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Lupita e Juju, cachorrinhas de Janaína Ayres Arquivo pessoal

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Depoimento

Histórias de adoção (e de amor) de pets

Gama reúne casos de pessoas que adotaram gatos e cachorros — ou foram adotadas por eles — e tiveram a vida transformada

02 de Novembro de 2025

Histórias de adoção (e de amor) de pets

02 de Novembro de 2025
Lupita e Juju, cachorrinhas de Janaína Ayres Arquivo pessoal

Gama reúne casos de pessoas que adotaram gatos e cachorros — ou foram adotadas por eles — e tiveram a vida transformada

Dizem que a adoção de um bichinho não cabe ao tutor, mas é o próprio animal que elege o seu cuidador. Basta um olhar, um gesto de afeto ou um encontro improvável para que um vínculo se forme — desses que mudam rotinas, curam feridas e, às vezes, até salvam vidas. Essas relações começam em feiras de adoção, abrigos, esquinas ou por acaso e revelam como, ao cuidar de um pet, a gente também é cuidado por um tipo de amor silencioso, fiel e transformador.

Quando um cachorro ou um gato entra na vida de alguém, é como se reorganizasse o espaço, o humor e o tempo ao redor. Há quem diga que é sorte, há quem chame de destino.

Gama reuniu depoimentos de pessoas que adotaram serzinhos especiais de quatro patas. Ou foram adotadas por eles.

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    “De repente, do nada, construí uma familinha”

    Janaína Ayres, estilista

    “O ano de 2016 foi de acontecimentos muito fortes: um tio ficou muito doente e faleceu, fui demitida, eu tinha um namoro com um cara tóxico, e caí doente, com uma pneumonia muito grave e fiquei 15 dias hospitalizada. Cheguei a achar que não ia me recuperar. Mas quando voltei à minha casa, senti que eu precisava de alguma coisa que me motivasse, uma companhia. Eu nunca tive um bicho na vida, mas uma amiga bem cachorreira falou que eu precisava adotar um. Ela me levou a uma feira e eu vi a Juju dentro do cercadinho. Ela era muito frágil, até hoje é assim, muito magra, levezinha, toda pobre coitada da Coitadolândia. Uma moça que estava ali disse: ‘Essa cachorra é muito fofinha, boazinha, mas é muito carente’. Eu respondi: ‘Eu também, a gente vai se dar bem’. Ali aconteceu uma mágica, a magia de um encontro. Ela me trouxe sorte porque depois disso fiquei mais revigorada, ela foi me curando. Comecei a fazer caminhadas e botava a minha cabeça para funcionar. Meses depois, conheci o Bruno — falamos que ele primeiro se apaixonou pela Juju e depois por mim. E aí a Juju foi um grande elo da nossa relação. De repente, do nada, construí uma familinha. Ela é minha filha mesmo. Eu não tenho filhos humanos, nunca quis ter, mas eu tenho as minhas filhas caninas. O Bruno também sentia muita vontade de passar pela experiência de adotar um bicho. Um dia, vi outra feira de adoção e a Lupita estava lá, bem pequena. Tão bonitinha, muito pretinha, sentada, sozinha. Comecei a chorar imediatamente. Agora, eu sei que se eu olho pra um cachorro e choro, eu preciso trazer ele para casa, é um sinal. Quando eu e o Bruno nos separamos, elas foram também um grande motivo da gente voltar. Fizemos guarda compartilhada das cachorras e não conseguimos nos largar. Então, para mim, elas são um grande amuleto de sorte na minha vida.” (Depoimento a Isabelle Moreira Lima)

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    “Para minha saúde mental, foi superpositivo”

    Carol Ito, quadrinista

    “Adotei o Bob em maio de 2020, nos primeiros meses da pandemia, quando já havia alguma noção de que não acabaria tão cedo. Sempre quis ter cachorro, mas como eu trabalhava presencialmente, não fazia sentido. Como sabia que ficaria um tempo em casa e estava absolutamente carente, precisando me ocupar com algo que me deixasse mais alegre, fiquei obcecada com a ideia de adotar um cachorro. Comecei a pesquisar no Instagram, em ONGs, e achei o Bob em Mairiporã, perto de São Paulo. Conversei um pouco com a pessoa da ONG, ela explicou como era a personalidade dele e falou que ele era de porte médio, mas, quando ele chegou, era maior do que pensava. Mesmo assim, eu já estava completamente apaixonada pelo dog. Foi uma coisa muito positiva, porque já tive episódios de crise depressiva e, ter um companheiro ajuda muito a lidar com isso. É alguém para cuidar, um ser que te obriga a levantar da cama, dar comida e atenção. Para minha saúde mental, foi superpositivo. E hoje é isso: puro amor. Meu filho. Mãe de pet, não nego. Muito do afeto que eu tenho pra dar canalizo nesse animal.” (Depoimento a Tereza Novaes)

