CEO da Indeov fala sobre os cenários da cannabis — Gama Revista
Hora da maconha?

‘Falo a real: Você quer investir no Brasil? Para quê?’

Leonardo Neiva 02 de Maio de 2021
Isabela Durão (Foto: Divulgação)

CEO de uma empresa que propõe facilitar o acesso a medicamentos com cannabis no Brasil, Camila Teixeira ressalta que o país ainda tem muito a caminhar para ser relevante no setor

Camila Teixeira, 35, trabalhava promovendo o setor audiovisual do Brasil fora do país quando, em 2014, deu uma guinada crucial na carreira. Ao assistir a documentários como o brasileiro “Ilegal” (2014) e o americano “Weed” (2013), conheceu o drama de jovens pacientes e suas famílias que lutavam pelo direito de usar a maconha medicinal, essencial para seu tratamento. A partir disso, chegou a criar uma consultoria voltada para empresas de cannabis medicinal nos EUA. Depois de entender a fundo o problema e entrar em contato com famílias que viviam essa realidade na pele, decidiu voltar ao Brasil para fundar a Indeov.

O momento parecia bom. A RDC 17/2015, que permite a importação de medicamentos à base de cannabis em caráter excepcional, tinha acabado de ser aprovada e poucas empresas do ramo atuavam por aqui. A ideia da Indeov era tanto representar companhias do setor no país, ajudando-as a navegar pelas complexidades legislativas que existem em solo nacional, quanto educar e fazer uma ponte com médicos e pacientes, para simplificar o acesso num mercado ainda bastante hostil e restritivo. Logo no começo, ela ajudou inclusive uma das maiores fabricantes americanas do ramo, a Charlotte’s Web, a adentrar o mercado nacional.

Hoje, o mercado já evoluiu. Segundo a empresária, das cinco marcas que atuavam por aqui no início, o número saltou para 208. E agora a companhia também pretende entrar na produção de fármacos à base de cannabis. “Mas no Brasil não pode produzir, né? Pois é, estamos investindo no Paraguai. Acabamos de anunciar que temos um espaço por lá com todas as liberações”, conta a empreendedora.

Internamente, ainda existem muitos pontos de vista favoráveis e desfavoráveis. Se ainda estamos nesse nível de discussão, vejo como algo não tão simples quanto gostaríamos

A venda de medicamentos à base de maconha foi oficialmente liberada nas farmácias brasileiras em 2020. Desde então, alguns poucos remédios até têm sido autorizados para a comercialização por aqui. Os preços altos, no entanto, são um enorme impeditivo e acabam levando muitos pacientes a preferir importar, alternativa que ainda sai bem mais em conta.

Em 2019, a Indeov foi finalista nacional do Accelerate 2030, programa da ONU que reconhece iniciativas com impacto sustentável. Mundialmente, avanços semelhantes a esse já vêm acontecendo há algum tempo, mas, no Brasil, os passos ainda são lentos. E, no momento, sem grandes perspectivas de melhora, apesar de estar em discussão no Congresso o PL 399/2015, que propõe a legalização do cultivo no país.

“Internamente, ainda existem muitos pontos de vista favoráveis e desfavoráveis. Se ainda estamos nesse nível de discussão, até acontecer todo o caminho de tramitação no Senado… vejo como algo não tão simples quanto gostaríamos”, diz a CEO na entrevista que você lê a seguir.

  • G |A demanda por cannabis medicinal tem crescido?

    Camila Teixeira |

    Sempre entendemos esse universo como um oceano azul. Existe uma grande diferença entre pensar em indústria farmacêutica e empresas que estão entrando nesse mercado com menos capacidade de investimento, estrutura para lançamento de produtos e afins. Essas empresas precisaram “camelar” muito. Porém, sempre consideramos benéfica a entrada desses players, porque juntos somos mais fortes, vamos gerando demanda, aumentando a competitividade e reduzindo preços. A demanda cresceu consideravelmente, basta olhar os números de solicitações de medicamentos na Anvisa. Um crescimento de 1.766% comparando 2015 com 2021. Empresas novas, que entraram no mercado com um modelo parecido com o da Indeov, ajudaram a disseminar mais ainda. E os mais de 200 meios de comunicação que tratam constantemente da cannabis no país também ajudam a difundir a informação para o grande público. Estamos falando do mercado regular, mas pense nos números extraoficiais. É um mercado gigante. Cinco anos atrás, eu fazia a “evangelização” individual das pessoas. Hoje não preciso mais porque o conhecimento sobre o tema se expandiu. A pandemia também vem influenciando muito, com o aumento de casos de ansiedade, depressão e insônia.

