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Reportagem

Scholastique Mukasonga: "Não visito os túmulos dos meus mortos pois eles não os têm"

Autora ruandesa escreve como forma de lidar com os traumas, evocar a memória de sua família e da comunidade tutsi, vítima de um brutal genocídio

Leonardo Neiva 30 de Novembro de 2025

Scholastique Mukasonga: “Não visito os túmulos dos meus mortos pois eles não os têm”

Leonardo Neiva 30 de Novembro de 2025
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Autora ruandesa escreve como forma de lidar com os traumas, evocar a memória de sua família e da comunidade tutsi, vítima de um brutal genocídio

Em abril de 1994, começou em Ruanda um dos massacres mais rápidos e brutais da história. Em apenas 100 dias, a população hutu, maioria no país, matou entre 800 mil e mais de um milhão de pessoas, promovendo o genocídio da etnia tutsi. As mortes aconteceram nas ruas e também dentro das casas, invadidas por hutus, onde vizinhos mataram vizinhos e até alguns maridos acabaram assassinando suas esposas tutsis. Entre as intermináveis fileiras de mortos, estavam 37 familiares da escritora Scholastique Mukasonga — quase toda a sua família.

Mais de 30 anos depois desses eventos brutais, Ruanda segue num processo de reconstrução e reconciliação, do qual a obra de Mukasonga é parte importante. A autora vem dedicando sua carreira a tecer uma mortalha de palavras para cobrir aqueles por quem ela não pôde fazê-lo na vida real, um importante ritual de despedida na sua cultura. Dois anos antes do genocídio, ela havia se mudado para a França numa decisão consciente da família para livrá-la do rancor e da violência que vinham se acumulando há décadas no país.

Hoje, Mukasonga se considera uma sobrevivente e, mais do que isso, uma das únicas testemunhas do trauma que deixou vidas, tradições e costumes à beira do apagamento. “Meu dever é testemunhar pelos meus mortos. Aqueles a quem foi negada a humanidade, reduzidos à condição de baratas, de pragas que precisavam ser erradicadas, e que agora só me chegam através da memória“, conta em entrevista a Gama.

Em seu primeiro livro, “Baratas” (Nós, 2018), a autora descreve em detalhes o longo processo de desumanização que transformou indivíduos normais em assassinos, assim como a agonia dos tutsis, observada de forma passiva pela comunidade internacional. “A Mulher de Pés Descalços” (Nós, 2017) resgata a luta de sua mãe pela sobrevivência dos filhos e o modo de vida das mulheres de uma comunidade que acabou dizimada. Já “Julienne”, seu romance mais recente, conta a história da irmã morta no exílio, e está previsto para sair no Brasil em 2026.

Mukasonga foi uma das presenças mais ilustres da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, em 2017. Desde então, a autora, que já foi cotada para o Nobel, vem construindo uma relação próxima com o Brasil, país que visita praticamente todos os anos. Ela foi homenageada recentemente na 13ª edição do Festival Literário Internacional de Araxá (Fliaraxá), em outubro. Na cidade mineira, também realizou debates com Itamar Vieira Junior e o jornalista Jamil Chade.

Herdeira do talento da mãe para contar histórias, Mukasonga fala a Gama sobre a escrita como forma de lidar com traumas, aborda as reações da comunidade internacional a genocídios, do massacre dos tutsis à situação em Gaza, e revela como vem acompanhando a reconstrução da vida em Ruanda, que acontece até hoje.

  • G |Assim como “A Mulher dos Pés Descalços” e outras de suas obras, seu livro mais recente, “Julienne”, fala da vida da sua família — no caso, da sua irmã. O que te move a seguir evocando as memórias deles e de uma Ruanda antes do genocídio?

    Scholastique Mukasonga |

    Ser escritora certamente não fazia parte das minhas ambições quando jovem. Foi o genocídio dos tutsis em Ruanda em 1994 que fez de mim uma escritora. Eu não estava em Ruanda nesses meses trágicos, em que morreram mais de um milhão de pessoas, dentre elas 37 membros da minha família. Portanto, sou uma sobrevivente e não uma refugiada. O genocídio não explodiu bruscamente na noite de 7 de abril de 1994. Ele vinha sendo preparado havia muito tempo, dos primeiros ataques contra os tutsis em 1959 até a “solução final”. Foi com esses preparativos que minha família conviveu depois de ser deportada para Nyamata em 1959. Meu dever é ser testemunha, fazer reviver pela escrita aqueles de quem tentaram erradicar até os mínimos traços de existência. Foi por essa obrigação com a memória que me tornei escritora. O próximo livro publicado pela Nós conta, sob a forma de romance, a história real da minha irmã Julienne, vítima colateral do genocídio tutsi. Mas no destino da minha irmã se refletem centenas de milhares de tutsis forçados ao exílio para fugir da política de apartheid dos dois governos hutus, em 1962 e 1994.