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    “O Roger me salvou muitas vezes”

    Pri Helena, atriz

    Sempre gostei muito de bicho, sempre tive uma ligação especial com os animais desde pequena e o Roger não foi o meu primeiro cachorro, mas foi o primeiro que veio de um resgate, e mudou minha vida completamente. Em 2014, estava com meus amigos num bar, quando vi o Roger de longe, descendo a rua na minha direção. De perto, percebi que estava muito magro e machucado. Fiquei louca e o levei a uma clínica veterinária, onde ficou internado alguns dias. A suspeita é que ele tenha levado uma pedrada, por isso estava tão machucado e assustado. Eu já tinha um cachorrinho, o Branquinho, mas o Roger não aceitava, atacava. Na época, ele tinha entre três e quatro anos e ninguém queria adotá-lo. Eu morava em apartamento com minha avó e ela falou: “Ele só vai ficar na varanda, tá bom?” Até que um dia, ele estava em cima da cama com ela. Ele foi conquistando a gente de uma forma impressionante. Não tinha mais como colocá-lo para adoção.

    Como ele tinha problemas com o Branquinho e outras questões comportamentais, fui obrigada a estudar para aprender a socializá-lo, sem que se machucasse. Foi a partir da relação entre os dois que desenvolvi meu amor pelos bichos. O Branquinho faleceu em 2019, e eu segui com o Roger até este ano. Na pandemia, acabei pegando mais um cachorrinho, que era da minha avó, o Toquinho. Depois veio a Maria Fernanda, adotada pela amiga com quem moro. Também resgatei da rua o Agenor Eugênio, o Milton Roberto e o Preto, outro cachorro de resgate por maus tratos. Essa é minha saga.

    É óbvio que todas as adoções mudam a gente de alguma forma, ensinam algo, mas o Roger foi uma aventura muito linda. Quando descobrimos que ele tinha câncer e que havia cura, fizemos muitos tratamentos, e consegui oferecer a ele um final de vida digno, graças às oportunidades de trabalho que surgiram e me permitiram arcar com os custos do tratamento. A adoção é uma causa que tenho muito forte. O Roger me salvou muitas vezes. Hoje, tento olhar para sua partida, apesar da dor e da falta física. Tento celebrar a oportunidade de ter dividido meus dias com um ser tão especial e iluminado, que mudou minha vida e a forma como vejo os bichos e a adoção.” (Depoimento a Tereza Novaes)

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    “Elas ensinam tanta coisa para a gente”

    Lígia Diniz, professora de literatura da UFMG e escritora

    “Depois de frequentar várias feiras e de me cadastrar em grupos de adoção, chegou uma foto de uma cachorrinha de seis meses que já tinha sido devolvida porque era muito sapeca. Olhei e não tive nenhuma dúvida. Mas foi engraçado: minha primeira cachorrinha chegou por e-mail. Eu tinha certeza de que era ela, era o cachorrinho platônico, que tinha a forma ideal para mim, corzinha caramelo, compridinha. Ela claramente tinha sofrido algum abuso, era muito assustada, desconfiada, principalmente com homens, mas foi muito linda ver a entrega dela, um salto de fé mesmo, quando chegou lá em casa. As primeiras fotos são todas muito lindas, ela ficou grudada na gente.
    Ela virou uma cachorrinha supermimada, superprotetora, sobretudo de mim, não deixava ninguém chegar perto de mim, nem meu marido. A gente cogitou adotar outra cachorrinha, e mais uma vez chegou por e-mail uma foto de uma ninhada. Voltamos com uma cachorrinha que escolhemos pelos critérios mais absurdos, porque a Carmela, que já estava com a gente, implicava com todos os cachorros, mas especialmente os pretos. Escolhemos então uma marrom, a Matilda, simplesmente porque achamos que a Carmela ia aceitar melhor. E foi assim que a nossa família ficou completa. Nós nunca quisemos ter filhos e vivemos altas aventuras com essas cachorrinhas. Elas nos fizeram muito felizes, sempre sentimos um privilégio gigantesco em poder cuidar delas. A Carmela, que morreu em 2022, demandou muitos cuidados, teve dez hérnias de coluna, fez cirurgia, tratamento, fisioterapia, acupuntura. A Matilda tem problema no quadril, faz fisioterapia. Gastamos grana, energia e atenção, mas nunca senti isso como um fardo. Elas ensinam tanta coisa para a gente, eu fico pensando, mesmo as coisas que eu pesquiso academicamente, o quanto tem tanto delas ali, um tipo de atenção muito específica, uma relação com os afetos, com as alegrias, com as raivas, tão genuína e tão bonita.” (Depoimento a Isabelle Moreira Lima)