  • G |A legislação brasileira mais restritiva não acaba freando esse crescimento?

    CT |

    Estamos num mercado totalmente embrionário, com restrições na questão regulatória. Naturalmente, investidores e empreendedores têm receio de investir. Tínhamos um braço de consultoria na Indeov que hoje eliminamos, mas muitas empresas ainda chegam até nós querendo entrar no Brasil. Eu perco a oportunidade de negócio porque não quero ser oportunista. Falo a real: Você quer investir no Brasil? Para quê? Estamos hoje com a RDC 335/2020 prestes a acabar. A empresa está preparada para concorrer com mais de 200 companhias e ainda lidar com uma legislação extremamente complexa para vender seus produtos nas farmácias? Então não perca seu tempo vindo para o Brasil. Ontem mesmo tive que fazer essa recusa delicada, porque aqui não é simples. A gente acaba recomendando primeiro entender a legislação e as oportunidades frente ao nível de investimento necessário para atuar aqui. Por outro lado, a própria indústria não se preparou para essa resolução. Empresas pequenas como a Indeov precisaram abrir o caminho, mas depois a oportunidade ficou restrita só à indústria farmacêutica. Agora, dois anos depois que saiu, só tem uma indústria farmacêutica operante no Brasil. Para que essas empresas pequenas possam competir, é muito complexo. É algo que a indústria faz há décadas, não é trivial. Por isso digo que o Brasil é uma oportunidade, mas sobretudo para players grandes.

  • G |Como esses players têm entrado aqui?

    CT |

    Mesmo com uma estrutura farmacêutica consolidada, é preciso inteligência. Não tem como fazer de forma cautelosa. É necessário firmar parcerias de distribuição, importação, pesquisa e desenvolvimento. Percebo que as empresas chegando estão cautelosas para definir quem serão esses parceiros estratégicos e calculando o nível de investimento, porque infelizmente o retorno é a longuíssimo prazo. Para falar com propriedade de um avanço no tema, eu chutaria pelo menos dez anos para começarmos a colher frutos.

  • G |No momento, ainda temos poucos médicos que prescrevem a cannabis?

    CT |

    A Anvisa parou de divulgar esses dados, mas nossa estimativa hoje é que existam a partir de 1.800 médicos prescritores, numa realidade com mais de 450 mil médicos. Então sim, ainda estamos muito no começo.

  • G |O que precisa mudar para avançarmos de fato?

    CT |

    A pergunta é complexa. Existe o PL 399, que vai abarcar oportunidades, mas também traz muitos desafios. Um concorrente nosso costuma questionar: como podemos garantir que vamos ter preços tão competitivos dentro do mercado global no futuro? É um ponto a se considerar. Sem dúvida, esse projeto seria um passo muito importante para termos uma história. Estamos num contexto muito sui generis na perspectiva de governo, mas sem dúvida é o que deve fazer com que abramos alas, sendo não só o maior mercado da América Latina, mas um player em potencial no mundo. Claro que, dentro do próprio projeto de lei, existem contradições. Uma hora estamos falando de suplementos, na outra de medicamentos que vão ser vendidos em farmácias de manipulação… Ainda estamos perdidos, mas, assim como a 327/2019 da Anvisa foi um norte, também deve acontecer aqui, caso a lei seja aprovada.

  • G |Pessoalmente, tem esperanças de que o projeto seja aprovado?

    CT |

    Tenho, mas muito provavelmente num governo seguinte. Sendo bem sincera, não espero que seja aprovado no atual. Internamente, ainda existem muitos pontos de vista favoráveis e desfavoráveis. Se ainda estamos nesse nível de discussão, até acontecer todo o caminho de tramitação no Senado… vejo como algo não tão simples quanto gostaríamos.

