Como lidar com a ansiedade?
Icone para abrir
Ilustração de Isabela Durão

2

5 dicas

Como identificar os sintomas físicos da ansiedade

Muitas vezes, o mal-estar surge no corpo, em reações que confundem e assustam, como palpitações, insônia, tontura, tensão muscular e suor excessivo

Ana Elisa Faria 22 de Março de 2026

Como identificar os sintomas físicos da ansiedade

Ana Elisa Faria 22 de Março de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Muitas vezes, o mal-estar surge no corpo, em reações que confundem e assustam, como palpitações, insônia, tontura, tensão muscular e suor excessivo

Nem sempre a ansiedade começa com pensamentos acelerados, preocupação constante e angústia. Em muitos casos, ela se manifesta primeiro fisicamente, com sinais como taquicardia, falta de ar, suor excessivo, tremor, náusea, tensão muscular ou dificuldade para dormir — com frequência, essas manifestações assustam e, à primeira vista, são associadas a quadros cardíacos, respiratórios ou gastrointestinais.

LEIA MAIS NA GAMA

Isso acontece porque esse sofrimento psíquico também encontra vias físicas para se expressar. “A ansiedade, no corpo, se apresenta basicamente de duas formas”, comenta Lucas Gandarela, supervisor do Programa Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP). Segundo ele, em uma delas, os sintomas surgem de modo mais agudo, com batedeira no peito, tontura, sudorese, dificuldade para respirar.

Na outra, o cenário é menos abrupto, mas nem por isso menos desgastante. O tensionamento se prolonga, o sono piora, a irritação aumenta e o organismo parece permanecer em alerta, mesmo sem a presença de uma ameaça concreta. Quando isso se estende no tempo, esses incômodos passam a interferir na forma como a pessoa vive, trabalha e se relaciona.

Receba nossos melhores conteúdos por email

Inscreva-se nas nossas newsletters


Obrigada pelo interesse!

Encaminhamos um e-mail de confirmação

Laiana Quagliato, professora adjunta de psiquiatria da infância e adolescência do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, observa que essas alterações costumam se intensificar em períodos de sobrecarga, muitas preocupações ou estresse. “Quando a pessoa respira com calma, consegue desacelerar e sair desse estado, o mal-estar tende a diminuir.”

Para ajudar na identificação dos sintomas físicos — e saber quando é essencial buscar ajuda —, Gama reuniu cinco dicas.

  • 1

    Note se o seu corpo reage desproporcionalmente –
    O primeiro passo é observar em que contexto seu corpo traz reações de alerta. Se o coração acelera ou a falta de ar aparece diante de uma notícia ruim, uma perda ou uma situação objetivamente estressante, o organismo está dando uma resposta esperada. O ponto de atenção aqui aumenta quando essa resposta vem em ocasiões banais, sem que haja algo que explique tamanha mobilização. “É crucial a pessoa identificar se o sintoma aparece sempre do nada”, diz a psiquiatra Laiana Quagliato. “Um sinal importante da ansiedade é quando o nosso corpo reage sem um perigo real. Não há nada acontecendo e a gente sente palpitações, por exemplo, diante de algo corriqueiro do cotidiano”, detalha. Lucas Gandarela exemplifica: “É como se o alarme tivesse quebrado”. Em vez de tocar diante de uma ameaça concreta, esse apito dispara quando o perigo é improvável ou mesmo inexistente. “Uma das coisas que acontece no transtorno de ansiedade é que a pessoa vai sentindo esses sintomas somáticos com mais frequência, de maneira mais intensa e persistente em situações em que de fato não há um perigo iminente”, fala o médico. Por isso, é bom se perguntar se aquela reação foi proporcional ao que estava acontecendo ou se o corpo entrou em pane sem motivo claro.

