
CV: Juliana Penteado
Confeiteira paulistana que ganhou Lisboa com criações que combinam frutas e óleos essenciais, é jurada do “MasterChef Portugal”. Para ela, açúcar se tornou “grande vilão” e é fundamental usá-lo com consciência, sem substituições artificiais
Originalidade e múltiplas experiências na cozinha dão o tom da carreira de Juliana Penteado. Aos 34 anos, a paulistana se tornou nome de destaque da confeitaria em Portugal, onde vive há sete. Em duas unidades de sua confeitaria, que leva seu nome, ela oferece criações que misturam técnicas clássicas, frutas e óleos essenciais.
- MAIS SOBRE O ASSUNTO
- Por que o sabor Nutella e leite ninho venceu?
- ‘Não viso estrela, mas não faço comida do dia a dia’
- CV: Renata Vanzetto
Sua trajetória na cozinha começou cedo, entre cursos profissionalizantes de gastronomia e uma graduação em nutrição. Sua base, no entanto, foi construída em restaurantes de alta cozinha. Na Casa Fasano, no Brasil, entrou como estagiária de nutrição e saiu como chef executiva. Em busca de novas experiências passou por Londres, Paris e, finalmente, Lisboa, onde encontrou sua identidade na confeitaria.

Longe de sua terra natal, Penteado também vivenciou o machismo no mundo gastronômico. “Você é brasileira, sabe qual é o seu fim, né? Seu fim é como uma prostituta”, chegou a ouvir de um chef em Paris após uma falha no serviço — experiência traumática que se tornou um divisor de águas em sua carreira.
Em Portugal, Penteado decidiu se aprofundar na confeitaria local, percorrendo 4 mil quilômetros em uma jornada solo de 30 dias, visitando 70 aldeias e provando mais de 80 doces no que batizou de “rota amarela”. Apesar da tradição portuguesa dos doces feitos à base de gema, ela manteve estilo próprio ao criar sua marca. Inspirada na própria infância, incorporou óleos essenciais – usados terapeuticamente por sua mãe – como ponto de partida para desenvolver suas guloseimas delicadas, coloridas e de combinações inesperadas, tais como tarte tiramisú com jasmim e o mil folhas de figo com flor de laranjeira.
Sua primeira loja, inaugurada após a pandemia, rapidamente atraiu reconhecimento e clientes como Dior, Nike e Louis Vuitton, interessados em ter os doces de Penteado em seus eventos. O crescimento a levou a abrir um segundo espaço em parceria com a padaria Gleba, consolidando sua presença no cenário gastronômico português.
No final de 2024, Penteado abraçou um novo desafio: estrear como nova jurada, a única brasileira, do “MasterChef Portugal”, ao lado dos chefs portugueses Rui Paula e Pedro Pena Bastos, ambos detentores de estrelas Michelin. Em entrevista a Gama, Juliana Penteado relembra sua trajetória, fala sobre os desafios de sua área e revela os erros e aprendizados que a trouxeram até aqui.
O açúcar se tornou um grande vilão. Não faço substituições artificiais, mas o utilizo o mínimo possível. Exploro ao máximo o potencial dos ingredientes naturais e sua sazonalidade
-
G |Seu interesse pela gastronomia vem desde a infância, certo? Como chegou até aqui?
Juliana Penteado |Fiz cursos de cozinha dos 12 aos 18 anos. Sempre me tocou, mas eu era muito nova. Aos 17, no vestibular, fiquei entre gastronomia o outra faculdade complementar. Escolhi nutrição, mas sempre com a gastronomia em mente. No meio da faculdade, fui para a Anhembi Morumbi estudar gastronomia. Saí da faculdade e fui trabalhar na Casa Fasano como estagiária de nutrição, onde fiquei seis anos. Aos poucos, migrei para a gastronomia dentro da empresa. Deixei claro meu interesse e, em 2014, fui para Londres fazer o Le Cordon Bleu. Morei lá um ano e fiz o Grand Diplôme, cobrindo cozinha e confeitaria.
