Os antidepressivos diminuem a libido? — Gama Revista
Estamos deprimidos?

Sexo ou antidepressivos?

Cristina Nabuco 14 de Março de 2021
Guilherme Falcão

Um dos medicamentos mais consumidos nesses tempos de pandemia pode reduzir o desejo e a resposta sexual. Interromper o uso sem orientação médica não é a melhor saída. Há outras soluções à vista

Ele chegou causando em 1988. Embalado numa supercampanha de marketing, prometia trazer de volta o bem-estar, sem os efeitos colaterais dos psicofármacos disponíveis até então. O Prozac (fluoxetina) foi um dos primeiros de uma nova classe de antidepressivos: os inibidores seletivos da recaptação da serotonina. Sucesso imediato, passou a ser chamado de pílula da felicidade. Só que não. Mais de 30 anos depois, sabe-se que, embora melhore o humor e colabore no tratamento de vários transtornos, até 73% das pessoas que tomam antidepressivos podem ter diminuição do apetite sexual. Quem usa, como um consultor empresarial de 50 anos que não quis se identificar, mas já recorreu a três versões do remédio para controlar suas crises de ansiedade (escitolapram, fluoxetina e venlafaxina), conta que uns mexiam com a ereção, outros comprometiam a ejaculação. “É como se o cérebro perdesse a comunicação com a genitália”, diz.

Até 73% das pessoas que tomam antidepressivos podem ter diminuição do apetite sexual

Os prejuízos à esfera sexual também incomodam as mulheres: 83% afirmam que afetam a resposta sexual e 72% que interferem na libido; dentre as usuárias de medicações como a fluoxetina, 42% relatam dificuldade para ter orgasmo, constatou a psicóloga Tierney Lorenz, da famosa Clínica Mayo, nos Estados Unidos, numa revisão de estudos publicada em setembro de 2016 no Mayo Clinic Proceedings. Esse efeito colateral é uma das principais causas de abandono do tratamento. “É um erro”, adverte a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. “Ao suspender a medicação ou diminuir a dose sem acompanhamento médico, a pessoa fica sujeita a outros episódios da depressão, que pode se tornar crônica. Apenas um tratamento efetivo, no tempo necessário e na dose adequada consegue controlar o quadro”.

Momento complexo

Durante o ano de 2020 foram comercializadas quase 100 milhões de caixas de antidepressivos e estabilizadores de humor, ambos medicamentos controlados, num aumento de 17% em comparação com o ano anterior, segundo levantamento realizado pelo Conselho Nacional de Farmácias. Só na primeira metade do ano, de janeiro a julho, o consumo de antidepressivos cresceu 13,8% em comparação com o mesmo período de 2019, segundo informações divulgadas pelo Conselho Federal de Farmácia.

Em número de unidades, as vendas pularam de 56,3 milhões em 2019 para 64,1 milhões em 2020. Esse crescimento é atribuído às preocupações e incertezas trazidas pela pandemia – o isolamento, a mudança de rotina, o medo de adoecer e morrer, a perda de emprego e renda. “A maior parte das pessoas foi afetada emocionalmente. Só não ficou ansioso quem não entendeu o que estava acontecendo”, diz o psiquiatra Higor Caldato, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas nem todos adoecem. “A depressão acomete quem tem vulnerabilidade genética para uma desregulagem na química cerebral”, explica o psiquiatra.

A maior parte das pessoas foi afetada emocionalmente. Só não ficou ansioso quem não entendeu o que estava acontecendo

O estresse pode servir de gatilho para quem estava equilibrado em tempos normais entrar agora em crise. Por isso se prevê um aumento na incidência de depressão e ansiedade como consequência da pandemia. “Havia a expectativa de que, por volta de 2030, a depressão se tornaria mais frequente e incapacitante do que as doenças cardiovasculares, principal causa de morte no Ocidente, mas essa previsão pode ser antecipada por conta da pandemia”, informa Carmita Abdo.

Duas vezes mais presente na mulher do que no homem, além de tristeza, a depressão provoca desinteresse geral por atividades antes agradáveis, dificuldade para se concentrar e realizar os afazeres cotidianos, insônia, alteração do apetite e falta de interesse por sexo. “Pessoas deprimidas não conseguem sentir prazer, mesmo que ainda não cheguem ao ponto de passar o dia inteiro deitadas no quarto”, diz a médica ginecologista Lilian Fiorelli, especialista em Sexualidade Feminina e Uroginecologia pela USP. E, para complicar, a pandemia, por si só, já apaga o desejo “Na crise sanitária, com tantos medos e incertezas, questões urgentes que dizem respeito a defender a vida ficam em primeiro plano”. Então, às vezes fica difícil saber quem de fato assassinou o desejo: foi o remédio, a própria depressão ou o contexto desfavorável?

Luz no fim do túnel

A boa notícia é que situações decorrentes do uso de antidepressivos são reversíveis. “Não precisa se conformar com o fim de sua vida sexual”, tranquiliza Higor Caldato. A libido pode voltar assim que o corpo se acostumar à medicação ou melhorar quando a doença estiver controlada.

