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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Você ainda sonha com a casa própria?

Jovens adultos começam a adiar sonho que representou gerações de brasileiros, mas que hoje parece ainda mais distante para muitos deles

Leonardo Neiva 22 de Fevereiro de 2026

Você ainda sonha com a casa própria?

Leonardo Neiva 22 de Fevereiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Jovens adultos começam a adiar sonho que representou gerações de brasileiros, mas que hoje parece ainda mais distante para muitos deles

Há pouco mais de 60 anos, Silvio Santos (1930-2024) estreava na TV Tupi como apresentador do Festival da Casa Própria. Exibido nos sábados à tarde, foi o primeiro programa de TV criado com base no sorteio de imóveis realizado todos os meses pelo Baú da Felicidade. Ao longo das décadas seguintes, com programas e quadros como o icônico Pião da Casa Própria, Senor Abravanel se consolidaria como um dos maiores símbolos do desejo de ter um imóvel para chamar de seu — para muitos, o sonho maior de todo brasileiro.

Desde então, muita coisa mudou. Se até algumas décadas atrás, o todo poderoso do SBT sorteava mensalmente casas de impressionantemente baixos R$ 50 mil, hoje é praticamente impossível encontrar em centros urbanos imóveis — mesmo minúsculos — com preços abaixo de algumas centenas de milhares de reais. E até o sonho da casa própria vem sendo um pouco mais questionado, ou ao menos colocado em perspectiva. É mais ou menos isso que aponta um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

A pesquisa divide os indivíduos consultados em três perfis: o da geração boomer, nascida entre 1945 e 1964, para quem um imóvel significa segurança e status social; o da geração X, que veio entre 1965 e 1984, segundo a qual a casa própria é também proteção do patrimônio e garantia de valorização ao longo do tempo; e, por fim, o das gerações Y e Z, vindas a partir de 1985.

Para estes últimos, ter um imóvel ainda segue um desafio muito importante, mas deixou de ser caminho exclusivo para a segurança. Com uma dificuldade maior do que as gerações anteriores para se comprometer com financiamentos imobiliários a longo prazo, 95% desses jovens brasileiros ainda sonham em ter uma casa própria até a terceira idade — a diferença é que muitos optam por adiar esses planos.

Alguns querem fazer viagens internacionais, ter mobilidade, experiências efêmeras que trazem uma sensação de sucesso e de completude

“Se você pensar na geração dos nossos pais e avós, aos 30 anos eles provavelmente já tinham comprado, estavam financiando ou construindo a casa própria”, considera o doutor em gestão urbana e pesquisador da PUCPR Rafael Kalinoski, um dos autores do estudo. Por outro lado, isso deixou de ser a única prioridade dos brasileiros nessa faixa etária. “Alguns querem fazer viagens internacionais, ter mobilidade, experiências efêmeras que trazem uma sensação de sucesso e de completude”, explica. Nesse sentido, até viver um período mais longo na casa dos pais ou morar de aluguel pode ser algo bem-vindo por trazer a flexibilidade necessária à medida que a vida vai mudando.

A visão é compartilhada pela economista, psicóloga e planejadora financeira Maria Helena Manso, para quem a geração atual “prioriza significativamente a liberdade financeira e geográfica”, muitas vezes preferindo investir nessa fase em projetos pessoais e de autodesenvolvimento. “Essa transformação cultural e econômica impacta o tradicional desejo pela casa própria como principal motivador de poupança e investimento”, analisa.

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Embora a grande maioria dos imóveis no Brasil ainda sejam habitados por seus proprietários, o índice daqueles que vivem de aluguel tem crescido constantemente. Entre 2016 e 2024, saltou em 25% o número de famílias que alugam, enquanto a parcela de lares próprios caiu 8% no mesmo período, aponta a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.

