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Asís G. Ayerbe

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Conversas

Rosa Montero: "Essa supremacia da autoficção indica um colapso da capacidade poética e criativa"

Às vésperas de vir à Flip, autora espanhola falou a Gama, com lucidez e sabedoria, sobre literatura, amor à vida e o futuro da humanidade

Tereza Novaes, Isabelle Moreira Lima e Leonardo Neiva 27 de Julho de 2025

Rosa Montero: “Essa supremacia da autoficção indica um colapso da capacidade poética e criativa”

Tereza Novaes, Isabelle Moreira Lima e Leonardo Neiva 27 de Julho de 2025
Asís G. Ayerbe

Às vésperas de vir à Flip, autora espanhola falou a Gama, com lucidez e sabedoria, sobre literatura, amor à vida e o futuro da humanidade

Rosa Montero tem ótimas lembranças da sua passagem por Paraty, em 2004. Ela recorda os dias felizes e divertidos ao lado de Martin Amis e Paul Auster, ambos já mortos. O trio foi convidado para aquela que seria a segunda Flip, a Festa Literária de Paraty, que neste ano chega à sua 23a edição.

A participação da escritora e jornalista espanhola foi marcante e ajudou a torná-la conhecida no Brasil, onde praticamente toda a sua obra já foi publicada — atualmente está sendo relançada pela Todavia.

Naquela visita, Rosa vivia uma época “mais ensolarada”, ao lado de Pablo Lizcano, seu companheiro durante 21 anos, que morreu em 2009. A experiência do luto, aliás, dá a tônica de “A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver”, que mistura memórias dela sobre a perda e as da cientista Marie Curie.

Isso não quer dizer que uma nuvem escura tenha eclipsado a sua existência. Depois de duas décadas e uma dezena de novos livros, ela retorna à Flip, aos 74 anos, com muito gosto pela vida, que “continua maravilhosa”, e a certeza de que se tornou uma escritora melhor nesse tempo.

“Tenho um certo orgulho em pensar que, nos últimos 20 anos, escrevi minhas melhores obras. Nesse sentido, estou satisfeita. Não sei aonde cheguei, mas sei que melhorei muito na minha escrita.”

Em entrevista à Gama, ela faz um balanço dos tempos atuais, com toda sua complexidade política e social, tece uma crítica à autoficção, à qual ela própria já recorreu, e afirma que a criatividade não está em crise.

“Tempos conflituosos e críticos, como os que estamos vivenciando, tendem a alimentar a criatividade. O número de leitores não está diminuindo, nem de longe. A leitura sempre foi uma questão minoritária, mas essa minoria sempre aumentou em todo o mundo.”

Quando você está muito consciente da morte, você também está muito consciente da vida

  • G |A sua mesa na Flip foi batizada de “A Ridícula Ideia de Estar Lúcida”. Num mundo que parece um pouco insano com notícias sobre a ascensão política de extremistas, guerras em que crianças não são poupadas e desastres climáticos, qual é o peso dessa lucidez?

    Rosa Montero |

    Sim, é definitivamente um mundo doentio, muito complexo, contraditório, confuso e muito tenso, um mundo governado pelos partidos do ódio. As pessoas se sentem muito assustadas e se jogam nos braços desses partidos que simplificam a realidade, que dão respostas e não perguntas. E respostas falsas, baseadas em notícias falsas e na manipulação da realidade. Neste mundo, é muito importante resgatar a lucidez, e quando falo de lucidez, falo de tentar manter a cabeça fria, pensar no mundo por si próprio, todos os dias. É um pouco como aquela frase maravilhosa de Horácio, popularizada por Kant, em latim, Sapere aude. Ousar saber. Ouse saber além de seus medos, conveniências e preconceitos. Continue tentando saber, conhecer a verdade e mergulhar na realidade das coisas. E tente manter a empatia. Neste mundo, em que ódio e divisão prevalecem cada vez mais, com a constante rejeição a imigrantes, pessoas com cultura, religião ou cor da pele diferentes, precisamos recuperar e fortalecer a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro.

