Fernando Luna
Na minha rua estão cortando árvores
Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre o apocalipse natural, o apocalipse tecnológico, o após-calipso de um cineasta e o paraíso dos cinéfilos
Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. Minha rua acordou mudada
Carlos Drummond de Andrade, 1930
Antologia Profética
Desde “Alguma Poesia”, livro de estreia de Drummond, é assim: “Na minha rua estão cortando árvores”.
No poema “A rua diferente”, tavam cortando árvores e, ato contínuo, “botando trilhos” e “construindo casas”. Quase cem anos depois, seguimos trocando árvores pela promessa de mobilidade e de moradia — apenas botamos asfalto em vez de trilhos e, no lugar de casas, construímos prédios.
“A vida tem dessas exigências brutas”, ponderava o poeta. Cada vez mais.
Voltei de viagem no dia seguinte ao vendaval bíblico que derrubou centenas de árvores em São Paulo — inclusive o chichá que sombreava o Largo do Arouche, evitando serras e serrotes há 200 anos.
Tinha visto todos os vídeos nas redes sociais e sites noticiosos: a chuva diluviana, empurrada com violência por um vento que mais parecia efeito especial de filme-catástrofe.
Mas ver pessoalmente o resultado daquela trabuzana é diferente.
Depois de 18 horas de voos e conexões, o táxi do aeroporto enfim entrou na rua onde moro — e brecou diante de uma árvore que caiu na contramão atrapalhando o tráfego.
(A árvore ficou três dias atravessada sobre as duas pistas. Até uma equipe da prefeitura considerar uma grande ideia chegar na madrugada de sábado com uma motosserra e seus decibéis pra resolver o problema.)
Arrastei as rodinhas da mala por uns 100 metros, deixei as coisas em casa e saí pra dar uma corridinha pelo bairro. Corridinha, veja bem, não maratona.
Mesmo modesto, o rolê foi suficiente pra cruzar com dezenas de árvores estateladas no chão, na modalidade pouco olímpica “Cinco Quilômetros com Barreiras”.
Saltando um galho ali, um tronco acolá, parecia que o Ricardo Salles tinha virado subprefeito da Sé e organizado um bota-abaixo pra se livrar de qualquer resquício verde. Nem precisaria. De tantas árvores que derrubamos, agora a própria natureza se encarrega de arrancar as que sobraram.
Eu vi os melhores da minha geração destruídos pela loucura
Allen Ginsberg, 1956
– Onde você quer passar o apocalipse?
– Longe.
– Infelizmente essa opção não tá disponível.
– Não seja pessimista, a tecnologia vai nos salvar.
– Não seja negacionista: a tecnologia tava na primeira fila da posse do Trump, batendo palmas pro fim do mundo.
– Mas como o Vale do Silício trocou a cultura livre pela cultura do controle?
– Douglas Rushkoff, o mais selvagem pensador da distopia digital, falou dessa transformação no SXSW, festival de inovação que tá acontecendo agora em Austin, no Texas.
– Texas? Não parece dos lugares mais progressistas.
– De fato. Por isso mesmo, Zuckerberg anunciou que vai trazer pra cá o departamento de moderação da Meta.
– Um aceno aos conservadores?
– Mais que isso, nas palavras de Rushkoff: “Levar a moderação para o Texas é como transferir pro Afeganistão seu setor de feminismo”.
– Esses tech-bro nunca me enganaram.
– Nem sempre foi assim. “Estar on line era como estar chapado”, lembra. “O mundo parecia estranho, porque a gente tava simulando a realidade.”
– Acabou numa bad trip.
– A experiência criativa foi reduzida a um produto à venda – você, eu e todo mundo conectado. “Não damos mais às pessoas ferramentas para criar”, aponta. “Agora usamos ferramentas para prever e controlar o comportamento das pessoas.”
– Onde isso vai parar?
– Essa turma não acredita em parar. Tudo precisa crescer sempre, exponencialmente.
– Isso não é bom?
– “A única coisa que cresce indefinidamente é o câncer”, diz. “E acaba matando o hospedeiro.” Organismos saudáveis crescem até certo ponto e param. O modelo das Big Tech sacrifica a ética e o bem-estar pela ilusão do crescimento infinito.
– A inteligência artificial vai dar um jeito nisso.
– Mas a IA não é criativa. Ela apenas prevê a próxima palavra mais provável. Se aplicar IA a tudo, a sociedade fica reduzida ao mediano, ao previsível.
– Desconectando em um, dois, três e…
– Não adianta negar a tecnologia. Rushkoff quer que o mundo digital volte a ser estranho, “weird”, como no princípio. Mais beatnik, menos bit-bitolado, mais Allen Ginsberg, menos Elon Musk.
