1
ConversasPedro Mairal: "Viver sob o mesmo teto gera um desencontro, como se o outro ficasse invisível"
Autor de “A Uruguaia” lança coletânea de crônicas sobre amor, sexo e relacionamentos, e fala dos desafios das relações contemporâneas
- @gamarevista
- amor
- literatura
- relacionamento
- tecnologia
Pedro Mairal: “Viver sob o mesmo teto gera um desencontro, como se o outro ficasse invisível”
Autor de “A Uruguaia” lança coletânea de crônicas sobre amor, sexo e relacionamentos, e fala dos desafios das relações contemporâneas
A frase que abre o novo livro do escritor argentino Pedro Mairal pode servir como aviso ao leitor: “O amor é um equívoco.” No entanto, não é necessário se assustar logo de cara. Embora o autor não volte atrás na declaração, ele faz uma concessão logo em seguida. Afinal, escreve, “esse equívoco é a única coisa que existe”. É o fantasma desse sentimento meio contraditório que perpassa as narrativas presentes em “Fogo nos Olhos” (Todavia, 2025), obra que reúne algumas das principais crônicas sobre amor, sexo e relacionamentos que Mairal escreveu para Folha de S.Paulo ao longo de dois anos.
- MAIS SOBRE O ASSUNTO
- Para viajar dentro de casa
- Homem com Homem
- Livros recentes que tratam de amor
Originalmente publicados na coluna “Nosso estranho amor”, ao lado de nomes como Chico Felitti, Milly Lacombe e Anna Virginia Balloussier, os textos formam uma coletânea em que o autor aborda as diferentes facetas dos encontros e desencontros nas relações contemporâneas. “Quando se produz o encontro, muitas vezes há um desencontro. Me interessa sempre o desencontro erótico, o desencontro sexual, mas relacionado também ao amor”, conta Mairal em entrevista a Gama.
Mesmo em seus trabalhos anteriores, o escritor não é estranho a tratar do impacto dos relacionamentos em nossas vidas — incluindo aqueles que não aconteceram. “A Uruguaia” (Todavia, 2018), um de seus romances mais aclamados, nos apresenta a um protagonista que vive uma crise conjugal, cuja promessa de uma paixão não completada serve de combustível para uma existência de pouco brilho. Já o romance de estreia, “Uma Noite com Sabrina Love” (Todavia, 2019), se desloca para as obsessões da juventude, com um adolescente que viaja para viver a sonhada noite de intimidade com uma atriz pornô.
Embora os personagens centrais de seus romances sejam homens, Mairal conta que a maioria de suas histórias nasce de um lugar sem sexo definido. Prova disso é que boa parte dos protagonistas de “Fogo nos Olhos” são mulheres. “Não é bem criar personagens femininas, e sim abrir um canal de onde saem essas vozes. Em geral, escrevo mulheres bastante fortes. Vivi rodeado delas na infância”, conta. E isso apesar de considerar que seu papel na coluna era falar da monogamia da perspectiva masculina. “Se [os personagens] fossem todos homens carregados de frustrações e desejos, seria um pouco monotemático”, confessa.
O texto introdutório da obra pode até não parecer muito otimista sobre como retrata relações amorosas. Mas as aparências enganam — ao menos em parte. “É a primeira vez que escrevo sobre o amor monogâmico, dentro do casamento, como algo possível. Nos meus textos anteriores, não havia luz no fim do túnel”, revela o autor. E ele se mostra particularmente fascinado com as possibilidades cotidianas de desencontro e reencontro entre casais que já estão juntos há algum tempo.
Mairal, que afirma ter um coração de poeta — embora nenhum de seus livros de poesia tenha saído até agora no Brasil —, também diz estar em meio ao processo de escrita de um novo romance. E isso é tudo que pode revelar. “Se eu contasse sobre a trama, seria como deixar o gás sair da Coca-Cola”, brinca. No papo a seguir, o autor fala ainda sobre a importância de observar o comportamento humano, aborda o impacto do passado e futuro nas pessoas que somos hoje e dá sua visão sobre relacionamentos amorosos com Inteligências Artificiais.
-
G |Muitas das suas narrativas são centradas na descoberta e na memória de relacionamentos. O que te atrai a escrever sobre amor e relações amorosas?
