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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Como proteger seus avós de golpes digitais

Faixa etária mais vulnerável às fraudes online, idosos precisam de orientação e paciência dos familiares para aprender a lidar com tecnologias que se atualizam com velocidade acelerada

Leonardo Neiva 20 de Julho de 2025

Como proteger seus avós de golpes digitais

Leonardo Neiva 20 de Julho de 2025

Faixa etária mais vulnerável às fraudes online, idosos precisam de orientação e paciência dos familiares para aprender a lidar com tecnologias que se atualizam com velocidade acelerada

Ajudar nossos avós a navegar pelo ambiente online, as redes sociais, o WhatsApp e os desenvolvimentos mais recentes da inteligência artificial pode parecer uma coisa complicada. Às vezes falta tempo, disposição e até paciência para abordar esses assuntos, explicar, acompanhar de perto e tirar dúvidas. Mas evitar o tema definitivamente não é boa ideia e pode trazer problemas. Afinal, os idosos estão cada vez mais inseridos no ambiente digital — e, consequentemente, mais expostos a seus riscos.

Se, em 2019, menos da metade dos idosos brasileiros (44,8%) tinha algum contato com a internet, essa proporção deu um salto até 2023, com 66% das pessoas com mais de 60 anos usando as redes com frequência, segundo o IBGE.

Mas esse salto vem acompanhado por notícias mais preocupantes. Os idosos, considerados a faixa da população mais vulnerável nesse sentido, foram vítimas de 1,5 milhão de tentativas de golpes só em 2024 no Brasil, aumento de 12% na comparação com o ano anterior, aponta a Serasa. E, embora não sejam aqueles que mais sofrem fraudes — afinal, ainda há bem menos usuários idosos —, pessoas com mais de 60 anos já são 16% dos alvos de crimes e fraudes digitais, de acordo com uma pesquisa do Instituto DataSenado.

Pessoas hoje com 60, 70 ou 80 anos vieram de uma formação clássica, em que a informação estava nos livros, era a realidade, não tinha nada a se questionar

Então, se os idosos hoje são amplamente considerados a faixa etária mais vulnerável a golpes tecnológicos, o que podemos fazer para orientar melhor nossos avós?

Essa é uma das principais áreas de pesquisa da pedagoga Letícia Sophia Machado, doutora em informática na educação. “Uma das grandes dificuldades para os idosos no ambiente digital é essa falta de cultura e de criticidade da informação”, aponta a especialista, que coordena a Unidade de Inclusão Digital de Idosos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Pessoas hoje com 60, 70 ou 80 anos vieram de uma formação muito clássica, em que a informação eram os livros, e o que estava no livro era a realidade, não tinha nada a se questionar.”

“Hoje, quando recebem uma informação na internet, eles têm dificuldade para diferenciar o que é verdadeiro e o que é falso. Por isso são um dos maiores grupos vulneráveis a golpes, porque eles acreditam nas pessoas”, afirma Machado.

Não que seja fácil para nenhum de nós separar realidade e ficção num universo de golpes financeiros cada vez mais elaborados e de IAs que criam vídeos mais e mais realistas. Mas estudos já mostram, por exemplo, que os idosos são de fato mais propensos a acreditar e também a disseminar desinformação. Gamaseparou algumas dicas para ajudar seus familiares a não cair em fake news.

O especialista em segurança digital Fabio Assolini aponta que a falta de conhecimento sobre o recursos tecnológicos hoje essenciais, como o Pix ou pagamentos por QR Code, eleva esse risco. “Em uma pesquisa, revelamos que 44% de quem utiliza a internet possui parentes idosos que já foram vítimas de ciberataques. Para atacar as vítimas, os criminosos criam e distribuem campanhas fraudulentas, como algum benefício do governo, ofertas falsas atraentes, entre outros temas emergenciais ou sensíveis”, diz o diretor de pesquisa e análise para a América Latina da empresa de cibersegurança Kaspersky.

Para que você possa orientar seus avós a navegar pelas complexidades digitais com segurança e questionar as informações que recebe online, Gama reúne a seguir algumas dicas de especialistas no assunto.