Não tem como avaliar essa mudança sem considerar os fatores financeiros que podem fazer da compra de um imóvel um sonho mais distante do que foi para nossos pais. Até porque a distância entre os salários e o valor das casas vem crescendo. Entre 1995 e 2024, a renda média mensal do brasileiro subiu 70%, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea); já o preço dos imóveis numa grande cidade como São Paulo mais que duplicou, aponta a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

“Quando a gente vê de forma mais abrangente, a casa própria ainda é importante para a maioria das pessoas. Mas a pergunta é: será que esse crescimento do percentual de imóveis alugados representa uma mudança ou uma incapacidade?”, considera Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção na Fundação Getulio Vargas/IBRE. Não que ser inquilino signifique exatamente um desafogo financeiro. A economista aponta que, embora o déficit habitacional tenha alcançado recentemente seu menor patamar histórico, o componente que mais cresceu é justamente o ônus excessivo dos aluguéis.

Para Castelo, nesse cenário, é crucial então levar em conta as duas coisas: tanto a parcela dos jovens que não enxergam mais comprar um imóvel como algo essencial quanto as famílias que não conseguem acessar financeiramente esse mercado, mesmo com o apoio de políticas públicas como o Minha Casa, Minha Vida.

O programa, que oferece subsídios e taxas de juro reduzidas na compra de imóveis por famílias com renda de até R$ 12 mil mensais, entregou mais de 6 milhões de unidades desde que foi criado, em 2009. Ele tem sido um dos principais mobilizadores para quem busca o primeiro imóvel, respondendo por cerca de 60% do mercado imobiliário em São Paulo. Jovens adultos, com idade entre 18 e 30 anos, representam 51%, mais da metade das contratações feitas pelo programa entre 2021 e 2024.

E olha que hoje o mercado imobiliário está aquecido no Brasil. A previsão é de que o crédito imobiliário fique, em 2026, 16% acima do ano anterior e que também haja um volume maior de financiamentos, de acordo com o diretor-executivo da ABECIP (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), Filipe Pontual. “Pelo Brasil inteiro, a gente tem visto números importantes nos últimos dois anos. Então, pela demanda, imagino que o sonho da casa própria continue existindo.”

Por outro lado, Kalinoski enxerga que, na comparação com gerações anteriores, hoje há uma sensação bem mais forte de que a casa própria é algo inatingível. “Se você comparar os preços com os salários médios de 20 ou 30 anos atrás, a compra era muito mais razoável dentro do orçamento das famílias, explica o pesquisador da PUCPR. Hoje, ele afirma que comprar uma casa ou apartamento parece mais distante por uma série de restrições, como a inflação, a depreciação dos salários, a insegurança com a aposentadoria e a especulação imobiliária, que encarece constantemente os imóveis.

Tudo isso pode dar principalmente aos jovens de classes mais baixas, mas também de alguns setores da classe média, a sensação de que simplesmente nunca vão chegar lá. “E, se eu não vou conseguir mesmo, então é melhor aproveitar a minha vida, viajar, ir a festivais, curtir minhas experiências efêmeras”, considera Kalinoski.

Passado x presente

O arquiteto e urbanista Renato Cymbalista define a Era Vargas, a partir dos anos 1930, como o momento que transformou o Brasil de um país de inquilinos em um de proprietários. Foi também por volta desse período que a ideia de ter um imóvel passou a ser mais intensamente cultivada por aqui como política habitacional e um caminho para a segurança econômica e familiar.

“Em relação a outros países, como a Suíça, a Alemanha, a Holanda, o Brasil tem uma taxa de propriedade muito alta. Então, o sonho da casa própria é mais do que um sonho, ele é realidade para uma parcela significativa da população”, afirma o professor da FAU-USP e diretor do Fundo Fica, projeto de acesso à habitação em São Paulo.

A psicóloga e economista Maria Helena Manso conecta a visão da casa própria como fonte de segurança financeira diretamente aos tempos de alta inflação e instabilidade econômica que muitos viveram no Brasil — algo que aconteceu no Estado Novo varguista e, mais recentemente, com a hiperinflação da década de 1980. “Em momentos de crise, o patrimônio imobiliário oferece uma proteção contra a desvalorização da moeda e a volatilidade do mercado.”

