Perimenopausa, e agora?!
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Como saber se você está na perimenopausa

Os principais sinais e aqueles que ainda passam despercebidos, a transição para a menopausa e os hábitos e tratamentos que podem ser adotados em nome da qualidade de vida

Leonardo Neiva 09 de Fevereiro de 2025

Como saber se você está na perimenopausa

Leonardo Neiva 09 de Fevereiro de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Os principais sinais e aqueles que ainda passam despercebidos, a transição para a menopausa e os hábitos e tratamentos que podem ser adotados em nome da qualidade de vida

Ondas de calor, o fim da menstruação, cansaço, redução da libido, dificuldade para dormir… Hoje os sintomas da menopausa, que geralmente se iniciam entre os 45 e os 55 anos de idade — antes dos 40, ela é considerada precoce —, já são bastante difundidos e relativamente mais simples de identificar do que no passado. Mas você saberia apontar os principais sinais de que a fase que a antecede, a perimenopausa, pode estar dando as caras?

Apesar de bem mais comentado e divulgado hoje, o período que prenuncia a entrada na menopausa ainda gera confusão e, para muitas mulheres, acaba se misturando com outras fases como o climatério — que na verdade abarca a totalidade da transição da mulher do período reprodutivo ao não reprodutivo.

A dificuldade de identificar quando a perimenopausa está começando, porém, vai além da simples falta de conhecimento. “Temos uma lista extensa de 74 sintomas que podem acontecer nesse período”, aponta a médica e professora de ginecologia, obstetrícia e mastologia da UFRJ, Flávia Tarabini. Como os sinais variam muito para cada pessoa, identificar se a mulher está passando pela perimenopausa pode se tornar uma tarefa complexa.

As mudanças no corpo feminino nesse período acontecem devido à redução gradual da produção de hormônios sexuais, como o estrogênio e a progesterona, diretamente ligados à fertilidade e ao período de gestação. Portanto, apontar essa correlação é crucial para que a mulher consiga lidar melhor com os sintomas. “A terapia de reposição hormonal acaba sendo um dos tratamentos mais efetivos que a gente tem nesses casos”, aponta Tarabini.

Temos uma lista extensa de 74 sintomas que podem acontecer na perimenopausa

Além da queda bruta na produção de hormônios, a psicóloga clínica Kátia Olivieri considera que as mudanças no ciclo menstrual acabam confundindo muitas mulheres. “Em vez de ficar menstruada cinco dias no mês, ela passa a ficar dez de forma muito intensa, ou então a menstruar duas vezes, só que com muita ou pouquíssima intensidade”, dá como exemplo a profissional, especializada na saúde emocional de mulheres acima dos 40 anos

Em conversa com especialistas no tema, Gama traz a seguir alguns dos principais sinais aos quais ficar atenta para identificar a perimenopausa e como lidar com essa fase incontornável na vida de toda mulher.

Quando ela começa

Para começo de conversa, não tem como apontar uma idade exata em que a perimenopausa costuma surgir. Boa parte dos especialistas situa esse início lá pelos 40 anos, mas o cálculo varia bastante. Tarabini esclarece que os primeiros sintomas podem aparecer até 14 anos antes da última menstruação — com uma distância considerável do início da menopausa.

O mais comum, no entanto, de acordo com a ginecologista, é que a perimenopausa aconteça por um período que vai de dois a seis anos, após o qual é finalizada a transição para a menopausa e a ovulação cessa por completo. Se estebelecer o início da perimenopausa é algo desafiador, a mesma coisa se pode dizer do seu final. Caracterizada pelo fim da menstruação, a menopausa é sempre definida em retrospecto, ou seja, após ao menos um ano que a mulher deixou de menstruar, como aponta a médica ginecologista Lígia Santos.

Existem  mulheres na menopausa que continuam com os mesmos sintomas que começaram lá na perimenopausa

“Na perimenopausa, ela pode menstruar eventualmente, é uma menstruação mais irregular. Existem mulheres que ficam dois, três meses sem menstruar, depois ficam quatro, cinco meses menstruando e param de novo. Tudo isso está dentro desse período”, descreve a ginecologista, que também é assessora da Área Técnica da Saúde da População Negra de São Paulo.

