Se você me ama, por que não se concentra? — Gama Revista
COLUNA

Fernando Luna

Se você me ama, por que não se concentra?

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre o encontro da ansiedade de informação com a máquina do caos, a chegada da primavera no antropoceno, o perigo das festas de humanas e as fake-fake news do Gabinete do Amor

18 de Setembro de 2023

Por que essa falta de concentração? Se você me ama, por que não se concentra?

Ana Cristina Cesar, 1985

Quando os poemas “Inéditos e Dispersos” de Ana Cristina Cesar chegaram às livrarias, já era difícil se concentrar.

Mesmo sem internet, redes sociais, mensagens instantâneas, notificações ou videoconferências, o mundo sofria de “ansiedade de informação” – título do livro de Richard Saul Wurman também lançado nos anos 1980.

Pra ilustrar essa angústia, o arquiteto fez uma comparação assombrosa: um exemplar do New York Times tinha mais informação do que uma pessoa comum podia receber durante toda sua vida na Inglaterra do século 17.

Fora os jornais, havia também televisão, cinema, rádio, revistas e livros, além de novidades como os canais de TV a cabo.

Ninguém era capaz de processar tanto conteúdo, daí o mal-estar.

Quase 35 anos depois, a ansiedade de informação ganhou a companhia da ansiedade da desinformação, graças à “máquina do caos” – pra usar outro livro capaz de definir uma época, dessa vez escrito pelo jornalista Max Fisher.

Entre fake news, posts, likes, compartilhamentos, zoom, reels, zaps, streaming, vídeos curtos, podcasts e mais tudo aquilo que perturbava a concentração lá atrás, é cada vez mais desafiador fazer apenas uso recreativo do mundo digital e seus algoritmos psicoativos.

(Será que um dia alguns aplicativos virão com avisos como os de cigarro? “O Ministério da Saúde Mental adverte: este app provoca dependência psicológica.”)

Só na rede X-entre-parêntesis-ex-Twitter são 6 mil postagens por segundo. No Insta, 95 milhões por dia – metade daquele seu amigo que tá viajando. O Tik Tok suga em média 23 horas por mês de seus usuários.

E num país onde a TV Justiça empolga mais que filme de tribunal e a TV Câmara com seu cangaço velho faz “Cangaço Novo” parecer programa infantil, a situação é ainda pior.

Daí o IBGE encontrar 81 milhões de brasileiros solteiros – um número que vem crescendo rapidamente. Anda difícil se concentrar no amor.


Toda segunda, o jornalista Fernando Luna (@fluna) apresenta sua “Antologia Profética”, com versos desgraçadamente atuais.

Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras

Pablo Neruda, 1924

Já é primavera no antropoceno.

A mudança climática bagunçou as estações, ora antecipando uma aqui, ora atrasando outra ali. Os sinais que marcavam a passagem entre primavera, verão, outono e inverno foram embaralhados.

Árvores como as cerejeiras vêm florescendo antes da hora.

Em vez de anunciar a chegada da primavera no Japão, a sakura se tornou um “save the date” da estação, confundindo os leitores mais literais de Pablo Neruda e seus “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”.

Já na barraca de flores do Flávio, montada na feira livre atrás do cemitério da Consolação, os galhos floridos de cerejeira tavam à venda na última sexta. Não sei se isso é bom ou ruim pro planeta – pra enfeitar minha casa foi ótimo. Numa cidade como São Paulo, que frequentemente mistura em um só dia todas as quatro estações, é mais difícil interpretar essas sutilezas.

(Tivemos, porém, uma prova escancarada dos danos que a ação humana causa na natureza: o ex-ministro do meio ambiente Ricardo Salles foi flagrado fazendo compras num hortifruti. Depois de passar a boiada que culminou com a liberação 2.182 agrotóxicos durante o pior governo da história do Brasil, ele procura minimizar o impacto ambiental no seu prato.)

Como trópicos, sejam tristes ou medicados, naturalmente têm estações menos marcadas, precisamos de indícios mais evidentes da “mutação climática” – como o antropólogo francês Bruno Latour prefere se referir à catástrofe ambiental.

As enchentes no Rio Grande do Sul são o sinal mais recente do óbvio ululante.

Mesmo assim, enquanto rios transbordavam, casas desabavam, milhares de pessoas eram desalojadas e dezenas morriam, negacionistas tiveram a pachorra de espalhar fake news jogando a culpa no manejo de represas.

Um efeito colateral curioso: a polarização do clima, agora mais dado que nunca a eventos extremos, também agrava a polarização da burrice.

