De Yuval Haravi aos poemas de Manuel Bandeira, conheça as obras que marcaram a vida desses leitores — Gama Revista
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Qual o seu livro da vida?

Manuela Stelzer 06 de Setembro de 2020

Leitores assíduos compartilham livros que marcaram uma fase da vida e os ensinamentos que sobrevivem até hoje na memória

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    Nélida Piñon, escritora

    O romance de Dostoiévski a impactou quando jovem, e a transformou por completo

    “A literatura abre as portas do mundo para o leitor. Cada livro, porém, no seu bojo, promete-nos uma revelação, sensível ou penosa. Há na narrativa uma linguagem com o poder de alterar nossa sensibilidade, de sujeitar-nos a uma radical experiência anímica. Pois é assim que o livro, ao agir como uma seta no coração, cumpre seu dever estético e ético.

    Desde a infância amei a literatura. Lia com fervor, a fim de sondar o mundo. Cedo quis ser escritora, embora pouco soubesse do ofício, dos seus conceitos. Queria, no entanto, desfrutar das benesses existentes vindas em certas páginas. Deixar a casa em busca de aventuras e ser feliz.

    Foi quando, menina ainda, de volta ao Brasil após dois anos vividos em Espanha, trouxe como bagagem saberes e esplêndido fabulário que alargaram meu horizonte. Uma nova sensibilidade que me preparara para leituras densas, como o romance ‘Crime e Castigo’ (Editora 34, 2016), de Fiódor Dostoiévski, que li rendida. De imediato sucumbi a um fascínio que me despertou emoção avassaladora, impôs-me uma nova ordem de conduta, e um inovador estatuto doutrinário. Uma realidade ficcional que destacava uma paixão desmedida, uma violência que não aferia as consequências do seu ato. Um enredo que abandonava a condição humana para assumir a bestialidade. O retrato dos indivíduos asfixiados por delírios e ressentimentos.

    Alvejada eu por cada cena, sentia o impacto de uma consciência inaugural, já severa, a reclamar minha adesão a uma utopia ética. E que a partir desse desabrochar jovem esteve sempre presente em mim, a jurar jamais me abandonar.

    A partir daquele russo maravilhosamente insano, seguindo um processo contínuo, transformei-me. Não seria mais a mesma. Desde o romance ‘Crime e Castigo’ travo o embate sem fim que me norteia. E faço da consciência o meu epicentro moral.”

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    Florian Bartunek, sócio-fundador e CEO da Constellation Asset

    Teve sua carreira marcada pelas cartas de Warren Buffett

    “A leitura é um investimento em si mesmo. Ela aprimora seus estudos, conhecimentos, suas capacidades. Ela permite que você se conheça melhor, que se desenvolva, e engrandece o currículo. O legal dos ensinamentos do Buffett é que eles têm essas duas dimensões: te orientam para ser um melhor investidor, mas também para ser uma pessoa melhor, no geral.

    Eu aprendi muito com essas cartas. Elas marcaram o começo da minha carreira, mas eu as releio todos os anos, e sempre aprendo um pouco mais. As que mais leio estão presentes na coletânea ‘Letters to Shareholders 1965-2019’ (Explorist Productions, 2014. ‘Cartas para Acionistas’, em tradução livre). Entre as grandes lições está, primeiro, a arte de investir em ações: como escolher, que critérios usar. Depois, sobre o tempo que esse investimento requer. É necessário considerá-lo à longo prazo, e não para dali uma semana. O terceiro aprendizado foi sobre a qualidade dos negócios a investir: é preciso sempre priorizá-la, no lugar do preço. E por fim, sobre reputação, algo que se constrói por décadas, e que pode ser destruída em minutos. Warren tem uma preocupação muito grande em fazer tudo dentro dos melhores padrões éticos, além de ser um fanático por leitura.”

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    Carlos Eduardo Pereira, escritor

    Teve ajuda de Machado de Assis na construção de sua autoestima, artigo raro e importante na juventude

    “O meu livro é ‘Dom Casmurro’ (Penguin, 2016), do Machado de Assis. Eu sei que pode não ser dos mais originais, mas na minha história, ele é sim definidor. Eu conheci o título lá na escola, na pré-adolescência, e foi fundamental. Ajudou na construção de autoestima, algo que a gente precisa muito nessa fase. Ainda mais eu, garoto negro, numa escola de classe média e que só tinha gente branca ao meu redor.