  • 2

    Identifique o padrão físico de ansiedade –
    As queixas físicas da ansiedade variam de pessoa para pessoa. Para algumas, ela aparece principalmente na respiração; para outras, no peito, no estômago, na musculatura ou no sono. Lucas Gandarela observa que “existe uma tendência aos sintomas cardiorrespiratórios”. Entram aí taquicardia, palpitação, aperto no peito, falta de ar, sensação de sufocamento, tremor, tontura, náusea e suor excessivo. Em crises mais agudas, como no pânico — que integra o grupo de transtornos ansiosos —, esses sinais podem vir acompanhados de grande desespero e sensação de morte iminente. Já nos quadros mais duradouros, o desconforto costuma se traduzir em tensão muscular, irritabilidade, insônia e em uma sensação constante de alerta. Portanto, é essencial perceber quais manifestações se repetem no seu caso ou qual parte do corpo costuma falar mais alto. Há quem note primeiro a respiração curta; outras pessoas sentem o coração disparar, o peito apertar ou o estômago embrulhar. Reconhecer esse padrão ajuda a entender o que mais se repete no seu caso e a diferenciar um episódio isolado de uma recorrência que merece atenção médica.

  • 3

    Observe o que intensifica o mal-estar –
    Em períodos de sobrecarga, os sinais físicos da ansiedade podem ganhar força. De acordo com a doutora Laiana Quagliato, grandes preocupações, privação de sono, excesso de tarefas, uso de telas até tarde da noite — e assim que acordamos — e muita cafeína deixam o organismo mais sensível. “A gente vive como se sempre estivéssemos atrasados e como se tudo fosse urgente, e isso mantém o nosso corpo em constante estado de alerta”, afirma. Ela diz ainda que, quando a pessoa consegue se acalmar, respirar com mais tranquilidade e desacelerar, o incômodo tende a diminuir. Observar o que aconteceu antes de o corpo entrar em vigilância, em que contexto os sinais apareceram e o que contribuiu para amenizá-los pode ser um caminho importante para reconhecer padrões e compreender como a ansiedade se expressa. Também vale reparar nos gatilhos, termo que se refere ao que desperta ou amplia as respostas do organismo, tanto as físicas quanto as emocionais. “O gatilho, na maior parte das vezes, não está fora, ele está dentro de nós, nos nossos próprios pensamentos”, pontua Quagliato. Assim, o corpo pode disparar diante de uma situação concreta ou de uma preocupação, uma expectativa negativa ou um medo antecipado.

  • 4

    Veja se o medo dos sintomas está mudando a sua rotina –
    Um sinal de alerta aparece quando o medo de sentir ansiedade passa a comandar a vida. O psiquiatra Lucas Gandarela, do IPq-HCFMUSP, chama a atenção para a antecipação: a pessoa começa a temer os próprios sintomas e, por isso, modifica o cotidiano. Deixa de fazer atividade física, se retira de certas conversas, recua de situações que poderiam trazer desconforto, para de frequentar determinados lugares. Laiana Quagliato, da UFRJ, cita exemplos concretos, como alguém que sente taquicardia e falta de ar em um ônibus cheio e depois troca o meio de transporte e evita ambientes semelhantes por receio de passar mal novamente. Aos poucos, a pessoa não foge só do sintoma, mas de parte da rotina. Se você começou a cancelar compromissos, mudar trajetos, evitar o trabalho, a escola ou situações sociais para tentar impedir novas crises, convém olhar para isso com seriedade.

  • 5

    Não normalize sintomas frequentes –
    Taquicardia, falta de ar, tontura, insônia ou tensão muscular podem aparecer em momentos isolados de estresse. A questão muda quando essas reações voltam com frequência, custam a ceder e provocam sofrimento relevante. Para Lucas Gandarela, não basta olhar apenas para a presença dessas reações, mas também para a intensidade, a persistência e para o quanto elas atrapalham a vida. Se o mal-estar se repete ao longo dos dias, passa a consumir energia demais, desorganiza a concentração, prejudica o sono ou dá a sensação de perda de controle, convém investigar com mais cuidado. Também é fundamental constatar quanto tempo essas crises ou incômodos duram e como a pessoa fica depois. Em alguns casos, dor no peito e palpitações podem se confundir com outras condições clínicas. Por isso, Gandarela lembra que “nesse sentido, a ansiedade é um diagnóstico de exclusão”. Em outras palavras, a avaliação médica e psiquiátrica pode ser necessária tanto para entender a relação entre corpo e ansiedade quanto para descartar outras causas.

Um assunto a cada sete dias