Coluna do Fernando Luna: O ano inteiro é primeiro de abril — Gama Revista
COLUNA

Fernando Luna

O ano inteiro é primeiro de abril

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre a mentira que se repete como farsa, as incríveis coincidências do Brasil, a reação química que chamamos de amor e um lançamento espacial de poesia

01 de Abril de 2024

Viva o Brasil/ onde o ano inteiro/ é primeiro de abril

Millôr Fernandes, 1984

Antologia Profética

O regime militar de 1964 já começou mentindo — e seus herdeiros mentem até hoje.

Se a quartelada contra João Goulart teve início em 31 de março, o presidente caiu de fato no dia seguinte — com a fuga de Jango e o telex do general Costa e Silva às unidades militares dizendo que agora era com ele.

(Nem Jango tentou resistir à própria queda: foi deposto sem um único tiro em combate, embora não tenha faltado sangue nos anos de chumbo que se seguiram.)

O golpe se consumou em primeiro de abril, mas quem quer ser associado ao dia da mentira?

Nos 20 anos seguintes, décadas antes do mea culpa da grande imprensa que aderiu à ditadura, ficou fácil oficializar as fake news.

Primeiro diziam ter acabado com a democracia pra defender a democracia. O fantasma do comunismo no Brasil, risível até durante guerra fria, era a desculpa dos conservadores que temiam uma reforma agrária.

(Hoje, o espectro de Che Guevara na Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi substituído pelo espantalho da Venezuela nos Grupos de Zap dos Cidadãos de Bem. Quem sabe isso perde força com a crítica inédita de Lula a Maduro, antes tarde que mais tarde.)

Depois inventaram um milagre econômico. A promessa era fazer o bolo crescer pra então dividir as fatias. O bolo até cresceu, mais por inércia socioeconômica que política de governo, mas a desigualdade disparou.

Quando a patacoada ficou insustentável, veio a abertura “lenta, gradual e segura” do regime, com a anistia “ampla, geral e irrestrita”. Somando as duas coisas, o golpismo segue vivo.

Oito de janeiro de 2023 foi o primeiro de abril do primeiro de abril de 1964: um dia da mentira que tentou se repetir como farsa.

Dessa vez, alguns golpistas acabaram na cadeia. Sem generalizar os generais, pra citar Millôr Fernandes além do “Poemeu Efemérico”, ainda tem muito militar pego na mentira do artigo 142 e devendo à justiça.

Qualquer coincidência é mera semelhança

Paulo Leminski, 1996

Brasil não é o país do futuro, Brasil é o país das coincidências.

Coincidência o general Braga Netto, interventor no Rio de Janeiro, assinar a nomeação de Rivaldo Barbosa como delegado geral da polícia civil pouco antes do assassinato de Marielle Franco.

Coincidência, pouco depois do assassinato, o delegado apontar Giniton Lages pro comando da divisão de homicídios, área responsável pela investigação do crime – e acusada pela Polícia Federal de contrainvestigação.

Coincidência Jair Bolsonaro, o ex-chefe e ex-cabeça de chapa de Braga Netto, declarar naquela infame reunião no Palácio do Planalto que “não vou esperar foderem minha família toda” pra interferir na PF.

Coincidência o caso Marielle deslanchar após Jair deixar a presidência.

Coincidência a investigação e o arquivamento do que seria um esquema de financiamento, com dinheiro da suposta rachadinha de Flávio Bolsonaro, da construção de imóveis em terrenos grilados pela milícia.

Coincidência Flávio fazer campanha com Chiquinho Brazão, acusado de grilagem e de mandar matar Marielle – ela teria atrapalhado a regularização de terrenos surrupiados pela milícia.

Coincidência: a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega, chefe da milícia grileira Escritório do Crime, foram funcionárias de Flávio. Coincidência a morte de Adriano numa operação policial com ares de queima de arquivo.

Coincidência Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, assassinos de Marielle, fazerem frila pro Escritório do Crime. Coincidência Ronnie ser vizinho de Jair. Coincidência o porteiro dizer e desdizer que no dia da execução Élcio entrou no condomínio com autorização do “seu Jair”.

Coincidência um deputado bolsonarista berrar na Comissão de Direitos Humanos que “Marielle acabou”.

“Qualquer coincidência é mera semelhança”, diz o poema de Paulo Leminski publicado no livro póstumo “O ex-estranho”: Marielle acabou, Marielle acabou de começar.

