Como ter esperança?
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Depoimento

Você tem esperança?

Nomes à frente de áreas como meio ambiente, feminismo, filantropia e segurança compartilham com Gama o que os faz seguir em suas buscas e não desistir

14 de Dezembro de 2025

Nomes à frente de áreas como meio ambiente, feminismo, filantropia e segurança compartilham com Gama o que os faz seguir em suas buscas e não desistir

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    “Tenho muita esperança no futuro, que inclui mulheres e crianças”

    Rachel Ripani, atriz, ativista e cofundadora do Levante: Mulheres Vivas

    “A esperança também é uma construção. Eu encontrei muita esperança no coletivo. Encontrei esperança em dividir, mesmo a dor ou o medo, e encontrei acolhimento, eco, espelho, escuta. Tenho esperança nas mulheres — e muita esperança no futuro, que inclui mulheres e crianças. E eu vou continuar trabalhando para manter a minha esperança viva, o que é um trabalho que a gente deve continuar investindo com afinco, porque é importante.”

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    Carol Godefroid

    “Não sei falar sobre esperança-sentimento. Só conheço o inseto ‘esperança'”

    Marilene Felinto, escritora e colunista da Gama

    x, sobre o qual recorri à mais ou menos burra Inteligência Artificial (IA). Ela disse que a esperança tem corpo estreito e alongado, de um verde-vivo, cujas asas se confundem com as folhas das plantações (daí ser mimética), antenas bem finas e longas (tudo isso eu já sabia). Mas a IA revelou que o inseto é da mesma família dos gafanhotos e grilos (ordem Orthoptera, família Tettigoniidae). Isso eu não sabia, e adorei saber. Porque na minha infância, amarrávamos linhas de costura no pescoço dos gafanhotos e saíamos puxando, como se fossem os cachorros que desejávamos ardentemente ter e não podíamos. Tenho amor aos gafanhotos. Por último, a IA disse que as esperanças não são insetos gregários e, portanto, não atacam as plantações, como os gafanhotos. Dei risada. Me identifiquei com isso, porque também não sou gregária. Mas a IA só não trouxe a informação que julgo a mais importante, e que conheço há tempos: não disse que o que melhor já se escreveu sobre ‘esperança’ está no lindo conto de Clarice Lispector chamado ‘Uma esperança’ (Felicidade Clandestina, 1971). Então, eu, particularmente, prefiro o inseto ‘esperança’ ao estado-afetivo. Não sou gregária — e sou mimética (porque escrevo ficção e me disfarço sob folhas e mais folhas), mas posso atacar, sim, gente humana que me ataque.”

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    “A esperança mora nesse gesto: acreditar, agir e não se conformar. Prefiro estar junto de quem tentou”

    Adriana Salay, professora do Departamento de História da USP

    “Ultimamente tenho pesquisado solidariedade e, para minha própria surpresa, ela tem surgido em muitos lugares. Mesmo em um mundo marcado pelo individualismo e pela transformação de tudo em mercadoria, ainda encontro, nos gestos cotidianos, a presença da gentileza e da solidariedade. Isso fortalece a minha esperança de transformar o Brasil, país pelo qual sou apaixonada, em um lugar menos desigual. Para ter forças, lembro de Angela Davis quando diz que precisamos agir como se pudéssemos mudar radicalmente o mundo. A esperança mora nesse gesto: acreditar, agir e não se conformar. E, se no fim não conseguirmos, sigo preferindo estar junto de quem tentou.”

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    “A gente tem que olhar para frente e pensar em todas as oportunidades de atuação, tanto na sociedade civil como política”

    Neca Setubal, socióloga e filantropa, presidente da Fundação Tide Setubal

    “Nós estamos vivendo numa sociedade mundial com diversas crises, uma crise civilizatória, ambiental, econômica, social e política. É muito difícil olhar para o futuro e pensar ‘e agora, o que vai acontecer?’. Para mim, a esperança é fundamental, eu não desistir do Brasil, não desistir de ter esperança de que a gente está vivendo um momento histórico. Desde o século 20, avançamos em muitas questões nas áreas sociais, econômicas e políticas, fortalecendo a nossa democracia. Ainda temos graves problemas de desigualdades, mas, sem dúvida, já avançamos em vários pontos: pessoas que estão saindo da pobreza, o enorme contingente de estudantes negros nas universidades públicas. Então, acho que a gente tem que olhar para frente e pensar em todas as oportunidades de atuação, tanto na sociedade civil como política. Do lugar da sociedade civil, tem muitas experiências interessantes acontecendo em várias regiões do país. Às vezes pequenas, mas são muitas luzinhas, muitas fogueirinhas, como dizia o Eduardo Galeano, que vão se tornar um grande fogo de esperança para clarear e iluminar os caminhos para o futuro.”