Além disso, a passagem de uma fase para outra não acontece de forma automática, como quem muda o canal de uma TV. “O fogacho, a depressão, a insônia, a dificuldade de perder peso, a perda da massa óssea podem continuar durante a menopausa”, explica a ginecologista. Sem contar que vários dos sintomas existem tanto na perimenopausa quanto na menopausa. “Geralmente eles vão regredindo ou ficando com uma intensidade menor, mas existem sim mulheres na menopausa que continuam com os mesmos sintomas que começaram lá na perimenopausa.”

Os sintomas físicos…

Da grande lista de sintomas que podem surgir no corpo das mulheres em perimenopausa, Tarabini destaca alguns dos mais frequentes. É preciso ficar de olho, por exemplo, caso sinta aumentar com frequência a temperatura corporal, o que pode indicar o aparecimento de fogachos — ondas repentinas de calor geradas pela dilatação abrupta dos vasos sanguíneos, resultado do impacto das alterações hormonais no sistema circulatório da mulher. O sintoma também é recorrente durante a menopausa em si.

Além de uma diminuição gradual da libido, outro sinal bastante comum é a vontade súbita de urinar, que começa a surgir de forma constante na rotina, diz a médica. Muitas vezes, isso vem acompanhado de um aumento no número de infecções do trato urinário e também genitais, como a candidíase.

A redução na produção de estrogênio pode gerar uma diminuição da massa óssea, afirma a ginecologista Lígia Santos. A mudança eleva o risco de fraturas e de desenvolver doenças como a osteopenia ou mesmo a osteoporose, caracterizada por uma perda mais severa na densidade dos ossos.

“A mulher tem um metabolismo mais lento, então a obesidade é comum nessa fase. As questões cardiovasculares também tendem a ficar mais importantes, porque o estrogênio é um fator de proteção para o endotélio, o tecido de dentro dos vasos, artérias e veias”, explica Santos. “Então ela tem mais chance de sofrer um infarto ou derrame cerebral.”

Tarabini acrescenta que muitas mulheres sentem dores musculoesqueléticas, assim como uma rigidez nos ombros semelhante a um congelamento da região. Costuma haver também uma maior dificuldade para adormecer, além do sono entrecortado ao longo da noite. “Você não consegue dormir além de sete horas. A mulher acorda sentindo uma exaustão que pode evoluir para uma fadiga crônica, mais um marco dessa fase.”

E os psicológicos

A grande maioria dos sintomas psicológicos da perimenopausa são pouco específicos. Por isso, mais complexos de identificar com essa fase da vida da mulher, de acordo com a psicóloga Kátia Olivieri. “Os primeiros sintomas são muito sutis, como alterações de humor, irritabilidade, tristeza e ansiedade sem motivo aparente.”

A especialista reforça que lapsos de memória e uma dificuldade de se concentrar estão entre as principais características da perimenopausa. Alterações nos sentimentos e comportamentos, ela diz, têm a ver com a redução do estrogênio e da progesterona, que são base para diversos mecanismos do cérebro feminino. “Por isso, os impactos emocionais são tão grandes e podem ser devastadores se a gente não tiver o tratamento adequado”, afirma.

Os impactos emocionais são tão grandes e podem ser devastadores se a gente não tiver o tratamento adequado

Também é muito comum sentir a energia em baixa, como aponta a psiquiatra Christiane Ribeiro, doutoranda em saúde mental da mulher na UFMG. “Algumas mulheres podem, inclusive, desenvolver um quadro psiquiátrico nessa fase, com sintomas depressivos, ansiosos e de insônia”, considera. Mas a intensidade desses sintomas varia de acordo com uma série de fatores.

“Algumas têm mais predisposição genética a desenvolver um quadro depressivo nessa fase da vida”, exemplifica Ribeiro. Da mesma forma, mulheres com uma vida social mais ativa ou que já façam um acompanhamento psicológico há algum tempo podem sentir alterações mais brandas do que em outros casos.

Por outro lado, pessoas que já tiveram episódios graves de depressão e ansiedade precisam de atenção redobrada a partir dos 40, na visão de Olivieri, devido ao risco elevado de recaídas nessa fase.

“A gente se sente numa montanha-russa. Uma hora você está bem, na outra está mal, e todo mundo ao redor é impactado, seja família, amigos ou colegas de trabalho”, conta a psicóloga. Outra preocupação que deve ser constante é buscar evitar sentimentos de solidão e desconexão, diz Olivieri.

