Como a pandemia impactou o sexo — Gama Revista
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Thiago Quadros / Getty Images

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Semana

Onde estará o prazer sexual?

Na pandemia, a rotina sexual desacelera, enquanto solteiros e casados buscam formas de reencontrar o prazer, ainda que consigo mesmos

Leonardo Neiva 04 de Julho de 2021
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Onde estará o prazer sexual?

Na pandemia, a rotina sexual desacelera, enquanto solteiros e casados buscam formas de reencontrar o prazer, ainda que consigo mesmos

Leonardo Neiva 04 de Julho de 2021

Quando a pandemia começou no Brasil, em março de 2021, a antropóloga Heloíse Fruchi, 29, já estava há cerca de um mês separada de sua esposa, com quem morava em São Paulo. Pouco depois, Heloíse, que é adepta do poliamor, também terminou um outro namoro para poder se mudar para o interior. Mais especificamente para um sítio na cidade de Socorro (SP), cidade de seus pais, onde ela nasceu e foi criada.

De uma vida sexual bastante ativa, Heloíse pulou bruscamente para um ano inteiro sem sexo. “Não que eu tenha perdido o tesão. Ainda me masturbava, mas não estava a fim de desenvolver um lance num contexto tão difícil.” Em home office, usou o tempo para praticar ioga, escrever sua tese de mestrado e pensar na vida. Instrutora de autodefesa para pessoas LGBTQIA+, passou a usar como instrumento de treino um saco de pancadas pendurado em uma paineira na frente de casa. E adotou um cachorro, “um labrador de 40 quilos que virou meu parceiraço”.

“Foi muito doido porque teve essa depressão coletiva, mas eu fiquei muito bem, com uma casa só para mim e perto do meu pai, de quem estava longe fazia 12 anos.”

A pandemia criou um estado generalizado de ansiedade. Isso impede que tanto homens quanto mulheres estejam num estado confortável para o ato sexual, acabando por evitá-lo

A experiência da antropóloga pode ser considerada um dos exemplos das mudanças que muita gente percebeu nas relações sexuais durante a pandemia. Enquanto o distanciamento e a redução das posibilidades de sexo presencial fizeram explodir a busca por alternativas como brinquedos eróticos, aplicativos de relacionamento, sexo virtual e pornografia, algumas pesquisas e especialistas apontam que estamos transando menos hoje do que antes.

A pandemia criou um estado generalizado de ansiedade, que pode ter sido agravado no Brasil pelas incertezas que ainda cercam a vacinação, diz a psicóloga e terapeuta sexual Cristina Werner. Isso impede que tanto homens quanto mulheres estejam num estado confortável para o ato sexual, acabando por evitá-lo ou levá-lo a cabo com resultados aquém de seu potencial. No homem, a ansiedade pode se traduzir na perda do desejo, na disfunção erétil, a famosa “brochada”, ou na ejaculação precoce. Já para a mulher, vira um estado de excitação insuficiente e uma maior dificuldade de chegar ao orgasmo.

“Estamos falando de Eros e Tanatos, as forças da vida e da morte. A pandemia traz essa dualidade: o estar vivo e também o risco de contrair Covid a qualquer momento e morrer. Quase todo mundo tem um familiar ou amigo que morreu. Quando sua saúde mental não está em paz, é muito difícil ter a prática sexual com toda a grandeza que ela pode trazer.”

Era uma casa muito engraçada

Quando a pandemia começou, devido à maior convivência doméstica entre os casais, com o home office, as medidas de isolamento e a redução nas atividades sociais, chegou a se especular que haveria um aumento da atividade sexual. Isso até pode ter acontecido nos primeiros meses, aponta Werner, como forma de relaxar e aproveitar o período de confinamento. “No entanto, com o transcorrer da pandemia, esse cenário foi mudando.”

Significa que, devido ao acúmulo de atividades no lar e, em muitos casos, a falta de espaço adequado para realizá-las, como escritórios ou ambientes próprios para a prática de exercícios físicos, a casa foi ficando sobrecarregada. “Muita gente começou a deserotizar o quarto, que virou um lugar para fazer o dever de casa dos filhos, trabalhar, falar com a família. Não estava mais restrito a dormir e transar”, diz a psicóloga.

Além disso, casais que já não vinham bem, com vários fios desencapados na relação, começaram a entrar em curto-circuito. “Nesse ambiente mais tenso, muita gente começou a brigar, o que atrapalhou o bem-estar na cama e postergou o ato sexual”, afirma a terapeuta. Por outro lado, a situação de confinamento e os desafios cotidianos da pandemia também acabaram unindo alguns casais que antes vinham em dificuldade.

Solteiros e jovens

Quem começou a pandemia sem parceiros sexuais ou distante do namorado/peguete sofreu também com uma série de limitações para os encontros físicos em meio ao caos. Nesse momento, entraram em cena não só os brinquedos eróticos, mas também o sexo virtual e a pornografia, cujo acesso teve um crescimento substancial logo nos primeiros meses de 2020. “Um aumento que vem acompanhado de todo um problema quando se lança mão de forma desmedida do uso da pornografia”, lembra Werner, fazendo referência à possibilidade de desenvolver uma compulsão por conteúdo pornográfico e como isso é capaz de afetar o sexo dentro de uma relação.

