Seu pet é parte da família?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Quanto custa ter um pet?

Vacinas, consultas e alimentação são algumas das depesas que é preciso levar em conta antes de adotar um animal de estimação

Tereza Novaes 02 de Novembro de 2025

Quanto custa ter um pet?

Tereza Novaes 02 de Novembro de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Vacinas, consultas e alimentação são algumas das depesas que é preciso levar em conta antes de adotar um animal de estimação

Eles alegram a casa, fazem companhia nos dias difíceis e, muitas vezes, tornam-se parte da família. Mas não se engane: esses serezinhos cheios de amor vêm acompanhados de boletos. Cuidar de um animal, seja cão ou gato, de forma responsável exige dedicação e dinheiro, não só para ração, vacinas e consultas, mas também para imprevistos.

A empresária Mariana Amaral adotou Godofredo com um ano e meio, um cachorro SRD (sem raça definida, o popular vira-lata) preto de porte grande, em uma zona rural, próxima a São Paulo. Nas primeiras semanas na capital, quando a mãe de Mariana passeava com ele pela Santa Cecília, o barulho de uma moto assustou o recém chegado. Godofredo disparou pela rua e ninguém pode detê-lo.

Mariana montou uma operação de busca que envolveu mais de mil cartazes impressos, coloridos e ensacados, era época de chuva, carro de som e muitas horas perambulando pela região central de São Paulo. Deu certo. Três dias depois, o casal que o resgatou na rua telefonou. O custo para encontrá-lo foi mais de R$ 1.500, sem contar os dias de trabalho perdidos.

Algum tempo depois, Godofredo começou a apresentar sangramentos pelo nariz e foi diagnosticado com leishmaniose, um protozoário que pode causar problemas em vários órgãos, além de ser uma zoonose, ou seja, transmissível para humanos. Até pouco tempo atrás, os animais com a doença precisavam ser sacrificados. Hoje ainda não há cura, só um tratamento que a controla.

“É como se fosse uma quimioterapia, precisa ser administrada por 30 dias. A primeira rodada foi mais ou menos uns R$ 2.500, isso seis anos atrás. Agora, a cada seis meses, ele tem que fazer um check-up para ver se a doença está controlada. E, quando começa a aparecer algum sinal de descontrole, ele tem que repetir essa medicação”, explica a empresária.

Ela conta que gastava em torno de R$ 10 mil para controlar a doença por ano, fora ração, outros medicamentos e vacinas. Há cerca de seis meses, Mariana optou por fazer um plano de saúde, pelo qual paga R$ 180 ao mês. Embora não cubra o remédio para leishmaniose, que hoje custa R$ 1.700, internações, exames e especialistas estão inclusos.

Planos de saúde

“Achava que os planos nem aceitassem animais com comorbidades, mas não. Só este ano ele ficou internado duas vezes. A medicação tem efeitos colaterais e já tive que correr para a primeira clínica para passar sonda porque ele não estava conseguindo fazer xixi, só esse procedimento é R$ 1.200. No fim, com o plano, já economizei R$ 10 mil neste ano”, contabiliza.

A veterinária Danielle Figueiredo ressalta a importância de observar com atenção a apólice do plano de saúde antes de contratá-lo, além de verificar a qualidade da rede credenciada. “Ajudo meus clientes a decidir e aponto quais são os estabelecimentos que indico, especialmente em casos de emergência”, diz ela, que atua de forma independente e também na prefeitura do Rio de Janeiro.

No país, já há ao menos duas dezenas de planos de saúde para pets, alguns ligados a bancos e seguradoras tradicionais, como Itaú, Bradesco e Porto Seguro. No ano passado, foi criada a Associação Brasileira de Planos de Saúde Pet (ABPSP) que reúne grandes empresas do setor.

