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Ilustração de Isabela Durão

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Como lidar com o constrangimento da sobriedade

Parou de beber e sente que precisa se explicar? Veja dicas para evitar o sober shaming na mesa de bar

Sarah Kelly 08 de Fevereiro de 2026

Como lidar com o constrangimento da sobriedade

Sarah Kelly 08 de Fevereiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Parou de beber e sente que precisa se explicar? Veja dicas para evitar o sober shaming na mesa de bar

68% dos brasileiros que moderam o consumo de bebidas alcoólicas são questionados sobre o porquê, segundo um estudo divulgado pela consultoria de pesquisa e estratégia Go Magenta em 2024. Desses, 49% se sentem desconfortáveis de ter que explicar e 34% apontam esse fator como a maior dificuldade para diminuir.

A vergonha de não beber também tem um termo em inglês para chamar de seu: o “sober shaming”, relacionado a discriminação, a importunação ou a segregação de pessoas abstêmias. Esse constrangimento acontece pela importância dada ao álcool, na leitura de Anna Carolina Gouveia, criadora do Tem Gente Que Não Bebe, perfil focado em promover o consumo consciente e naturalizar a sobriedade sem moralismo.

O álcool está muito mais no lugar da tradição do que da substância em si. Ele faz parte de rituais, de religiões e da cultura de muitos países, inclusive da cultura brasileira. Por isso, muitas vezes, não olhamos para o álcool como algo que pode fazer mal ou mesmo como uma droga”, diz.

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Mariana Thibes, socióloga e coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), ressalta que a bebida alcoólica é uma facilitadora de interações que acompanha as pessoas há mais de 13 mil anos. Sendo assim, a recusa do álcool incomoda porque quem continua bebendo pode sentir que a pessoa abstêmia ficará de fora do momento, não vai compartilhar da embriaguez ou, ainda, fará os outros se sentirem julgados por suas escolhas.

Pensando em quem deseja diminuir o consumo ou parar de beber, mas não quer ter a vida social prejudicada, Gama buscou orientações de especialistas. Confira:

  • 1

    Reflita sobre a culpa para permanecer fiel à sua escolha –
    Seja para ter um estilo de vida mais saudável, para aumentar o autocontrole ou para perder peso, entre outros motivos, cada um sabe a razão pela qual quer beber menos ou se abster totalmente. Nem sempre os outros vão entender, mas é necessário realizar um trabalho interno para ter certeza da decisão de ceder ou não à pressão social. “Por que sentimos vergonha de largar um hábito que nos faz mal? Se alguém decide emagrecer, isso costuma ser visto como algo positivo: ‘que ótimo, você parou de comer doce’”, exemplifica a psicanalista Luciana Saddi, coautora do livro “Alcoolismo” (Blucher, 2024). Quando a decisão é parar de beber, a reação muda. “Em vez de uma leitura benigna — ‘que legal, você está cuidando de si’ —, muitas vezes surge o estranhamento, mesmo quando fica claro que havia um abuso.” Ela explica que o álcool está associado à força, à potência, e parar de beber acabou sendo ligado a uma certa impotência. “Talvez seja justamente aí que entre o autoconhecimento: a reflexão que pode levar a pessoa a rever esse conceito. Porque essa ideia do álcool não é individual, é social”, aponta. “É preciso construir um conceito próprio, afetivo, sobre o que o álcool representa para si. E isso não deveria ser vergonhoso: sair da manada e se organizar de acordo com o que é melhor para você.”