A sexóloga Michelle Sampaio relata um aumento de 30% na busca por terapia sexual em seu consultório desde o início da pandemia. Os que mais procuram ajuda estão nas faixas de 30 e 40 anos, com uma equivalência entre solteiros e casados. Nos homens, segundo ela, uma das principais queixas é a da perda do desejo sexual, que não era tão frequente antes da pandemia.

Embora seja impossível prever, Sampaio, que é consultora da Omens, empresa especializada em saúde masculina, diz ser possível que adolescentes que deveriam estar entrando na vida sexual agora tenham algum impacto negativo causado pela pandemia. “Num período em que deveriam estar interagindo na escola, acabam se prendendo demais à virtualidade e à pornografia.” Com o distanciamento prolongado, pessoas tímidas e introvertidas também podem ter dificuldade ao voltar a se relacionar.

Por outro lado, lembra a sexóloga, estudos já demonstravam que jovens vinham tendo menos relações sexuais físicas antes, uma tendência que, assim como o autoprazer, pode estar apenas se intensificando na pandemia.

O sobe e desce do sexo

Para Leo Felipe, 47, o período mais difícil foi o início. Por acaso, o curador de arte tinha acabado de juntar as escovas de dentes com a modelo Bárbara Brito, 24, com quem namorava havia três meses. Aí veio a pandemia. Ele conta que a pressão de ficar compulsoriamente confinados apertou. Do trabalho diário na galeria Pivô, no edifício Copan, em São Paulo, onde ele é curador, passou para o home office, uma mudança que cobrou seu preço.

“Num primeiro momento em casa, tive uma entrega total ao trabalho. Minha libido foi praticamente anulada.” Apesar de geralmente preferir fazer sexo à noite, na maioria das vezes regado a algum álcool, ele começou a favorecer as manhãs. “Saía no final do dia com a cabeça tão cheia de trabalho, sem aquele tempo de deslocamento para chegar em casa, que de noite tinha pouco interesse. De manhã, ainda me sentia de cabeça e corpo zerados.”

Hoje, com a relação chegando a quase dois anos, a libido melhorou, e, segundo o curador, o casal está transando bastante e muito bem, obrigado. Ele atribui parte da mudança à criação de uma maior intimidade, que permite estar mais à vontade com o corpo do outro, e a uma aceitação da demora do confinamento. Na verdade, deu até para descobrir alguns dos privilégios de poder trabalhar em casa. “No contexto da pandemia, conseguimos dar uma rapidinha no meio da tarde, coisa que não tinha como fazer trabalhando do escritório.”

Sexo como autocuidado

Ao som de uma versão instrumental de “O Portão”, de Roberto Carlos, uma sequência de vibradores de vários tamanhos, cores e formatos dança um balé em frente à tela. O vídeo no Instagram da Pantynova anuncia a pré-venda das novidades em brinquedos sexuais, que estarão disponíveis em breve no sex shop virtual voltado para o prazer feminino.

De acordo com as fundadoras Izabela Starling e Heloisa Etelvina, ou Lola, a pandemia veio acompanhada de um boom na demanda por produtos. Especialmente sugadores, brinquedos para casais e plugs anais — antes com pouca saída, o apetrecho é usado para facilitar o sexo anal.

A sexualidade faz parte do autocuidado. Assim como ter uma rotina de exercícios e skincare, a parte sexual é necessária para manter a saúde mental

Para Starling, pode ser um indício de que as pessoas estão aproveitando o tempo livre em casa para se descobrir e investigar coisas novas sobre sua sexualidade. “Antes da pandemia, as pessoas já começavam a enxergar que a sexualidade faz parte do autocuidado. Assim como ter uma rotina de exercícios e skincare, a parte sexual é necessária para manter a saúde mental.”

Outro fato surpreendente para a dupla foi o aumento expressivo na busca por vibradores como agrados para o Dia das Mães. Para Lola, significa que está se quebrando o tabu ligado a temas sexuais no seio familiar. “Está se criando um espaço de conversa sobre sexo em casa, com a família. As pessoas começam a reconhecer o espaço importante que isso ocupa na nossa vida.

O prazer de todos os dias

Em março, enquanto estava no hospital tratando uma infecção no ouvido, a antropóloga Heloíse Fruchi, que se considera sapatrans (mulher lésbica não-binária), reconheceu um antigo namorado em um programa de TV. Eles voltaram a se falar e acabaram engatando um romance, o primeiro que ela teve com um homem cis nos últimos oito anos. “Hoje me vejo como pansexual, me sinto mais aberta a ficar com homens cis. Não que me atraia por todos, mas foi uma mudança, um processo de entender as relações de outra forma.”

O relacionamento acabou recentemente, e Heloíse hoje está ficando com uma mulher que mora no litoral de São Paulo, com quem tem se encontrado regularmente. “Parece que hoje não tenho mais aquela urgência de não poder ficar um mês sem transar. Ainda sinto falta de contato, de toque, mas é uma forma nova de viver o corpo.”

“Como vamos voltar a viver sexualmente? Não tenho certeza, mas acredito que esse momento abriu espaço para repensar o prazer”, afirma a sexóloga Michelle Sampaio. “Algumas pessoas podem ter se encontrado nesse mundo do autoprazer e acabar ficando por ali. Para outras, isso ajudou a se conhecer melhor sexualmente, entender o que lhes dá mais prazer e autonomia. Assim, ao voltar para a pista, elas podem se tornar mais comunicativas e passar a fazer sexo com uma percepção maior sobre elas mesmas.”