  • G |Sua escrita é uma escrita do trauma, do exílio, mas também uma celebração do amor e da vida em comunidade por meio das memórias. Quais principais fatores te formaram e impulsionaram a começar a escrever?

    SM |

    Venho de uma cultura oral. A antiga Ruanda, como muitas sociedades, não tinha escrita. Genealogias, história, épicos, poesia e contos eram transmitidos oralmente. A minha infância foi repleta das histórias da minha mãe. Acredito ter herdado um pouco do seu talento como contadora de histórias e talvez também essa memória que permitiu a transmissão das tradições fundadoras de um povo. Mas é claro que, na era da escrita e, em breve, da IA, a memória de um acontecimento da comunidade humana só pode ser perpetuada através da escrita. Espero que meus livros contribuam para preservar essa memória; esse é o objetivo da minha escrita.

  • G |Por que diz que o esquecimento é como uma segunda morte para as vítimas?

    SM |

    Meus livros poderiam ter como epígrafe esta frase do [escritor romeno] Elie Wiesel: “Esquecer os mortos seria matá-los uma segunda vez.” Meu dever é testemunhar pelos meus mortos. Aqueles a quem foi negada a humanidade, reduzidos à condição de baratas, de pragas que precisavam ser erradicadas, e que agora só me chegam através da memória. É por essa memória, graças à escrita, que eles devem reviver. Ruanda é resultado de uma dupla aculturação. Primeiro, a realizada pelos missionários, sobretudo católicos, que se esforçaram para converter em massa a população, demonizando e erradicando as crenças tradicionais. As repúblicas hutus, que se diziam camponesas e cristãs, perpetuaram essa aculturação. Assim como os missionários, eles rejeitavam violentamente as crenças antigas e censuravam com igual vigor a cultura tradicional. Considerada tutsi e produzida pela corte real, ela seria portanto incompatível com uma república cristã. Isso fez de Ruanda um gueto, que filtrava pouquíssimas das novidades do mundo exterior. Construir uma nova Ruanda é também renovar a relação com nossas raízes negadas ou desprezadas. É com essa tarefa que meus livros, como “Kibogo Subiu ao Céu” (Nós, 2024) e “Sister Deborah” [ainda não publicado no Brasil], buscam contribuir.

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  • G |O mundo vem acompanhando diariamente as notícias da violência em Gaza, sem contar os casos de xenofobia, intolerância, legislações contra imigrantes e refugiados… Essa incompreensão, a falta de pontos de contato é parte do que permite que esses eventos continuem acontecendo?

    SM |

    O genocídio dos tutsis em Ruanda ocorreu na ignorância ou na indiferença geral. Não foram os órgãos internacionais que impediram os assassinatos, mas a vitória da Frente Patriótica de Ruanda, composta principalmente por exilados tutsis. No entanto, as Nações Unidas são um espaço essencial para o diálogo, por mais impotente que seja. Como o nome sugere, são uma reunião de Estados, na maioria das vezes antagônicos, e não um governo mundial. Não sei se posso citar como exemplo os tribunais Gacaca [sistema de justiça tradicional ruandês, reativado após o genocídio], que deram voz às vítimas e aos perpetradores com o objetivo de alcançar uma possível reconciliação.

  • G |Você se considera parte de um movimento contemporâneo de escritoras que têm dado mais visibilidade pelo mundo à literatura de países da África, especialmente a obras escritas por mulheres?

    SM |

    Depois de um longo período, hoje existe uma literatura africana que é anglófona, francófona ou lusófona. Como me definir, uma escritora ruandesa francófona, uma escritora africana francófona? Deixo aos críticos e professores de literatura a tarefa de encontrar a melhor fórmula. Devido ao mandato belga, Ruanda se tornou, pelo menos para as elites,  francófona. Foi o francês que eu aprendi na escola. Mas Ruanda, por causa da aculturação, permaneceu à margem do florescimento literário vivido pelas antigas colônias francesas. A literatura “negra” ainda era considerada subversiva. Foi só após o genocídio que muitos relatos de sobreviventes foram publicados.

  • G |Para você, que poder há em lidar com o trauma através da escrita?

    SM |

    Sem dúvida, para aqueles que têm a sorte de fazê-lo, escrever é a melhor terapia. Este fato é reconhecido por psicólogos e psiquiatras. Foi a escrita que me permitiu superar o remorso persistente de ser uma sobrevivente: por que eles e não eu? As palavras do meu amigo Jérôme Garcin [jornalista e escritor francês] sempre me acompanharam: “Escrevemos para expressar aquilo de que não podemos falar. Escrevemos para libertar tudo dentro de nós que estava impedido, trancado, aprisionado em uma jaula invisível. Não há confidente melhor do que a página em branco, à qual, em silêncio, delegamos nossos mortos.”