    Eu me lembro da dúvida que eu tive com relação a essa obra. Consultava os meus colegas, com a desconfiança que eu tinha de que esse autor fosse negro. ‘Vem cá, eu acho que esse cara é preto, o que você acha?’, e ninguém concordava comigo. Até a própria professora respondeu ‘não, não é negro não’, e ficava naquela de coçar a cabeça e falar ‘veja bem’, e vir com aquele discurso batido que a gente conhece, ‘porque o Brasil tem muita miscigenação, não dá para identificar quem é branco, quem é negro’. Enfim, ela desconversou, a própria professora não me deu vazão. E aí eu decidi: escolhi que o Machado era preto sim e dane-se que todo mundo não concordava. Se tinha um autor negro nesse mundo era o Machado de Assis. Não importa que ele fosse um cara respeitável e tudo mais, pra mim ele era preto. E isso deu uma sensação de poder, sabe? Se o cara que está ali, na alta literatura e é referência, o tal do Machado de Assis, se ele é preto, eu olhava para mim e pensava ‘poxa, eu também sou preto’.

    Então, naquele momento em que você precisa dessa autoestima, Dom Casmurro foi um livro que me deu isso, e foi transformador, revelador, e até um ato de rebeldia. Eu fui contra uma série de sinais que estavam ao meu redor, indicando para outros lugares, o da respeitabilidade, da branquitude. Não era um problema tão claro, tão à mostra naquele momento, mas eu me senti rompendo aqui uma barreira. Pensava ‘esse escritor é preto sim, e eu também’, e se a gente encontra uma referência, um ícone, alguma coisa a se agarrar para além do jogador de futebol, ou do personagem de escravo da novela, a gente fica feliz. E acho que foi isso que Dom Casmurro fez comigo, para além de suas qualidades literárias.

    Eu procuro ler Machado de Assis uma vez por ano pelo menos, já li incontáveis vezes, e é meio para me lembrar desse garoto lá de trás, que timidamente começou a procurar se entender, apesar do que tinha ao redor, dos sinais contrários. Me disseram que aquele talvez não fosse meu lugar, mas eu desconfiei que fosse, que talvez pudesse ser meu lugar sim. Dom Casmurro foi inaugurador de uma sensação, de um sentimento, de um despertar que eu ainda não tinha tido.”

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    Cida Saldanha, livreira, trabalha na Livraria da Vila há 30 anos

    Passou a repensar a força do acaso em sua própria vida depois da leitura de Paul Auster

    “Quando eu era mais jovem, morava em São José dos Campos e ainda estudava, eu conheci um grupo de pessoas que me encantou. Eram pessoas diferentes, afetivas, que conversavam muito. Depois de um ano afastada do colégio em recuperação de um acidente, eu retornei à sala de aula e uma dessas pessoas que havia conhecido tinha se tornado minha professora. Uma coincidência. Ela disse que eu deveria me mudar para São Paulo, até ofereceu um lugar para ficar, junto com a irmã dela, que morava e lecionava na capital. Eu fui. E foi esse acaso, essa casualidade, que mudou toda a minha vida, e que me trouxe para onde estou hoje.

    O autor Paul Auster, em seu último lançamento ‘4 3 2 1’ (Companhia das Letras, 2018), fala muito sobre acaso, esses pequenos acontecimentos nas nossas vidas que mudam o curso das coisas. Foi algo que me marcou agora já mais velha, quando olho para trás e relembro que um fato tão simples foi responsável por uma mudança enorme. Penso até nas possibilidades, o que eu teria feito caso escolhesse ficar em São José dos Campos, onde eu estaria agora, o que estaria fazendo. São questões que o livro levanta, e que marcaram muito a fase que vivo hoje.”