Pedro Mairal |No mesmo ato de se despir, existe um descobrir. Acredito que se desnudar quer dizer desatar nós. Então me interessa o que acontece com a intimidade dos personagens, uma intimidade muito grande mas vulnerável. A vulnerabilidade me interessa. É o lugar onde cada personagem chega com algo imaginado, além de toda uma carga cultural sobre esse desejo. E, quando se produz o encontro, muitas vezes há um desencontro. Me interessa sempre o desencontro erótico, o desencontro sexual, mas relacionado também ao amor.
-
G |O livro começa apontando que o amor é um erro, mas que esse erro é a única coisa que existe. É com essa visão do amor como um erro inevitável que você adentra as crônicas do livro?
PM |Acredito que sim. E é a primeira vez que escrevo sobre o amor monogâmico, dentro do casamento, como algo possível. Nos meus textos anteriores, não havia luz no fim do túnel. O casal era sempre uma situação asfixiante, onde não se podia respirar. Os personagens sempre estavam presos. Neste livro, pela primeira vez aparecem alguns textos em que há uma possibilidade de encontro, apesar de todas as dificuldades. Mas [o amor] segue sendo um grande erro em que devemos cair, em que é importante cair.
-
G |Como surgiu a ideia de juntar todas essas crônicas publicadas no jornal em um único livro?
PM |De uma maneira orgânica, como uma planta cujas folhas estão crescendo. Como não vivo no Brasil nem em São Paulo, para mim era sempre um mistério a recepção desses textos. Algumas vezes alguém retuitava ou postava um fragmento no Instagram, então me dava conta da repercussão. Quando terminou o trabalho, que durou cerca de dois anos, percebi que havia alguns textos que, em conjunto, formavam algo maior. Primeiro escolhi aqueles de que mais gostava, vi quais funcionavam juntos e falei com os editores da Todavia. Eles aprovaram a ideia, que começou a tomar forma. Trabalhamos bastante na ordem em que colocá-los, mas claramente funcionavam como uma constelação de personagens do amor e do desamor.
-
G |Sua escrita mostra que você é um observador da vida cotidiana. Qual o seu processo para criar um conto, uma crônica ou um romance?
PM |Eu vivo a minha vida e a observo também. Sou como um espião de mim mesmo e do que me envolve, das histórias que leio. Com tudo isso, tomo algo daqui, dali e armo um Frankenstein. Me ajuda muito trabalhar com prazos. A coluna me ajudou a sentar e escrever. Às vezes me surpreendo, porque não sei de onde sai uma história. Por exemplo, “Uma Caixa Vermelha” é a história de uma mulher que encontra uma caixa em sua casa e a leva a um trem para destruí-la. Não sei de onde veio isso, são personagens que estão dentro de mim. Muitas vezes penso em como eu reagiria, seja homem ou mulher. Escrevo de um lugar um pouco andrógino, onde posso ser qualquer coisa. E gosto que os personagens pareçam reais. Observar o comportamento humano me fascina, me dá muito prazer. Quando você observa, vê a superfície. Mas embaixo dela existe esse mar de enorme profundidade. Você adivinha o psicológico e as coisas que estão acontecendo pelos gestos, pela forma de atuar, como uma pessoa responde ou por aquilo que ela não diz. Gosto muito de observar, sempre fiz isso. E não só de observar, mas também anotar, traduzir para as palavras.
-
G |Entre romances, crônicas e poemas, você tem um gênero preferido para escrever, e especificamente para escrever sobre relacionamentos?
PM |Para mim, a palavra sempre teve uma carga erótica muito grande. Minha entrada na poesia foi através de poetas como Neruda, com poemas de amor ou sexo, e surrealistas como Enrique Molina, da Argentina, que tinha uma escrita muito erotizada. Então sempre me senti muito confortável escrevendo sobre erotismo na poesia. Mas as relações humanas têm uma complexidade e uma neurose mais próprias da prosa. Na narrativa, se manifestam as tramas do destino, como um destino se cruza com outro no momento do encontro. Nunca ficaria preso a um único gênero, mas acredito que minha força verbal vem da poesia. Eu me arrisco na prosa, às vezes na crônica, mas meu coração é de poeta.
Receba nossos melhores conteúdos por email
Inscreva-se nas nossas newsletters
Obrigada pelo interesse!
Encaminhamos um e-mail de confirmação
-
G |O protagonista de “A Uruguaia” parte das lembranças de uma paixão proibida para levar em frente um cotidiano não muito brilhante. Como acredita que nossas relações passadas afetam nosso presente e a forma como nos relacionamos, e como trata disso na literatura?