“São duas palavras que eu escuto muito no consultório. A mulher não tem mais aquela energia da juventude, mas ainda não se sente velha”, continua a especialista “É aí que vem a solidão, porque ela muitas vezes guarda [esses sentimentos], se cala, e esse calar tem um preço muito alto.”

O que fazer

No fim, a forma como você leva a vida, para além das questões genéticas, é crucial para definir como os efeitos da perimenopausa vão afetar seu dia a dia. Embora enfrentar essa fase seja algo impossível de evitar, levar hábitos mais saudáveis e uma rotina equilibrada pode reduzir os impactos físicos e emocionais desse período, de acordo com a ginecologista Flávia Tarabini.

“Quanto mais essa mulher fizer exercícios, se alimentar bem, tiver uma rotina relativamente saudável, com pilares como o controle do estresse, menos perceptível será”, declara a especialista. No entanto, ela alerta que, mesmo levando uma vida bem organizada e saudável, sintomas podem surgir com intensidades variáveis — alguns deles, caso não tratados, com riscos para o futuro. “O fogacho traz um risco cardiovascular maior. Lembrando que, depois da menopausa, a principal causa de morte das mulheres são eventos cardiovasculares.”

A psicóloga Kátia Olivieri também aponta que os sintomas da perimenopausa acontecem em uma fase caracterizada por uma sobrecarga na vida pessoal e profissional e podem se confundir com o impacto de todo esse contexto. “Muitas mulheres só buscam ajuda quando já estão num estágio avançado dessa crise emocional. Isso é problemático porque, quanto antes você vai, melhor o prognóstico e mais rápido é o processo.”

O fogacho traz um risco cardiovascular maior

Como vivemos em uma cultura que historicamente oculta e relega a um segundo plano a saúde mental e física feminina, a psicóloga acrescenta que essa tarefa ainda encontra uma série de barreiras. “A menopausa e o envelhecimento da mulher ainda não são bem aceitos. A sociedade cultua a juventude, principalmente feminina, então é muito difícil para a mulher enxergar que chegou nesse momento”, reflete.

Esses sintomas podem interferir ainda nas relações interpessoais da mulher, num momento da vida em que estas vão se tornando cada vez mais importantes, diz Olivieri. Por isso, ela sugere estar sempre atenta aos próprios sentimentos e a mudanças bruscas de comportamento. E, para não ficar no escuro num momento difícil, indica se inteirar sobre o tema desde cedo, sempre a partir de fontes confiáveis.

Portanto, além da prática de exercícios, ter uma vida social ativa é uma das principais formas de abrandar os sintomas psicológicos da perimenopausa, de acordo com a psiquiatra Christiane Ribeiro. E também procurar apoios profissionais variados.

“É importante buscar o acompanhamento com ginecologista, mas muitas vezes também com o psiquiatra ou psicólogo”, afirma Ribeiro. “Muitos desses sintomas vão interferir na saúde mental, como a falta de sono, de energia, de libido, e tem mulheres com contraindicações, que não podem utilizar hormônios. Então, essas mudanças no estilo de vida são muito importantes.”

Se, por um lado, é essencial não minimizar as queixas das mulheres nessa fase, Tarabini alerta que não se pode atribuir tudo ao período. “Nem tudo é perimenopausa. A gente vai seguir tendo doenças reumatológicas, doenças ortopédicas e uma série de outras questões”, afirma a ginecologista. Ela também defende uma maior presença do tema na formação médica atual, que considera falha. “Se não for uma pessoa que decidiu se aprofundar no assunto por conta própria, dificilmente a formação vai levar a uma conduta mais assertiva.”

Nem tudo é perimenopausa. A gente vai seguir tendo doenças reumatológicas, doenças ortopédicas e uma série de outras questões

Já que os efeitos da perimenopausa variam de pessoa para pessoa, nem todo tratamento precisa envolver medicamentos ou mesmo levar imediatamente à reposição hormonal, segundo a ginecologista Lígia Santos.

“Existem práticas integrativas, como acupuntura, a fisioterapia, que é muito importante, e a psicoterapia. Em outros momentos, também dá para recorrer à terapia fitoterápica”, diz a profissional. “O apoio médico é sempre recomendável a partir do momento em que essa mulher está se sentindo mal, em que ela começa a ter algum problema ou dúvida sobre o que está passando.”

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