Winnie Bueno, a menina que doava livros — Gama Revista

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A menina que doava livros

Marilia Dias

Ativista do movimento negro e pesquisadora, Winnie Bueno promove a emancipação da população negra com o acesso a leitura e ao conhecimento antirracista

Daniel Vila Nova 30 de Setembro de 2020

Aos dois anos e meio de idade, Winnie Bueno já sabia ler. Ao menos, era isso que acreditavam sua mãe e sua avó, que classificavam a pequena Winnie — nome dado em homenagem a Winnie Mandela — como “superdotada”.

A verdade, segundo Bueno, é menos excitante. Ela até era íntima das letras, as reconhecendo com facilidade e conseguindo desde muito cedo identificar palavras soltas, mas a habilidade de leitura viria no tempo normal, depois de muita prática.

Leitora voraz desde muito cedo, Winnie encontrou na literatura um refúgio dos processos de violência racial que sofreu por toda a infância. Nascida no Rio Grande do Sul — estado com apenas 16,13% da população negra segundo o Censo de 2010 — ela foi, vez após vez, a única negra em espaços completamente brancos.

Jovens negros que têm referências negras no campo intelectual e político não podem ser exceção, quero que sejam regra

Os livros então passaram a ser ferramentas fundamentais na compreensão de quem ela era e do que significava ser negra na sociedade brasileira. Graças a literatura mobilizada por autores e autoras negras — fruto do envolvimento da mãe com o movimento negro gaúcho –, a menina passou a entender, contextualizar e nomear a violência racista que sofria.

Hoje, com 32 anos, a gaúcha busca entregar a outros jovens negros a possibilidade da leitura como forma de emancipação. Para isso, Bueno conta com a Winnieteca — antigamente conhecida como Tinder dos Livros –, iniciativa criada de forma espontânea após uma provocação sua no Twitter.

O post foi recebido com entusiasmo por seus seguidores e Bueno passou a mediar as doações que chegavam. Para isso, criou um sistema simples: pessoas negras listavam o livro desejado e pessoas interessadas em doar se colocavam a disposição de Winnie, que redirecionava os pedidos.

O grande diferencial do projeto é a mudança no polo ativo da doação. “Na Winniteca, os livros doados não são os livros que alguém não quer mais e sim os livros que alguém precisa. É uma maneira de efetivamente se comprometer com a construção de conhecimento de alguém.”

Formada em direito pela UFPEL (Universidade Federal de Pelotas) e doutoranda em sociologia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Bueno entende que negar o acesso ao conhecimento é a maneira mais fácil de manter uma população em situação de subordinação. A realidade brasileira apresenta livros caros, que são inacessíveis às classes sociais mais pobres — distância essa que está diretamente e propositalmente relacionada com a questão racial.

Nessa perspectiva, o acesso ao conhecimento de forma autônoma é uma ferramenta de libertação. “Eu não quero doutrinar pessoas, eu quero que elas tenham a possibilidade de acessar livros e, a partir desse processo, que formulem seu próprio pensamento crítico”, diz Bueno.

Nossos passos vêm de longe

Cria do movimento negro, é assim que Winnie se define. Os finais de semana da garota eram passados, em sua maioria, em encontros do movimento negro no Rio Grande do Sul. Ocupada durante toda a semana, a mãe de Winnie — que é servidora pública — levava as duas filhas para as reuniões – uma maneira de passar o tempo livre com a família e se dedicar ao ativismo e a educação das filhas.

A educação racial foi fundamental na criação da garota, que soube desde muito cedo o quanto seria atingida pelo racismo. O contato com a militância negra e a possibilidade de ter figuras intelectuais que discutiam o que ela sentia na pele ajudou a formular suas noções de cidadania.

Mais do que ter referências que falavam sobre questões negras, tive referências que falavam da sociedade a partir da perspectiva de mulheres negras

“Parte da minha educação vem do movimento negro, sobretudo do movimento de mulheres negras. O aprendizado de resistência cunhado e articulado no interior de movimentos sociais me ajudou a construir minha própria subjetividade”, afirmou Bueno.

“Mais do que ter referências que falavam sobre questões negras, tive referências que falavam da sociedade a partir da perspectiva de mulheres negras.” A lista de exemplos de Winnie é longa. A mãe, Sueli Carneiro, Cida Bento, Conceição Evaristo, Reginete Bispo e tantas outras ativistas foram figuras centrais na vida da pesquisadora desde muito cedo.

Fora do ativismo, a avó e as tias também eram exemplos de resistência, resiliência e de muita inteligência. A educação de Winnie foi centrada nas experiências de mulheres negras, algo que hoje ela enxerga como uma responsabilidade.

Mesmo se considerando muito nova para ser referência, a pesquisadora procura produzir e compartilhar tal conhecimento de maneira responsável, respeitando o legado das mulheres que foram tão importantes em sua formação política e intelectual.

“A minha criação não pode ser algo raro, uma exceção. Jovens negros que têm referências negras no campo intelectual e político não podem ser exceção, quero que sejam regra. Considero essa uma de minhas responsabilidades.”