PM |Creio que todos nós somos quem somos agora, mas também a criança e o adolescente que fomos e um pouco aquela pessoa que queremos ser ou que temos medo de ser no futuro. Toda essa fila de gente, do passado para o presente e futuro, coexiste agora. Me parece interessante que os personagens tenham um passado, uma infância, mesmo que apareça apenas uma coisa mínima. Isso sempre lhes dá profundidade, perspectiva. Há um conto em “Fogo nos Olhos” sobre um homem que se lembra do bullying que sofreu na infância, e como esse momento permanece nele como um trauma. Quando ele começa a buscar coisas online, volta a surgir o fato de rirem dele porque era gordo na infância. Então acho importante pensar os personagens em sua dimensão temporal. Todos somos uma linha do tempo. Somos como dizem os cubanos, que chamam a velhice de juventude acumulada. Para criar personagens verdadeiros, devemos tratar disso, que muitas vezes tem a ver com o desejo, com o que aconteceu aos personagens em todas essas relações anteriores, ou mesmo as relações que não existiram.
-
G |Gosto particularmente dessa crônica que você citou, que trata de como as redes sociais capturam nossas angústias, a ponto de o personagem acabar chorando por um amor da adolescência. Considera um desafio escrever sobre esse novo formato de relações, algoritmos e mídias sociais?
PM |É difícil e me interessa muito escrever sobre novas tecnologias e como elas nos atravessam. Isso provoca um monte de coisas que têm a ver com o comportamento humano e com uma exteriorização do mental. Analisar o seu histórico online dos últimos dias é como caminhar por seu próprio cérebro. E acho que todo mundo teria vergonha de mostrar esse histórico. Me parece que há uma grande mudança de paradigma nesse encontro do corpo emocional com a inteligência e toda a informação do mundo disponível nas redes. É um encontro estranho, não sei para onde vai, mas me interessa testemunhar isso.
-
G |A literatura tem conseguido abordar esse estranhamento?
PM |Tem um livro do Andrés Felipe Solano, um autor colombiano que mora na Coreia do Sul, chamado “Os Dias da Febre”, sobre o que aconteceu na Coreia no início da pandemia. Ele analisa as novas tecnologias para rastrear com quem as pessoas tinham entrado em contato. Quando se descobria que alguém tinha o vírus, investigava-se todo o seu movimento, tudo o que havia comprado, em que vagão do metrô andou, tudo. E Solano narra isso de maneira muito legal. Há um conto muito bom de Hernán Casciari em que ele explica como o telefone arruinaria qualquer história. Em “Romeu e Julieta”, a Julieta manda um mensagem para Romeu revelando que vai se fingir de morta. Em “João e Maria”, as crianças enviam um texto à mãe contando que se perderam no bosque. Ou seja, o celular mata toda a narrativa. Mas esse mundo tecnológico está cada vez mais presente. Logo vai ser difícil discernir o que é humano e o que é robô.
-
G |Como as pessoas que estão se apaixonando por Inteligências Artificiais…
PM |Isso é aterrador, não é? A solidão humana… Afinal, a IA não tem corpo. E, quando falamos da língua humana, estamos falando de uma parte do corpo. A língua sai de um corpo, desde a respiração, o alinhamento, a articulação na boca, e provoca algo em outro corpo: irritação, nojo, excitação, rir, chorar, o que for. Me parece muito estranho que a IA possa captar isso, porque ela é só palavra sem corpo. E a palavra sem corpo é uma informação que flutua no ar, mas que não tem ternura real. Ainda não entendo bem, mas suspeito que a artificialidade da IA nunca vai deixar de ser artificial.
-
G |Dizem que a maioria das histórias de amor é sobre inícios e finais. Mas nesse livro tem uma crônica muito bonita, chamada “Te Encontrar”, que trata do meio da relação, um momento em que o casal vive uma rotina entediante, mas que mantém pequenos momentos de reencontro. Qual a beleza de retratar esses instantes menos glamourizados das relações amorosas?
PM |Fico feliz que você tenha gostado desse texto, porque para mim ele é muito central no livro. Pela primeira vez, estou conseguindo escrever e encontrar a beleza nas histórias de casais consolidados e que vivem há muito tempo juntos. Tem a ver com essa possibilidade de se reencontrar. Parece estranho, mas viver muito tempo sob o mesmo teto com alguém provoca um desencontro, como se o outro ficasse invisível. Com essa crônica, consegui mostrar como, apesar de todas as dificuldades e dessas camadas, como as de uma cebola, que vão recobrindo os casais monogâmicos, há a possibilidade de encontrar essa faísca inicial. Parece que estou escrevendo sobre um amor que não tem a ver com o impulso de se apaixonar, sobre o impacto que um amor consolidado tem sobre as pessoas. E tenho notado que os jovens continuam optando pela exclusividade nas relações. Me parece que algo nisso ainda nos dá segurança. Os casais que conheço que têm relações abertas costumam se machucar bastante, há muita dor envolvida.
