Coluna do Observatório da Branquitude: O Oscar e o filtro branco — Gama Revista
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Observatório da Branquitude

“Eu não só vou olhar. Eu quero que meu olhar mude a realidade”

Ao fazer a pré-seleção dos filmes para assistir antes do Oscar e já ter visto alguns dos mais cobiçados, me senti desanimada

06 de Março de 2024

Por Manuela Thamani*

Sempre gostei de acompanhar a glamourosa premiação do Oscar. Na verdade, gosto mais da ideia de acompanhá-la do que do fato em si. Na adolescência, por mais que tentasse, acabava adormecendo antes do espetáculo começar. Depois, baladeira convicta, precisava resguardar esse sono da madrugada de segunda-feira, quase como um tratamento que reabasteceria minha energia para a semana que se apresentava. Afinal, semana após semana, a promessa de repousar no domingo era quebrada frente à sedução irresistível do Ó do Borogodó ou do domingo da Loka, como se o memorável Alexandre, da novela “A Viagem”, sussurrasse em meu ouvido esse convite tentador — e assim entrego minha idade e a geografia da farra à época.

Mais tarde, chegou uma bebê em nossas vidas, também uma entusiasta da noite, mas de natureza diferente. Tal como os pais em tempos passados, também adorava ficar acordada nas madrugadas, bebericando leite diretamente da fonte e dançando no ritmo do sobe e desce da bola de pilates. E, no meio de todas essas fases que me despertam nostalgia, eu conseguia ver uma premiação ou outra. Houve até um ano em que meus queridos amigos do mundo audiovisual se vestiram com toda pompa, inclusive com vestidos longos, para assistir ao evento.

Neste ano, porém, ao fazer a pré-seleção dos filmes para assistir antes do Oscar e já ter visto alguns dos mais cobiçados, me senti desanimada. A verdade é que a coisa que mais me empolga este ano são os comentários de Gabb. Mal posso esperar para descobrir quem será considerada HORROROOOSAAAAA e quem será a verdadeira movie star! No geral, estou achando tudo meio morno, a despeito da maior diversidade racial em algumas categorias, algo me soa antiquado quando a maior revolução é um filme francês, com um elenco notavelmente dominado pela presença branca, ser um dos grandes destaques. Não me interpretem mal, de fato apreciei “Anatomia de uma Queda”, porém, há algum tempo encontro dificuldade em me envolver inteiramente com narrativas desse universo branco centrado.

Há algum tempo encontro dificuldade em me envolver inteiramente com narrativas desse universo branco centrado

Saí da sala de cinema imersa no peso da angústia e da incerteza que o filme evoca. Mas também, não pude deixar de notar a escassez de representação negra. Em meio a um elenco que possivelmente ultrapassa cem pessoas, contei apenas dois atores negros, ambos figurantes, ambos sem fala. “Anatomia de uma Queda” já recebeu uma profusão de análises, algumas delas provocando a reflexão sobre o mal encontro, sobre a dissonância dada quando cada um de nós vê a realidade por meio de seu próprio ângulo e filtro. Isso acontece tanto no âmbito privado quanto no público, como podemos acompanhar na trama do filme.

Na esteira desse pensamento, eu te pergunto: qual o impacto quando o filtro de uma grande premiação é branco?

O caminho para conquistar uma indicação ao Oscar é longo, dispendioso e complexo. Ao mesmo tempo, é sabido que a sétima arte possui poder ímpar em moldar o debate público. Não desejo aqui limitar-me à valorização da representação por meio de figuras, mas sobretudo reconhecer o poder da representatividade pela legitimidade dessas figuras em toda a cadeia cinematográfica. Indo além, uma indicação ao Oscar alimenta ainda o que bell hooks vai definir como olhar opositor dos espectadores negros. A brilhante intelectual assevera que nós, negros, desenvolvemos um olhar opositor no cinema e, ao nos envolvermos com o audiovisual, declaramos em desafio: “Eu não só vou olhar. Eu quero que meu olhar mude a realidade”.

Corta para Balneário Camboriú em 2 de março de 2024. A manchete anuncia: Mulher é presa em filme sobre Bob Marley: “Tanta gente preta no cinema”. Essa notícia me faz refletir sobre como, felizmente, temos sujeitos que resistem a esse filtro branco. Leonardo, imbuído por uma verve altiva e consciência de seu lugar social, teve a coragem de denunciar Bruna, a mulher da manchete, acusada de proferir injúria racial.

Qual o impacto quando o filtro de uma grande premiação é branco?

É reconfortante saber que esse filtro branco não turva visão de determinada parcela da humanidade. É irônico e triste, por outro lado, como Bruna se vale da ofensa racial, durante a exibição do filme “One Love” de Bob Marley. Isso nos lembra sobre como o racismo se manifesta nos variados locais e momentos, mesmo quando estamos imersos na arte e na mensagem de amor e unidade do ícone jamaicano.

No Oscar de filtro branco, há dez indicados ao prêmio de melhor filme, mas neste ano estou zero ansiosa para saber o vencedor. E minha empolgação para assistir à premiação equivale à minha disposição para organizar uma pilha enorme de papéis antigos que ocupam minha escrivaninha. Quem sabe em 2025 veremos alguma mudança racial mais contundente. Resta-nos esperar.

Manuela Thamani é bacharel em administração de empresas (USP) e mestra em comunicação (USP). Trabalhou em multinacionais, veículos de mídia e fundações. É codiretora executiva do Observatório da Branquitude.

Observatório da Branquitude é uma organização da sociedade civil fundada em 2022 e dedicada a produzir e disseminar conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude, em suas estruturas de poder materiais e simbólicas, alicerces em que as desigualdades raciais se apoiam.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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