ainda a melhoria de canais internos. E tudo isso é feito com base em um plano estratégico de adaptação climática para 2150. A Holanda trabalha com uma técnica chamada backcasting [previsão reversa, em português], ou seja, adaptando a infraestrutura urbana hoje para o cenário climático de 2150 [com um planeta cerca de quatro graus mais quente]. Por exemplo, aqui em Roterdã, onde eu moro, há uma obra incrível sendo feita no miolo de uma avenida, transformado esse espaço em um parque linear que vai infiltrar água a um quilômetro abaixo do nível do solo, no mesmo lençol freático. Quando houver uma grande seca na cidade, você poderá capturar aquela água. É um desenho sistêmico feito em escala nacional, regional, urbana e local, com formas de adaptação desenvolvidas a longo prazo dentro da infraestrutura existente, chegando até em uma microescala, que algo bem interessante também. Os moradores podem pedir para a prefeitura despavimentar as calçadas dos edifícios e construírem, no lugar, jardins. É uma ação pequena, mas já ajuda, é um verdinho a mais que está contribuindo com o todo.

  • G |O que daria para ser replicado em outras partes do mundo, como em São Paulo e Porto Alegre, por exemplo?

    TB |

    O que foi feito aqui é o que a gente chama de projeto transescalar [quando a interação entre diferentes níveis de organização espacial e social é crucial], ou seja, que acontece nas diferentes escalas. A Holanda tem um sétimo do tamanho do Rio Grande do Sul, é um país muito pequenininho e, por isso, foi mais fácil dessa forma. Mas, para o contexto gaúcho ou de São Paulo, poderia ser pensado um projeto em escala regional. Por exemplo, se você pega uma bacia hidrográfica de uma região grande como a macrometrópole paulista [complexo de metrópoles ao redor da Grande São Paulo] é preciso imaginá-la como um sistema: quais são os grandes corredores verdes, os rios, as áreas de passagem dos rios. Aí temos o que é chamado floodplain [ou, em português, planície de inundação, terreno situado à margem de um curso d’água que inunda durante as cheias]. O desenho dessa paisagem, com áreas alagadiças e matas ciliares, nessa grande escala regional permite a conexão entre grandes parques, importantes áreas verdes, rios e lagos. A partir disso, você desce na escala urbana.

  • G |Entre as soluções de adaptação adotadas pelos holandeses estão as chamadas cidades-esponja, certo? O que são esses locais e como eles funcionam no dia a dia? Qualquer cidade pode virar uma esponja?

    TB |

    Sim, qualquer cidade pode virar uma esponja. As cidades-esponja são, de fato, o desenho da infraestrutura verde e azul, do qual falamos. Cidade-esponja é essa noção de que, com a despavimentação, mais áreas podem ser transformadas em jardins de chuva, uma espécie de banhados construídos. São áreas com lagos, mata ciliar, que, inclusive, podem ter sido perdidas com o tempo e são regeneradas, ou até novas áreas alagadiças que, no momento de uma grande chuva, oferecem um espaço de amortecimento para essa invasão de água. A esponja é a capacidade de retenção da água no solo. E, para isso ocorrer, é preciso ter áreas abertas, não pavimentadas, de preferência com cobertura verde e boa manutenção.

A Holanda trabalha adaptando a infraestrutura urbana hoje para o cenário climático de 2150

  • G |Quando a solução “cinza” (tubos, piscinões, galerias) ainda é necessária — e como ela pode conviver melhor com soluções baseadas na natureza?

    TB |

    A infraestrutura cinza — como tubos, galerias e reservatórios — ainda é necessária em cidades já consolidadas, marcadas por alta densidade, solos impermeabilizados e ocupações históricas de áreas alagáveis. Nesses contextos, ela cumpre um papel de contenção e segurança hidráulica, sobretudo diante de eventos extremos cada vez mais frequentes. O problema surge quando esse tipo de solução passa a organizar, sozinha, a lógica da drenagem urbana. Ao acelerar o escoamento, a infraestrutura cinza não enfrenta as causas do risco: ela desloca a água no território e no tempo, frequentemente agravando impactos a jusante. São respostas caras, rígidas e pouco adaptáveis às incertezas climáticas. Por isso, a questão hoje não é eliminar a infraestrutura cinza, mas recolocá-la no lugar certo. Soluções baseadas na natureza, como a desimpermeabilização, a recuperação do solo, a reabertura de cursos d’água, a retenção e infiltração distribuída e a reativação de áreas alagáveis, devem estruturar o sistema de drenagem urbana. A infraestrutura cinza passa, então, a ter um papel complementar e transicional, apoiando esse novo arranjo. Quanto mais avançamos na regeneração dos processos ecológicos e do ciclo hidrológico no território urbano, menor se torna a dependência de grandes obras e maior a capacidade da cidade de conviver com a água de forma adaptativa, resiliente e socialmente justa.

  • G |Uma cidade quando esquenta não esquenta por igual. Quais fatores urbanos mais amplificam as ilhas de calor?

    TB |

    A falta de sombreamento é um fator. Se há um bairro só com edifícios e nada praticamente de vegetação, de cobertura verde, o calor ali é muito maior. Se você passa em uma rua arborizada, a temperatura é diferente, mais fria. Ou seja, as árvores são uma solução simples, que não utiliza grandes tecnologias. Basta desenharmos com a paisagem, com os processos naturais, com a vegetação, com o solo, com as águas. Mas isso requer um movimento muito importante de readaptarmos os nossos modelos de urbanização, principalmente no Brasil, cujo modelo é rodoviário. Brasília, por exemplo, foi desenhada para os carros. É fácil caminhar em Brasília e ter uma insolação porque quase não há árvores, é só concreto. A grande mudança desse contexto vai se dar a partir de uma transição sociocultural, de voltarmos para a natureza, de repensarmos a nossa relação com o contexto, com o local e com a natureza.

  • G |Se a solução da natureza é tão fácil e barata, por que ela não é amplamente adotada?

    TB |

    Porque há muita especulação imobiliária; o pensamento costuma ser apenas no valor do solo. Por isso, é crucial uma mudança cultural radical focada nos serviços ecossistêmicos. O pensamento deve ser: se estou contribuindo para áreas verdes e azuis, vou ter um benefício de uma série de funções e serviços que esses processos vão trazer e que talvez compensem mais do que uma especulação local. A natureza nos vem grátis, a gente extrai recursos e devolve poluição. A relação da sociedade moderna com a natureza costuma ser essa, de extração e não de diálogo. O espaço não deve ser só valorizado como potencial área construída, mas como potencial de funcionalidade, habitabilidade e qualidade de vida.

  • G |Quando você pensa em verão daqui para frente, qual é a imagem de cidade possível e desejável que deveríamos perseguir?

    TB |

    A adaptação é urgente. Não é para amanhã, é para hoje. Infelizmente, vai ser cada vez pior. Devemos perseguir o modelo de cidade como um mosaico, com manchas verdes e azuis, uma presença maior de vegetação e em diferentes escalas, desde calçadas até fachadas de tetos verdes. Todo solo pode ser adaptado com verde. A noção atual de agrofloresta também é importantíssima porque regenera o solo. Pensando na mudança cada vez maior das temperaturas nos seus extremos, um projeto de reconstituição da qualidade do solo a partir de diferentes formas de plantios, com a recuperação do regime hidrológico do local e uma melhoria do microclima, é fundamental.

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