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    Ruth Rocha, escritora

    Na pré-adolescência, se tornou amante de literatura depois de conhecer a obra de Eça de Queirós

    “Quando eu tinha 13 anos, meu professor de literatura pediu para que lêssemos o livro ‘A Cidade e as Serras’ (?Ática, 2019). E o livro foi como um raio na minha cabeça, porque eu consegui perceber o que era um livro bem escrito, o que era um livro literário realmente. Foi o título que marcou a minha entrada no universo da literatura.

    Depois que eu li, eu entrei como sócia da Biblioteca Circulante. Quando entrei na sala de depósito, uma sala enorme, com as prateleiras cheias de livros até o teto – eu achei que tinha que ler todos eles. Toda vez que eu ia buscar um livro novo, e tinha um buraco no lugar, eu ficava danada porque alguém tinha pegado na minha frente. Foi nesse momento que eu conheci a literatura, e passei a me interessar por ela. E dali, não parei mais. Hoje, mesmo com a visão ruim, continuo as leituras. Minha irmã lê para mim todos os dias, pelo telefone. Acabamos de terminar ‘Os Irmãos Karamazov’, do Dostoiévski. Foram 999 páginas!

    Mas a verdadeira história de quando li ’As Cidades e as Serras’, foi que o professor pediu para lermos e fazermos um trabalho sobre o título. Eu fiz o trabalho, mas não li a obra. Entreguei o que havia feito e tirei a nota mais alta da classe. Eu morri de vergonha, e só aí que fui ler realmente. E adorei.”

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    Rodrigo Lacerda, escritor

    Elegeu uma coletânea de poemas de Manuel Bandeira como o grande apego da adolescência

    “O livro ‘Testamento de Pasárgada’ (Global, 2014) teve grande impacto sobre mim na adolescência, o período talvez mais importante na formação de qualquer leitor. É uma reunião dos melhores poemas de Manuel Bandeira, organizada pelo também poeta Ivan Junqueira e lançada pela primeira vez em 1980. Não apenas a seleção é ótima, mas internamente os poemas estão agrupados em seções temáticas muito bem achadas – com títulos sugestivos, como ‘lirismo triste’, ‘consciência poética’ etc. Cada seção revela um eixo da obra do Bandeira, delineando a sua poética, e contém uma pequena apresentação, na qual dados biográficos nos dão uma ideia do homem que ele era. É uma ótima introdução e um ótimo `ponto de chegada` sobre a obra daquele que foi, nas palavras de um crítico famoso, ‘o criador espontâneo do modernismo brasileiro’.

    Talvez tenha sido o primeiro livro de poesia a que eu realmente me apeguei: li, reli, decorei poemas, levei para cima e para baixo, senti uma conexão total. A ameaça da morte, presente desde cedo na vida do poeta, que instaura uma consciência do valor de cada momento e do passar do tempo, a dor de ser sozinho, apesar da grande capacidade de amar, a ausência de qualquer pretensão, a humildade exagerada a ponto de ele se dizer ‘um poeta menor’, a música do estilo aparentemente simples, a abertura para todas as formas que o verso pode assumir, tudo isso me marcou profundamente. Manuel Bandeira, desde então, virou meu poeta brasileiro preferido, e nunca perdeu esse posto.”

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    Ale Santos, escritor

    Entendeu o seu lugar no mundo e o que deveria fazer de profissão ao ler Yuval Harari

    “Eu comecei a ler o livro ‘Sapiens’ (L&PM Editores, 2015), de Yuval Harari, em uma fase que eu estava estudando muito sobre storyteeling. Estava em busca do que eu queria fazer, que posição eu queria ocupar. E quando tive contato com a visão do autor sobre as ficções compartilhadas e como elas moldam a nossa sociedade, eu tive a certeza do caminho que queria seguir.

    No livro, Harari coloca as ficções compartilhadas como uma das mais avançadas tecnologias que o ser humano criou até hoje, marco que ele denominou como ‘revolução cognitiva’. Contar histórias e organizar pessoas em torno dessas histórias é um poder. Isso apenas reforçou minhas crenças, meus desejos, e o meu propósito, que é ser escritor e impactar o imaginário das pessoas com novas figuras, e reuní-las em torno dessas ficções. Esse livro me colocou no meu caminho, e me deu certeza que era o caminho certo.”