Sempre gostei mais de confeitaria, mas também curtia cozinha. No Fasano, coordenei o catering corporativo e a criação de menus. Quando voltei de Londres, assumi esse setor até 2017. Em 2018, fui para Paris buscar uma nova experiência: trabalhar em restaurante. Consegui uma oportunidade e me mudei em três semanas. Chegando lá, as condições eram diferentes do combinado. Trabalhei na confeitaria de um hotel e decidi focar de vez na confeitaria. Foi uma experiência difícil. Sofri um lance forte machismo e saí após dois meses. Pensei em voltar ao Brasil, mas minha mãe me incentivou a continuar. Ela veio a Paris, ficou comigo e me ajudou a processar tudo. Após um mês refletindo, com a ajuda de um amigo, considerei Portugal. Enviei currículos para cinco restaurantes, fiz um teste e passei. Me mudei para Portugal e trabalhei no 100 Maneiras por mais de um ano. Foi intenso: era um restaurante buscando estrela Michelin, com carga horária pesada e alta exigência.
-
G |Quando encontrou seu estilo, sua assinatura na gastronomia?
JP |Decidi tirar um ano para cursos e experimentação. Fiz food photography, food styling e outras formações. Em seguida, fiz a rota amarela, que foi uma viagem onde me conectei mais com a cultura e a confeitaria portuguesa. Isso me trouxe um senso de pertencimento e direção profissional. Entendi que queria criar algo que unisse minha história pessoal, minha formação e minha paixão pela confeitaria. Me inspirei na aromaterapia, um costume de família, e comecei a estudar óleos essenciais culinários. Estruturei uma marca baseada nisso, mas, quando ia lançar, veio a pandemia. Durante uma mentoria com a Re Cruz, do Foodness, fui incentivada a testar meu produto em casa. Assim, minha empresa nasceu no primeiro dia da pandemia. Em um ano, a marca cresceu organicamente e decidi abrir minha loja. Hoje tenho duas.
No ano passado, fui convidada para ser jurada do “MasterChef Portugal”. Foi uma grande experiência, não apenas como profissional, mas também como mulher brasileira representando nossa gastronomia.
-
G |Como foi a recepção dos portugueses?
JP |Em Portugal, nunca tive problema. Mas falo por mim, Juliana. Desde o início, tive muito cuidado em como entrava nos ambientes, sabe? Acho que é um pouco sobre “pedir licença”, mas acima de tudo, é respeito. Sempre tive isso muito latente dentro de mim, e nunca tive problema. Mas, claro, conheço muita gente que já passou por situações complicadas aqui.
Em Paris, tive um episódio muito difícil. Pelo fato de ser mulher e brasileira, o chef de cozinha me disse coisas horríveis. Ele me falou algo como: “Você é brasileira, sabe qual é o seu fim, né? Seu fim é como uma prostituta”. Foi muito, muito ruim. Tudo aconteceu porque ele estava irritado com um problema no serviço. Ele mandou queimar um crème brûlée de um jeito específico, eu fiz como ele pediu, mas levaria 15 minutos. Quando chegou uma mesa de 30 pessoas pedindo sobremesa, avisei ao diretor que demoraria cerca de uma hora e meia. Ele ficou puto comigo, pegou o maçarico e queimou todas as minhas sobremesas. No final do serviço, me disse isso de forma super dura e agressiva.
Depois desse episódio, quando fui trabalhar em restaurantes em Portugal, já entrei com uma postura diferente. Estava determinada a nunca mais permitir que alguém passasse desse limite comigo. Sabia do meu valor, do meu trabalho e do que construí até ali.
Sobre machismo, foi a pior experiência que vivi. Já em relação à xenofobia, nunca passei por nada diretamente. Mas, claro, com a exposição no “MasterChef”, via muitos comentários nas redes sociais. Quando fui convidada para ser jurada, me perguntei como seria essa experiência. Nunca tinha tido um desafio desse nível, estar ali de forma consistente ao longo de uma temporada inteira. No começo, ouvi muitos comentários do tipo: “Quem é essa Juliana?”, “Qual é o papel dela ali?”.
Com o tempo, percebi que queria ser simplesmente quem eu sou. No início das gravações, recebemos roteiros com falas em português de Portugal. Perguntei à diretora de comunicação: “Querem que eu fale no português europeu?”. E ela respondeu: “Não, queremos que você seja você”. Aquilo foi um grande alívio para mim. Saber que podia ser autêntica foi essencial.
Me dei muito bem com os outros jurados. Já conhecia um deles, o Pedro [Pena Bastos], há bastante tempo, e o Rui [Paula], que eu não conhecia antes, também foi super receptivo. Isso tornou tudo mais leve e verdadeiro.
-
G |Quais os principais desafios da sua área e como lida com eles?
JP |Acho que, no geral, o açúcar se tornou um grande vilão. Como nutricionista, concordo que há questões relacionadas a isso. Eu não faço substituições artificiais na minha confeitaria, mas uso o mínimo de açúcar possível. Exploro ao máximo o potencial dos ingredientes naturais e sua sazonalidade.