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    “Minha esperança não é emocional; é operacional. Ela existe porque precisa existir para que o trabalho continue”

    Cecília Olliveira, jornalista, co-fundadora do The Intercept Brasil e diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado

    “Eu não tenho a mesma esperança que tinha quando comecei a cobrir o Rio [como jornalista]. Hoje, depois de quase duas décadas acompanhando um Estado que dissolve sua própria fronteira com o crime, minha esperança é cheia de dúvidas — e eu aprendi a respeitar essas dúvidas. O que vi ao longo desses anos — portas que não se abrem, documentos que desaparecem, investigações interrompidas por silêncio ou medo — não combina com otimismo fácil. Mas também aprendi outra coisa: se a esperança dependesse da realidade, ninguém no Brasil
    teria motivo para continuar trabalhando por mudança. Então a minha esperança não é emocional; é operacional. Ela existe porque precisa existir para que o trabalho continue. A esperança que ainda tenho nasce de movimentos concretos. Das pessoas que insistem em olhar para aquilo que o Estado tenta esconder. Ter esperança hoje não é um sentimento, é uma disciplina. E ela começa encarando a realidade como ela é. A esperança só funciona quando parte desse diagnóstico. O que acontece no Rio não é exceção, mas aviso. Não lutamos por uma cidade, mas pelo que ainda resta de institucionalidade no Brasil. A esperança nasce dessa urgência. E ela exige manter pequenas vitórias vivas, mesmo diante de momentos como esta madrugada de quarta-feira, vendo mais um tijolinho da democracia sendo demolido, com a censura à imprensa e o espancamento de parlamentares e jornalistas.”

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    Marlon Diego

    “Enquanto vejo o mundo acabar, e ele está sempre acabando, a vida se impõe e insiste”

    Fabiana Moraes, jornalista, pesquisadora e colunista da Gama

    “Acredito que seja possível ter esperança e ao mesmo tempo a absoluta certeza de que estamos fodidos. Não é a frase mais inspiradora, eu sei, mas estaria mentindo se falasse que sou apenas fé ou apenas descrença. Para mim, enquanto vejo o mundo acabar — e ele está sempre acabando —, a vida se impõe e insiste em lugares como o Sítio do Pai Adão Obá Ogunté, que acaba de completar 150 anos. Utilizo esse espaço na zona norte de Recife como exemplo e explico: imaginem manter de pé durante todo esse tempo uma comunidade e uma religião historicamente atacados, queimados, roubados, vilipendiados, esculhambados. Mas elas e eles estão lá, e é a coisa mais bonita e esperançosa acompanhar uma celebração ali, ouvir os cantos cantados juntos, os meninos ogãs tocando os ilús. Enquanto o mundo acaba, eles estão ali e mostram que comunidade — com amor, com tensões comuns — é aquilo o que nos salva.”

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    “As perspectivas em relação à crise climática pela qual estamos passando não são lá muito positivas”

    Paulo Artaxo, professor e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP

    “As esperanças e perspectivas em relação à crise climática pela qual estamos passando não são lá muito positivas porque a indústria do petróleo insiste em priorizar o maior lucro possível no menor espaço de tempo possível, não importam as consequências ambientais, climáticas, sociais e econômicas. Essa indústria está mudando o clima do planeta de maneira muito forte, muito rápida, com consequências sociais e econômicas enormes ao longo das próximas décadas e talvez ao longo dos próximos séculos. Então, realmente, o que precisamos fazer é implementar uma transição energética em que a gente pare de explorar e usar combustíveis fósseis o mais rápido possível e implemente maneiras de utilizar a energia mais eficientemente. De preferência, energia solar, eólica, de hidrogênio, de biomassa, energias que não contemplem emissões de gases de efeito estufa. Isso é absolutamente urgente para a sociedade brasileira e também a nível global.”

     

     

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    “Tenho esperança na juventude indígena, nas mulheres — indígenas e não indígenas — que seguem resistindo, sonhando e construindo alternativas”

    Maial Paiakan Kaiapó, liderança da Terra Indígena Kayapó, no sul do Pará. É advogada e ativista pelos direitos humanos, ambientais e territoriais.

    “Sim, apesar de tudo, ainda tenho esperança. Tenho esperança na juventude indígena, nas mulheres — indígenas e não indígenas — que seguem resistindo, sonhando e construindo alternativas. Acredito que podemos mudar o cenário em que vivemos, e essa mudança passa também por nossas escolhas coletivas. Estamos diante de um dos piores Congressos da nossa história recente, e justamente por isso o próximo ano é decisivo. Só transformaremos essa realidade se transformarmos também o nosso voto. Teremos muitas candidaturas indígenas, e já deixo aqui um chamado: que possamos eleger mais indígenas, mais ambientalistas, mais defensores dos direitos humanos. Minha esperança está em cada um de nós. Porque só assim, juntos, conscientes e mobilizados, é que podemos realmente mudar o futuro. O futuro depende de cada um de nós.”

Um assunto a cada sete dias