Nos casos em que o problema persiste, é possível cogitar outras possibilidades, como trocar de remédio. Nem todos os antidepressivos têm o mesmo impacto sobre o sexo. No seu estudo, a psicóloga Tierney Lorenz observou que os maios nocivos para o desejo e a resposta sexual são os psicofármacos que atuam sobre a serotonina (fluoxetina, paroxetina, sertralina, citalopram, escitalopram e venlafaxina), além de um antidepressivo mais antigo, a clomipramina.

A perda de libido ou redução na satisfação sexual às vezes antecede a mudança positiva de humor ou a redução de sintomas, o que requer paciência

Ao aumentar o mensageiro químico do bem-estar, a serotonina, eles geralmente reduzem a dopamina, fundamental para a excitação. Os que menos interferem sobre o apetite sexual são bupropiona, mirtazapina, trazodona, nefazodona, vilazodona, por apresentarem outros mecanismos de ação.

Por que então os psiquiatras não receitam de cara essas medicações menos lesivas? Segundo Carmita Abdo, a escolha do tratamento depende do perfil do paciente, se manifesta mais inquietação, se fica mais choroso. “O principal objetivo é aliviar os sintomas para que a pessoa possa dar sequência à sua vida, não prevenir efeitos colaterais, como perda de libido, ganho de peso ou sonolência. Se forem eficazes diante das características apresentadas pelo paciente, eles podem ser receitados”.

Além do tipo de antidepressivo, o efeito também depende da dose e do tempo de uso. Essa classe de medicamentos não age de um dia para outro. Os benefícios começam a surgir depois de 2 a 4 semanas de uso. Já o prejuízo sobre a esfera sexual pode aparecer no intervalo de 1 a 3 semanas após o início do tratamento. “A perda de libido ou redução na satisfação sexual às vezes antecede a mudança positiva de humor ou a redução de sintomas, o que requer paciência”, alerta Tierney Lorenz

Soluções possíveis

O mais importante é abrir o jogo com o psiquiatra – um estudo revelou que metade dos pacientes não fala sobre sexualidade com seus médicos. Avisar que valoriza a vida sexual a fim de que o profissional leve isso em consideração na medida do possível. Cada caso deve ser analisado. “Vale a pena perguntar para o médico quanto tempo isso vai durar e, se for o caso, preparar o parceiro para alguns meses de menor interesse sexual em prol de resolver uma condição incapacitante”, orienta Carmita Abdo.

A psiquiatra lembra que doenças como depressão podem matar, não só pelo intenso desconforto emocional, que pode levar ao suicídio, mas porque o doente para de cuidar de si, bebe menos água, alimenta-se mal, dorme pouco, sua imunidade cai e fica mais propenso a contrair infecções.
No caso do consultor ouvido por Gama e citado no começo da matéria, a saída foi estabelecer prioridades: “Se eu tivesse 25 anos, ia me desesperar, marcar uma consulta virtual com o urologista no primeiro horário e tomar logo um remédio. A maturidade me fez aceitar que isso é provisório, faz parte do tratamento e é possível lidar com o problema, sabendo que ele está dentro de um combo”, diz. “Primeiro preciso me livrar da agitação, da angústia, da confusão mental, da taquicardia e da sensação de morte iminente que tanto atrapalham a minha vida”.

Não espere que o mundo esteja maravilhoso e sem Covid para voltar a pensar em prazer no sexo

O efeito indesejado pode ser administrado com bom senso. O médico pode ajustar a dose do remédio ou trocar por um antidepressivo que interfira menos na vida sexual. Ele também pode associar outro fármaco que acorde o desejo ou melhore a ereção, como a famosa pílula azul. Técnicas comportamentais também são úteis, como programar a relação sexual para horários mais promissores, recorrer a acessórios e filmes, investir em terapias complementares como acupuntura ou até psicoterapia, que ajuda, inclusive, na conversa com o parceiro.

“Não espere que o mundo esteja maravilhoso e sem Covid para voltar a pensar em prazer no sexo”, recomenda Lilian Fiorelli. “A libido não depende apenas de hormônios ou neurotransmissores. Alimente a fantasia por meio de conversas, roupas especiais e autocuidado. Arrume-se, mesmo estando em home-office, para ativar regiões ligadas ao prazer. Um corpo bem cuidado responde melhor”.

Outras medidas úteis são alimentar-se bem, melhorar o sono e praticar exercícios físicos regularmente (ajudam a reduzir a dose de antidepressivo; vale aderir a um treino online). A ginecologista sugere aprender com um fisioterapeuta exercícios para a musculatura pélvica. Para as mulheres, além de evitarem a incontinência urinária, aumentam as sensações durante o sexo, facilitando o orgasmo; para os homens ativam a circulação sanguínea local, o que pode acender o desejo e alongar a ereção. “Faça a sua libido acontecer”