Artigo

O racismo espera a todas nós lá na frente

Diante da constatação da pele negra, para um policial, o gênero importa? O assassinato da médica Andréa Marins Dias mostra que nossas mortes não vão parar o país

Luciana Brito 26 de Março de 2026
Foto: Reprodução/Instagram

Uma médica, cirurgiã oncológica, especialista em saúde da mulher, assassinada por policiais. Assisti a um vídeo de Cecilia Olliveira, jornalista especialista em segurança pública, sobre o assassinato da doutora Andréa Marins Dias. Olliveira, como sempre de forma muito precisa, conecta o assassinato da Dra. Andréa com o assassinato de Cláudia Silva Ferreira, arrastada por uma viatura policial, em 2014, e chega à seguinte conclusão: não se trata de um acidente, pois a política de segurança e a ação da polícia são estruturadas para serem assim, para matarem pessoas negras, inclusive mulheres e, portanto, seguem impunes. Ambas foram mortas pelo mesmo pelotão.

É um escândalo que a imprensa ainda use a palavra “confundir” para justificar a ação da policia, legitimando o absurdo. A morte da Dra. Andréa não se tornou um escândalo nacional. Me impressiona demais não estarmos comovidas em massa pela perda desta cidadã, que por meio da medicina, prestava serviços de saúde às mulheres brasileiras, promovendo cuidado, saúde e combatendo a naturalização da dor.

A morte da Dra. Andréa nos mostra que não adianta, que nossas mortes não vão parar o país

É de doer o silêncio do Estado e da sociedade civil diante da impossibilidade de levantarem suspeitas quanto à conduta de uma mulher negra, que aos seus 61 anos acumulou todos os símbolos de respeitabilidade do mundo branco: carro bom, educação, viagens, emprego, gosto sofisticado, retorno à sociedade, cuidado com os pais idosos. Nada disso blindou a Dra. Andréa, embora ela tenha feito sua parte no pacto social que diz que somente “as pessoas de bem merecem viver sem medo”.

A morte da Dra. Andréa nos mostra que não adianta, que nossas mortes não vão parar o país, e quando celebradas por setores conservadores — como a de Claudia, de Mariele (2018), dos mais de 100 corpos negros da chacina do complexo do Alemão e da Penha (2025), dos mortos da Chacina do Cabula (2015), de Evaldo Rosa (2019 — produzirão ainda um silêncio absoluto, que dilacera e faz sentir esse sentimento de pavor, de medo, de vulnerabilidade, de impotência, de desamparo por pessoas negras, sobretudo pelas mulheres negras. Na real, sabemos: poderia ter acontecido, e ainda pode acontecer, com qualquer uma de nós.

O racismo esperava a Dra. Andréa lá na frente. E pode esperar a nós todas também

O que faríamos se um policial batesse na janela do nosso carro com a ponta de um fuzil? E se a gente escutasse um policial gritar sua sentença de morte “vai morrer irmão, desce”. Eu desceria? Adiantaria gritar “ei, eu sou uma mulher aqui dentro”. Mulheres negras são mulheres? Diante da constatação da pele negra, para um policial, o gênero importa?

A gente vai ser vista como frágil, como incapaz de confrontar violentamente a polícia e vistas como carentes de proteção também? A gente vai ser poupada, pelo Estado, “como mulher”? Quando dirigida a uma mulher negra, a violência, que viola e que mata, seja promovida pelo Estado ou pelos “companheiros” assusta, sensibiliza, gera comoção?

É dilacerante ver os pais da doutora Andréa no velório da filha querida, filha brilhante, que fez tudo certo, que deu nó nas estatísticas, que confrontou o racismo e que no final não conseguiu driblá-lo. Atenção: NÃO IMPORTA A CLASSE! O racismo esperava a Dra. Andréa lá na frente. E pode esperar a nós todas também. Que dor.

Luciana Brito é pesquisadora, historiadora, doutora em História, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB, autora de “Avesso da Raça” (Bazar do Tempo, 2023) e organizadora de “Reparacão: memória e reconhecimento” (Fósforo, 2026)