Eu podia ser qualquer coisa que eu quisesse – mas eu escolhi viver

Ocean Vuong, 2016

Sobre ontem à noite, fica o aprendizado: festas de humanas precisa ter ambulância de plantão.

Ficamos todos sem ação, paralisados no meio da pista de dança, quando a gritaria fez baixar o som: “Um médico, tem uma pessoa passando mal, um médico!”.

Veja bem, a grita era por um médico. Umzinho só. Bastava um recém-formado na Anhembi Morumbi ou um residente do Samaritano.

Mas não.

Olhei em volta e avistei 38 designers, 17 jornalistas, 1 jornalista que efetivamente trabalha em jornalismo, 2 xamãs urbanos, 5 pintores, 3 ceramistas, 7 escritores, 22 escritores nunca publicados, 2 antropólogos, 4 galeristas, 14 roteiristas, 2 cineastas, 2 chefs que se apresentam como cozinheiros, 11 fotógrafos, 8 DJs, 4 estilistas, 4 atores, 2 floristas, 19 designers de joias, 2 curadores, 6 publicitários, 9 publicitários enrustidos, 8 músicos, 6 editores, 5 arquitetos, 46 que não conseguem explicar o que fazem e, vá lá, 1 dentista (penetra).

A morte parecia certa. Seria, porém, inesquecível.

Pra começar, o anúncio fúnebre melhor diagramado desde a Bíblia de Mogúncia. O velório não seria um velório e sim uma experiência. Comes (fingerfood de comida afetiva) e bebes (hidromel de abelha jataí) orgânicos, line up com amigos tocando ao vivo suas canções favoritas, filme de montagem reunindo os melhores reels do defunto, coroa de flores tropicais e ligeiramente exóticas, ritual ecumênico hackeado por citações de Byung-Chul Han, cremação em fogueira xamânica e urna funerária biodegradável (edição limitada).

Tudo porque, como escreveu o poeta norte-americano de origem vietnamita Ocean Vuong em “Dia de Ação de Graças 2006”, a gente podia ser qualquer coisa – cardiologista, neuro, cirurgião, gastro ou até dermato, que é praticamente um médico –, mas escolhemos viver em vez de estudar de verdade.

Felizmente a convidada que passou mal era autossustentável e se recuperou sozinha.

Tudo o que não invento é falso

Manoel de Barros, 2003

Manda no grupo da família o novo slogan do Jair Bolsonaro: “Brasil acima de tudo, Deusa acima de todes.”

Talvez não seja bem isso, mas como essa turma só quer saber de fatos alternativos, vamos de fatos alternativos – porém diferentes daqueles inventados pelo Gabinete do Ódio.

O plano é hackear o teflon antiaderente à realidade dos bolsonaristas.

Não adianta apontar o roubo de 19 milhões em joias, as cenas de golpismo explícito, os 51 imóveis comprados em dinheiro vivo ou o negacionismo mortal na pandemia. A verdade não os libertará.

Melhor mudar a estratégia: contra fake news, fake-fake news.

O Gabinete do Amor apurou com fontes seguras e até confirmou em off com o alto comando do exército que o ex-presidente tá diferente.

Ele teria deixado mais cedo a festa do peão de Barretos pra ver um show do Bala Desejo no Circo Voador. Trocou o tiro ao alvo pelo “Tiro ao Álvaro”, batucando no Samba da Vela.

Diz que cortou o leite condensado e só compra orgânico na feira do MST. Ligou pro Tarcísio sugerindo trocar a estátua do Borba Gato por uma homenagem aos povos originários.

Cancelou a motociata em Balneário Camboriú pra fazer uma marcha pela democracia na Chapada Diamantina, onde planeja um retiro no quilombo de Moitinhas e uma vivência de kundalini no Vale do Capão.

Em vez de passar seu Pix pra extremistas e lavadores de dinheiro, deu o número da conta corrente da ONG da Greta Thunberg. Deixou de lado o jet ski e tem circulado de bicicleta elétrica.

Aproveitou que a Polícia Federal ficou com seu celular e parou de atender o Malafaia, agora só quer saber de DM com o padre Júlio Lancellotti. Ficou chateado com o voto do Zanin contra a descriminação da maconha.

Como o inelegível mesmo escreveu, repasse ao máximo.

Se alguém duvidar, mete o louco e saca a epígrafe das “Memórias inventadas: a infância”, de Manoel de Barros: “Tudo o que não invento é falso”.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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