  • G |Em “O Perigo de Estar Lúcida”, você lembra de episódios de pânico que sofreu na juventude e como isso a moldou. Hoje, há mais entendimento e recursos para tratamento, ao mesmo tempo que a saúde mental (ou a falta dela) se tornou uma das grandes temas da geração Z. O que podemos esperar da conjunção desses fatores?

    RM |

    O problema da saúde mental é enorme e muito comum. Vivemos em um mundo em que a chamada loucura foi condenada, trancada sob enorme preconceito, considerada uma coisa terrível que acontece com poucas pessoas, o que não é verdade. Os transtornos mentais têm uma gama muito ampla e variam de muito graves, como psicose, a muito menos graves, como problemas neuróticos que eu tive. Isso faz parte do que é ser humano. A Organização Mundial da Saúde afirmou, antes da pandemia — e acho que é uma avaliação míope —, que, em 2019, 25% da população, cedo ou tarde, teria um transtorno mental. E o que isso significa? Absolutamente todos nós teremos um transtorno mental, como eu já tive dos 16 aos 30 anos, ou alguém muito próximo a nós terá — nossos pais, irmãos, namorados, filhos — porque faz parte de quem somos como seres humanos. O que precisamos fazer é efetivamente remover o preconceito, tentar entender, socializar, aceitar e conviver com pessoas que têm transtornos mentais. Tentar entender também a ideia do que é um transtorno mental: mais uma doença do corpo, como qualquer outra, e que ela melhora significativamente com a socialização e a compreensão das pessoas ao redor.

  • G |Você já disse que escreve sobre suas obsessões, e entre elas estão “a morte e o sentido da vida frente à morte”. Vivemos num tempo em que as pessoas falam muito de um estilo de vida que busca longevidade e as relações amorosas são mais esparsas. Vê uma mudança de busca de sentido na sociedade?

    RM |

    Qual é o sentido de viver? Para mim, a vida basta, a alegria de viver. A vida precisa ser vivida, imperativamente, a vida deve ser vivida, e nessa missão da vida reside um pouco o sentido da realidade. Agora cada um de nós busca como enfrentar a escuridão de tudo o que não sabemos sobre a existência e sobre este mundo. Assim, a grande maioria dos seres humanos vive como se fosse imortal, porque a morte ninguém consegue entender. Exceto um punhado de neuróticos, como Woody Allen e eu, que estamos sempre pensando na morte. Mas isso não é ruim, porque quando você está muito consciente da morte, você também está muito consciente da vida, você é capaz de aproveitar a vida com uma intensidade incomparável.

  • G |Como a prática do jornalismo contribui ao longo dos anos para a realização dos seus livros? O fato de mesclar o ensaio a outros gêneros é um jeito de exercer o jornalismo na literatura?

    RM |

    Para fazer ensaio, poesia, ficção ou teatro, é preciso conhecer muito bem as suas regras, até mesmo para transgredir os gêneros. Se misturá-los mal, não fará um bom trabalho. Especificamente, a ficção e o jornalismo são muito opostos. No jornalismo, a clareza é um valor — quanto mais claro e inequívoco um texto, melhor — enquanto, em um romance, a ambiguidade é um valor — quanto mais interpretações tiver, mesmo com uma história, melhor. Eu me considero uma escritora que cultiva a ficção, o ensaio e o jornalismo, ponto final. E quando escrevo um ensaio é um ensaio, e não é jornalismo, e quando faço jornalismo é jornalismo, e quando faço ficção é ficção.

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O que me parece terrível é que o recurso da autoficção seja tão valorizado e que os escritores se precipitem em massa para escrever

  • G |Por outro lado, você já falou que falta imaginação e ficção na literatura contemporânea e estamos publicando, lendo e premiando muita autoficção. Como vê esse momento?

