Umbandas: Uma História do Brasil -- Trecho de Livro — Gama Revista

Trecho de livro

Umbandas: Uma História do Brasil

Criado em terreiros desde pequeno, Luiz Antonio Simas narra séculos de Brasil pela ótica de uma de suas religiões mais tradicionais

Leonardo Neiva 08 de Outubro de 2021

Frequentador de terreiros de umbanda desde menino, o historiador Luiz Antonio Simas nunca achou estranho conversar com os mortos por meio dos corpos dos vivos, enquanto estes dançam e rodopiam. Agora, em seu novo livro, ele decide explorar a história do Brasil através de uma de suas religiões mais características, que acabou por dar título à obra.

Também professor e ganhador do Prêmio Jabuti pelo livro “Dicionário da História Social do Samba” (Civilização Brasileira, 2015), Simas é grande conhecedor da história social do Brasil e de suas tradições, saberes e memórias populares, em especial da população marginalizada. Em “Umbandas” (Civilização Brasileira, 2021), ele coloca parte desse conhecimento no papel numa linguagem fluida e envolvente, desfilando por nossa cultura tradicional de forma poética.

Na obra, é pelas várias umbandas que atravessaram nossa história que se manifesta a diversidade do povo brasileiro. Sem abandonar o rigor histórico nem sacrificar a veia literária, em meio a um discurso que nunca deixa de ser político, as crônicas que compõem “Umbandas” contam desde histórias das bolsas de mandinga e das pajelanças até uma evocação do I Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda. E, afinal, umbanda não é macumba. Ou é? Pelos meandros de perguntas como essa, o historiador vai passeando por uma forma de narrar a história brasileira ainda praticamente desconhecida do público.


Quem sou eu? Quem sou eu? Com esta pergunta abrindo o refrão, a Acadêmicos do Grande Rio, escola de samba do grupo especial do carnaval carioca, entrou na Marquês de Sapucaí para contar, em 1994, a história da umbanda, religião tida por muitos como nascida no Brasil. O título do enredo era sugestivo: “Os santos que a África não viu.” O samba começava evocando o continente africano para falar de uma raiz que, saindo de lá, se alastrou pelo Brasil.

A partir daí, a linha do enredo trazia Ogum no mercado dos ciganos, pretos velhos, o catimbó, o culto dos malês, caboclos fascinados por Tupã, as mandingas do dendê pilado e as giras encantadas das águas do norte, o azar e a sorte dos capoeiras, o jongo dos cumbas cumbambás e a corte das pombagiras, para terminar revelando quem era o narrador oculto do refrão, aquele que tem o corpo fechado e é o rei da noite: Zé Pelintra. A comissão de frente, aliás, era composta por doze bailarinos vestidos como Seu Zé, sambando nas regras da malandragem e protegidos por um Ogum com as vestimentas que o orixá utiliza nos candomblés tradicionais.

Alguns umbandistas, adeptos de certa história evolutiva da umbanda que data o nascimento da religião em um evento ocorrido no ano de 1908, se manifestaram à época para dizer que o desfile da Grande Rio contava a história da macumba, e não a da umbanda. E umbanda não é macumba! Para muitos outros, o desfile finalmente contava na avenida a verdadeira história da umbanda, fruto muito mais de acúmulos diversos de sabenças encantadas e de imponderáveis encantos que da anunciação iluminada de uma entidade. Umbanda é macumba!

A sua avó católica apostólica romana, afinal, bem podia depois da missa ir para casa para receber a Vovó Maria Conga, tomar um café amargo e benzer a meninada da vizinhança suburbana com arruda

Quem sou eu? A pergunta do refrão se referia a Zé Pelintra, mas parecia, na verdade, se referir à própria umbanda, uma religião plural e dinâmica que, ao longo dos tempos, mostrou enorme capacidade de adaptação, a ponto de ser praticada em grandes terreiros, nas giras das cachoeiras, nas areias das praias, mas também em salas minúsculas, apartamentos encravados no meio do caos urbano das grandes cidades. A gira podia abrir com cem pessoas ou com duas, na palma da mão ou com a orquestra ritual de grandes atabaques; culto público e universalista e, ao mesmo tempo, profundamente doméstico e brasileiro. A sua avó católica apostólica romana, afinal, bem podia depois da missa ir para casa para receber a Vovó Maria Conga, tomar um café amargo e benzer a meninada da vizinhança suburbana com arruda, guiné, saião, fedegoso e um copo d’água.

Quem sou eu?

Para as diversas encantarias a morte não é uma razão que impeça alguém de continuar dançando. A ontologia dos caboclos foi uma realidade que conheci sem maiores controvérsias, desde criança, no terreiro de macumba comandado por minha avó, Mãe Deda, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Refiro-me ao terreiro desta maneira — de macumba — porque nunca soube de fato como encapsulá-lo em uma definição mais precisa do ponto de vista da procedência ou ritualística. O fato é que desde menino, em suma, nunca achei exatamente extraordinário conversar com mortos que, pelos corpos dos vivos, dançam, brincam, curam, rodopiam e bambeiam. Fogo, vento, água, folha, pedra, areia, rio e flor também bailam, e desde então acho que aquilo que se conhece desde criança não se estranha.