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O golpe tá aí

As fraudes financeiras ocupam o topo no ranking de golpes direcionados à terceira idade, seguidos pela contaminação digital por vírus e malwares, diz Assolini. A estratégia é sempre parecida: recorrer a indivíduos ou fontes inicialmente vistas como honestas para atrair o idoso. “Os criminosos se passam por suporte técnico ou um falso parente, explorando a confiança emocional para obter dados ou códigos de acesso, além de links maliciosos em redes sociais, perfis falsos que simulam promoções ou sites legítimos.”

O especialista cita um caso recente, em que os criminosos ligaram para as vítimas se passando por atendentes de banco alertando sobre um suposto problema na conta. Ao acreditar no interlocutor, a pessoa acaba seguindo orientações para instalar um software de acesso remoto. É quando a vítima entra no aplicativo do banco que o golpista assume o controle do celular e faz um Pix de alto valor.

Explique com calma os motivos por que eles devem desconfiar de mensagens urgentes

Para evitar perdas financeiras e dores de cabeça — sem contar o impacto emocional de sofrer uma fraude, que não é pequeno —, o melhor caminho é orientar. Reforce para seus avós que eles devem evitar conteúdos de origem duvidosa, seja nas redes ou em apps de mensagens, priorizando sites oficiais e confiáveis. Oriente-os também a não clicar em links de mensagens não solicitadas. “Explique com calma os motivos por que eles devem desconfiar de mensagens urgentes, ofertas fáceis ou ligações inesperadas, já que muitas fraudes se baseiam na boa-fé e na confiança natural dos idosos”, aponta Assolini.

Também vale buscar tecnologias de segurança, como bloqueadores de ligações indesejadas e antivírus. Nesses casos, mais do que orientação, o ideal é estabelecer um ou mais familiares que ajudem a atualizar e monitorar o funcionamento desses dispositivos. O especialista recomenda ainda fornecer celulares e smartphones simples para os mais velhos, adequados a pessoas com pouco conhecimento tecnológico, facilitando sua utilização.

E deixe claro que até os contatos com o banco precisam ser feitos com cautela. “Ressaltamos que bancos não ligam para pedir ou realizar nenhuma transação por telefone – por isso, total cuidado com ligações se passando por instituições governamentais ou financeiras”, alerta Assolini.

A santa paciência

O tema, no entanto, não pode se resumir a uma única conversa. Afinal, esse tipo de pensamento crítico necessário em relação ao digital não se forma de um dia para o outro. Segundo Machado, precisa ser algo contínuo, mencionado o tempo todo pelos familiares, com exemplos concretos que tragam essas noções para a realidade do idoso.

“Eles não conseguem abstrair o quanto uma ferramenta de IA é capaz de formular uma voz ou se passar por outra pessoa. Quanto menos a gente fala, mais difícil vai ser eles fazerem essa distinção”, afirma a pedagoga, que vem fazendo na UFRGS um trabalho de educação continuada com idosos, ensinando-os a questionar as informações que recebem na internet e nas redes sociais, e buscar fontes mais confiáveis.

Ela conta que uma das principais reclamações que ouve de pessoas mais velhas em relação aos familiares é a falta de tempo ou paciência para escutar as dúvidas e dificuldades desses avós e ensiná-los como agir da melhor forma.

Lembremos: termos como link ou download, que parecem estar aí desde sempre, não existiam durante a maior parte da vida dos nossos avós. É natural, portanto, que não estejam familiarizados com muito deles, aponta a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Lavras, Sandra Rodrigues, cuja tese de doutorado aborda a inclusão digital de idosos.

Segundo Rodrigues, muitos também acabam ficando confusos com o excesso e a desorganização das informações que surgem na tela. Tudo isso indica a necessidade de explicar as coisas com tempo e paciência para nossos avós, sob o risco de tornar esse aprendizado inviável.

De acordo com os relatos que recebe, Machado também afirma que, no fim das contas, são os jovens que hoje têm mais tempo e paciência para ajudar seus avós. O que ainda falta muitas vezes é a didática. “Eles pegam o celular e fazem pela pessoa idosa, mas não explicam como fazer”, exemplifica.

Por outro lado, ela sugere tomar cuidado para não podar demais o idoso que está ainda tateando no online. Isso pode gerar um medo infundado e reduzir a autonomia, algo essencial para alguém que ainda está experimentando um ambiente que pode sim trazer vários benefícios.