Segundo Danielle, se o cachorro quebra uma pata, por exemplo, uma cirurgia ortopédica pode chegar aos R$ 6 mil, e uma diária de internação R$ 250. Os preços variam de acordo com o CEP e o tamanho do animal. Para quem não tem recursos, ela destaca que há possibilidade de atendimento gratuito ou a valores simbólicos. No Rio, há três locais mantidos pela prefeitura com gratuitade para os inscritos no Cad-Único e, para os demais, preços populares. Em diversas cidades, há programas de castração gratuita.

Vacinação

No caso das vacinas, apenas a contra a raiva é aplicada gratuitamente no país. Em cães e gatos adultos, há recomendação de reforço anual de imunizantes que protegem de doenças graves como a FeLV e a FIV felinas, que comprometem o sistema imunológico dos bichanos. O valor desses reforços gira em torno de R$ 300 anuais.

Mercado no Brasil

No Brasil, o mercado voltado para os pets movimenta cifras impressionantes. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), a estimativa para 2025 é que o faturamento do setor supere R$ 78 bilhões.

Segundo levantamento da Abinpet em parceria com o Instituto Pet Brasil, realizado no ano passado, o gasto médio mensal para manter um cachorro no país é de R$ 431,40. O valor varia conforme o porte: R$ 346,50 para cães pequenos, R$ 410,02 para os médios e R$ 593,50 para os grandes. No caso dos gatos adultos, a despesa mensal média é de R$ 258,40. Foram analisados o consumo de ração, custo de serviços essenciais, incluindo vacina, vermifugação e veterinário, e estéticos, como banho e tosa.

Há cerca de 160,9 milhões de animais de estimação no país, segundo dados do mesmo estudo.

Hospedagem

Não apenas cuidados de médicos e de alimentação são necessários, os animais precisam de companhia, especialmente os cães. O designer Claudio Reston, que adotou a SRD Xica em fevereiro deste ano, trabalha em casa, mas quando precisa se ausentar por muitas horas costuma deixá-la em uma creche em Laranjeiras, zona sul do Rio, cuja diária avulsa custa R$ 125, em caso de hospedagem sobe para R$ 170.

“Pago um passeador que também é cuidador. Tenho pensado em migrar aos poucos e passar a deixá-la com ele. A vantagem da hospedagem ‘profissional’ é que eles têm uma equipe para cuidar dos bichos, inclusive veterinário. Então, se ele tiver algum problema, não ficará desassistido”, explica.

Antes de adotar

Assim como ração e medicamentos, o valor da hospedagem também é calculado de acordo com o tamanho do animal, por isso a dica, antes de adotar, é pensar que o porte influencia diretamente nos gastos.

“O Godofredo pesa 30 quilos, se ele tivesse 10, o valor do tratamento seria um terço. Agora aprendi o que posso ter ou três animais pequenos ou um grande como ele”, afirma Mariana.

Em relação à prevenção de doenças, a veterinária Danielle afirma que a leishmaniose é endêmica em diversas áreas próximas a grandes cidades e até mesmo dentro do perímetro urbano, caso do Rio, por exemplo. Por isso, verificar a região de procedência pode ser válido para evitar adotar um animal doente.

No caso de animais de raça, ela também afirma ser fundamental se certificar sobre a seriedade do canil, porque há muitos cruzamentos consanguíneos que podem causar doenças complexas de serem tratadas. Segundo a veterinária, vale a pena pagar mais por um filhote que seja de uma boa linhagem, em termos genéticos, do que enfrentar os desafios que podem vir depois.

Humanização

Além disso, Danielle afirma que o principal ponto para quem quer ter um animal é não humanizá-lo. “Deixar o cachorro ou o gato serem o que são, respeitar as suas características é fundamental.”

Tentar coibir o animal de lamber as partes íntimas, excesso de higiene, brigar com o gato porque ele fica ativo à noite e até o uso de roupas, que muitas vezes eles não necessitam, estão entre os pontos que ela classifica como tentativa de humanização.

Apesar de todos os perrengues (e gastos) com Godofredo, Mariana não se arrepende de tê-lo adotado e já sofre pensando que um dia ele vai partir. “Não entendo por que a ciência ainda não desenvolveu uma forma de eles viverem 30 anos”, lamenta.

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