  • G |A questão do cultivo hoje tem avançado principalmente à base de liberações individuais?

    CT |

    Estamos percebendo aí um caminho muito próprio para o desenvolvimento do setor. Como temos uma legislação tão restritiva e, por outro lado, uma demanda social que só cresce, e o governo sem responder, acabamos tendo como resposta esses caminhos alternativos, com pacientes conseguindo seus direitos de cultivo aos poucos, habeas corpus sendo liberados num número crescente, vários projetos de lei sendo propostos e aprovados em diferentes instâncias. É interessante ver o movimento próprio da história da cannabis no Brasil. A cada dia é uma novidade, independentemente da Anvisa ou do governo, já que os pacientes não podem esperar.

  • G |A percepção do público ainda precisa mudar muito para que o tema avance dentro da sociedade?

    CT |

    É um desafio de comunicação. Não podemos esquecer que foi quase um século de estigmatização. Quebrar algo ainda tão presente no pensamento coletivo não é algo que acontece da noite para o dia, ou mesmo em dez ou vinte anos. Existe a missão da quebra do preconceito. Temos que aproveitar as oportunidades, com esperanças em relação a tudo que já foi feito nesse campo. Principalmente na classe médica, só o baixo número de médicos que apontei aqui já é bastante preocupante.

  • G |Considerando o mercado global em expansão, o Brasil tem potencial dentro dessa realidade ou a tendência é ficarmos na contramão?

    CT |

    Se dermos o passo importante de aprovar o PL 399, esse cenário ainda deve ficar na contramão num médio prazo, porque ainda deve levar um tempo para respondermos a essa oportunidade. Mas a tendência seria de termos todo o potencial para assumir uma liderança, inclusive no mercado global. Por outro lado, se não dermos esse passo, diria que sim, vamos ficar restritos a uma resolução muito limitante. Eles abrem para revisitarmos essa resolução 327 até três anos depois que foi publicada, com a possibilidade até de flexibilizar, mas vejo isso como algo muito distante. E estamos perdendo oportunidades. Existem vários países legislando favoravelmente, até com o exemplo recente do México. Estamos longe. Em 2013, essa luta ainda estava bastante embrionária em alguns estados americanos. As discussões nesse contexto, de um mercado em formação, evoluíram muito nos últimos oito anos. E nós estamos ainda nessas questões que eram embrionárias para eles. Ninguém entende a legislação brasileira, o arcabouço legislatório aqui é muito denso e complexo. Não são só entraves burocráticos, mas também a disponibilidade de matéria-prima frente às restrições legais. Você engessa todo um potencial de mercado que poderia aflorar. Existe uma rede enorme que poderia se beneficiar disso, novos negócios que poderiam surgir. Mas se está tão complexo aplicar isso no modelo atual, a colheita desse fruto não é para agora. E o tempo acaba não sendo favorável para nós.

  • G |Tendo em vista essa realidade, a Indeov tem se reorganizado de alguma forma?

    CT |

    Formamos recentemente um grupo 100% composto de empresas brasileiras que integra a cadeia completa de produção da cannabis, desde a genética até a comercialização. Mas no Brasil não pode produzir, né? Pois é, estamos investindo no Paraguai. Acabamos de anunciar que temos um espaço por lá com todas as liberações, que são bastante amplas, e estamos estruturando o projeto para em breve sermos grandes players na produção desses medicamentos. Foi a resposta que tivermos para nos adequarmos. Já que não posso fazer aqui, recorro a um outro país, com níveis de investimento consideráveis que o Brasil deixa de ganhar. Em breve, teremos nosso próprio produto no Brasil. O governo paraguaio tem como meta desenvolver o mercado de cannabis por lá, então isso nos dá uma vantagem enorme em relação a custos e benefícios tributários. No Brasil, além da legislação que não permite o cultivo, os custos são mais altos. Muitos outros players também estão recorrendo a isso. Já temos investidores anjo de bastante renome, inclusive alguns conhecidos, como o Pedro Navio, CEO da Kraft Heinz no Brasil. A Indeov passa a ser uma empresa robusta e com muitas expectativas, porque foram anos trabalhando num cenário bastante embrionário. Se não aproveitarmos agora, perderemos todo o potencial que ainda temos.