Um mundo sem acesso

As tecnologias raramente são criadas pensando na experiência dos idosos. Isso inclui softwares e aplicativos que usamos diariamente “Hoje, temos sistemas com baixo contraste de cores, botões difíceis de serem acionados, fontes muito pequenas, informações desorganizadas e ícones complexos”, lista Rodrigues, que pesquisa formas de tornar o design digital acessível para os mais velhos.

Um maior contraste de cores facilita muito a leitura e botões maiores impedem que idosos cliquem em lugares errados

Mesmo os apps da grande maioria dos bancos dificilmente seriam aprovados numa análise de acessibilidade, de acordo com a pesquisadora. “As empresas acreditam que se perde muito tempo fazendo isso quando, na verdade, é uma questão estratégica”, afirma. Outro problema é a absoluta falta de padronização. Para se ter uma ideia, só em março deste ano foi aprovada a primeira norma nacional com requisitos específicos para acessibilidade digital.

E não se tratam nem de adaptações muito complexas, ainda mais se levarmos em conta seu impacto positivo. Um maior contraste de cores, por exemplo, facilita muito a leitura. Botões maiores também impedem que idosos cliquem em lugares errados, pois costumam ter dedos mais largos e podem sofrer com doenças que afetam as habilidades motoras.

A presença dos filhos ou netos torna todo esse processo bem menos doloroso. Segundo Rodrigues, além de monitorar mensagens de origem duvidosa, eles podem ajudar os avós a encontrar os apps oficiais das instituições, guiá-los em operações do dia a dia e verificar as configurações adequadas.

Recentemente, instituições como o Banco do Brasil finalmente vêm lançando funcionalidades que facilitam o acesso de idosos e pessoas com deficiência, como a possibilidade de personalizar o tamanho da fonte e a área de toque no app. Então, vale a pena buscar as alternativas disponíveis e configurá-las junto aos seus avós.

Potencial de aprendizagem

Em sua cartilha voltada a usuários acima de 60 anos, o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) indica alguns passos básicos para usar a internet com mais segurança: criar senhas fortes e não revelá-las sob hipótese alguma, evitar compartilhar informações ou dados pessoais nas redes e desconfiar de tudo que vemos e lemos online. Parecem indicações simples, mas compartilhar documentos como esses com seus pais e avós pode reforçar suas tentativas de tornar a vida digital deles mais segura.

O que é preciso evitar a qualquer custo é que filhos e netos simplesmente resolvam questões tecnológicas sem nenhum tipo de diálogo

Mensagens com títulos como “Você ganhou” ou “Sua conta foi invadida”, mesmo vindas de estranhos, acabam instigando a curiosidade de idosos, levando-os a compartilhar dados ou instalar vírus em seus aparelhos, aponta Raquel Gatto, gerente da assessoria jurídica do NIC.br. Há também golpistas que se aproximam para pedir dinheiro, oferecer empréstimos falsos ou até, em casos mais elaborados, se passar por parceiros românticos como forma de extorsão.

Para evitar maiores problemas, Gatto sugere incentivar seus avós a ler e acessar as configurações de privacidade das redes sociais antes de aceitar qualquer coisa, orientá-los que “a senha, como uma escova de dente, deve ser pessoal e intransferível”, instrui-los a desconfiar de promoções boas demais para serem verdade e evitar o uso de webcam no acesso a instituições financeiras. A representante do NIC.br também reforça que existem diferenças importantes entre os públicos 60+ e 80+, que a instituição deve abordar numa nova cartilha prevista para 2026.

Outra possibilidade é estabelecer uma dinâmica de segurança clara. Sempre que eles tiverem uma dúvida ou desconfiarem de uma informação, por exemplo, podem pedir auxílio a um familiar — reforçando com eles que não precisam ter medo de atrapalhar. Assim, diminui ainda mais o risco de cair em golpes.

O que é preciso evitar a qualquer custo, segundo Machado, é que filhos e netos simplesmente resolvam questões tecnológicas sem nenhum tipo de diálogo ou imponham limites mas não expliquem os motivos, reduzindo assim as chances de os mais velhos entenderem de fato.

“Eles têm potencial de aprendizagem, mas muita gente ignora isso. Então, separe um tempo para realmente dar atenção a essa pessoa, com paciência”, ela indica. Até porque lidar mais tarde com o impacto financeiro e emocional de um golpe pode acabar sendo muito mais prejudicial para todos os envolvidos.

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