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    “O bicho que te adota, você se encanta, se apaixona, rola alguma coisa que não tem como evitar”

    Thais Gouveia, fundadora da Tabula, assessoria de comunicação para a cultura

    “Tem um pouco essa lenda de que é o bicho que te adota, não é você que adota o bicho, e eu acredito nisso porque nenhuma das adoções que eu fiz até hoje foi uma escolha muito planejada, sabe? Eu sinto que aconteceu, parece que você se encanta, se apaixona pelo bicho, rola alguma coisa que não tem como evitar. Com os meus três gatos foi assim, e a Jade, que é a minha primeira cachorrinha, também. Eu estava com vontade de adotar um cachorro de porte pequeno, não importava se era vira-lata ou de raça, mas queria fêmea, entre dois e três anos, já mais adultinha porque confesso que não tenho energia para filhote, que demanda treinamento, tem que estar o tempo inteiro com ele, ensinar tudo. Uma amiga que nem sabia que eu estava a fim de adotar olhou pra mim e falou ‘você quer adotar uma cachorrinha adultinha?’” E aí ela mostrou a foto da Jade, eu me apaixonei e falei ‘eu quero’“. Ela era uma cachorra de um canil, sofreu maus-tratos junto com outros animais. A primeira vez que fui visitar a Jade ela estava muito assustada, fez xixi de nervoso. Era uma reação que ela tinha com qualquer pessoa estranha por conta do histórico dela de maus-tratos. Percebi que ia ser um pouco desafiador. Mas a gente se conectou, ela lambeu a minha mão e mesmo com aquele medo todo, a gente se olhou e falou ‘tem uma coisa aqui’. Foi muito forte o período de aceitação de que aquele ser dependeria de mim. E ela também foi se adaptando a uma nova vida, tinha um trabalho a ser feito entre nós duas. Mas o tempo foi passando, eu fui cuidando, dei remédio, tratamentos, alimentação, com carinho e paciência. E a cada dia que eu percebia uma conquista, que ela estava despertando e florescendo numa nova vida, por exemplo conseguir dormir ao meu lado sem ficar assustada, aquilo começou a me encher de uma alegria, de uma satisfação enorme. E, de repente, virou um pouco a minha missão fazer a vida dela feliz. Virou o meu objetivo.” (Depoimento a Luara Calvi Anic)

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    “Foi o destino: tenho um bloco chamado Vacas Profanas, e elu parece mesmo uma vaquinha”

    Dandara Pagu, produtora cultural, comunicadora digital e colunista da plataforma Mina Bem-Estar

    “Sou recém-habilitada. Entrei numa rua na contramão, subi na calçada para sair do fluxo contrário, prendi a roda e, no desespero, pedi ajuda a um estranho que estava passando. Ele tirou o carro, colocou na direção certa e perguntou: “Você não quer um gato?”. Eu disse que não. Ele então me contou que o tal gato pulou o muro da casa dele, mas os três cachorros que tem bateram no bichano. Para finalizar, comentou: ‘Já te ajudei, agora é a sua vez de me ajudar’. Levei o gato, comprei ração e areia. Chama-se Vaca, um nome neutro, porque ainda não sei o sexo. Tentei levar no veterinário e elu não deixa ninguém se aproximar tanto. Elu some, reaparece, dorme no sofá e na minha cama, se eu não estiver. Aprendi com essa experiência que nem tudo é no meu tempo e que não basta só ser humilhada por macho, tem que ser por gato também [risos]. Dou comida, a melhor areia, pago plano de saúde. Eu não tenho plano de saúde, mas elu tem e, mesmo assim, não me deixa nem fazer um carinho. Estou brincando com isso, mas sei que é um processo. Claramente, esse gato sofreu muito na rua, foi maltratado, e ainda não consegue que eu chegue perto, mas estou respeitando com paciência. Estou amando. Acho que foi o destino: tenho um bloco de Carnaval chamado Vacas Profanas, e elu parece mesmo uma vaquinha.” (Depoimento a Ana Elisa Faria)

