E aquele projeto, andou?
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Ilustração de Isabela Durão

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5 dicas

Como não abandonar projetos pessoais

Entre metas realistas, pausas sem culpa e menos autocobrança, especialistas dão dicas para manter desejos vivos mesmo com uma rotina cheia

Ana Elisa Faria 22 de Fevereiro de 2026

Como não abandonar projetos pessoais

Ana Elisa Faria 22 de Fevereiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Entre metas realistas, pausas sem culpa e menos autocobrança, especialistas dão dicas para manter desejos vivos mesmo com uma rotina cheia

Manter um projeto pessoal em pé, seja começar um curso, se exercitar diariamente, escrever, fazer terapia, montar um quebra-cabeça, meditar, organizar a casa ou tocar um plano criativo, virou um desafio cotidiano. Não porque as pessoas não querem o suficiente, mas porque a vida, do jeito que está organizada no capitalismo, puxa a energia para longe do que é intrinsecamente nosso.

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A psicóloga e professora de psicologia Fran Figueiredo, da Unisuam, resume as angústias que perpassam o tema. “Vivemos em uma constante tensão entre as exigências do mundo e nossos desejos internos, ou seja, a questão se divide entre sobrevivência versus desejo.” E, hoje, o que costuma vencer é a urgência por resultados.

Com isso à vista, é comum abandonar os planos por cansaço mental, excesso de demandas, medo de fracassar e pela lógica do “tudo ou nada”, que transforma qualquer tropeço ou pausa em provas de incapacidade. A publicitária e escritora Larissa Rodrigues, autora de “Rotina Criativa e Hábitos que Mudam” (Galera Record, 2022), criadora da comunidade Hábitos que Mudam e apresentadora do podcast Muito Além da Checklist, reforça que o problema muitas vezes não é disciplina, mas falta de estratégia.

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“Não calculamos os riscos quando planejamos algo. Aí, quando vemos, é muita coisa para administrar”, conta. Não olhar com profundidade para a própria realidade, de acordo com ela, faz com que nos comprometamos com uma rotina impraticável. “É preciso ter uma vida cheia da própria vida, que é entender o que faz sentido para o que se vive.”

A seguir, Gama reuniu cinco dicas práticas para você não desistir dos seus projetos pessoais, com ajustes que cabem na vida real e protegem o bem-estar, sem cair na armadilha de transformar tudo em performance.

  • 1

    Trate os projetos pessoais como propósitos de vida, não como listas de metas –
    No mundo capitalista, acelerado, individualista e gamificado em que vivemos, muita gente trata os objetivos pessoais como mais uma tarefa a ser ticada da listinha da produtividade — é aí que eles entram na fila das obrigações e, na primeira adversidade ou ao primeiro sinal de fadiga, são deixados para trás. Larissa Rodrigues lembra que projetos não precisam nascer com cara de cobrança. “O projeto não necessariamente tem um fim, ele continua se desdobrando”, afirma. E explica que esse plano pode ser um compromisso contínuo com algo que traga bem-estar, como levar uma vida mais saudável ou ler mais. As metas, conforme conta, ajudam como marcadores para orientar, e não devem ser usadas como punições. “Se a meta for bem estabelecida, ela não vai criar uma ansiedade. A meta precisa ser justa e realista.” A professora Fran Figueiredo propõe uma bússola simples para evitar que o projeto vire só mais um dever. Segundo fala, é fundamental pensar no propósito daquilo. “É preciso vincular os projetos a um sentido e se perguntar: ‘O que isso diz sobre mim?’”, comenta. Quando a resposta é clara, o projeto fica menos dependente de motivações do dia e mais ligado a um valor pessoal, o que sustenta a continuidade mesmo nas semanas mais turbulentas.

  • 2

    Mapeie a sua rotina antes de se comprometer com planos impossíveis –
    Se a sua agenda já está no limite, com todos os horários encavalados, um novo projeto — que ainda não tem o engajamento necessário para fluir — costuma ser um dos primeiros itens a cair da lista de afazeres. Por isso, a recomendação de Larissa Rodrigues é fazer um diagnóstico do tempo. O primeiro passo, diz a especialista, é mapear a rotina para entender o que cabe nela, olhando para cada horário do dia e anotando compromissos fixos, deslocamentos, tarefas de cuidado, trabalho e brechas possíveis. Ela compara esse exercício à função de encarar as finanças. “Fazer esse mapeamento é chato igual a uma análise financeira.” Ou seja, não é legal, nem fácil, mas é o que vai mostrar de maneira realista o que cabe, onde cabe e o que precisa ser ajustado no cotidiano. “Muita gente quer planejar só no lúdico. Ninguém quer sentar e organizar o todo, mas é necessário”, pontua. Fran Figueiredo vai na mesma direção ao sugerir atividades executáveis, ainda que pequenas. Uma estratégia citada por ela é pensar em coisas possíveis, realizáveis. “Mesmo que seja algo para ser feito por 30 minutos por semana ou em um dia no mês.” A constância nasce quando o plano respeita a vida como ela é, com imprevistos, cansaço e oscilações. É bom lembrar também daquele ditado: melhor feito do que perfeito.