Movimentando a estrutura social

Se na infância a formação intelectual de Bueno foi protagonizada por mulheres negras, na vida acadêmica da pesquisadora também não foi diferente. Foco de estudo do mestrado — e agora do doutorado — de Winnie, Patricia Hill Collins é outra importante referência. Bueno já havia lido Collins, mas conta que só acessou a complexidade do pensamento da autora no mestrado.

A decisão do tema veio após uma sugestão do seu orientador, um homem branco, que indicou a ela o livro de Collins, “Black Feminist Thought”. “Eu disse que não lia bem em inglês, mas ele me disse para tentar. Isso foi muito importante, ele não duvidou da minha capacidade e sim apostou nela.” O racismo na academia, segundo Bueno, existe de maneira cordial — em discursos e atitudes que podem parecer inocentes, mas são extremamente violentos contra pessoas negras.

Se eu perguntar sobre os livros que uma pessoa leu no ano, é muito provável que apenas uma minoria tenha lido algum livro escrito por uma mulher negra

“No geral, professores brancos não apostam na capacidade de mulheres negras. Ao contrário, eles costumam minar essa capacidade. Você é questionada a todo momento, sua pesquisa é deslegitimada e te colocam no lugar de vítima, uma coitada que mal sabe ler e escrever.”

O que faltou a Winnie no léxico em inglês, sobrou na experiência pessoal sobre racismo. “O pensamento da Collins é muito vivo e dinâmico, mas tende a circular com pouco aprofundamento, sobretudo no circuito acadêmico.”

A pesquisadora entende que, ao não ler mulheres negras, cria-se uma visão parcial e incompleta da sociedade. “Se eu perguntar sobre os livros que uma pessoa leu no ano, é muito provável que apenas uma minoria tenha lido algum livro escrito por uma mulher negra.” A privação que mulheres negras tiveram ao acesso à universidade, e consequentemente à literatura, é ferida recente que não está nem perto de ser cicatrizada.

Esse machucado, tão comum a mulheres negras, encontra mais uma história na família de Bueno. Impedida de estudar após a quarta série, a avó de Winnie fez de tudo para que o restante da família jamais passasse pela mesma dor.

Ciente de que a realidade acadêmica não é a narrativa da maior parte da população negra, a pesquisadora celebra a importância do acontecimento. “Eu estou no doutorado e sei o quão importante isso é para minha vó. É muito significativo dar essa resposta a ela e retribuir o ensino e o empenho que ela teve com os netos.”

Com seu ativismo, Bueno busca dar a outras pessoas as chances que teve ao longo de sua vida. Um dos seus projetos mais recentes, o “Lendo Mulheres Negras na Comunidade”, foi um financiamento coletivo que colocou livros de mulheres negras em bibliotecas comunitárias.

Além disso, sua quarentena tem sido dedicada a dar cursos online dos mais variados temas: feminismo negro, interseccionalidade, direito raça e gênero. Os cursos contam com vagas dedicadas a jovens negros que não teriam condição de acessar as aulas de outra maneira.

A branquitude precisa se racializar

Os cursos online e a própria Winnieteca fazem parte do ativismo de Bueno, mas ela enxerga a internet e as redes sociais como uma dentre as inúmeras ferramentas de mobilização possíveis. “A internet possibilitou uma visibilidade maior de pautas e agendas da população negra, mas ela está longe de ser a ferramenta mais importante.”

Com mais de 100 mil seguidores no Twitter, a ativista é muito presente na rede social e já foi alvo de ataques racistas por conta de suas opiniões. Winnie acredita que a internet, mesmo com suas limitações, possibilitou que influenciadores negros pautassem o debate nas redes sociais, o que incomoda a população branca. “É a lógica do pacto narcísico. No momento em que as pautas brancas não são mais centrais, gera incômodo.”

A branquitude ainda está em um lugar muito raso no que diz respeito a compreensão da complexidade do racismo enquanto sistema de dominação

“Pessoas racializadas sempre se mobilizaram, mas a branquitude nunca enxergou. É mais fácil enxergar o que está acontecendo nos EUA, mas isso também ocorre aqui.” Após o assassinato de George Floyd, a internet foi tomada por posts antirracistas. Meses depois, a mobilização já acabou – algo que não surpreende a pesquisadora.

Ela relembra casos trágicos de assassinatos de crianças negras mortas pela polícia no Brasil, mas diz que tais acontecimentos não geram a mesma comoção. “Quando a branquitude percebeu que essa violência não é algo excepcional e que para solucioná-la é necessário mais do que um quadrado preto no Instagram, eles recuaram.”

A insuficiência de letramento da população branca sobre racismo é grande e representa um enorme obstáculo na discussão racial. “A branquitude ainda está em um lugar muito raso no que diz respeito a compreensão da complexidade do racismo enquanto sistema de dominação.” Para Bueno, a educação racial é a possibilidade de pessoas brancas se desprenderem do seu lugar junto a supremacia branca.

“Ainda temos muito o que caminhar. Ceder o espaço no perfil da internet é legal, mas não muda nada estruturalmente.” Com uma vida voltada a emancipação da população negra e ao combate ao racismo, Winnie garante que não está cansada — mas que não espera muito da branquitude brasileira. “O incômodo não é falar sobre a questão racial. O incômodo é que ainda é preciso falar.”

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