  • 2

    Uma recusa educada e direta reduz as chances de insistência –
    O simples “não, obrigado” pode representar o fim das ansiedades na mesa de bar. Para Mariana Thibes, do Cisa, a postura mais eficaz é evitar dar muitas justificativas, recusando de forma simples, tranquila e firme. Isso porque justificar a decisão abre portas para que as pessoas questionem ou contra-argumentem. Ao usar desculpas prontas, como dizer que está de dieta, você pode acabar ouvindo comentários do tipo que a cerveja oferecida é sem glúten e pouco calórica. Gouveia não vê problema em usar uma justificativa, mas em achar que precisa de uma. “Se sente que ajuda, a pessoa tem que usar, mas sabendo que a escolha dela já deveria ser suficiente, que ninguém deveria precisar explicar ou provar nada para poder recusar um drink”, defende. “Acho que tem muito a ver com tom de voz e postura. Quando você se mostra firme na sua escolha, as pessoas tendem a respeitar. Já quando a recusa vem meio sem graça, titubeante, essa insegurança é percebida. E aí as pessoas tendem a insistir, a tentar convencer”, indica Thibes.

  • 3

    Aposte nas bebidas sem álcool –
    Naqueles dias em que você não estiver a fim de sequer ser visto recusando álcool, vale pedir um drink sem álcool, uma cerveja zero ou um mocktail. Assim, você participa do ritual sem precisar se explicar e, muitas vezes, ninguém nem percebe que você não está bebendo. Nos últimos anos, o mercado de bebidas tem investido nesse tipo de opções saborosas e bem elaboradas de produto desalcoolizado, impulsionado pela maior busca por moderação. “Antes, quando você realmente não bebia, você ficava de fora, não tinha o que beber nessa hora”, lembra a coordenadora do Cisa. Além disso, essas bebidas trazem prazer e experiência sensorial e para algumas pessoas pode até funcionar como um efeito placebo, ajudando a compartilhar a alegria do ambiente.

  • 4

    Desarme a defensiva alheia: deixe claro que a escolha é só sua –
    Usar uma comunicação que não levanta bandeiras ajuda a enfrentar o que a psicanalista Luciana Saddi chama de “small talk agressivo” — conversa que não é uma grande questão ideológica, mas se torna hostil pela pressão exercida sobre quem não está bebendo. Uma pesquisa com adultos de meia-idade mostrou que participantes que não bebiam sentiam-se percebidos pelos pares que consumiam álcool como julgadores. Anna Carolina Gouveia observa que o abstêmio acaba funcionando como um “espelho involuntário”, ao lembrar quem bebe de um hábito que talvez esteja sendo reproduzido no automático — ou em excesso. O que pode funcionar, caso surja um embate, é reforçar que você não é contra bebida e não está questionando as escolhas do outro, apenas repensando o seu próprio consumo. “Tem gente que usa o humor como saída, e isso pode ajudar. Algo como: ‘Eu já sou meio chato normalmente; bêbado, fico muito pior.’ A piada vira uma estratégia porque passa o recado e, ao mesmo tempo, ajuda a aliviar a tensão”, propõe Thibes. De qualquer forma, é importante lembrar que não controlamos a reação das pessoas sobre nada. “A pessoa vai pensar o que quiser e ser grossa se quiser. O máximo que dá para fazer é tentar amenizar, de acordo com as nossas expectativas — mas não há garantia de que não vai haver constrangimento. A gente mal consegue se controlar; imagina controlar a atitude do outro”, ressalta Saddi.

  • 5

    Amplie as formas de se divertir — e, se faltar respeito, procure outras companhias –
    Que tal mudar o cenário? Para quem está tentando beber menos ou parar totalmente, uma das estratégias mais eficazes é investir em programas que não giram em torno do álcool. A pressão costuma aparecer com mais força em ambientes como bares e baladas, que não só incentivam o consumo, como também aumentam a vontade de beber. Mariana Thibes sugere apostar em passe diurnos e encontros em outros contextos: cafés, restaurantes durante o dia, uma corrida no parque, um passeio ou qualquer programa que desloque o foco da bebida. Em alguns casos, pode ser necessário se afastar, ainda que temporariamente, de pessoas que bebem muito, especialmente quando há insistência ou exclusão. “Se alguém te exclui de um grupo porque você não está bebendo, tem um problema no grupo”, resume Saddi.

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