    RM |

    Nossos sonhos da noite são impregnados com o que nos acontece durante o dia e, os sonhos da humanidade, que são os romances, também são impregnados com o que acontece à humanidade durante a vigília. Como vivemos em um mundo muito turbulento, onde ninguém é o que parece, nem mesmo o eu ou a realidade são confiáveis, esse subgênero, a autoficção, surge. Usei-o algumas vezes, é um recurso que pode ser engraçado, muito bom, expressivo. O que me parece terrível é que seja tão valorizado e que os escritores se precipitem em massa para escrever autoficção. Para mim, essa supremacia da autoficção indica uma falta, um colapso da pura capacidade poética e criativa. É como se estivéssemos em uma sociedade que envelheceu demais, em que começamos a perder a criatividade, e isso me parece realmente ruim. Onde ela está? A autoficção é boa, mas temos que continuar tentando escrever os grandes romances, esses grandes mitos, grandes histórias, grandes fantasias que explicam a escuridão do mundo.

  • G |Sua escrita fala muito dos encontros do acaso, dos laços que nos conectam, dos amores que seguem e que ficam pelo caminho. Esses temas estão ligados às suas obsessões como escritora?

    RM |

    Não sei se minha literatura fala de encontros casuais. O que eu falo é do caos da vida, somos todos filhos do acaso. Não importa o quanto passemos a vida tentando fazer planos, é completamente absurdo, porque somos apenas uma folha levada pelo vento. Embora não possamos controlar absolutamente nada que nos acontece, podemos controlar como reagimos ao que nos acontece. Sempre há uma escolha, mesmo no momento mais terrível. Nessa pequena escolha, arriscamos nossa identidade, destino e futuro. Epicteto, o filósofo grego, disse que o que afeta os seres humanos não é o que acontece com eles, mas o que é dito sobre o que acontece com eles. Quando as coisas nos acontecem, podemos escolher entre nos contar sobre elas de uma maneira ou de outra. E isso muda a sua vida. Esse é um tema recorrente na minha literatura.

  • G |Você tem uma série de ficção científica narrada por uma ciborgue criada para fazer tarefas humanas. Estamos vivendo um pouco desse futuro sobre o qual você escreve?

    RM |

    Comecei a escrever os romances de Bruna Husky há quase 20 anos, o primeiro foi publicado em 2011. Na verdade, ela é um clone humano que foi desenvolvido por engenheiros genéticos. Resumindo: esses clones vivem apenas dez anos e sabem quando vão morrer. Em 14 meses, eles atingem a idade biológica de 25 anos, são ativados e, então, aos 35 anos, infelizmente, acontece. Não é que eles pretendessem que fosse assim, mas ainda não descobriram como resolver esse efeito. Uma espécie de catástrofe orgânica ocorre e, em uma semana, eles morrem. É por isso que sabem quando vão morrer e por isso não conseguem esquecer que são mortais. Me sinto como ela. Todas as histórias são em contagem regressiva até o dia da morte. Ela acorda hoje e diz 3 anos, 7 meses e 6 dias, e no dia seguinte 3 anos, 7 meses e 5 dias, etc. Então, ela é obcecada pela passagem do tempo e pela morte, e é por isso que me sinto muito próxima dela. Ela é a personagem de que mais gosto de todas as que escrevi.

  • G |Como o momento se infiltra em seus livros, especialmente na série Bruna Husky?

    RM |

    Tudo acontece em Madri e no mundo no ano 2110. Quando comecei, eram cem anos a partir de agora, agora são 80 e poucos anos. E eu sempre quis escrever um livro assim, gosto muito de ciência e de tecnologia, e sempre quis criar um mundo que não fosse apenas possível, mas até provável. Os romances da Bruna foram os mais realistas que já escrevi e, a partir do momento em que surgiram, tudo começou a se tornar realidade, absolutamente tudo. Por exemplo, no primeiro, que saiu em 2011, eles vivem em um mundo onde são analisados. Quando têm problemas mentais, transtornos e angústia, recorrem a psicomáquinas para serem analisados. Em 2011, ninguém falava sobre inteligência artificial, mas hoje usam inteligência artificial como psiquiatras, como vocês sabem. Em “Os Tempos de Ódio”, que escrevi cinco anos atrás, há um apagão total na Espanha e em Portugal, algo que aconteceu há alguns meses, um apagão de quase 24 horas nos dois países.

  • G |Falando em IA, acha que afetou a nossa criatividade, ela estaria em crise? Como pensar o futuro da literatura em meio à queda do número de leitores e ao surgimento da escrita por IA?