-
G |Você retrata um pouco dos amores e obsessões da juventude, que podem ser especialmente intoxicantes, no seu primeiro romance, “Uma Noite com Sabrina Love”. O que te instigou a escrever sobre o tema?
PM |Eu não visualizei a narrativa enquanto não entendi que o personagem era um adolescente virgem e sem dinheiro vindo do interior do país. Então a história era a viagem do seu povoado natal até a capital. É um tema muito antigo e bastante latino-americano. O que me interessava era o caminho do herói nesse romance de formação. Um adolescente sai para o mundo pela primeira vez. E comecei a escrever o livro da mesma maneira que Daniel Montero [o protagonista] se lança em sua rota, porque eu não tinha ideia de como escrever algo mais longo do que um conto. Para mim a experiência também foi formativa. Me interessava esse frescor, a ingenuidade de Daniel se lançando pelo caminho e se encontrando com uma galeria de personagens com opiniões muito machistas, toda essa intervenção que homens querem fazer sobre a descoberta sexual dos jovens.
-
G |Há um certo preconceito contra histórias que tratam abertamente de amor, algo que também afetou muitas escritoras mulheres ao longo do tempo. Por que acha que existe essa resistência ao tema?
PM |Acredito que a arte atual tenta não ser muito emocional. É outra coisa, um questionamento, um sinal. No manifesto “Sobre uma Poesia Sem Pureza”, Neruda diz que é preciso ser cafona e falar coisas como “meu amor”. Ele fala que quem quer fugir do mal gosto acaba caindo no gelo. Eu não quero cair no gelo, quero retratar esse momento um pouco psicótico das pessoas que se apaixonam como se adquirissem uma espécie de superpoder. São super-heróis os personagens enamorados, passam por cima de todas as dificuldades. Tem a ver com uma raiz profundíssima que é inerente ao ser humano: o carinho, o cuidado do outro, o afeto. Perguntaram uma vez a uma antropóloga qual foi o primeiro momento em que as tribos de macacos tiveram uma faísca humana. Ela disse que a primeira faísca da humanidade foi um osso, o fêmur, que quebrou e voltou a se soldar. Nenhum animal sobrevive a essa fratura, porque precisa de um cuidado de meses. É necessário alimentar, lavar, limpar e proteger, coisas que os animais não podem fazer. Então uma das coisas que primeiro nos caracterizaram como seres humanos foi o cuidado pelo outro. Essa é uma das raízes do amor: dar e buscar proteção. Claro que também há outras coisas que formam o ser humano, como a agressividade. Mas eu não tenho medo de escrever sobre histórias românticas, porque têm a ver com a base do comportamento humano.
-
G |Apesar das mudanças nos relacionamentos contemporâneos, suas crônicas destacam acontecimentos cotidianos atemporais, como a maneira que um casal divide a cama. Por mais que as relações mudem, elas continuam sempre meio iguais? É um pouco dessa dualidade que você captura aqui?
PM |Sem dúvida, há uma continuidade do comportamento sempre atravessada pela época. O texto “Modos de Dormir” fala da intimidade que significa dormir com o outro. É esse lado B da vida, o que acontece entre os casais, os sonhos… Apesar das novas tecnologias, o corpo não mudou com os séculos. Continuamos tendo um corpo doente, que sofre, goza e é cheio de sangue. Continuamos sendo isso que somos, animais estranhos, muito sofisticados, mas animais.
- Fogo nos Olhos
- Pedro Mairal
- Todavia
- 104 páginas
Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos da Gama, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo.
-
CAPA Como vai sua vida amorosa?
-
1Conversas Pedro Mairal: "Viver sob o mesmo teto gera um desencontro, como se o outro ficasse invisível"
-
2Reportagem A monogamia pode ser diferente?
-
3Podcast da semana Carol Tilkian: o relacionamento amoroso e a crise de atenção
-
45 dicas Como saber se é hora de terminar uma relação
-
5Bloco de notas Dez livros sobre amor e relações pela perspectiva feminina