A aquisição da casa própria tornou-se uma prioridade menos urgente e, por vezes, menos desejável para essa geração

Mas o número de proprietários no país não necessariamente reflete um maior acesso ao mercado imobiliário ou a financiamentos, afirma Cymbalista, e sim a uma ampliação das favelas e loteamentos periféricos ao longo do último século. Porque, mesmo com irregularidades ou a falta de um título, também há uma relação de propriedade, defende.

Na visão do arquiteto, a casa própria dentro do mercado de financiamento imobiliário sempre esteve distante de uma parte da população por conta da dificuldade do brasileiro de poupar dinheiro — realidade que mudou muito pouco. A diferença hoje, afirma, são programas como o Minha Casa, Minha Vida, que abaixam as muitas barreiras de entrada.

Essa dificuldade tem a ver diretamente com a baixa renda per capita dos brasileiros, segundo Pontual. “Quanto mais baixa a renda de uma população, mais difícil é para guardar dinheiro, ou usar em outra coisa que não o básico do básico: alimentação, transporte, roupas e uma parte para moradia”, diz o diretor-executivo da Abecip. Por outro lado, conforme a renda cresce e há uma maior educação financeira, a tendência é que essa realidade melhore.

Um levantamento do Datafolha feito em 2025 mostra que 43% dos brasileiros não conseguem poupar dinheiro nem como reserva para uma eventual emergência. Manso junta a essa conta uma maior exigência do mercado atual e também os efeitos financeiros da mudança de prioridades de consumo dos jovens, que preferem investir em “viver o agora”. “Essa mudança de foco não necessariamente indica que o imóvel está mais distante financeiramente, mas que a aquisição da casa própria tornou-se uma prioridade menos urgente e, por vezes, menos desejável para essa geração.”

Tempo, tempo, tempo

Não tem como negar que a realidade do mercado imobiliário mudou em muitos sentidos nas grandes cidades brasileiras. O que antes era regra, como casas e apartamentos de tamanhos razoáveis para se viver, virou luxo, aponta Cymbalista. “Mesmo se você está numa classe média e ganhou seu dinheiro, só vai conseguir comprar um imóvel muito menor, porque o mercado está mais concorrido e aumentaram os custos de construção”, afirma.

No fim das contas, a dúvida cruel é: vale comprometer boa parte do orçamento ou lidar com décadas de prestações para garantir algumas dezenas de metros quadrados para chamar de seus? Na visão do arquiteto, existem dois lados da moeda para considerar. “Tem um debate muito forte, porque fazer um empréstimo grande para comprar um apartamento pode acabar te prendendo, e talvez você estivesse melhor como inquilino”, avalia Cymbalista.

Mesmo se você está numa classe média e ganhou seu dinheiro, só vai conseguir comprar um imóvel muito menor

No entanto, há diferentes realidades em jogo, e a imagem do imóvel como uma fonte de segurança financeira nunca deixou de ser válida. “Num contexto como o nosso, de alta inflação e baixa capacidade de poupança, uma das poucas formas de construção de patrimônio e de um legado para as futuras gerações, é ter um apartamento.”

Até por essa indefinição, que traz um maior desafio às regras tradicionais e varia a depender da sua realidade financeira, é que o sonho da casa própria, embora siga no topo das prioridades, já não é mais universal. “Depende do seu momento de vida. Faz sentido mobilizar agora esse capital se você nem sabe o que vai fazer ou onde vai estar num futuro próximo?”, questiona a economista Ana Maria Castelo. Mas para quem quiser investir no caminho imobiliário, diz, vale lembrar que as velhas regras continuam valendo, como não comprometer mais de 30% do seu orçamento, e por aí vai.

Parte dessa mudança de realidade financeira e de perspectiva já se reflete na idade média de compra do primeiro imóvel, que atualmente está em seu patamar mais alto, bem próxima dos 40 anos, lembra Kalinoski. O que de fato não mudou é que, em algum momento da vida, jovens ou mais velhos, quase todos pretendem ter um imóvel — e isso, para o pesquisador, também levanta uma série de preocupações sobre o futuro.

“Se eu sou jovem e hoje não estou guardando dinheiro, como vou financiar uma casa lá na frente? Para quem não tem esse valor, é um projeto a longo prazo, que demanda muita organização, economia e, principalmente, tempo.”

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