Por exemplo, um morango na alta temporada tem um teor de açúcar completamente diferente de um morango congelado. Entender isso faz toda a diferença no equilíbrio das receitas. Minha base em nutrição me ajuda muito nesse sentido.
Outro grande desafio da confeitaria são as restrições alimentares. Minha mãe tem intolerância à lactose, além de questões com glúten. Isso me fez ter um olhar muito sério sobre alergias e restrições. Algumas pessoas perguntam: “Por que você não faz doces sem glúten?”. Eu respondo: “Porque quem é celíaco de verdade não pode ter nem traço de glúten no ambiente. Para isso, eu precisaria de outro espaço físico”.
Aqui em Portugal, também houve um desafio cultural. A confeitaria portuguesa é extremamente doce, com forte presença de açúcar, gema de ovo e amêndoas. Meu estilo é mais técnico, com influência francesa, presença de óleos essenciais e quer cortar bastante do açúcar quando possível. Nos primeiros anos, remar contra essa maré foi difícil. Mas, com o tempo, encontrei um público que entende e valoriza meu trabalho.
-
G |Quais foram os aprendizados mais importantes que você teve nessa trajetória?
JP |Acho que o primeiro é respeito. Respeito pelo ambiente em que se entra, respeito pelas pessoas com quem se trabalha. A curiosidade e a vontade de aprender precisam ser genuínas. O segundo é empatia. Principalmente na gestão de equipe. Tive chefes difíceis e chefes maravilhosos, e aprendi muito com ambos. Hoje, me coloco muito no lugar do outro, porque sei o impacto que a liderança pode ter na vida de alguém. O terceiro aprendizado é a leveza. Trabalho muito, mas amo o que faço. Se não houver leveza no processo, fica insustentável. Ainda mais na gastronomia, onde lidamos com comida – algo que nutre a alma das pessoas.
Por isso, participar do “MasterChef” foi uma experiência tão marcante. Era impressionante ver como os competidores lidavam com a pressão. Você pode ser um excelente cozinheiro, extremamente criativo, mas, se não souber trabalhar sob pressão, acaba ficando para trás rapidamente. O programa me trouxe uma nova perspectiva sobre esse processo, algo que, assistindo de fora, não conseguimos compreender completamente. É possível observar a evolução dos participantes à medida que eles entendem e aprendem sobre isso.
-
G |Você citou Re Cruz como uma importante mentora. Mais alguém tem ou teve esse papel na sua carreira?
JP |Várias pessoas pegaram na minha mão em momentos difíceis, quando eu não sabia para onde ir. A Re Cruz é uma delas. Foi uma super profissional e, até hoje, vira e mexe, me manda mensagem perguntando como estão as coisas, mesmo depois de cinco anos. Outra pessoa que me ajudou muito no processo do “MasterChef” foi alguém com quem fiz várias mentorias, especialmente de oratória, Luitha Miraglia, que é apresentadora do “Shark Tank”. Porque é um outro universo também, né? Como você se expõe publicamente, como comunica suas ideias. Foi essa pessoa que olhou nos meus olhos e perguntou: “Cara, quem você quer ser ali? Você quer ser a Juliana? Tá bom. Então a gente vai estudar para chegar o mais próximo possível de quem é a Juliana.” Acho que a Luitha foi maravilhosa nesse sentido. Uma mega mentora para mim. Acho que milhares de outras pessoas também. As pessoas que estão na cozinha comigo diariamente, por exemplo. Essa troca genuína é muito valiosa. Eu aprendo muito com eles, e eles aprendem muito comigo.
-
G |Você cometeu alguma falha nesse percurso?
JP |A gente sempre erra e o importante é reconhecer e aprender com isso. Eu sou uma pessoa super do criativo e, no começo, não entendia nada da estrutura de um negócio. Achava que saber fazer doces lindos e criar receitas incríveis era suficiente para abrir uma loja. Mas isso é só 5% do que um negócio precisa. Minha mentora, a Re Cruz, me ajudou muito nisso. Outra pessoa que me deu um grande conselho foi a Andrea Kaufman. Ela me disse: “Ju, para colocar sua florzinha em cima do doce, você precisa sentar e fazer as planilhas que tem preguiça”. Empreender é extremamente solitário, ainda mais sendo imigrante. No início, precisei entender burocracias, leis, vigilância sanitária – tudo funciona diferente aqui. Mas, no final, erros fazem parte do aprendizado.