  • 3

    Substitua o “tudo ou nada” por micropassos consistentes –
    A busca pela perfeição é outro item que costuma emperrar os projetos. Muitas vezes, ela aparece como uma exigência “do bem”, porém, acaba sendo um freio paralisante. “Na psicologia, entendemos o perfeccionismo como algo que paralisa”, explana Fran Figueiredo, que também aconselha diminuir a lógica do “tudo ou nada”, do 8 ou 80. Portanto, entre fazer perfeitamente e não fazer, há uma terceira via, ou um meio-termo, que mantém o projeto vivo. A criadora do Hábitos que Mudam, Larissa Rodrigues, defende exatamente isso quando recomenda o desmembramento de metas grandes para pequenas ações. Se aquilo não couber na vida do jeito ideal, ela diz: “Ao invés de desistir, o que você faz? Desmembra o projeto, transforma em microtarefas, em micropassos”. E dá uma dica de ouro para quem vive recomeçando — o que não é demérito algum, diga-se. “O que eu fazia é melhor do que nada”, analisa. O projeto não precisa ser heroico; precisa ser possível. Ou, como sempre cita a especialista em gestão do tempo e organização pessoal Thais Godinho, criadora da plataforma Vida Organizada, “o feito é melhor que o perfeito não feito”.

  • 4

    Proteja sua energia com menos telas e mais horas de sono –
    Não dá para sustentar um projeto pessoal, ou vários, além das obrigações familiares e profissionais, quando a energia vai embora em um desgaste quase silencioso que cabe na palma da mão e ocupa boa parte do nosso dia: o smartphone, esse vilão do mundo moderno. “Muito tempo de tela dá cansaço. A gente procrastina, se compara, causa muitos efeitos negativos”, observa Larissa Rodrigues. Além disso, menciona ela, quando passamos horas e horas olhando para as telas de modo automático, naquele scroll infinito, estamos dizendo que nosso tempo não tem valor para nós mesmos. Assim, reduzir o tempo em que ficamos no celular abre espaço mental para o que importa. Outro pilar que entra aqui é o descanso. “O sono determina tudo”, sinaliza Rodrigues. Sem dormir adequadamente, o corpo entra em estresse, a disposição despenca e a constância que delineia um planejamento pessoal vai embora. “Tem coisa que só se resolve dormindo.” A psicóloga Fran Figueiredo, da Unisuam, lembra que a desistência, muitas vezes, vem da “fadiga mental” e da sobrecarga diária. Proteger o sono e a energia não se trata de um luxo, mas da infraestrutura do projeto.

  • 5

    Faça as pazes com as pausas e coloque a autoestima no plano –
    Projetos pessoais costumam morrer quando interpretamos qualquer interrupção como uma prova de derrota. Em um cotidiano acelerado, em que tudo precisa render e pontuar, a suspensão de algo acaba se tornando sinônimo de desistência. Fran Figueiredo, entretanto, propõe trocar essa leitura. “Aceite as pausas. Abandonar é diferente de interromper. Uma desistência costuma vir quando a pausa é vista como fracasso. O abandono vem como uma defesa porque é mais seguro desistir do que lidar com a frustração.” Parar por cansaço, por uma doença, por um mês caótico no trabalho, por falta de dinheiro ou por um período de cuidado com alguém não apaga o projeto — pede apenas alguns ajustes. Na prática, isso significa planejar o recomeço da mesma forma que planejamos o início. Quando a semana apertar, qual é a versão mais simples do seu projeto que mantém o fio vivo, ainda que com pouco tempo? E qual será o primeiro passo para retomar quando houver fôlego? Esse tipo de “plano B” reduz o sentimento de culpa e evita o tal do “tudo ou nada”. “Trabalhe o senso de culpa. Cuidar de si não é egoísmo, mas sim prioridade”, avalia Figueiredo. Larissa Rodrigues recorda que, muitas vezes, o que derruba um projeto não é a falta de vontade, é o medo do julgamento e a insegurança. Para blindar a mente das comparações e do perfeccionismo social que tanto aparece no Instagram, ela dá um conselho que pode ser libertador para muitas pessoas. “Permita-se ser ridículo.” Começar no rascunho, dar pequenos passos e postar sem estar perfeito são maneiras de não esperar a vida ficar calma para agir. E, quando a autocrítica vira um travamento constante, vale levar a sério e procurar ajuda. “Se a pessoa tem muito bloqueio de autoestima, se sempre acha o que faz ruim e se sente incapaz, é importante tratar em terapia.” Fran Figueiredo resume que sustentar um projeto pessoal também é sustentar um desejo. “Continuar sonhando e criando é, acima de tudo, um gesto político e psíquico”, finaliza.

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