Dona Haydeé da Silva Grosso, a Mãe Deda, era uma alagoana de Porto Calvo, terra de Domingos Fernandes Calabar, que foi ainda adolescente para o Recife. Iniciada no Xangô de Pernambuco, chegou ao Rio de Janeiro em meados da década de 1950 com um matulão encantado. No Sudeste, continuou reverenciando orixás e voduns e, além disso, entrou em intenso convívio com terreiros cariocas que batiam para caboclos, pretos velhos, malandros, pombagiras, exus, crianças, marujos etc. A partir da amizade com Santo Crioulo, sacerdote paraense, também radicado no Rio de Janeiro, travou contato com as famílias das encantadas e dos encantados que correram a gira pelo norte.

O fato é que desde menino, em suma, nunca achei exatamente extraordinário conversar com mortos que, pelos corpos dos vivos, dançam, brincam, curam, rodopiam e bambeiam

Desta maneira, o maravilhoso se manifestou para mim com naturalidade na preparação do padê de Exu, no rufar dos tambores misteriosos, na dança desafiadora das iabás, nas flechas invisíveis dos caboclos, nos bois fantasmas laçados pelo boiadeiro Navizala.

Eu vi menino o curupira nas encantarias dançar pelo corpo de Maria dos Anjos; vi Toia Jarina, Rondina e Mariana, princesas do Crescente arrebatadas no Maranhão; ouvi da menina Catita, enquanto me oferecia guaraná e suspiro no chão de terra, a história de seu encantamento em um cipó de jitirana; reverenciei o brado de Japetequara, caboclo do Brasil, nas floradas do pé da sucupira. E tomei, é justo dizer, muita bronca do Caboclo Peri, aconchegado no corpo da avó, ao me repreender por algum desatino.

Nas artimanhas da vida, cruzei com Seu Zé Pelintra; recebi ordens de Seu Tranca Ruas; vi Tupinambá dançar encantado; fui seduzido pela beleza de Sete Saias; temi a presença de Seu Caveira; cantei a alumiação da pedrinha miudinha; respeitei o cachimbo velho de Pai Joaquim; me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão. Tenho ainda hoje a impressão de que, certa feita, vi o mapa-múndi das aulas de geografia no cocar de Sete Flechas e recorro, por tudo isso, à frase que aprendi com as sertânicas sabedorias de Guimarães Rosa: eu vi o mundo fantasmo.

Como me interesso muito pelos ritos e pouco, quase nada, pela fé, não tive razões para duvidar do maravilhoso que me arrodeou. A mentira pra quem não crê é milagre pra quem sofreu, como Jorge de Lima ensina na Invenção de Orfeu e a Unidos de Vila Isabel citou em um samba de Paulo Brazão, em 1976.

Nos rodopios que a vida dá, mergulhei em outras experiências, corri outros chãos, nadei em outros mares. Ao tentar me abrir para a amplitude do mundo, todavia, voltei às memórias do terreiro e quero crer que, num país como o Brasil, a ampliação da democracia como tarefa de justiça social — indo muito além da frágil falácia da transformação social como simples ampliação do acesso a bens de consumo — pressupõe o falar de muitas vozes, o descortinar de miradas e a ousadia de experimentar rumos que nos libertem da nossa crônica doença do desencanto, nascida na negação daquilo que podemos ser.

Nos rodopios que a vida dá, mergulhei em outras experiências, corri outros chãos, nadei em outros mares. Ao tentar me abrir para a amplitude do mundo, todavia, voltei às memórias do terreiro

Somos um país forjado em ferro, pelourinhos, senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana, tambores silenciados, arrogância dos bacharéis, inclemência dos inquisidores, truculência das oligarquias, chicote dos capatazes, cultura do estupro, naturalização de linchamentos e coisas do gênero: um Brasil boçal, muitas vezes institucional, bem-sucedido como projeto de aniquilação.

Acontece que no meio de tudo isso, e ao mesmo tempo, produzimos formas originais de inventar a vida onde amiúde só a morte poderia triunfar. Uma brasilidade forjada nas miudezas da nossa gente, alumbrada pela subversão dos couros percutidos, capaz de transformar a chibata do feitor em baqueta que faz o atabaque chamar o mundo; produtora incessante de vida no arrepiado das horas, nas tecnologias do despacho na encruza e na alteridade da fala: língua do congo, canto nagô, baque virado na virada de caboclo estremecendo a aldeia. Macumba!

Produto

  • Umbandas: Uma História do Brasil
  • Luiz Antonio Simas
  • Civilização Brasileira
  • 192 páginas

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