Humildade relativa do ar: baixa
Carlos Vogt, 2002
Hoje não é dia de ser humilde: “Ainda Estou Aqui” desbancou todos os outros longas-metragens do planeta.
Levar o Oscar de Melhor Filme Internacional significa, afinal, vencer em nada menos que 192 dos 193 países reconhecidos pela ONU.
“Anora”, tadinho, precisou se conformar com o prêmio de Melhor Filme.
Uma categoria obviamente menor, criada pra avaliar apenas filmes regionais, produzidos num único país: os Estados Unidos – que, sejamos francos, já teve momentos melhores.
Não é despeito.
Gosto de “Anora”. Achei graça em sua mistura de pastelão tipo “Se Beber, Não Case”, do Todd Phillips, com a noite delirante de “Depois de Horas”, do Martin Scorsese. Mas o próprio Sean Baker já foi mais abusado – “Tangerine” é meu favorito.
E seu elogio ao “cinema independente de verdade” ganha peso 2 quando se pensa em “Ainda Estou Aqui”. O orçamento brasileiro foi de mero 1,5 milhão de dólares, uma fração dos 6 milhões de dólares de “Anora”.
(“Duna: Parte 2” saiu pela bagatela de 190 milhões de dólares. Faturou dois dos cinco Oscar a que foi indicado, Melhor Som e Melhores Efeitos Visuais, um proibitivo custo-benefício de 95 milhões por estatueta.)
Mesmo com o Brasil totalmente premiado, Fernanda Torres merecia pagar excesso de bagagem com mais um troféu na mala.
O maior desafio de uma atriz, porém, não é ganhar o Oscar de interpretação.
Isso se resolve com um bom curso a distância de Stanislavski e nem se compara a um boneco de Olinda. Difícil é manter a pose, rosto em close naquela janelinha dividindo a tela com as outras concorrentes, quando descobre que perdeu o prêmio.
Só consegui dormir porque Walter Salles foi o primeiro a reconhecer que, desta vez, Melhor Atriz tá contida em Melhor Filme Internacional: “Nanda é a alma do filme”.
Em tempo: um beijinho no ombro pra quem boicotou a saga de Eunice Paiva e foi assistir qualquer coisa do Brasil Paralelo.
Quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira
Gordurinha, 1958
Oscar e Carnaval juntos é como “Chiclete com Banana”, do Gordurinha. A Academia devia adotar logo os quesitos da Liesa:
“Anora” – O final faz você rever o filme na sua cabeça – e dessa vez gostar. Uma prostituta que acredita no amor do nepobaby russo merece nota 10 no quesito “Fantasia”.
“O Brutalista” – Filmão, não só pelas 3h35. Épico de um homem só, mistura a história do arquiteto sobrevivente de um campo de concentração com a História com “H” maiúsculo. Melhor “Enredo”.
“Um Completo Desconhecido” – A cinebiografia de Bob Dylan deve vencer na categoria “Samba-Enredo”, digo, “Folk-Enredo”.
“Conclave” – Melhor “Comissão de Frente”, com Ralph Fiennes, Isabella Rossellini e Stanley Tucci. Qualquer semelhança com o boletim médico do papa Francisco é mau agouro.
“Duna: Parte 2” – “Alegorias e Adereços” luxuosos, apesar daqueles trajes de beduíno extraterrestre não resistirem ao verão carioca.
“Emilia Pérez” – Assisti me sentindo o general Heleno tramando o golpe contra “Ainda Estou Aqui”. Paul B. Preciado apontou seus problemas, mas esqueceu o principal: um musical com músicas chatas. Perdeu pontos na dispersão de Karla Sofía Gascón.
“Ainda Estou Aqui” – Fernanda Torres e Selton Mello absolutos como “Mestre Sala e Porta-Bandeira”. O filme vive de passado? Quem dera: Marcelo Rubens Paiva foi agredido no domingo e o torturador de Rubens Paiva sofreu um escracho nesta segunda.
“A Substância” – Mais um acontecimento cultural do que um filme antológico. Demi Moore favorita no quesito “Evolução”, considerando que ela começou no cinema com o infame “Feitiço do Rio”.
“Nickel Boys” – Nem Milton Cunha viu, pois não estreou aqui. Porém, seu lançamento previsto diretamente pro streaming, significa.
“Wicked” – A reabilitação da Bruxa Má do Oeste tem uma qualidade: basta aturar metade da história. A parte 2 só chega no final do ano. Merece cair pro Grupo de Acesso.
Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril
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