Não é o que acontece/ É como você lida com isso

John Giorno, 2013

É amor de verdade ou um efeito colateral do antidepressivo?

Faz diferença? O fato é que a dopamina besuntou seu sistema nervoso. Aconteceu porque é a pessoa da sua vida – seja até a próxima pessoa, seja até a próxima vida? Aconteceu porque a medicação disparou uma torrente de neurotransmissores?

A sequela no seu cérebro é sempre a mesma: a reação química que chamamos de amor.

Esse é o ser-ou-não-ser de “The Effect”, peça de Lucy Prebble, dirigida por Jamie Lloyd no The Shed – e tudo isso junto já vale a viagem pra Nova York e a consequente bancarrota.

(Prebble é uma dramaturga premiada e roteirista de dois dos melhores episódios de “Succession”. Lloyd é um dos encenadores mais respeitados da Inglaterra, o que dá moral em qualquer lugar do mundo. The Shed é um centro cultural projetado pelo escritório Diller Scofidio + Renfro.)

São quatro personagens num palco retangular, piso iluminado por baixo e por cima. Cenário minimalista: uma cadeira em cada ponta e um balde branco com um cérebro dentro – a caveira de Yorick do mundo biotecnológico.

No centro, Connie e Tristan, voluntários no teste clínico de uma droga contra depressão – os dois se apaixonam. Nas cadeiras, os médicos responsáveis, Lorna e Toby – os dois já foram apaixonados.

A plateia passa 1h40 mudando de opinião.

Connie e Tristan são jovens, bonitos e confinados por semanas num laboratório: é amor de verdade. Connie e Tristan são cobaias, prontuários ambulantes e vítimas de uma overdose de dopamina: é amor de mentira.

Mas e se um deles estiver recebendo placebo? E se os dois estiverem recebendo placebo?

A melhor resposta pra tudo que não tem resposta é sempre a poesia.

Os versos de John Giorno, que li a caminho do teatro numa galeria do Chelsea, fizeram mais sentido na saída do espetáculo: “Não é o que acontece/ É como você lida com isso”. Amor é o que você decide chamar de amor.

Nós, também, somos feitos de água, de mares imensos e convidativos

Ada Limón, 2023

– Nasa e poesia?!

– A agência espacial americana e os poetas têm pelo menos uma coisa em comum.

– O quê?

– A Lua serve de inspiração para os dois, como se viu na abertura do festival de inovação SXSW, que reuniu em Austin, Texas, a diretora de Ciência Planetária da Nasa, Lori Glaze, e a poeta norte-americana Ada Limón.

– Encontros são uma tecnologia poderosa. Como elas se conheceram?

– A Nasa inclui em algumas missões amostras da criatividade humana. A Voyager decolou em 1977 com gravações de Mozart e Chuck Berry, por exemplo. Ada foi convidada para escrever um poema para uma espaçonave não-tripulada a caminho da Lua.

– Sempre a Lua.

– Dessa vez é outra: a segunda Lua de Júpiter, chamada Europa. Cientistas acreditam que existe água abaixo da sua superfície coberta de gelo. E onde há água costuma existir vida.

– Vida extraterrestre?

– Ninguém imagina encontrar os personagens de “Duna 2”. A expectativa é que exista água em estado líquido, elementos químicos como carbono e fontes de energia – uma combinação capaz de gerar microorganismos.

– Será?

– Só dá para saber lançando em outubro a “Europa Clipper” até sua órbita. Talvez os cientistas estejam errados, talvez estejam certos. Como lembrou Glaze, “se você já sabe todas as respostas, não é ciência”. O fracasso faz parte da inovação.

– E da arte também.

– Ada que o diga: escreveu e descartou dezenas de rascunhos até chegar ao seu poema transplanetário, “In Praise of Mistery”. Mas manteve um verso que anotou logo que recebeu o convite da Nasa: “Nós, também, somos feitos de água”. Uma ideia simples e poderosa, que liga a Terra, o satélite natural Europa e nosso corpo humano.

– Até me senti mais próximo de Júpiter.

– O poema é justamente sobre conexão. Não apenas entre nós, humanos, que já não é fácil, mas também com a vida, com o planeta e, por que não?, com o cosmos – Ada lembrou que “o espaço, afinal, também é natureza”.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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