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    “Essa parceria, esse amor que a gente tem, é algo incrível. É amor infinito”

    Paruh Matta, técnico de som direto

    “Conheci a Nairobi porque uma amiga a encontrou em São Vicente junto de um cachorro atropelado. O cachorro foi levado pro veterinário e depois ela voltou para buscar a Nairobi, mas não pôde ficar com ela. Mandaram a foto num grupo de amigas e, como meu padrasto estava deprimido após a morte do nosso cachorro, pensei em dar para ele. A gatinha que morava na casa não se adaptou, então fiquei com a Nairobi, mesmo sem condições: eu estava recém-separado, endividado e com dois trabalhos. Um mês depois descobri que ela estava prenha. Foi uma loucura. Cuidei dos filhotes até dar 60 dias, vacinei e consegui que pessoas legais os adotassem. A partir disso, a gente viveu várias aventuras. A adaptação foi fácil. A única questão é que ela não faz xixi em casa. Não sei se passou por maus tratos por fazer xixi. Morando em apartamento entendi que teria que descer com ela pelo menos duas vezes por dia. Hoje saímos três vezes e a guarda é compartilhada com a Rafa, minha ex-namorada. Fica dois meses comigo e dois com ela. Com o tempo, fomos criando laços de confiança, e hoje nossa comunicação é excelente. É muito louco. Ver a Nairobi parir foi mágico. Ela me escolheu. Quando eu acordo, a primeira coisa que acontece é ela vir toda feliz me receber. Ela fica alegre, me cumprimenta como quem diz ‘bom dia’, e isso é muito lindo. Essa parceria, esse amor que a gente tem, é algo incrível. É amor infinito.” (Depoimento a Amauri Terto)

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    “Voltar para casa para cuidar dele é uma uma troca: cuidando dele, eu cuido de mim”

    João Mazini, produtor cultural

    “Passei um ano ‘gestando’ a ideia de adotar, inseguro pela responsabilidade. Uma conversa com um amigo psicanalista foi crucial: ele disse que nós, humanos, temos o instinto de cuidar e exercitá-lo muda muita coisa. Ter um ser vivo em casa dá uma balizada na vida. Isso ficou na minha cabeça, inclusive faço um paralelo com a questão da masculinidade, de que nós homens não sabemos nem cuidar de nós mesmos.

    Encontrei Rubinho em um perfil de uma ONG no Instagram. Ele tinha dois anos, resgatado, magro e muito ansioso. Um episódio marcante foi quando ele comeu 16 ovos crus na minha ausência. Eu achei que ele fosse morrer, que eu fosse morrer e ninguém morreu, deu tudo certo. Mas tive que lidar com essa ansiedade dele. Contratei um adestrador, o que mudou completamente a relação. A gente tende a humanizar os cachorros, mas aprendi que falar não adianta muito. Ele lê minha expressão e energia. Passei a adotar práticas voltadas ao mundo canino, entendendo como ele se expressa e o que precisa. Com isso, transmito mais segurança, e ele aprendeu a relaxar. Nossa relação melhorou muito, especialmente nos passeios — antes ele puxava a coleira e queria arrumar treta, mas depois de dois meses de treino tudo ficou muito mais leve e gostoso. Esses momentos se tornaram um grande ganho na minha vida, tempo de respirar, me conectar e me divertir, um rolê diário gostoso que alivia o estresse. Nunca mais virei uma noite na rua. Antes eu era bem baladeiro. Voltar para casa para cuidar dele é uma maravilha e uma troca: cuidando dele, eu cuido de mim. Eu tinha medo de desistir, mas hoje eu o amo muito mais do que há um ano, pois o amor surge do cuidado. Adotar o Rubinho foi a melhor decisão da minha vida adulta. Não é fácil, requer disciplina e logística (em viagens), mas vale muito a pena. Meu conselho é: investigue-se e adote. É uma relação que se constrói e reverbera de um jeito muito gratificante. Cuidando dele, ganho um grande parceiro de vida. Rubinho mudou minha vida para melhor, sem sombra de dúvidas.” (Depoimento a Amauri Terto)

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