    RM |

    Não acho que estejamos em uma crise de criatividade, de jeito nenhum. Tempos conflituosos e críticos, como os que estamos vivenciando, tendem a alimentar a criatividade. O número de leitores não está diminuindo, nem de longe. A leitura sempre foi uma questão minoritária, mas essa minoria sempre aumentou em todo o mundo. Exceto em algum país que entra em guerra ou algo assim, o que se vê é uma queda temporária. Mas, no geral, desde que a escrita e a leitura foram inventadas, a minoria leitora tem crescido cada vez mais. Exceto há cerca de dez anos, houve uma pequena pausa e um pequeno declínio, pela primeira vez, em milênios na história da escrita. Eu me lembro de uma grande conferência sobre educação na Cidade do México em que alguns especialistas disseram que era por causa da Netflix e coisas do tipo, mas isso é um absurdo. Já se falou o mesmo sobre o cinema, a televisão e os jogos. Mas qual é a única coisa radicalmente nova que surgiu há cerca de dez anos e que pode de fato ter mudado nossa relação com o tempo de lazer? Os smartphones. Passamos cinco ou seis horas por dia grudados neles, eles consomem praticamente todo o nosso tempo livre. De fato, houve uma pausa e uma pequena queda. Mas então, com a pandemia, as coisas se resolveram novamente, e a leitura está crescendo em todo o mundo. Entre os jovens, cresce cada vez mais.

  • G |Acredita que hoje a IA já afeta a forma como lemos e escrevemos?

    RM |

    A inteligência artificial é um tema enorme e que pode levar a coisas muito sérias e muito perigosas, como a manipulação da nossa vontade, voto e mente, chegando até mesmo ao extremo, tema do meu último romance de Bruna Husky: à extinção da humanidade, caso a superinteligência seja alcançada e não consigamos controlá-la. É claro que as novas tecnologias afetam a maneira como lemos e escrevemos. Mas isso não se aplica apenas à IA. No naturalismo do século 19, em todos os romances, havia aquelas descrições muito detalhadas, cinco páginas descrevendo uma sala de estar, como era cada um dos vasos de flores, as cortinas e assim por diante. Todas essas descrições não existem mais na ficção contemporânea, porque o cinema e a televisão apareceram e agora todos nós temos um enorme arquivo de imagens, que antes os leitores não tinham. Portanto, não há mais necessidade dessas descrições. A tecnologia de fato muda a maneira como escrevemos, é claro, e isso também não é ruim, é uma adaptação à realidade. Como eu disse antes, os romances são os sonhos da humanidade e dependem da nossa vida desperta.

Ainda tenho a mesma paixão, curiosidade, necessidade de continuar buscando meu caminho para explicar minhas obsessões

  • G |Você já esteve em Paraty, em 2004, e, de lá para cá, são 21 anos. Como seu trabalho mudou e qual sua expectativa?

    RM |

    Pensar nisso me emociona porque eu me diverti muito e, acima de tudo, foi um momento muito feliz. Estava com Martin Amis (1949-2023), que faleceu e foi um dos meus autores favoritos, e sua esposa, que era uma mulher maravilhosa, além de Paul Auster (1947-2024), que também já faleceu, o que eu sinto muito. Foram momentos felizes para mim também porque meu parceiro, com quem vivi por 21 anos, ainda estava vivo. Ele adoeceu em 2008 e morreu dez meses depois, de câncer de pulmão, em 2009. De certa forma, a vida continua. Sou uma pessoa alegre. Gosto muito de viver, e a vida continua maravilhosa. Mas aquele período antes da morte de Pablo é mais ensolarado do que a vida agora. Quanto à literatura, ainda tenho a mesma paixão, a mesma curiosidade, a mesma necessidade de continuar buscando meu caminho para explicar minhas obsessões. Tenho um certo orgulho em acreditar que nos últimos 20 anos escrevi minhas melhores obras e, nesse sentido, estou satisfeita. Não sei aonde cheguei, mas sei que melhorei muito na minha escrita.

Produto

  • A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver
  • Rosa Montero
  • Todavia
  • 231 páginas

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