  • G |A autoficção ganhou uma centralidade que antes não tinha no cenário literário. Por que acha que a memória, a experiência e os traumas pessoais têm tanta importância e visibilidade no mundo atual?

    SM |

    As experiências que vivemos são às vezes tão traumáticas que a pessoa que as sofreu só pode testemunhá-las “à distância”. Com “Nossa Senhora do Nilo” (Nós, 2017), que pode de fato ser descrita como autoficção, transponho minha experiência pessoal no colégio Notre-Dame de Cîteaux para um colégio Notre-Dame du Nil imaginário. Mas, além dessa experiência pessoal, eu queria transformar essa escola situada a 2.500 metros de altitude num microcosmo de Ruanda nas décadas de 1970 e 1980, onde já se vislumbravam os primórdios do genocídio de 1994.

  • G |Você volta a Ruanda com frequência? A memória, a cultura, a ancestralidade, coisas que você busca preservar, têm de fato papel importante no processo de reconstrução do país décadas após o genocídio?

    SM |

    Volto a Ruanda sempre que possível, pelo menos duas vezes por ano. É geralmente em visitas familiares, com aqueles que retornaram do exílio, como meu irmão, e também os que sobreviveram, como minhas três sobrinhas. Não visito os túmulos dos meus mortos, pois eles não os têm. Participo da cerimônia de luto nacional, Kwibuka, celebrada todo mês de abril para lutar contra o esquecimento. Kwibuka twiyubaka: lembrar enquanto se constrói. Este ano, participei do lançamento do meu primeiro livro traduzido para o quiniaruanda [idioma ruandês], “Nossa Senhora do Nilo”. É sempre uma ocasião de renovação e espanto com o progresso do que a imprensa chamou de “milagre ruandês”.

  • G |Você já veio algumas vezes ao Brasil, um país onde reconheceu também no passado os efeitos do racismo, da violência e da intolerância. Como sua visão e sua relação com o país foram mudando ao longo desse tempo?

    SM |

    Desde 2017, retorno ao Brasil quase todos os anos. O Brasil tem a sorte de ser uma terra, ou melhor, um continente que acolheu múltiplas culturas. Achei aqui uma espécie de aroma do solo africano: como alguém que vive na Europa, encontro o calor e o fervor da acolhida, como se quisessem encontrar em mim traços de suas raízes. Lembro desta citação do presidente Lula quando ele me convidou para seu instituto em São Paulo: O Atlântico é apenas um rio entre o Brasil e a África. Suas raízes africanas no país vêm de um passado doloroso. Ruanda, localizada longe da costa, no centro da África, não viveu a escravidão, mas sofreu a tragédia do genocídio. Talvez exista um caminho comum para a resiliência?

  • G |Na Fliaraxá, você dividiu uma mesa com o também homenageado Itamar Vieira Junior, um dos autores brasileiros mais celebrados dos últimos anos, que trata em seus livros das violências de um sistema racista e opressivo, assim como da força da família e da ancestralidade. De que maneiras vê que suas obras convergem?

    SM |

    Eu já havia conhecido Itamar Vieira Junior em 2017 em São Paulo e fiquei feliz em revê-lo na Fliaraxá. Admirei muito seu livro “Torto Arado” (Todavia, 2019), que acaba de ser traduzido para o francês. É uma história realista e cativante que evoca este Brasil em rápida transformação. Seu estilo, pelo que posso julgar na tradução, parece próximo da tradição oral da qual deriva minha própria escrita.

  • G |Seu livro “A Mulher dos Pés Descalços”, onde você evoca a memória da sua mãe e do cotidiano das mulheres tutsi, foi escolhido pelos leitores para ser a obra debatida no Clube de Leitura do CCBB RJ. Por que acredita que a obra ressoa tanto entre os leitores, em especial os brasileiros?

    SM |

    Foi um dos meus livros que tiveram maior sucesso no Brasil, dedicado à minha mãe Stefania. Este retrato de uma mãe corajosa, determinada a salvar seus filhos de uma morte prometida, lutando no exílio para redescobrir sua verdadeira vida, deve ter tocado muitas mulheres aqui que lutam contra a violência. E guardo lembranças emocionadas da minha conversa no Rio com Conceição Evaristo e do meu encontro com Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco, assassinada por seu trabalho em prol das mulheres e dos jovens nas favelas. Como não unirmos essas à lamentação de todas aquelas jovens meninas e mulheres tutsis, vítimas do implacável sadismo dos genocidas?

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