Coluna do Observatório da Branquitude: "A inescapável relação entre branquitude e emergência climática" — Gama Revista
COLUNA

Observatório da Branquitude

A inescapável relação entre branquitude e emergência climática

Nem a proximidade do fim do planeta parece afrouxar os acordos em prol da concentração de poder e privilégios

27 de Abril de 2023

Cinzentas nuvens de fumaça umedecendo os meus olhos de aflição e de cansaço. Imensos blocos de concreto ocupando todos os espaços. As frases de abertura desta coluna, extraídas da canção “Amor à natureza”, rendem homenagem ao imenso Paulinho da Viola, que está em turnê comemorativa pelos seus 80 anos. Naquele samba-enredo, de 1975, o compositor narra a angústia face à desenfreada expansão urbana e poluição atmosférica no Rio de Janeiro. Um cenário de tristeza, nas palavras do portelense, aprofundado pela desconfiança em torno de saídas possíveis para o colapso da relação sociedade-natureza na cidade outrora capital do Brasil. Pois íntimo das cinzentas nuvens de fumaça, o desprezo igualmente flutuava no ar, desconsiderando a razão.

Quase cinquenta anos nos separam do lançamento de “Amor à natureza”. Seja no Rio da paixão e do tormento de Viola, seja nas demais metrópoles e regiões do Sul Global, a decomposição ambiental e climática segue em franca progressão. Os efeitos da sanha destrutiva do mercado, da indústria e dos governos estão por toda parte traduzidos na degradação de biomas, perdas humanas, contaminações químicas, esfacelamento de redes locais de sociabilidade, entre outros danos invariavelmente irreparáveis. Em paralelo, é preciso salientar a disputa pelo reconhecimento da distribuição desproporcional dos impactos pelos territórios e pelos grupos sociais no debate público nacional, introduzida pela sociedade civil organizada. As articulações entre marcadores da diferença, tais como renda, gênero e raça, têm sido mobilizadas no intuito de disponibilizar uma plataforma multifatorial de interpretações e soluções para a crise que recai, de forma contundente, sobre grupos racializados e vulnerabilizados.

A branquitude se alimenta da maior parte do mundo, acossada nas margens

Nesse contexto, o conceito de racismo ambiental, cunhado nos Estados Unidos dos anos 1980, traz uma contribuição relevante ao alçar a raça à condição de componente fundamental para a compreensão de tais fenômenos. Lança luz nos processos de reprodução sistemática de violências e opressões de cunho racial sofridas pelos povos negros e indígenas. Da nossa perspectiva, qual seja, do ponto de vista dos estudos da branquitude interessa-nos focalizar os atores no centro desta engrenagem mortífera. Em outros termos, importa produzir conhecimento a fim de desvelar os protagonistas, suas ações e mecanismos de dominação; os beneficiários da construção desta paisagem distópica: a supremacia branca. Nem a proximidade do fim do planeta parece detê-la ou mesmo afrouxar os acordos em prol da concentração de poder e privilégios.

À frente da concepção, modelagem e gestão das estruturas políticas, econômicas, jurídicas, a branquitude é fiadora de um modo hegemônico de vida herdado das entranhas da colonialidade, marcado pelo extrativismo e pela exploração de todas as formas de vida à margem da régua balizadora de humanidade. Com base neste paradigma de superioridade material, simbólica e moral, alicerçada sob o crivo da racionalidade e de uma noção particular de civilização, a branquitude, num só compasso, exclui a natureza e os grupos não brancos. Portadora da razão, progenitora do progresso tecnicista, a supremacia branca assenta a fauna e a flora como dimensões radicalmente apartadas da vida humana, passíveis de exploração contínua. Encaradas como recursos abundantes, infinitos, estariam à disposição do homem (branco). Negros e indígenas, neste mesmo diapasão, figuram enquanto recursos a serem consumidos à exaustão e descartados porque inferiores, subalternos, desprovidos de racionalidade, animalizados, desumanizados.

No jogo de assimetrias característico das relações raciais no Brasil, os brancos “desaparecem”, nos ensina a doutora Cida Bento. Não à toa há quem diga que o racismo configura um crime perfeito, uma violação sem autoria. Brancos são sistematicamente eximidos de participação e, ato contínuo, do quinhão de responsabilidade sobre genocídios e também ecocídios. Não racializados desfrutam de uma capa de invisibilidade protetora, fundamentada em pactos narcísicos estabelecidos entre eles, dinastias familiares e instituições, e que lhes garante a permanência em lugares sociais prestigiosos e a transmissão destes postos através das gerações.

O desafio de observar e investigar a branquitude, sobretudo na precipitação das injustiças climáticas pode ser situado também a partir da própria produção acadêmica nacional, que sinaliza oportunidades de construção de um arcabouço teórico-metodológico e um debate robusto em torno das conexões entre branquitude, clima e meio ambiente. Segundo o mapeamento realizado pelo Observatório da Branquitude, que identificou mais de 250 publicações sobre branquitude em repositórios e periódicos científicos entre 2002 e 2022, chama a atenção a lacuna de pesquisas com este mote analítico, apesar do crescimento vertiginoso de trabalhos na temática da branquitude no período de 2018 e 2022.

A branquitude é fiadora de um modo hegemônico de vida herdado das entranhas da colonialidade

Ainda que o levantamento tenha sido feito há cerca de um ano, reafirma-se uma brecha importante para o desenvolvimento de estudos que elaborem evidências científicas capazes de orientar políticas públicas informadas por raça. Em especial, informadas não apenas por dados focalizados nas vítimas racializadas em que pese a relevância de sistematizar e incorporar dados com tal embocadura na formulação de políticas.

Defendemos aqui a formação de uma agenda pujante de pesquisa e de incidência política que jogue o holofote igualmente nos agentes da crise, a parte que falta, considerando a predominância de grupos embranquecidos no próprio desenho das políticas, na tomada de decisão que fabrica os chamados “desastres naturais”, de um lado; e o usufruto de privilégios climáticos e ambientais por esses atores, de outro lado, principalmente os agentes não raras vezes dispensados da implicação e do dever de cumprir com medidas de reparação pelos prejuízos gerados, caras à ordem democrática stricto sensu.

A branquitude se alimenta da maior parte do mundo, acossada nas margens. Boca que a tudo deglute, é também autofágica em nome de um constructo secular que não cessa de ruir, nos condenar progressivamente à morte e à extinção e que tem como componentes estruturantes a ilusão da separabilidade do humano e do ambiente, a exploração infinda dos recursos naturais e humanos, a recusa às diversidades e desigualdades.

Por fim, acreditamos que o discurso e a prática ambientalistas podem se beneficiar e ganhar musculatura ao incorporarem o paradigma da branquitude no combate às assimetrias. Urge a produção de novos sentidos, horizontes, futuros insurgentes para a humanidade. Como já cantava Paulinho da Viola em “Amor à natureza”, samba-enredo citado na abertura desta coluna: não obstante o cenário seja de tristeza, em que no ar flutua o desprezo às gentes, no plural, e ao entorno, seguimos na luta com ardor enquanto alimentamos, isso sim, uma nova esperança de sobreviver.

Carol Canegal é mestre e doutora em Ciências Sociais (PUC-Rio). Atuou como pesquisadora no Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd/UFJF) e analista de políticas públicas no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Atualmente é coordenadora de pesquisas do Observatório da Branquitude.

Observatório da Branquitude é uma organização da sociedade civil fundada em 2022 e dedicada a produzir e disseminar conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude, em suas estruturas de poder materiais e simbólicas, alicerces em que as desigualdades raciais se apoiam.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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