Coluna da Winnie Bueno: escrita e sofrimento — Gama Revista

Eu estou em um processo muito intenso de escrita, isso faz com que muitos dos meus textos e reflexões tenham uma relação direta com o ato de escrever. Escrever, às vezes, é colocar angústias no papel e eu tenho tido a oportunidade de colocar muitas das minhas nas palavras. É bom. Me permite pensar em mim mesma com cuidado e carinho. Pensar em si com cuidado e carinho é uma política fundamental para mulheres negras, pois a sociedade raramente nos designa um olhar de afeto. Os olhares sobre nós são de violência, desprezo e descredibilidade. É a desconfiança constante, aquilo de quem nunca acredita na sua capacidade. No que diz respeito ao exercício da escrita, esse olhar se transmuda em um eterno sentimento de impostora. Por isso, o atraso com os prazos da escrita precisa ser compreendido por nós mesmas de um outro lugar. Desde uma perspectiva de acolhimento e compromisso afetivo íntimo e pessoal.

Eu sempre me atraso com os prazos acadêmicos. Mesmo que eu me organize, escreva não sei quantas palavras por dia, crie uma rotina de escrita, mesmo assim, eu muito raramente consigo cumprir uma tarefa acadêmica no prazo. Aliás, nem mesmo esta coluna eu escrevi no prazo correto, ainda que ela não seja exatamente uma tarefa acadêmica.

No exercício de lidar com os atrasos, me dei conta que esse problema é mais da forma com que se organiza a academia e os lugares hegemônicos de enunciação do conhecimento do que da maneira como escrevo.
Percebi que eu preciso de mais tempo, de mais paciência com minha escrita, porque as coisas que eu escrevo não emergem de observações de fatos que eu não vivencio. Preciso de mais dias, mais horas e mais calma porque muitas vezes escrevo de um lugar que me exige acessar memórias e sentimentos que me são doloridos e angustiantes.

As palavras me deram a oportunidade de saber e também me permitiram sentir

As coisas que eu formulo na academia não são oriundas de um olhar externo e de teorização a respeito de coisas que ouço de pessoas que nunca vi e me impactam. Eu escrevo sobre dinâmicas de poder que atravessam a minha experiência e que se materializam no meu cotidiano. Foi assim com a dissertação. Enquanto eu escrevia o texto, eu me deparava com explicações e processos de nomeação de dores que eu sempre vivenciei. Enquanto escrevia, era alertada sobre uma série de vilipêndios que atravessaram minha formação enquanto pessoa. Escrevia, lia e via a mim mesma. Me deparava com as vivências de uma trajetória de resistência ao racismo e ao sexismo que durante muitos anos eu não tinha palavras para nomear. As palavras me deram a oportunidade de saber e também me permitiram sentir. O processo de saber e sentir exigia mais tempo do que os meses que a academia tinha me dado para concluir a dissertação.

Passei do tempo. Passei do tempo porque a cada vez que eu precisava refletir como as imagens de controle impactavam a vida de mulheres negras abria-se, no meu coração, um palco de memórias e angústias silenciadas de todas as vezes que eu fui violentada pelas mesmas imagens de controle que eu estava analisando. Agora, na escrita do projeto de tese, cada formulação implica a reflexão sobre como deveria ser minha trajetória acadêmica se as violências do racismo epistêmico não fossem estruturantes da academia.

Me vejo e me acolho nos escritos das mulheres negras, mas as palavras também me atravessam como alerta do que segue acontecendo

Então eu preciso tomar longos copos de água. Preciso levantar e caminhar. Esticar meu corpo, brincar com os gatos. Tomar café e muitos banhos. Sentar novamente e recomeçar até ser atravessada mais uma vez por memórias que são minhas e são reativada quando reflito as palavras daquelas que me honraram com seus escritos e relatos. Eu me vejo nos escritos das mulheres negras que estudo, me acolho nelas, mas as palavras também me atravessam como alertas constantes do que segue acontecendo com as mulheres negras em termos de silenciamento e supressão. As ideias que vão surgindo e que escorrem pelos meus dedos quando eles correm no teclado, precisam de mais tempo. E eu preciso aceitar que vai levar mais tempo.

Na minha tradição religiosa, Tempo é um orixá. Minha mãe sempre diz que, se a gente entende que Tempo é um orixá, ele deve ser respeitado como tal. Respeitar o tempo e seus processos é respeitar o sagrado, a maneira com que Tempo trabalha. Respeitar os ensinamentos de Tempo e ouvir o que ele tem a nos dizer. Meu respeito ao orixá Tempo me permitiu entender que o processo de sedimentar as ideias não tem regra, especialmente quando essas ideias eclodem para nomear processos de resistência e travessia de dores que me são tão conhecidas. O Tempo vai me mostrar que eu preciso me curar das dores que eclodem na escrita para continuar escrevendo. E o tempo da cura exigido por Tempo é diferente do tempo dos prazos acadêmicos e editoriais. Para o Tempo a cura tem tempo próprio.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação